Levamos um susto ao abrir o edital e ver a abrangência inédita nesta edição da Teia 2026 da seleção pública para escolha de apresentações artisticas extrapolando o universo do Cultura Viva.
O avanço de discursos autoritários, excludentes e antidemocráticos no Brasil e no mundo tem sido frequentemente descrito como uma “guerra cultural”. Trata-se de uma disputa por valores, sentidos, identidades e narrativas que ultrapassa o campo institucional e se enraíza no cotidiano das comunidades. Nesse contexto, políticas públicas culturais de base territorial, como os Pontos de Cultura, desempenham papel estratégico no fortalecimento da democracia, da coesão social e da cidadania crítica.
Investir nos Pontos de Cultura não é uma ação acessória, mas uma política estruturante de longo prazo, capaz de enfrentar desigualdades simbólicas, ampliar a participação social e fortalecer o tecido democrático nos territórios.
2. Pontos de Cultura como política de disputa democrática de narrativas
A guerra cultural promovida por setores da extrema direita prospera, em grande medida, em contextos de ausência do Estado e de fragilidade das políticas públicas. Nesses espaços, discursos simplificadores, baseados no medo, no ressentimento e na exclusão, encontram terreno fértil.
Os Pontos de Cultura atuam diretamente nessa lacuna ao:
fortalecer narrativas locais e comunitárias;
valorizar memórias, saberes tradicionais e expressões culturais diversas;
promover o reconhecimento simbólico de grupos historicamente marginalizados.
Essa atuação contribui para a construção de identidades positivas e pluralistas, reduzindo a adesão a discursos autoritários e intolerantes.
3. Democracia cultural e participação social
Diferentemente de abordagens centralizadoras e moralistas da cultura, os Pontos de Cultura operam a partir dos princípios da democracia cultural, reconhecendo a cultura como direito e como prática social viva.
Ao fomentar a autonomia dos grupos culturais, a participação comunitária e a gestão compartilhada, essa política pública:
amplia a participação cidadã;
fortalece a organização social nos territórios;
promove experiências concretas de democracia no cotidiano.
Trata-se de uma resposta prática à deslegitimação da democracia promovida por discursos extremistas.
4. Formação cidadã e enfrentamento à desinformação
Os Pontos de Cultura não atuam como instrumentos de doutrinação ideológica ou partidária. Sua contribuição política reside na formação crítica, por meio da arte, da cultura digital, da comunicação comunitária e da educação popular.
Essas práticas desenvolvem:
capacidade de leitura crítica da realidade;
resistência à desinformação e às fake news;
fortalecimento do pensamento autônomo e do diálogo.
Em um cenário marcado pela radicalização e pelo uso político da desinformação, esse papel é central para a saúde democrática.
5. Juventudes, pertencimento e futuro
A extrema direita tem investido fortemente na mobilização de afetos e no recrutamento simbólico de jovens, oferecendo pertencimento e identidades baseadas na exclusão do “outro”.
Os Pontos de Cultura apresentam uma alternativa democrática ao:
reconhecer jovens como sujeitos criadores e protagonistas;
oferecer espaços de expressão, formação e reconhecimento social;
ampliar horizontes de futuro, especialmente em territórios periféricos, rurais, indígenas, negros e LGBTQIA+.
Essa dimensão é fundamental para romper ciclos de violência simbólica e política.
6. Diversidade cultural como valor democrático
A guerra cultural da extrema direita frequentemente se estrutura a partir do ataque à diversidade cultural, religiosa, étnica e de gênero. Os Pontos de Cultura enfrentam essa lógica ao naturalizar a diversidade, integrando-a à vida cotidiana dos territórios como prática legítima e produtiva.
Ao reconhecer e apoiar múltiplas expressões culturais, a política:
fortalece o pluralismo;
reduz conflitos baseados na intolerância;
reafirma a cultura como campo de direitos.
7. Cultura como infraestrutura democrática
O investimento em Pontos de Cultura desloca a cultura do lugar de política secundária para o de infraestrutura democrática. Suas redes territoriais criam vínculos duradouros que:
permanecem para além de ciclos eleitorais;
fortalecem a resiliência social frente a retrocessos autoritários;
ampliam a capacidade da sociedade civil de produzir sentidos democráticos.
8. Considerações finais
Defender e ampliar os Pontos de Cultura é investir em uma resposta estrutural, democrática e de longo prazo aos desafios colocados pela guerra cultural. Trata-se de fortalecer a sociedade para que ela produza suas próprias narrativas, valores e práticas democráticas, reduzindo a influência de discursos autoritários sem recorrer à censura ou à imposição ideológica.
Assim, os Pontos de Cultura devem ser compreendidos como política pública estratégica para a democracia, a cidadania e o desenvolvimento cultural sustentável do país.
Referências bibliográficas
BRASIL. Lei nº 13.018, de 22 de julho de 2014. Institui a Política Nacional de Cultura Viva.
CANCLINI, Néstor García. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: EDUSP, 2015.
CHAUI, Marilena. Cultura e democracia. São Paulo: Cortez, 2018.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
RUBIM, Antonio Albino Canelas. Políticas culturais no Brasil. Salvador: EDUFBA, 2010.
SANTOS, Boaventura de Sousa. A difícil democracia: reinventar as esquerdas. São Paulo: Boitempo, 2016.
TURINO, Célio. Ponto de Cultura: o Brasil de baixo para cima. São Paulo: Anita Garibaldi, 2009.
Cidadania cultural e Políticas culturais no Brasil:
Uma análise da participação da Comissão Nacional
dos Pontos de Cultura (CNPdC) de 2004 a 2014
https://share.google/0YPoLaAuHGAuUYoKw

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