informações sobre ações culturais de base comunitária, cultura periférica, contracultura, educação pública, educação popular, comunicação alternativa, teologia da libertação, memória histórica e economia solidária, assim como noticias e estudos referentes a análise de politica e gestão cultural, conjuntura, indústria cultural, direitos humanos, ecologia integral e etc., visando ao aumento de atividades que produzam geração de riqueza simbólica, afetiva e material = felicidade"
Durante os dias 05 e 06 de março, a Secult estará realizando o
Seminário de Cultura, no auditório Terra Caída, do Centro de Convenções
de Sergipe.
O Seminário tem como objetivo discutir a conclusão da
Minuta da Lei Orgânica da Cultura, do Sistema Estadual (de Museus e
Bibliotecas), revisão da Lei da Funcart, além da elaboração de um
cronograma de ações para a gestão da Cultura no Estado.
É importante a participação de todos!
No dia 28
de fevereiro, em Montevidéu, haverá uma grande festa com participação de Gil,
Caetano, Calle 13 e outros grandes artistas latino-americanos em homenagem a
uma das mais queridas e admiradas pessoas da política atual.
O
presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica, sairá de cena para dar lugar a seu
sucessor Tabaré Vázquez, que assume o governo uruguaio em 1º de março.
Em meio
ao descontentamento e descrédito generalizados das populações do planeta em
relação a seus representantes políticos, num mundo onde o poder econômico
oprime e tolhe cada vez mais a arte da política, Mujica trouxe alento a todos
aqueles que defendem outro mundo possível.
Para professor, o presidente do
Uruguai, que deixa o cargo hoje (1º), é exceção entre governantes da
região: 'É o único que não é demonizado pela grande mídia
latino-americana nem odiado pela direita'
por Vitor Nuzzi, da RBA
publicado
01/03/2015 10:11,
última modificação
01/03/2015 11:00
Nos
cinco anos de governo Mujica houve estabilidade econômica e prioridade a
programas sociais que reduziram a pobreza e a falta de moradia (Andrés Cristaldo/efe)
São Paulo – A partir deste domingo (1º), o ex-presidente Tabaré
Vázquez voltará a ser o mandatário do Uruguai. Reeleito no ano passado,
ele entrará no lugar de José "Pepe Mujica", seu sucessor em 2010. A
chapa da Frente Ampla, que ambos integram, foi eleita em segundo turno e
garantiu um terceiro governo sucessivo de esquerda no pequeno país da
América do Sul, com pouco mais de 3 milhões de habitantes.
Avesso a formalidades, Mujica tornou-se uma espécie de celebridade
por seu comportamento inusitado, ao
senso comum, em relação a
praticamente todos os governantes. Também chamou a atenção por
apresentar propostas polêmicas no campo do comportamento. Para o
professor Wagner Iglecias – de Gestão de Políticas Públicas na Escola de
Artes, Ciências e Humanidades e do programa de pós-graduação em
Integração da América Latina –, da USP, as propostas liberais não são a
marca da gestão do governante uruguaio. Ele acredita que o legado de
Mujica está no combate à pobreza e no que ele chama de "simbologia do
cidadão comum", pelo desapego ao poder.
O presidente uruguaio se destaca entre outros líderes populares do
continente. De alguma maneira, conseguiu escapar da fúria que a mídia
exibe contra alguns governantes. "É o único que não é demonizado pela
grande mídia latino-americana nem odiado pela direita", diz Iglecias. "É
difícil não gostar de Mujica."
Sobre Tabaré, o professor acredita na implementação de políticas de
distribuição de renda e aumento tributação aos mais ricos. A defesa da
integração do continente deve ser mantida, possivelmente com menos
ímpeto e combatida pela direita (em todos os países), pouco entusiasta
por projetos autônomos de desenvolvimento.
O Uruguai talvez seja uma exceção em um momento turbulento na América
Latina, com os governistas progressistas, incluindo o Brasil, em
situação delicada. Às voltas com uma pressão que nada tem a ver com o
alegado propósito de combate à corrupção. "Trata-se, na visão dos
opositores destes governos, de recolocar a América Latina na posição em
relação ao mundo que ela teve desde o século 16", afirma Iglecias, que
teme uma volta da onda neoliberal dos anos 1990.
Qual o legado de Mujica? Ele, de fato, pôs o Uruguai no mapa
mundial, principalmente com propostas relacionadas a comportamento
social?
