domingo, 27 de setembro de 2026

Louvar: quando a poesia faz morada na vida cotidiana. Por Zezito de Oliveira

 

Há poemas que não terminam quando chegamos ao ponto final. Eles continuam cantando. Saem do caderno, ganham melodia, atravessam casamentos e despedidas, moram em casas que nunca imaginamos. Um poema pode ter mais de uma voz, mais de uma música, mais de um destino — e ainda assim continuar sendo ele mesmo. É como se a poesia pedisse licença para morar na vida cotidiana, e a vida, sem cerimônia, lhe abrisse a porta. "Louvar" é desses poemas que não couberam no papel: virou duas canções, atravessou gerações, aprendeu a celebrar e a consolar. E segue encontrando gente disposta a cantá-lo, ouvi-lo e fazê-lo parte de suas próprias vidas. Porque há poemas que terminam no ponto final. Outros, como "Louvar", continuam cantando.

O que acontece com um poema depois que o poeta termina de escrevê-lo? Talvez essa seja uma pergunta mais interessante do que aquela que normalmente fazemos diante de uma obra de arte — o que o autor quis dizer? — porque, depois que sai das mãos de quem o criou, um poema pode ganhar outras vidas, outras vozes, outras interpretações e até destinos que seu autor jamais imaginou. É o que acontece com “Louvar”, poema de Cacaso musicado por José Miguel Wisnik e que, antes ou paralelamente a essa versão, recebeu outra melodia, de Cláudio Nucci, transformando-se em “Casa de Morar”. Uma mesma poesia encontrou, portanto, dois caminhos musicais, e o mais interessante é que Cacaso conheceu os dois e, segundo o relato de Wisnik, gostou que a sua versão também existisse.

Essa pequena história talvez diga mais sobre cultura do que a simples curiosidade de um poema ter recebido duas melodias. Ela nos coloca diante de uma questão que muitas vezes esquecemos quando falamos de arte: a obra não termina no autor, porque começa a ganhar novas dimensões justamente quando passa para as mãos, os olhos, os ouvidos e os afetos de outras pessoas. É nesse lugar que a história de “Louvar” me interessa, não apenas como episódio da trajetória de Cacaso ou da parceria entre Wisnik e Ná Ozzetti, mas como exemplo de uma poesia que foi encontrando diferentes maneiras de fazer sentido na vida de quem a recebeu.

Talvez seja possível chamar essa dimensão de liturgia do cotidiano, desde que não entendamos liturgia apenas em seu sentido religioso mais estrito. Penso na liturgia como aquilo que fazemos para celebrar, agradecer, reunir, lembrar e também nos despedir, porque a vida cotidiana possui seus próprios rituais, mesmo quando não os chamamos assim. Um casamento, uma festa, uma roda de conversa, uma despedida, uma reunião de amigos ou um momento de silêncio diante da perda são situações em que a música muitas vezes aparece para dizer aquilo que as palavras comuns não conseguem expressar completamente.

É nesse território que “Louvar” parece ter encontrado uma de suas dimensões mais fortes, não porque tenhamos encontrado uma declaração de Cacaso afirmando que escreveu o poema com uma intenção religiosa ou litúrgica, mas porque a própria recepção da canção criou essa possibilidade. E talvez seja justamente aí que uma obra cultural mostre sua vitalidade: ela não permanece presa à intenção inicial de quem a criou, mas vai adquirindo novos significados conforme circula entre diferentes pessoas, tempos e circunstâncias.

Um poema, duas maneiras de escutar

A história das duas musicalizações é, evidentemente, importante para compreender esse percurso. Por volta de 1984, Cacaso entregou a José Miguel Wisnik um pequeno caderno escrito e desenhado à mão, contendo o poema que Wisnik transformaria em “Louvar”. O que Wisnik não sabia naquele momento era que Cláudio Nucci já havia criado outra melodia para o mesmo texto, posteriormente registrada em Volta e Vai, de 1983, sob o título “Casa de Morar”.

Quando descobriu a existência da outra versão, Wisnik poderia ter entendido aquilo como uma sobreposição, uma disputa ou mesmo uma questão de precedência, mas o relato que chegou até nós aponta para outra direção. Segundo Wisnik, quando Cacaso tomou conhecimento das duas músicas, disse que gostava que a versão de Wisnik também existisse. A frase é simples, mas contém uma ideia de autoria e de circulação cultural que merece atenção, sobretudo em uma época em que tudo parece precisar de proprietário, exclusividade e controle.

Cláudio Nucci encontrou no poema uma “Casa de Morar”, enquanto Wisnik encontrou um “Louvar”, e Cacaso, ao que tudo indica, não sentiu necessidade de escolher entre os dois. Talvez porque soubesse, como poeta, que uma obra pode ser maior do que uma única interpretação e que a música não necessariamente fecha o sentido de um poema, podendo justamente abrir novas possibilidades de escuta.

