quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Além de comida no prato, vacina no braço e Fora Bolsonaro!! #justiçapormoise

 


Um rapaz de “bem” foi assassinado a pauladas por homens de “bens”, com a cumplicidade da indiferença de diversas pessoas que estavam  presente ao bar Tropicália. Vejam que ironia da história.

Mas essa situação começou a ser alimentada quando lá atrás ouvimos dizer que  meninos executados  nas comunidades, é porque estão  envolvidos com o consumo e tráfico de drogas, Como se isso fosse motivo para justificar execuções sumárias, sem processo judicial, sem direito a defesa e etc..

E se não estivessem envolvidos com isso? Perguntarão alguns....Sei lá, mas alguma coisa errada fez, ou então teve o azar de estar no lugar errado, na hora errada, com pessoas erradas, responderão outros.

E assim, dessa maneira chegamos ao estado de barbárie atual que elege bandidos e milicianos para reger a nação. Portanto, o enfrentamento a isso exigirá de nós, enquanto sociedade civil,  e enquanto autoridades constituídas que não compactuam com o atual estado de barbárie, ações em múltiplas frentes.

Estas ações precisam acontecer no campo das necessidades  primárias, de sobrevivência, com mais e melhores oportunidades de trabalho, salários dignos, revisão da reforma trabalhista, programas de incentivo a alimentação popular, a moradia digna e etc...

Assim como precisa acontecer no campo da subjetividade, do imaginário, na satisfação das necessidades de pertencimento, auto estima, de  qualificação intelectual  e etc.

Neste caso,  estamos falando das ações mais direcionadas para o campo da educação, da cultura e da comunicação.

Porque na falta disso, ou no acesso limitado  a isso, surgem um bocado de  “drogas” como substituto, como compensação.

Inclusive as “drogas”  de certos programas de rádio e de televisão,  que espalham essa cultura do ódio e da indiferença que matou o imigrante congolês Moise Kabamgabe  e que continuará matando  milhares de jovens negros  brasileiros. 

#justiçapormoise




E mais....

Mulher é resgatada após 32 anos em situação análoga à escravidão na casa de pastor e professora no RN 



“A esperança foi assassinada a pauladas atrás de um quiosque”, diz repórter que conheceu Moïse

"Conheci Moïse quando fui à favela Cinco Bocas, em Brás de Pina, fazer uma reportagem sobre a vida dos congoleses no Rio. Acabei me aproximando de um dos seus melhores amigos. Chadrac me apresentou a vários conterrâneos. Na hora do almoço, convidei-o para comer. Ele agradeceu...

 ... mas recusou: não se sentiria bem almoçando em um restaurante enquanto amigos passavam fome. Fomos então ao supermercado e enchemos um carrinho de comida. Comecei a entender ali quem eram aqueles imigrantes: se um come, todos comem. Se um passa fome, todos passam fome.

Conheci um economista congolês q falava francês, lingala, português e inglês. Sonhava ser contratado como tradutor na Rio2016, mas só conseguiu vaga como voluntário. Um administrador virou faxineiro. Chadrac, formado em hotelaria, carregava pedras em troca de 60 reais por dia.

A coordenadora da Cáritas RJ, Aline Thuller, contou na época que empresários cariocas preferiam contratar imigrantes brancos, como os sírios. Congoleses, angolanos e haitianos só eram procurados p/ trabalho braçal - como carregar e descarregar caminhão de pedra, caso do Chadrac.

Um mês antes de João nascer, demos uma festa pra 100 pessoas lá em casa. Enchi a playlist de Fally Ipupa, Simaro Lutumba e chamei Chadrac e seus amigos. Moïse, mais sossegado, ñ foi. Vcs já viram um congolês vestido pra uma festa? São os + elegantes e melhores dançarinos do mundo

No sábado à noite, Chadrac me ligou pedindo ajuda. Contou chorando que mataram Moïse. Ñ consigo pensar em outra coisa desde então, assim como ñ consigo esquecer de um bebê recém-nascido que o pai, um homem chamado Luta, batizou de Vencedor. Era o primeiro carioca da família.

Luta fugiu p/ Brasil com sua mulher grávida. Sonhava ser jogador no país do futebol, mas acabou no subemprego. Uma vez liguei pra saber como estavam: Vencedor tinha morrido. Segundo o pai, de desnutrição, pois a família só tinha dinheiro pra comer "fufu" (fubá em lingala).

A situação dos congoleses, angolanos e haitianos no Brasil é terrível e atravessa governos de centro-esquerda e extrema-direita de forma surpreendentemente parecida. O racismo estrutural bloqueia avanços profundos. Eles têm as nossas lágrimas, mas só podem contar com eles mesmos.

Eu queria ter esperança, queria acreditar que as coisas podem melhorar, mas a esperança foi assassinada a pauladas atrás de um quiosque. Que @eduardopaes faça algo por Cinco Bocas. Que @claudiocastroRJ, aliado de milicianos, priorize o caso Moïse. Vcs acreditam nisso? Eu não."

