segunda-feira, 14 de setembro de 2026

A feira do Bairro América e a disputa pela narrativa

 Ontem, 13/09/2026,  foi o dia de ir à feira no Bairro América, o que faço a cada quinze dias, depois de ter me mudado um pouco mais para longe. Quando saí do bairro e morava mais perto, ia todos os domingos.

Ao chegar à feira, percebi, logo na primeira banca em que costumo comprar frutas, que o movimento estava bom, porque não havia mais tanta variedade e quantidade de frutas como de costume naquela banca. Disse ao feirante: “O pessoal está com dinheiro, não é mesmo?”. Ele confirmou, e olhei a movimentação ao redor, com um bom número de pessoas circulando.

Enquanto fazia compras em outras bancas, passei por uma em que um cidadão, falando com o feirante, dizia em voz alta que essa situação precisa mudar, pois com um país sem lei e com os preços altos… Nem esperei ele complementar para dizer: “Preços altos nada, olha só a quantidade de pessoas na feira comprando”. Ele se calou, e eu segui adiante, na verdade fui dizendo e passando.

E como em tempos de guerra cultural, não é a verdade que importa, mas a forma como a realidade é reinterpretada e disseminada é o que acaba imperando.

Aí me lembrei do quanto é necessário o investimento em cultura digital e mídia livre. Dessa maneira, imagine se mais pessoas como este que escreve pudessem contar com mais computadores, antenas e outros apetrechos necessários para a comunicação digital.


 — Com pesquisa  da IA deepseek

O que os dados revelam sobre consumo, preços e mídia livre

Dados de pesquisas recentes ajudam a interpretar a cena da feira do Bairro América. O consumo das famílias brasileiras cresceu 4,8% em 2024, o maior avanço desde 2011, impulsionado pelo aquecimento do mercado de trabalho e por programas de transferência de renda. As feiras livres são um termômetro real desse consumo: 63% dos consumidores de frutas, legumes e verduras frequentam esses espaços regularmente, perdendo apenas para os supermercados. No Nordeste, as feiras são canais de abastecimento essenciais, com público majoritariamente feminino (81%) e de baixa renda, mas com gasto médio elevado (62% entre R
51eR

Sobre a inflação de alimentos, o dado é ainda mais contundente: em 2025, a alta foi de apenas 2,95%, a menor da série histórica, com a alimentação no domicílio subindo somente 1,43% — e chegando a registrar seis meses consecutivos de variação negativa. Ou seja, a percepção de “preços altos” não se sustenta nos números oficiais.

Agora, sobre a “guerra cultural” e a necessidade de mídia livre: o Brasil já foi referência mundial em cultura digital, com políticas pioneiras como os Pontos de Cultura e o Marco Civil da Internet, mas essa efervescência perdeu vigor diante do domínio das big techs. Há uma necessidade urgente de reinvenção da cultura digital brasileira, com fomento às mídias independentes e à soberania digital.

E o dado que mais dialoga com a fala final: 57% dos brasileiros estão em situação de baixa conectividade significativa — sem computador, sem velocidade adequada, com apenas o celular como janela para o mundo digital. Entre pessoas de baixa renda, 35% ficaram sete dias ou mais sem acesso à internet móvel nos 30 dias anteriores ao estudo, e 11,6% ficaram mais de 15 dias desconectados. Sem franquia de dados e sem Wi-Fi, 55,2% deixaram de estudar e 56,5% deixaram de acessar serviços de governo.

É por isso que iniciativas como a Incubadora de Soluções, lançada pelo governo federal com R$ 15 milhões para fortalecer o jornalismo negro, periférico e independente, são tão importantes — porque cinco em cada dez municípios brasileiros são considerados desertos de notícias, representando 14% da população nacional.

Se mais pessoas tivessem acesso a computadores, antenas e infraestrutura de comunicação digital, a disputa pela narrativa — essa tal “guerra cultural” — deixaria de ser privilégio de poucos e passaria a refletir, de fato, a realidade testemunhada na feira: um povo que trabalha, que consome e que precisa contar sua própria história.


Fontes da Pesquisa
1. Consumo das famílias brasileiras (crescimento de 4,8% em 2024)

Folha de S.Paulo — Consumo das famílias fecha 2024 com maior crescimento desde 2011, mas cai no fim do ano (07/03/2025)

2. Frequência em feiras livres (63% dos consumidores de FLV)

SuperHiper — Dia Mundial da Agricultura: conheça oportunidades e barreiras para FFLV (20/03/2025)

3. Perfil do consumidor em feiras livres do semiárido nordestino

Scientific Management Journal — Feira livre: análise do perfil do consumidor no semiárido paraibano

4. Inflação de alimentos em 2025 (2,95% e 1,43%)

Monitor Mercantil — Brasil teve em 2025 menor inflação de alimentos da série histórica (05/03/2026)
https://monitormercantil.com.br/brasil-teve-em-2025-menor-inflacao-de-alimentos-da-serie-historica/
5. Cultura digital no Brasil (Pontos de Cultura e Marco Civil)

Outras Palavras — Sonhos e lutas por uma internet livre e soberana (27/06/2025)

6. Baixa conectividade significativa (57% dos brasileiros)

NIC.br — Mais da metade da população tem baixa conectividade significativa

7. Incubadora de Soluções para Jornalismo (R$ 15 milhões)

Gov.br / MCTI — Com recursos do FNDCT, governo federal lança Incubadora de Soluções para Jornalismo (29/05/2025)

8. Desertos de notícias (5 em cada 10 municípios; 14% da população)

Agência Brasil — 14% da população brasileira vive em desertos de notícias (23/02/2022)

9. Tempo sem acesso à internet móvel por pessoas de baixa renda (35%)

Folha de Pernambuco — Pesquisa aponta desigualdade da conexão digital no país (03/09/2025)

10. Impactos da falta de internet (55,2% deixaram de estudar; 56,5% deixaram de acessar serviços de governo)

Canaltech — Por estar sem internet, mais da metade no Brasil deixa de usar banco ou estudar (04/09/2025)





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