segunda-feira, 5 de outubro de 2026

LULA VAI TER QUE APRENDER A OUVIR A VOZ ROUCA DAS RUAS. Mário Jéfferson Leite Melo — Velhinho de Taubaté

 Toda eleição deixa um recado. Às vezes vem em forma de vitória; outras, de derrota, de abstenção, de voto silencioso ou de uma surpresa que os analistas de plantão não conseguiram enxergar. A urna eletrônica não fala, mas registra. E registra não apenas preferências: registra satisfações, frustrações, esperanças e desencantos. Quem sabe interpretar uma eleição escuta aquilo que o eleitor não conseguiu dizer durante o mandato.



Lula precisa ouvir essa voz rouca das ruas. E precisa ouvir principalmente aqueles que ajudaram a acreditar que a cultura brasileira finalmente voltaria a ser tratada como política de Estado. O Ministério da Cultura voltou, programas importantes foram reconstruídos, recursos foram disponibilizados e a PNAB e a Lei Paulo Gustavo representaram avanços que precisam ser reconhecidos. Mas existe uma pergunta incômoda que continua circulando pelos territórios: o dinheiro chegou a quem realmente precisava dele, na hora em que precisava?

Porque não basta reativar o Ministério da Cultura em Brasília se, na ponta, o trabalhador continua com o pires na mão procurando uma emenda parlamentar para fazer aquilo que deveria ser sustentado por políticas públicas permanentes. O artista periférico, o grupo de teatro, o mestre da cultura popular, o coletivo de hip-hop, o produtor independente e tantos outros continuam enfrentando editais complicados, burocracia, demora e uma linguagem que muitas vezes parece feita para afastar justamente quem mais precisa. Se o trabalhador da cultura precisa pedir favor para produzir cultura, alguma coisa está profundamente errada.

Há ainda uma doença antiga: políticas públicas desenhadas por quem conhece muito bem o gabinete, mas pouco conhece o território. Gente que domina planilhas, editais e burocracias, mas talvez nunca tenha sentado numa roda de cultura, acompanhado uma oficina numa periferia ou conversado com o artista que precisa escolher entre pagar a conta de luz e comprar o material para seu projeto. Quem não conhece o chão onde a cultura acontece não deveria decidir sozinho os caminhos que ela deve percorrer.

A PNAB e a Lei Paulo Gustavo provaram que o Estado pode colocar dinheiro na cultura. Mas também revelaram que não basta anunciar recursos: é preciso fazê-los chegar com velocidade, simplicidade e justiça. Recurso atrasado pode significar projeto cancelado. Burocracia excessiva pode significar artista excluído. Edital incompreensível pode transformar direito em privilégio de quem já sabe jogar o jogo. Dinheiro parado não produz cultura; produz frustração.

E há outro erro que precisa ser enfrentado: a comunicação. Como fazer uma política pública chegar ao povo ignorando justamente os veículos que estão dentro das comunidades? TVs comunitárias, rádios comunitárias, jornais de bairro, portais independentes e mídias alternativas foram muitas vezes tratados como se fossem invisíveis pelos grandes “magos da comunicação”. Só que esses veículos conhecem o território, conhecem as pessoas e sabem onde a informação precisa chegar. Quem exclui a mídia comunitária do plano de comunicação pública está, muitas vezes, excluindo também o cidadão que deveria receber a informação.

Lula deveria olhar com muito mais atenção para o Conselho Nacional de Política Cultural e para as representações da sociedade civil. Conselho não pode ser decoração. Conferência não pode ser fotografia. Participação popular não pode terminar quando o microfone é desligado. Se os trabalhadores estão dizendo que a política não está chegando à ponta, o governo precisa ouvir. Escutar sem corrigir é apenas uma forma sofisticada de ignorar.

Como reverter? Menos gabinete e mais território. Menos burocracia e mais orientação. Menos concentração e mais descentralização. Editais simplificados, assistência técnica gratuita para pequenos produtores, mecanismos que respeitem a realidade dos coletivos periféricos e uma política permanente de comunicação comunitária. E, principalmente, trabalhadores da cultura participando da construção das políticas, não apenas sendo chamados para aplaudi-las depois de prontas. Não se constrói política pública para o povo sem colocar o povo dentro da sala onde as decisões são tomadas.

A urna, no fim das contas, também é um microfone. Ela fala através do voto, mas também através do desencanto. E o desencanto não deve ser tratado como traição: muitas vezes é cobrança. Quem ainda reclama talvez seja justamente quem ainda acredita. O eleitor que cobra não abandonou o projeto; está perguntando se o projeto ainda se lembra dele.

A cultura brasileira não quer favor. Quer política de Estado. Não quer padrinho. Quer acesso. Não quer pires. Quer dignidade. Não quer esperar meses por um recurso que deveria chegar no momento certo. Quer previsibilidade para trabalhar.

E talvez seja exatamente essa a mensagem que Lula precise ouvir.

Abra as janelas do Palácio, presidente. Não para ouvir os aplausos. Para ouvir a rua. Porque a voz rouca das ruas não é inimiga de governo nenhum. É o alarme que avisa quando a distância entre o discurso e a realidade começa a ficar perigosa. E o Velhinho de Taubaté aprendeu uma coisa ao longo da vida: quem escuta apenas os aplausos acaba sendo surpreendido pelo silêncio das urnas.

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Prestem atenção nessa pergunta formulada por Isabela Bispo à ministra Margarete Meneses. 

Como podemos avançar de uma política de apoio pontual para uma política de sustentabilidade e fortalecimento estrutural das entidades e grupos de base comunitária, reduzindo gradualmente sua dependência dos governos?

Propomos a criação de um grupo de trabalho com especialistas e representantes das organizações comunitárias, para formular soluções que garantam estrutura, profissionalização, carreira e continuidade, incluindo iniciativas de apoio às sedes, como a ideia de um “Minha Sede, Minha Vida”, e programas de incubação.

Para isso, é necessária uma ação integrada entre o Ministério da Cultura, Ministério do Trabalho e Secretaria-Geral da Presidência da República, articulando acesso a recursos, formação profissional, estrutura física e incubação de iniciativas comunitárias.

Ontem, 02/10, representando a Comissão Estadual de Pontos de Cultura de Sergipe, participamos do encontro com a Ministra da Cultura, Margareth Menezes, que teve como tema “Cultura como vetor de transformação social e garantia de direitos”.

Foi uma importante oportunidade de diálogo e reflexão sobre os caminhos da política cultural brasileira e sobre a necessidade de avançarmos para além de ações pontuais, construindo uma política cultural de sustentabilidade, continuidade e fortalecimento das organizações, coletivos e grupos culturais de base comunitária.

A Cultura Viva acontece nos territórios, nas comunidades, nos grupos e organizações que, diariamente, promovem transformação social, preservam identidades, fortalecem vínculos e garantem o acesso à cultura como direito.

Seguimos defendendo uma política cultural que fortaleça quem já faz cultura nos territórios e crie condições para que essas iniciativas possam permanecer, crescer e transformar realidades. 🌻🎭

Cultura é direito. Cultura é território. Cultura é transformação.

📸Juliana UEPA/MINC

🎥 Zezito/Ação Cultural

               https://www.instagram.com/reel/DeCMx0Sxuox/?stkn=dmZ5bHBnd3lubTg4




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