IMPORTANTE: muita gente perguntando sobre como ajudar. Quem tiver vaga de trabalho no Rio procure a Cáritas: (21) 99580-4488. Quem quiser e puder ajudar a família de Moïse aguarde um pouco, pois estamos criando uma campanha pelo Meu Rio em nome da mãe, Lotsove Lolo Lay Ivonne.

Uma campanha já foi gentilmente criada na plataforma Vakinha com ajuda de um líder da comunidade congolesa no Rio, mas estou em contato com a família e acreditamos ser melhor unificar os esforços em uma só campanha em nome da mãe, com conta e PIX dela. Mais informações amanhã.

Carta aberta à família de Moïse Kabamgabe, que morreu de Brasil

 Folha de S.Paulo, quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

 ANTONIO ISUPERIO, Arquiteto brasileiro, negro, lgbt+ que mora em NY. É filho de empregada doméstica e parte da equipe da consultoria da Alexandra Loras e Diretor do Retail Design Institute Brasil

 Não há palavras em nosso vocabulário capazes de transmitir com respeito tudo que esse ato violento simboliza estruturalmente

 Começo este texto sem ter ideia do que escreverei porque não existe a possibilidade do racionalizar perante a barbárie. Não acredito que existam palavras suficientes em nosso vocabulário capazes de transmitir com altura e respeito necessários tudo que esse ato violento simboliza estruturalmente.

 Como aprendi com uma querida amiga, Alexandra Loras, situações de crise devem ser tratadas com o rigor da máxima honestidade. Então, queridos familiares de Moïse, o Brasil nunca foi a nossa mãe e não será por muito tempo. É fácil perceber perante as declarações amplamente divulgadas de todos os possíveis presidenciáveis nos meios de comunicação nestes últimos anos. A ignorância e precariedade sobre a temática racial e suas correlações interseccionais pela branquitude acrítica que está no poder é assustadora.

 Ivana Lay, minha querida mãe de consideração. A sua voz ecoará durante muito tempo em nossas cabeças. É impossível não se comover com o respeito que tem ao nosso país em sua fala, mesmo diante do caos da negligência instaurada por ele. Receba toda a minha solidariedade. Assim como a voz de Mirtes Renata (e de outras tantas) que fazem parte da história de todos os negros que vivem em nosso território.

 Moïse, meu irmão que não tive a oportunidade conhecer. Espero que ao se tornar um símbolo de resistência essa carta possa chegar a muitos Moïses que, imigrados ou nascidos, aqui são adoecidos. Este país que insiste em não olhar no próprio espelho que trouxe em seus navios colonizadores a troca de nosso sangue.

 Irmão, o Brasil te matou quando não olhou nos seus olhos quando você trabalhava servindo na beira da praia. Te matou quando te seguiu no supermercado e não permitiu que você fosse celebrar o seu primeiro salário com seus amigos. O Brasil te matou quando você estava indo para a escola em uma van que saía da comunidade. O Brasil te matou quando "inventou" que existe bala perdida. O Brasil te matou quando não te contou que a Anistia Internacional documentou que o assassinato de jovens negros no Brasil é maior que todas as mortes das guerra do Oriente Médio juntos.

 O Brasil te matou quando vendeu a ideia que é um país da democracia racial, mas que nada mais era que uma arapuca para que recrutassem mão de obra preta precária sem que nem ao menos fizessem um programa digno de imigração. O Brasil te matou quando não explicou que a xenofobia somente acontece quando o imigrante retarda o projeto de eugenia.

 O Brasil te matou quando gerou uma classe média sem cultura e sem capital que performa a vida de milionário, mas que tem somente a empregada doméstica precarizada (nossa mãe) para ostentar. O Brasil te matou quando te iludiu dizendo que você é da família, mas que não estará no testamento e nem na partilha da herança. Te matou quando pediu para você entrar no elevador de serviço e usar seus próprios talheres.

 O Brasil te matou quando é o país que se tornará o maior produtor de alimentos do mundo nos próximos anos, mas deixa metade da sua população em insegurança alimentar que, ironicamente por "coincidência", é a mesma porcentagem das pessoas negras. O Brasil te matou quando vacinou as pessoas por idade ignorando que a nossa expetativa de vida é muito inferior ao da branquitude.

 O Brasil te mata quando não te conta que no país mais negro fora da África tem um judiciário composto majoritariamente por pessoas brancas que provavelmente somente se relacionaram conosco na dinâmica de subserviência e ordem. Te matou também quando negou a educação para que não tivesse acesso aos seus direitos e para isso opera a favor das estruturas de poder.

 O Brasil te matou quando você ligou a TV e não se viu. O Brasil te matou quando seus familiares ligaram a TV e te viram, morto. O Brasil sempre soube que ia te matar, ele só não te contou. E te matou com esperança. Te matou com sonhos. Te matou com perversidade. E vai continuar te matando sem direito a revolta e recompensa pelo seu trabalho.

 Mas ele me mata também, porque ter que escrever esta carta desesperançosa em uma situação delicada como esta também é cruel.

 Do seu irmão, aos pedaços, Antonio Isuperio

Nenhum comentário: