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segunda-feira, 12 de outubro de 2026
"A gente não quer só entregas, a gente quer participar, no nosso destino mandar". Um comercial de TV, canções e artigos antigos de Zezito de Oliveira e novos de Outras Palavras.
Em 1982, um pai entrou em campo para levantar o filho caído e ensinou que não basta ser pai: tem que participar. Em 1971, Clara Nunes fez da alegria um chamado à resistência em tempos de censura. Em 1967, Chico Buarque viu a roda-viva carregar o destino para longe das nossas mãos. Em 2026, depois do primeiro turno de 4 de outubro, o Brasil se prepara para o segundo turno de 25 de outubro com essas três vozes ecoando no mesmo campo: o da memória, o da luta e o da participação. Com o Congresso dominado pela extrema direita, governar será como jogar com o campo inclinado; mas, entre o luto e a esperança, a lição permanece: não basta votar, tem que entrar em campo, cantar mais alto que o medo e não deixar que a roda viva leve, outra vez, o nosso destino.
O clássico comercial da Gelol lançado em 1982 marcou profundamente a infância e a pré-adolescência de quem hoje tem mais de 50 anos.
Criada pelo publicitário Duda Mendonça, a campanha trazia a emocionante cena de um pai entrando em campo para cuidar do filho machucado em um jogo de futebol. O comercial deu origem ao slogan memorável "Não basta ser pai, tem que participar", que transcendeu a TV, virou ditado popular e permanece vivo na memória afetiva dos brasileiros até os dias de hoje.
Trazendo para a realidade politica destes dias que rugem "Não basta votar, tem que participar", como pode ser deduzido das manifestações de rua neste segundo turno e considerando o desafio do presidente Lula, caso eleito, em governar o país com o congresso dominado pela extrema direita.
PARTICIPAÇÃO - CLARA NUNES
Nota Explicativa: A sutileza política por trás de "Participação", na voz de Clara Nunes
No início da década de 1970, o Brasil atravessava o período mais severo da Ditadura Militar. Sob o governo do general Emílio Garrastazu Médici, os chamados "Anos de Chumbo" impunham uma censura implacável à cultura. Foi nesse cenário asfixiante que Clara Nunes lançou, em seu álbum homônimo de 1971, a canção "Participação", escrita por Didier Ferraz e Jorge Belizário. Embora a faixa seja frequentemente lembrada pelo arranjo grandioso característico da Era dos Festivais, sua letra carrega um profundo e sutil manifesto político de resistência.
Em uma leitura contextualizada da época, a composição opera por meio de metáforas que dialogavam diretamente com o desejo de liberdade da juventude brasileira:
• Resistência ao controle e vigilância: Nos versos "Ideia pra frente é saber / Aonde é que eu vou me levar (...)/ Não venham querer me julgar", a letra evoca o direito à autodeterminação. Em tempos de patrulhamento ideológico e perseguição ao comportamento jovem, afirmar a própria independência e rejeitar o julgamento externo era um ato de coragem contra o autoritarismo e o moralismo vigentes.
• O chamado à ação coletiva: O próprio título, "Participação", já carregava um forte teor político. Diante do fechamento dos canais democráticos, o convite "Vem, que o momento lhe convida / À participar da nossa alegria / Vem, não espere a despedida" funcionava como uma convocação à resistência cultural. Reunir-se e celebrar o coletivo era uma das poucas formas de contestação possíveis, e a urgência de "não esperar a despedida" ecoava o sentimento de que era preciso agir antes que o silenciamento fosse definitivo.
• A arte como espaço de fala: Ao cantar "Melhor que falar é viver / A hora é da gente cantar / (...) Não temos hora de ir embora", a música coloca o canto como o refúgio da expressão onde a palavra escrita ou falada estava interditada. Além disso, a recusa em "ir embora" desafiava poeticamente a atmosfera de medo, recolhimento e os toques de recolher implícitos impostos pelo aparato repressivo nas grandes cidades.
Longe de ser apenas uma canção festiva, "Participação" permanece na história da MPB como um documento histórico de seu tempo: uma fresta de liberdade e coletividade aberta pela voz inconfundível de Clara Nunes em um dos momentos mais sombrios do país.