O Uruguai é um país muito pequeno, tanto em termos demográficos como
econômicos. Não creio que as propostas defendidas pelo governo Mujica,
como o reconhecimento legal da união homoafetiva, do direito da mulher
sobre seu corpo, no caso do aborto, e do consumo da maconha, sejam
bandeiras suficientes para ter colocado o país no mapa mundial. Acho que
se for este o critério, Ghiggia e Schiaffino, que marcaram os gols na
final da Copa do Mundo de 1950 (contra o Brasil, no Maracanã),
foram talvez até mais importantes para tornar o Uruguai mais conhecido
em outras partes do mundo. E de mais a mais essas bandeiras abraçadas
pelo governo Mujica são bandeiras liberais, ligadas aos direitos civis e
adotadas em outros países há mais tempo. O legado do governo Mujica foi
o combate à pobreza e a simbologia que ele conseguiu transmitir, a do
cidadão comum que chega à presidência de seu país e continua sendo
exatamente isso, um cidadão comum, sem se deixar levar pela vaidade nem
se apegar às delícias do poder, como é tão corriqueiro em tantas partes
do mundo e com tantos governantes.
Ambos são representantes da Frente Ampla, mas isso não representa
um alinhamento automático. Houve divergências públicas entre eles
durante a campanha eleitoral. Como diferenciá-los em termos de prática
política, e o que esperar deste novo mandato de Tabaré?
A Frente Ampla, como diz o próprio nome, e como é comum a qualquer
partido, tem diversas correntes, e portanto pessoas que têm posições
diferentes e divergentes sobre inúmeros assuntos. No caso de Tabaré e
Mujica não é diferente. A questão da legalização do aborto, por exemplo,
é apenas um exemplo das posições diferentes que cada um tem. Sobre o
mandato de Tabaré, creio que se pode esperar empenho em medidas
distributivistas, com alívio de carga tributária para os mais pobres e
aumento da tributação aos mais ricos, especialmente os detentores de
grandes fazendas. Também espera-se a criação de um sistema nacional de
saúde e assistência social mais moderno e abrangente e o reforço a
iniciativas que visem a elucidar e, na medida do possível, reparar os
crimes de Estado cometidos na época da ditadura militar que o país
viveu, entre as décadas de 1970 e 1980.
As políticas de integração do continente continuarão sendo valorizadas, apesar da pressão contrária?
Creio que se depender do Uruguai, sim. Embora pense que Tabaré talvez
não seja tão entusiasta destas políticas como foi Mujica enquanto
presidente. Mas independente da posição do governo uruguaio, podemos
esperar para o curto prazo pressões contrárias à integração que vão se
tornar cada vez maiores. Tanto por parte de potências estrangeiras
quanto por parte da direita interna a cada país. Que no fim das contas é
toda ela muito parecida, nunca acreditou num projeto autônomo de
desenvolvimento e acha, não sei se por ideologia ou outros motivos, que a
adesão subordinada às grandes potências é o caminho único para a nossa
região.
Em artigo recente, o sr. perguntava que fim haviam levado os
líderes latino-americanos dos anos 1990: Menem, Salinas, Fujimori, FHC,
entre outros. Era o auge do conceito neoliberal, com as propostas de
desregulamentar a economia, privatizar, reduzir o papel do Estado. Em
que momento a onda começou a virar?
A onda começou a virar, favoravelmente a alternativas políticas mais
progressistas, na hora em que a população percebeu o completo fracasso
social daqueles governos neoliberais: fome, desemprego, exclusão social
em larga escala nos setores populares e prejuízos até para outros
segmentos sociais, como as classes médias, que se empobreceram em vários
dos nossos países durante os anos 1990. No entanto, o momento atual da
América Latina é preocupante, especialmente em termos de crescimento
econômico, e uma nova onda pode virar. E provavelmente em direção, de
novo, aos fundamentalistas do neoliberalismo que governaram a região 20
anos atrás.
Mesmo os governos progressistas parecem não ter escapado do
domínio e da influência do mercado financeiro. Faltaram alternativas?
Há como escapar? A economia hoje é globalizada, os mercados
financeiros e a especulação em sentido mais amplo têm de fato muito
poder. Não só econômico, capaz muitas vezes de fazer vergar um país e
impor perdas enormes à maioria de sua população. Mas também poder
político, financiando partidos, indicando ministros. As alternativas têm
sido tentadas, e a resistência interposta a essas forças tão poderosas
por governos como os de Mujica, Chávez, Evo etc. são exemplos disso.