Essa diferença entre os títulos também não é irrelevante. “Louvar” chama atenção para o gesto de celebrar, enquanto “Casa de Morar” desloca o olhar para um lugar de pertencimento, abrigo, convivência e memória. Uma palavra parece indicar uma ação e a outra uma imagem, mas as duas podem estar falando, por caminhos diferentes, de uma mesma necessidade humana de reconhecer aquilo que dá sentido à existência.

O cotidiano também pode ser lugar de celebração

A palavra “louvar” nos leva quase imediatamente para o campo religioso, mas talvez seja interessante não parar aí. O poema parece abrir espaço para uma percepção da vida a partir das coisas que estão próximas, das pessoas, dos afetos e das experiências que compõem o cotidiano, como se dissesse que não é preciso esperar o extraordinário para encontrar aquilo que merece reconhecimento.

Talvez a pergunta que fique seja justamente esta: o que deixamos de perceber porque nos acostumamos demais com aquilo que está diante dos nossos olhos?

Uma casa, uma pessoa querida, uma amizade, uma lembrança, um encontro, uma despedida e tantas outras experiências que parecem pequenas diante dos grandes acontecimentos da vida podem carregar uma densidade que só percebemos quando a perdemos ou quando alguém nos ajuda a olhar novamente para elas. É nesse sentido que gosto da expressão liturgia do cotidiano, porque ela permite pensar a cultura não apenas como espetáculo ou como produção artística destinada a um público, mas como experiência, memória e forma de atribuir significado à vida comum.

Isso também nos leva para um terreno importante quando discutimos políticas culturais, porque a cultura não acontece somente no palco, no museu, no teatro, no cinema ou nos grandes eventos promovidos pelo poder público. Ela acontece igualmente quando uma comunidade transforma uma música em memória, quando uma família escolhe uma canção para acompanhar uma cerimônia, quando alguém reencontra um poema depois de décadas e percebe que aqueles versos ainda conseguem dizer alguma coisa sobre o presente.

A cultura acontece quando as pessoas se apropriam dela e a incorporam às suas próprias experiências.

Do casamento à despedida

Há uma passagem na história de “Louvar” que torna essa dimensão ainda mais evidente. Em 1985, Ná Ozzetti cantou a música no casamento de José Miguel Wisnik e Laura Vinci, na presença do próprio Cacaso. Naquele momento, o poema já havia deixado de ser apenas um texto musicado e começava a cumprir outra função, entrando concretamente na vida das pessoas e passando a fazer parte de uma celebração que nada tinha de espetáculo público.

Anos depois, encontramos uma situação completamente diferente, mas que ajuda a revelar a mesma capacidade de acolhimento da canção. Alfredo Bosi relatou a emoção provocada por “Louvar” e lembrou que Wisnik cantou a música na missa de sétimo dia de Ecléa Bosi, que, segundo o relato, gostava da canção. Uma música que havia participado de uma celebração de casamento aparecia depois associada a uma cerimônia de despedida, e entre esses dois momentos estava toda a extensão de uma vida.

É difícil não perceber aí uma dimensão litúrgica, mas novamente é necessário distinguir aquilo que podemos documentar daquilo que podemos apenas interpretar. Não sabemos se Cacaso imaginava que seu poema seria utilizado dessa maneira, nem podemos afirmar que essa era sua intenção original. Sabemos, porém, que foi assim que a canção entrou na experiência de algumas pessoas, e isso também constitui a história de uma obra.

Quando uma música passa a acompanhar momentos importantes da vida, ela deixa de ser somente um objeto estético e começa a cumprir uma função afetiva e simbólica. Ela ajuda a celebrar, a lembrar, a organizar sentimentos e, em determinadas circunstâncias, a dizer aquilo que parece impossível dizer de outra maneira.

A casa como lugar de memória

A escolha de Cláudio Nucci pelo título “Casa de Morar” acrescenta outra camada a essa história. Se “Louvar” coloca em primeiro plano o gesto de celebrar, “Casa de Morar” coloca em primeiro plano o lugar onde a vida acontece, e talvez não seja difícil perceber a proximidade entre essas duas imagens, porque aquilo que celebramos costuma ser também aquilo que queremos preservar.

A casa não precisa ser entendida apenas como espaço físico. Pode ser uma pessoa, uma amizade, uma comunidade, uma memória, um território ou até uma canção que passou a fazer parte da nossa história. É nesse sentido que a gravação de Renato Braz, em 2012, ganha uma importância especial, porque ele não apenas recuperou “Casa de Morar”, como escolheu a composição de Cacaso e Nucci para dar nome ao próprio álbum.

Quase trinta anos depois da gravação de Cláudio Nucci, a canção voltava a circular pela voz de outro intérprete e alcançava uma nova geração. O poema continuava encontrando morada.

Essa permanência não é pouca coisa, sobretudo quando pensamos na quantidade de obras culturais que desaparecem mesmo depois de terem recebido algum reconhecimento em seu tempo. A memória cultural não funciona simplesmente pela importância que uma obra teve quando foi criada, mas também pela capacidade que ela encontra de ser retomada, reinterpretada e incorporada por novas gerações.

