domingo, 27 de setembro de 2026

Nossa Senhora que o diga: a centralidade da cultura na luta política

 

A polêmica envolvendo a Padroeira do Brasil na campanha de 2026 e a prova de que a dimensão cultural, aqui incluindo o campo da religião, não pode ser mais subestimado pela esquerda, e não só a   esquerda politica, e nem  só no tempo da disputa eleitoral. 

 "Bem-vinda minha senhora

Bendita nossa senhora

Bem-vinda minha senhora

Bendita"

          Louvar

Ná Ozzetti e Zé Miguel Wisnik

 Neste corte de uma entrevista com Juliano Medeiros historiador e ex-presidente nacional do PSOL, encontro-me bastante representado, e isso deixa claro por que me aproximo mais de algumas pessoas, de algumas ideias, de alguns lugares, de alguns grupos ou subgrupos... Dentre as boas sínteses dessa entrevista, podemos fazer uma: sem a centralidade da arte e da cultura, não se faz luta política... Nossa Senhora que o diga. E aqui estou compreendendo a discussão sobre religião como um componente do campo da cultura, não apenas como um componente ligado ao campo da religião ou da espiritualidade, embora  cultura, fé e politica,  muitas vezes fiquem embaralhados ou misturados de forma complementar.


Nossa Senhora como centro de uma politica que incendeia a campanha politica. 

Quando escrevo que "sem a centralidade da arte e da cultura, não se faz luta política", não estou fazendo apenas uma afirmação abstrata. Estou constatando algo que se desenrola agora, diante dos meus olhos, nesta campanha eleitoral de 2026. E o episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida é a prova mais contundente disso.

Acompanho, atônito, o que acontece desde a noite de 24 de setembro. Um boato começa a circular nas redes sociais: o candidato Flávio Bolsonaro (PL) teria a intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A informação ganha tração quando é citada no programa "Em Pauta", da GloboNews, e um dos cortes alcança 2,4 milhões de visualizações no X. O estrago está feito.

Flávio corre para as redes sociais. Em vídeo publicado no Instagram, ele nega tudo: "Estamos aqui na correria de agenda em Minas Gerais e sou surpreendido com uma mentira, uma fake news daquela, para variar, que a milícia do PT está inventando na internet: que eu iria tirar a padroeira do Brasil. Isso é uma grande mentira. Não tem pé nem cabeça. Não existe esse projeto". Ele classifica o episódio como uma tentativa de criar "uma guerra religiosa" entre católicos e evangélicos.

E qual é a origem real desse boato? Um projeto de lei que existe, mas que está arquivado há quase duas décadas. Trata-se do PL 2.623/2007, de autoria do então deputado Professor Victório Galli, que propunha substituir a expressão "Padroeira do Brasil" por "Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos". O projeto foi arquivado em agosto de 2008 e não há qualquer registro de participação de Flávio Bolsonaro na proposta. Galli, que se define como bolsonarista, foi posteriormente assessor especial da Presidência no governo de Jair Bolsonaro.

O que me chama a atenção é a reação institucional. O ministro André Mendonça, vice-presidente do TSE, determina que X, Facebook, Instagram, TikTok e YouTube atuem preventivamente para retirar publicações que afirmem que Flávio Bolsonaro pretende retirar o título de padroeira de Nossa Senhora Aparecida. Mendonça classifica a informação como "notoriamente inverídica" e fixa multa diária de R$ 50 mil por descumprimento.

Mas o que mais me interessa aqui é a dimensão cultural desse episódio. Nossa Senhora Aparecida não é apenas uma figura religiosa: é um símbolo da identidade nacional brasileira, um ícone de fé e de pertencimento cultural. E a comoção popular em torno dela — "ninguém mexe com Nossa Senhora" — evidencia seu poder como símbolo cultural capaz de mobilizar afetos e lealdades que transcendem o campo estritamente religioso.

A análise da empresa Palver mostra que o tema domina o debate digital, atingindo o pico de 735 menções a cada 100 mil mensagens nas redes sociais. Entre as manifestações, 73% são críticas a Flávio Bolsonaro, enquanto 27% o apoiam. A narrativa que trata o boato como verdadeiro responde por cerca de 37% das mensagens analisadas, enquanto o desmentido e as manifestações em defesa do candidato representam apenas 16%. O relatório da Palver aponta Flávio como "o ator político mais prejudicado" e afirma que o PT e o campo governista são "os principais beneficiados pela narrativa".

E não posso ignorar o fato de que a pesquisa Datafolha, divulgada naquele momento, mostra que, entre os católicos, 46% pretendem votar em Lula no primeiro turno, contra 29% que dizem preferir Flávio. O boato, portanto, incide diretamente sobre um eleitorado estratégico, num momento de alta sensibilidade eleitoral.

Observo, ainda, que a primeira-dama Janja Lula da Silva, o vice-presidente Geraldo Alckmin e outros aliados do presidente entram na onda de compartilhar a informação falsa. Janja publica uma foto de Lula segurando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Alckmin afirma ter recebido mensagens de católicos preocupados e diz que, enquanto ele e Lula estiverem no governo, as tradições religiosas serão protegidas e preservadas.

O que vejo, portanto, é exatamente o que argumento no texto inicial: a religião, para além da fé e da espiritualidade, funciona como um componente do campo da cultura. Ela produz símbolos, narrativas, identidades e valores que são mobilizados na luta política. Os campos da fé e da cultura ficam "embaralhados ou misturados de forma complementar" — e é nesse embaralhamento que a batalha eleitoral se dá.

A padroeira do Brasil, um símbolo cultural, torna-se o centro de uma disputa política que mobiliza milhões de pessoas, força a intervenção do TSE e altera o cenário eleitoral. Isso prova que a cultura não é um acessório da política, mas um campo central de disputa. Sem a centralidade da arte e da cultura — e a religião, como  parte constitutiva da cultura — não se faz luta política. Nossa Senhora, mais uma vez, que o diga.


E, para crentes e não crentes, há uma bela canção secular que pode ser cantada em momentos celebrativos, formativos, recreativos etc., sem melindrar nem uns nem outros, salvo os fundamentalistas, sejam crentes ou não, quero dizer: gente que, tendo fé ou não, é rígida, intolerante e acha que só a sua visão está certa.



Louvar
Cacaso e  Zé Miguel Wisnik


Me dá licença de cantar
Também de agradecer
Coragem pra querer
Um verso pra louvar
Louvar a gente do lugar
Louvar quem vai nascer
Quem vai permanecer
Também quem vai passar

E louva a Deus
Que vou louvar
O dia matinal
A fruta no pomar
A roupa no varal

Louvar a chuva de criar
A água de beber
O tempo de viver
A casa de morar
Bem-vinda minha senhora
Bendita nossa senhora
Bem-vinda minha senhora
Bendita

Aparecida e a Semiótica Religiosa.
O problema é a semiótica religiosa, com toda sua simbologia.
Não há como desprezar os símbolos, seus significantes e seus significados.
Cada religião tem os seus e eles são incorporados na alma de seus seguidores.
Assim era nas comunidades pioneiras, todos os símbolos registrados nas catacumbas. Assim é com as devoções da Piedade Popular, incluindo Aparecida.
Mexer com essa simbologia, é mexer em vespeiro!
Malvezzi (Gogó) no facebook

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