Nesse sentido, qual o simbolismo de um líder como Mujica,
que dispensava formalidades do cargo, continuou a viver na mesma chácara
e recusou-se a vender seu Fusca por uma fortuna? Ele chegou a dizer que
era preciso retirar da política "todos os que gostam muito de
dinheiro". Utópico?
Não é utópico. Mas é possível de fazer num país pequeno e distante
dos grandes centros do poder mundial como é o Uruguai. Não sei se um
presidente brasileiro teria condições de abrir mão do Palácio do
Alvorada e ir morar num sítio em alguma cidade-satélite do Distrito
Federal. Acho que mais do que dispensar os rapapés do cargo, o que
Mujica deixa como legado é a ideia de que é possível você ser um
cidadão, um militante, ir ao poder e depois voltar à sua condição
anterior, de uma pessoa como todas as outras. Nesse sentido ele
dessacralizou o poder. Alguns outros líderes latino-americanos do mesmo
período também dessacralizaram, cada qual a seu modo, usando a linguagem
do povo, ou o humor, ou metáforas de fácil assimilação, por exemplo.
Mas de fato Mujica, neste aspecto, foi além de todos eles. É difícil não
gostar de Mujica. Tanto é que, de todos os líderes esquerdistas da
região (Lula, Chávez, Evo, Correa, Cristina, etc.), é o único que não é
demonizado pela grande mídia latino-americana nem odiado pela direita.
Mujica pode ter ajudado a fazer com que as pessoas vissem de outra forma os políticos, uma classe tão desprestigiada?
Sem dúvida. Pelos motivos que citamos. Mas
acho que ele ajudou mais a alimentar a frustração que as pessoas têm em
relação a seus representantes, quase sempre tão comprometidos com
interesses duvidosos, apegados ao que chamei de “delícias do poder” e
ostentando um ego super insuflado.
Que importância terá Mujica no Senado, na sustentação dos projetos do governo?
Para
além da figura mítica, Mujica é um experiente articulador político.
Ainda que tenha divergências em relação a algumas questões em relação a
Tabaré, será alguém importante para ajudá-lo, desde o Parlamento, a
governar e consolidar avanços que o país teve desde 2005, quando a
Frente Ampla chegou ao poder. E não me parece que Pepe, por ser a figura
fraterna que é e por ter uma dimensão muito aguçada das delicadas e
complexas questões que estão em jogo não só para o Uruguai mas como para
a América Latina neste momento, vá querer competir com Tabaré desde o
Senado ou prejudicar de alguma forma a sua presidência.
Pode-se dizer que a região hoje tem uma predominância de
governos ditos progressistas/populares, com tendências de esquerda
(embora alguns contestem essa visão). Alguns governantes atuaram na
resistência à ditadura em seus países. O sr. vê alguma ameaça a essa
hegemonia no futuro próximo? No Brasil, por exemplo, há setores se
movimentando pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff. E a
Venezuela vive um período turbulento.
Vejo. A ameaça é enorme. Todo governo e todo projeto de poder em
algum momento enfrenta seus limites. Exceções talvez da Bolívia e do
Uruguai, e em menor medida do Equador, os governos progressistas da
região estão em situação delicada. Enfrentam com dificuldade crescente
opositores internos e externos. As razões, acho, são as de sempre, e não
têm absolutamente nada a ver com corrupção: trata-se, na visão dos
opositores destes governos, de recolocar a América Latina na posição em
relação ao mundo que ela teve desde o século 16.
A geração atual de governantes terá uma acolhida histórica melhor que a imediatamente anterior?
Não só terá como já teve. As reeleições de Lula, Chávez, Evo, Correa e
tantos outros mostram o reconhecimento da massa da população em relação
a lideranças que, com todos os seus erros e suas limitações, pela
primeira vez governaram invertendo prioridades e ampliando direitos a
quem historicamente foi marginalizado. Não foram os primeiros que
tentaram, tivemos outros governos na América Latina em décadas passadas
que também buscaram dar mais atenção aos mais pobres. No entanto, estes
governos não tiveram condições políticas de se manter no poder, e muito
menos de reeleger-se e fazer perdurar um projeto mais distributivista.