Chico Buarque - Roda Viva (Chico Buarque, Vol. 3)
Nota explicativa
A canção “Roda Viva”, composta por Chico Buarque em 1967, surgiu em plena ditadura militar, quando a censura, a repressão e o cerceamento das liberdades públicas marcavam a vida política e cultural do país. A metáfora da roda-viva expressa a sensação de que o tempo e o sistema opressor arrastam os indivíduos, frustrando o desejo de autonomia e de participação nas decisões sobre o próprio destino. A obra integrou montagem teatral e tornou-se símbolo de resistência, ao criticar a alienação, a dependência externa e a supressão da voz popular. Seu verso central — a aspiração a ter voz ativa e mandar no próprio destino — sintetiza o anseio de soberania popular que a ditadura procurava silenciar.
No contexto das eleições de 4 de outubro de 2026, o primeiro turno colocou Flávio Bolsonaro à frente, com Lula em segundo lugar, levando a disputa ao segundo turno, previsto para 25 de outubro. Esse resultado, conforme o conjunto de opiniões analisado, produziu um forte impacto emocional e político, sobretudo entre eleitores que identificam no bolsonarismo uma ameaça autoritária e uma continuidade da herança da ditadura militar. A proximidade entre o passado de exceção e o presente eleitoral fez com que a canção de Chico Buarque fosse reativada como espaço de elaboração do luto político, de denúncia do perigo antidemocrático e de preservação da memória.
Os comentários reunidos no YouTube expressam, em sua maioria, um sentimento de desalento, temor e resistência. Há quem descreva a sensação de derrota e morte simbólica diante do resultado parcial, recorrendo à música para não perder a esperança. Outros falam de um cenário sombrio, de gosto amargo de retrocesso e de risco de pré-ditadura, mas reafirmam a disposição de continuar lutando contra as elites e contra a perda de soberania. A ideia de que nenhuma experiência é individual aparece como reconhecimento de que o sofrimento político é coletivo, e não apenas pessoal. A memória do passado é invocada como alerta: enquanto o bolsonarismo persistir, a democracia permanecerá ameaçada.
Assim, a relação entre “Roda Viva” e as eleições de 2026 se dá por uma espécie de repetição histórica: a canção, nascida sob a ditadura, volta a funcionar como repertório de resistência em um momento percebido como de ameaça autoritária. A roda-viva que carrega o destino para longe do controle popular é reinterpretada como a força eleitoral e política que, para esses ouvintes, impôs uma derrota parcial e abriu um cenário de incerteza. Ao mesmo tempo, a música mantém viva a pergunta sobre ter voz ativa e mandar no próprio destino, convertendo-se em instrumento de memória, luta e esperança diante do segundo turno.
quinta-feira, 3 de outubro de 2024
FATOR MARÇAL`Os alertas de Zezito de Oliveira ao PT e as esquerdas desde 2005
Isso pela imprensa, redes digitais e ação educativa e cultural. E a luz que vem do México de Lopez Obrador.
A virada eleitoral é possível, ainda que árdua e difícil. Depende de ampla mobilização "vira-voto" e de novos acenos de Lula nas três semanas até 25 de outubro. Mas a ilusão de que a esquerda pode governar sem projeto de longo prazo, sem disputas com os poderosos e sem mobilização popular — esta precisa ficar para trás. A História não acabou. Os tempos estão mais acelerados que nunca.
Por Antonio Martins
⚖️ Governar sem disputar com os poderosos e sem projeto de longo prazo? Essa ilusão precisa ficar para trás.
Em 4 de outubro, mais de 33,4 milhões de eleitores não compareceram às urnas — a maior abstenção em uma eleição presidencial desde 1998. Antes de perguntar em quem votariam, talvez seja necessário perguntar o que precisaria acontecer para que voltassem a acreditar que a política merece seu tempo. Há desinteresse, dificuldades materiais, desinformação, desencanto — e uma percepção cada vez mais disseminada de que "não importa quem ganhe". Uma democracia não se enfraquece apenas quando alguém tenta tomar o poder pela força; ela também se desgasta quando as pessoas deixam de acreditar que participar faz diferença.
É aqui que a autocrítica se torna indispensável. A extrema direita não cresce apenas pelo que diz; cresce nos espaços que outras forças deixam de ocupar. Se a esquerda promete transformação e entrega apenas administração da escassez, produz frustração; se defende direitos, mas não melhora a experiência concreta de quem depende deles, permite que alguém apareça dizendo "eu sei por que sua vida está ruim". O "pobre de direita" descreve uma posição, mas não explica por que ela existe. A pergunta certa é outra: o que aconteceu para que pessoas que dependem de políticas públicas deixassem de enxergá-las como expressão de seus próprios direitos?
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