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domingo, 4 de agosto de 2013

Belissima homenagem ao amado Dominguinhos. - É forró no céu, comandado por Gonzagão



Fonte: Jornal “O Globo”
 
“Armaria, mãinha! Nãn! Quem é esse neném deitado em minha manjedourazinha?”
— É Dominguinhos, meu filho. O maior sanfoneiro do Universo. Fale baixo, Joshua, que ele precisa descansar. Fez uma viagem longa, está enfadado. Vá brincar com seus novos amigos, esse anjinhos que chegaram ainda há pouco da Palestina e das favelas pacificadas do Rio de Janeiro para a visita do Papa.
Nem bem falou Nossa Senhora, toda zelosa pelo sono do recém-chegado, e ouviu-se uma voz de trovão. Não era Deus.
— Acorda, seu Dominguinhos! Oxente! Amofinou-se, o homem? Acorda, seu Dominguinhos, que eu, Sivuca, Jackson do Pandeiro, Marinês e João do Vale queremos fazer um fuá com vosmicê.
Não era Deus. Era Luiz Gonzaga, quase Deus, já levantando o manto azul que Nossa Senhora havia colocado delicadamente sobre o corpo e a alma calma do sanfoneiro de Garanhuns, de Pernambuco, do Brasil, do Universo. E Nossa Senhora não teve nem tempo nem jeito de segurar os forrozeiros comandados pelo Rei do Baião, já tudo no pé da porta querendo dar as boas-vindas e tocar música boa com ele. E foi assim que Dominguinhos ressuscitou logo no primeiro dia. Pegou uma sanfona novinha trazida por Santa Luzia e está tocando e cantando com seus parceiros. A semana no céu agora não tem segunda, terça, quarta, quinta, sexta nem sábado. Todo dia é Dominguinhos. Dominguinhos vive, viva Osvaldinho do Acordeon! Dominguinhos vive, viva Camarão! Dominguinhos vive, viva Richard Galliano! Viva todos os sanfoneiros do mundo!
O mais universal dos acordeonistas vinha adoentado já há alguns anos, mas era só poder sair do hospital e já caía na estrada, ele mesmo dirigindo a caminhonete, revezando-se com um motorista. Gostava de dirigir, tinha medo de avião. E conhecia bem as estradas do Brasil. Era alguém estar perdido nas imensidões do Brasil e ligava pra ele. Bastava dizer onde estava e ele ensinava o melhor caminho para chegar. Uma espécie de Google Maps da música brasileira. Percorreu muito o nosso país. Primeiro com Luiz Gonzaga. Depois com Anastácia, Gilberto Gil, Gal Costa, fazendo o seu próprio trabalho solo.
Quando não estava na estrada, ou nos hospitais dos últimos tempos, enfiava-se em estúdios, onde quer que estivesse, para gravar, fazer participações em discos de iniciantes, desconhecidos, parceiros, gentes de outros estilos. Gostava de se misturar, de levar sua musicalidade única a todos os lugares, todos os sons, todos os sentidos. Talvez por isso mesmo tenha contagiado imensamente a música brasileira e influenciado praticamente todos os sanfoneiros seus contemporâneos e os que vieram depois dele. Se bem que, para ele, o tempo não parecia assim dividido em antes, durante e depois. Era como se vivesse num contínuo. Tudo sendo durante, como agora.
O acordeonista francês Richard Galliano chora de emoção no filme “Paraíba meu amor”, do diretor franco-suíço Bernard Robert-Charrue, ao encontrar-se pela primeira vez com Dominguinhos. Sempre que vinha ao Brasil, procurava os discos do sanfoneiro pernambucano em lojas e sebos. Era um ídolo, uma referência. No período em que Dominguinhos esteve enfermo, quando o hospital já não mais o devolveu para a amada estrada e aos estúdios, Richard Galliano fez uma música pra ele, uma linda melodia. Enquanto dormia Dominguinhos inspirou muitos outros artistas daqui e de alhures a compor pra ele, inspirados nele, canções de ninar, canções de acordar. Mas dessa vez ele só foi mesmo acordar no outro mundo, sob o manto azul da Santa, com a voz de trovão de Gonzagão e os resmungos do Menino Jesus por causa do empréstimo de sua manjedoura.
Dominguinhos vive, viva Dominguinhos!

Chico César
Cantor, compositor e secretário de Cultura da Paraíba 
Leia também: Dominguinhos nos braços da paz.  AQUI

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