Impeachment S.A.: negócio lucrativo quer varrer corrupção para baixo do tapete
Quem for às ruas no dia 15 vai
estar vomitando seu ódio com o patrocínio de empresas e políticos que
querem tirar o foco da lista de políticos da Lava Jato
por Antonio Lassance
publicado
02/03/2015 20:07,
última modificação
02/03/2015 20:10
Marcelo Camargo/Folhapress
Quanto mais impeachment se torna um oba-oba, do tipo "atrás do trio elétrico...", melhor para o negócio
Impeachment S.A.: uma empresa de capital aberto e
mente fechada. Que ninguém se engane ou se faça de desavisado. As
organizações Impeachment S.A. – uma sociedade mais ou menos anônima –
está aí não só para promover eventos, mas, sobretudo, para se
capitalizar.
Quem quiser ir às ruas no dia 15, com nariz de
palhaço e cartazes pró-impeachment, vai estar batendo o bumbo e
vomitando seu ódio com o patrocínio de empresas e políticos que querem
bombar o desgaste de um governo por razões nada republicanas.
Algumas
das organizações mais ativas na mobilização das manifestações do dia 15
de março são um negócio patrocinado pela oposição partidária e
empresarial, com os préstimos sempre valiosos do cartel midiático, que
dá uma boa força para a sua divulgação.
Tal e qual nos bons
tempos do golpismo dos anos 1950 e 1960, trabalhar pela derrubada de um
governo é, em parte, ideologia, mas tem seu lado 'business'. Dá
dinheiro.
Os grupos que organizam os protestos e clamam pelo
impeachment começam como rede social, mas crescem com apoio partidário e
empresarial.
Nenhum desses grupos deixa de pedir, publicamente,
recursos para financiar seu 'trabalho' – seria melhor dizerem 'seu
negócio'. Até aí, nada de mais.
Porém, o grosso das contribuições
que algumas dessas pessoas recebem não são públicas e nem de pessoas
que dão 5, 10, 100 reais. Hoje, a maior parte da grana que rola em prol
do impeachment de Dilma tem outra origem.
Empresários em pelo
menos três estados (São Paulo, Pernambuco e Paraná) relatam ter recebido
telefonemas pedindo dinheiro para a organização dos atos do dia 15. A
fonte da informação são advogados consultados para saber da legalidade
da doação e possíveis implicações jurídicas para as empresas.
Em
um dos casos, o pedido não foi feito diretamente por alguém ligado aos
perfis de redes sociais que convocam o ato, mas por um deputado de
oposição, com o seguinte argumento: "Precisamos ajudar esse pessoal que
está se mobilizando para tirar esses vagabundos do poder".
O
curioso é que o deputado oposicionista faz parte do seleto grupo de
parlamentares que teve o privilégio de contar, entre seus financiadores
de campanha, com empresas citadas na Lava Jato. Portanto, pelo critério
da Impeachment S.A., o deputado amigo é, de fato, um honorável
vagabundo.
É bom lembrar que quase a metade dos nomes da
famigerada lista do ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, estava
ligada às campanhas de Aécio ou Marina Silva
As empreiteiras
pegas na Operação Lava Jato doaram quase meio bilhão de reais aos
políticos e aos partidos com as maiores bancadas no Congresso, o que
inclui os de oposição, como PSDB e DEM. Será que alguém vai se lembrar
disso no dia 15?
Como o negócio funciona e prospera
A
Impeachment S.A. virou franquia. Uma pessoa ou um pequeno grupo monta um
perfil, sai à cata de adesões e seguidores e cria memes para serem
espalhadas na rede. Com alguma sorte, essa 'produção' se torna viral –
pronto, a fórmula de sucesso deu resultado.
Os grupos que organizam o
protesto do dia 15 são muitos. Cada estado tem um ativista ou grupo de
maior proeminência. Eles hoje disputam o mercado do protesto de forma
cada vez mais empresarial. Com naturalidade, eles são absolutamente
francos em dizer que o capitalismo é seu sonho de consumo. Qualquer
maneira de ganhar dinheiro vale a pena.
Dependendo da força de
adesão de cada perfil, o criador usa sua lista de seguidores, com ou sem
nariz de palhaço, como portfólio para negociar patrocínio privado.
Quanto
mais o impeachment se tornar um oba-oba, do tipo "atrás do trio
elétrico só não vai quem já morreu", tanto melhor para o negócio de
derrubar a presidenta.
A busca de um mercado do protesto veio a
partir do momento em que esses mascates do impeachment bateram às portas
dos partidos, como o PSDB, o DEM e o PPS.