A memória também se constrói assim

A trajetória de “Louvar” apresenta movimento semelhante. Ná Ozzetti já cantava a música desde os anos 1980, mas a composição só seria registrada em disco em 2015, no álbum Ná e Zé. Três décadas haviam passado desde aquele casamento em que a canção foi cantada na presença de Cacaso, e quando finalmente chegou ao disco ela carregava consigo não apenas a composição, mas também toda a memória acumulada ao longo daquele tempo.

A gravação de 2015 registra uma música, mas registra também uma amizade, uma parceria, uma história e uma passagem do tempo. Talvez por isso algumas canções pareçam envelhecer de maneira diferente de outras: elas acumulam memória em vez de simplesmente envelhecer.

É curioso como determinadas obras conseguem sobreviver dessa maneira. Elas não permanecem vivas necessariamente porque estão sempre em evidência ou porque a indústria cultural continua oferecendo espaço para elas. Às vezes sobrevivem porque alguém guarda, alguém lembra, alguém canta, alguém conta a história, alguém resolve gravar novamente e, principalmente, porque outra pessoa está disposta a ouvir.

Quando isso acontece, aquilo que parecia pertencer ao passado volta a conversar com o presente.

Cultura é também apropriação

Há uma expressão muito utilizada quando discutimos políticas culturais: democratização do acesso. É uma dimensão fundamental, mas a história de “Louvar” ajuda a lembrar que existe outra questão igualmente importante, que é a possibilidade de apropriação.

Não basta que uma obra chegue às pessoas; é preciso que elas possam fazer alguma coisa com ela, seja cantando, reinterpretando, lembrando, levando para uma festa, associando a alguém que partiu, descobrindo décadas depois ou simplesmente incorporando aquela música à sua própria história.

É aí que a cultura deixa de ser apenas produto cultural e passa a ser experiência social.

Essa talvez seja uma das razões pelas quais a história de Cacaso conversa com aquilo que venho defendendo há muito tempo quando falo de ação cultural: cultura não é apenas aquilo que acontece para as pessoas, mas aquilo que pode acontecer com elas e, sobretudo, aquilo que elas conseguem fazer a partir dela.

“Louvar” é um pequeno exemplo disso. Cacaso escreveu o poema, Wisnik e Nucci o escutaram de maneiras diferentes, duas músicas nasceram, Ná Ozzetti e Renato Braz deram suas próprias vozes às composições e, ao longo do tempo, outras pessoas foram incorporando essas canções às suas memórias e experiências. A obra continuou circulando porque encontrou pessoas dispostas a fazer alguma coisa com ela.

O poema não termina no ponto final

Talvez por isso eu prefira perguntar menos “o que Cacaso quis dizer?” e mais “o que aconteceu com aquilo que Cacaso escreveu?”. A primeira pergunta procura uma resposta definitiva, enquanto a segunda acompanha a caminhada da obra e permite perceber que a cultura é feita também dessas sucessivas apropriações.

O poema saiu de um caderno, virou duas músicas, ganhou os nomes “Louvar” e “Casa de Morar”, foi cantado em um casamento, depois apareceu associado a uma cerimônia de despedida, tornou-se faixa de discos, voltou aos palcos, circulou pelo rádio e encontrou ouvintes que talvez nem soubessem da história que havia por trás daqueles versos.

Talvez seja isso que uma obra cultural faz quando permanece viva: muda de lugar sem deixar de ser ela mesma.

Cacaso morreu em 1987, mas aquele poema continuou circulando, não porque alguém tenha determinado que ele deveria permanecer vivo, mas porque encontrou morada em outras pessoas. E talvez “Casa de Morar” seja, nesse sentido, uma imagem especialmente bonita para pensar o próprio destino da cultura: ela precisa de lugares para morar, mas esses lugares não são necessariamente os livros onde foi publicada ou os arquivos onde foi guardada; podem ser as músicas, as vozes, as festas, os rituais, os territórios, as comunidades e as memórias de quem se apropriou dela.

E talvez “Louvar” seja o nome desse gesto de reconhecimento, de gratidão e de celebração daquilo que merece não ser esquecido.

No fim, talvez essa seja a história de Cacaso que mais interessa: não a história de um poema que recebeu duas músicas, embora isso seja extraordinário, mas a história de um poema que não parou de encontrar gente disposta a cantá-lo, ouvi-lo e fazê-lo participar da própria vida.

É aí que a poesia deixa de ser apenas palavra escrita e passa a fazer morada.

Nas pequenas liturgias do cotidiano, nos momentos em que celebramos quem chegou, lembramos quem partiu, reencontramos aquilo que julgávamos perdido e percebemos que a cultura não vive somente nos lugares onde costuma ser apresentada, mas também — e talvez principalmente — nos lugares onde as pessoas fazem dela parte de suas próprias vidas.

Alguns poemas terminam quando chegamos ao ponto final. Outros continuam cantando. “Louvar” parece ser um deles.

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