sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A ESQUERDA EM FRANGALHOS: PERDEU A ESTRELA OU AINDA PODE REENCONTRAR O CAMINHO?

Mais um artigo da série: Reflexão politica com música.

PARTE I — A ESTRELA CADENTE

Zezito de Oliveira

A letra de Bete Balanço, de Cazuza, que canta sobre uma mulher que segue sua própria estrela e não se curva às expectativas alheias, serve como uma metáfora poderosa para a crise de identidade que assola a esquerda contemporânea, tanto na Europa quanto no Brasil. A utopia da transformação social, que um dia foi a estrela-guia da esquerda, cedeu lugar a um "paraíso perigoso" onde se misturam dinheiro e dor, resultado da adesão ao neoliberalismo e da perda de contato com suas bases populares.

Na Europa, esse processo se manifestou de forma emblemática na adoção da "Terceira Via" pelos partidos social-democratas nos anos 1990, que, ao abraçar a desregulamentação financeira e a flexibilização trabalhista, apagaram suas diferenças em relação à centro-direita. Essa guinada fragmentou a tradicional coalizão que unia classe trabalhadora e classes médias progressistas, além da ascensão de pautas identitárias, e sem oferecer respostas concretas para a estagnação salarial e a precarização do trabalho, afastou o eleitorado popular, que se sentiu invisível e migrou para a extrema-direita.

A ilusão de que a nova esquerda radical poderia superar essas limitações foi duramente testada com o colapso de partidos como o Syriza, na Grécia, e o Podemos, na Espanha. O Syriza, que ascendeu prometendo romper com a austeridade da União Europeia, entrou em implosão após seu líder, Alexis Tsipras, convocar um referendo contra as medidas de austeridade, vencê-lo com 61% dos votos, e logo em seguida aceitar o resgate financeiro, o que foi sentido por sua base como uma traição, resultando em fragmentação interna e queda livre nas intenções de voto. Da mesma forma, o Podemos, nascido do movimento 15-M, que chegou a ter 69 deputados no Congresso, viu-se consumido por disputas internas e uma grave crise financeira, tornando-se irrelevante em diversas regiões da Espanha.

No Brasil, o reflexo dessa crise se manifesta de maneira particular, mas com consequências igualmente profundas. A despolitização promovida pelo consumo, que reduz a cidadania à capacidade de adquirir bens e substitui o "Cidadão Político" pelo "Cidadão Consumidor", corroeu os laços coletivos e o sentido de transformação pela via da organização e da participação social. A vitória de Jair Bolsonaro em 2018 é a evidência mais clara de uma crise de representação que a esquerda não soube ou não quis enfrentar, pois enquanto os partidos de esquerda se enredavam em debates em suas "salas", a população da periferia sentia-se abandonada.

O paradoxo da esquerda brasileira é sua centralidade em torno da figura de Lula, o que não é um sinal de força, mas de fragilidade estrutural, evidenciada pela falta de renovação de quadros, pelo descolamento dos programas sociais, que passaram a ser vistos como políticas de Estado, e pelo enfraquecimento no Nordeste, onde a projeção para 2026 é que a esquerda possa governar apenas 23% do eleitorado. Um dos exemplos mais eloquentes dessa desconexão com a realidade é a dificuldade crônica da esquerda em apresentar respostas para a segurança pública, enquanto estados governados pelo PT apresentam altas taxas de homicídio, e a direita ocupa o debate com discursos de "providências duras" que ressoam com o medo e a insegurança da população.

Esse cenário se agrava com a transformação da ordem global. A era da hiperglobalização, marcada pela rápida expansão do comércio, das cadeias produtivas internacionais e da integração dos mercados, parece ter chegado ao seu limite. Em seu lugar, emerge uma globalização mais lenta, regionalizada e fragmentada, marcada pela disputa entre grandes potências, pela reorganização das cadeias produtivas e pela busca de maior segurança energética, alimentar e tecnológica.

As lições da Europa para o Brasil são contundentes: a esquerda que não renova, morre; sem respostas concretas para questões como segurança, emprego e custo de vida, a direita ocupa o espaço; e o "efeito Lula" é finito. 





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