Pelo menos no caso de
Pernambuco, houve tentativas também junto ao PSB, cujo ex-candidato à
presidência, Eduardo Campos, também consta citado da delação de Paulo
Roberto Costa. O PSB hoje abriga, entre outros, 'socialistas' da estirpe
do antigo PFL, como os renomados Heráclito Fortes (PI) e Paulo
Bornhausen (SC).
Alguns dos ativistas da Impeachment S.A., de
espírito empreendedor mais aguçado, pegaram a lista de financiadores de
campanhas de políticos da oposição com os quais mantêm contato e foram
pedir ajuda para conseguir abrir portas em empresas dispostas a
financiar a campanha do impeachment.
Os políticos tucanos, ao que
parece, têm sido os mais empenhados em redirecionar os pedidos de
patrocínio privado para o universo das empresas.
Publicamente, só
para variar, os tucanos definiram, com o perdão ao vocábulo 'definir',
que apoiam o ato pró-impeachment, mas são contra o impeachment. Hein?
Precisamos de pelo menos uns dois minutos para entender o raciocínio e
pegar algum tucano pelo colarinho branco, escondido atrás de mais esse
muro.
Os tucanos querem o protesto, torcem pelo protesto, ajudam a
patrocinar o protesto, mas fingem que não têm nada a ver com isso. Faz
sentido – e ainda tem gente que acredita que eles realmente não
trabalham pelo impeachment.
Por que 15 de março?
A própria data do protesto foi calculada politicamente, pela Impeachment S.A., com um propósito evidente.
O
alvo do protesto é a presidenta Dilma Rousseff, convenhamos, justamente
no mês em que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, divulgará
a lista dos políticos envolvidos no escândalo. Mais exatamente, na
semana seguinte àquela em que a lista de políticos será tornada pública.
Os
revoltontos do dia 15 pedirão o impeachment de Dilma, que sequer
aparece citada na Lava Jato. Será que vão pedir também o impeachment do
senador Aécio Neves, cuja campanha recebeu doações das mesmas honoráveis
empreiteiras, diretamente para o comitê de campanha desse candidato?
Vão
pedir pelo menos o impeachment de Agripino Maia (DEM-RN), acusado de
receber R$ 1 milhão em propina? Delator por delator, Agripino tem o seu e
merece algum cartaz de algum revoltonto mais bem informado.
Irão
pedir a apuração rigorosa e a prisão dos envolvidos com o trensalão
tucano? Ou a falta d'água em São Paulo racionou também a memória e o
senso de moral e ética dos que se dizem fartos – principalmente depois
de seu repasto?
Irão eles pedir o impeachment dos parlamentares
do PMDB? Eles fazem parte do segundo maior partido da Câmara, o primeiro
no Senado, e seriam decisivos para a chance de impeachment. Só que, por
coincidência, estão entre os preferidos das empreiteiras na hora de
financiar campanhas.
Os revoltontos do dia 15 ainda não pararam
para pensar que querem um impeachment de Dilma a ser feito por um
Congresso cujo financiamento de campanha desenfreado deixa a maioria de
seus parlamentares abaixo de qualquer suspeita – se for para generalizar
o 'argumento' de quem vê Dilma como uma inimiga a ser banida.
Serão
esses, de fato, os que podem abrir a boca para falar em afastar a
presidenta eleita? Estranho. Não deveriam ser eles os primeiros alvos de
cassação?
Quem promove a campanha pelo impeachment está dando
sua contribuição voluntária ou patrocinada para tirar o foco dos
corruptos que de fato têm nome no cartório da Lava Jato – o que não é o
caso da presidenta.
Seria melhor, antes de falarem em impeachment
de uma presidenta eleita pelo voto de 54,5 milhões que os revoltontos
do dia 15 esperassem a lista de Janot e a usassem para escrever seus
cartazes.
Por que não o fazem? Talvez por que isso não seja lá um bom negócio.
Chico Alencar - Em aniversário a gente costuma presentear, né? Pois hoje, nos 450 anos do Rio, devemos dar um presente à nossa cidade de tantas bençãos naturais. Há mil maneiras de fazê-lo. Não precisa ter grana, basta boa vontade: regar uma planta, plantar uma árvore, recolher lixo do chão, ter hábitos mais moderados de consumo (sobretudo com a preciosa água), dar bom dia a quem passa, resgatando o espírito de vizinhança (nada de 'cada um no seu quadrado'), exercer com plenitude sua cidadania crítica, tendo consciência dos direitos sociais. O Rio é mais, quando a gente entende e VIVE cidade como coletivo de cidadão!
450
anos de São Sebastião do Rio de Janeiro, cidade que já começou com luta
entre portugueses e franceses, usando os nativos como 'bucha de
canhão'. Sítio lindo, único no mundo, mas também marcado pela feiúra da
exclusão e pelo não reconhecimento a quem ergueu a cidade: seus
escravos, seu povo humilde e anônimo, sua gente trabalhadora que nos
transporta, nos alimenta, nos dá o sustento cotidiano. Rio de
contradições, da aspereza e da poesia da vida. Rio tão musical mas que,
volta e meia, desafina. Estação primeira ou derradeira? Nossa batucada,
nossa cidade!
A
melhor palavra para definir uma cidade é a dos versos. A melhor maneira
de se cantar uma cidade é a canção. Com vocês, o mineiro Drummond, e as
'Saudades da Guanabara', de Aldir Blanc e Moacyr Luz:
RETRATO DE UMA CIDADE
I
Tem nome de rio esta cidade
onde brincam os rios de esconder.
Cidade feita de montanha
em casamento indissolúvel
com o mar.
Aqui
amanhece como em qualquer parte do mundo
mas vibra o sentimento
de que as coisas se amaram durante a noite.
As coisas se amaram. E despertam
mais jovens, com apetite de viver
os jogos de luz na espuma,
o topázio do sol na folhagem,
a irisação da hora
na areia desdobrada até o limite do olhar.
Formas adolescentes ou maduras
recortam-se em escultura de água borrifada.
Um riso claro, que vem de antes da Grécia
(vem do instinto)
coroa a sarabanda a beira-mar.
Repara, repara neste corpo
que é flor no ato de florir
entre barraca e prancha de surf,
luxuosamente flor, gratuitamente flor
ofertada à vista de quem passa
no ato de ver e não colher.
II
Eis que um frenesi ganha este povo,
risca o asfalto da avenida, fere o ar.
O Rio toma forma de sambista.
É puro carnaval, loucura mansa,
a reboar no canto de mil bocas,
de dez mil, de trinta mil, de cem mil bocas,
no ritual de entrega a um deus amigo,
deus veloz que passa e deixa
rastro de música no espaço
para o resto do ano.
E não se esgota o impulso da cidade
na festa colorida. Outra festa se estende
por todo o corpo ardente dos subúrbios
até o mármore e o fumé
de sofisticados, burgueses edifícios:
uma paixão:
a bola
o drible
o chute
o gol
no estádio-templo que celebra
os nervosos ofícios anuais
do Campeonato.
Cristo, uma estátua? Uma presença,
do alto, não dos astros,
mas do Corcovado, bem mais perto
da humana contingência,
preside ao viver geral, sem muito esforço,
pois é lei carioca
(ou destino carioca, tanto faz)
misturar tristeza, amor e som,
trabalho, piada, loteria
na mesma concha do momento
que é preciso lamber até a última
gota de mel e nervos, plenamente.
A sensualidade esvoaçante
em caminhos de sombra e ao dia claro
de colinas e angras,
no ar tropical infunde a essência
de redondas volúpias repartidas.
Em torno de mulher
o sistema de gesto e de vozes
vai-se tecendo. E vai-se definindo
a alma do Rio: vê mulher em tudo.
Na curva dos jardins, no talhe esbelto
do coqueiro, na torre circular,
no perfil do morto e no fluir da água,
mulher mulher mulher mulher mulher.
III
Cada cidade tem sua linguagem
nas dobras da linguagem transparente.
Pula
do cofre da gíria uma riqueza,
do Rio apenas, de mais nenhum Brasil.
Diamantes-minuto, palavras
cintilam por toda parte, num relâmpago,
e se apagam. Morre na rua a ondulação
do signo irônico.
Já outros vêm saltando em profusão.
Este Rio…
Este fingir que nada é sério, nada, nada,
e no fundo guardar o religioso
terror, sacro fervor
que vai de Ogum e Iemanjá ao Menino Jesus de Praga,
Este
domingo que chega junto com março bem que podia ter 'águas fechando o
verão', como cantou um dos filhos diletos do Rio, nosso maestro soberano
Tom Jobim.
Amanhã a cidade celebra 450 anos de sua fundação - de
início, um acampamento militar para a conquista e colonização
portuguesa. Rio de Janeiro, fevereiro, março, julho, dezembro...
Sebastiãotambém, imagem maltratada e bela, louvada na comovente
prece/canção de Gil e Bituca.