sexta-feira, 3 de abril de 2026

A IGNORÂNCIA, como projeto! Por Diorge Konrad

Durante muito tempo, a gente aprendeu que ignorância era só falta de informação. Que bastava ensinar melhor, divulgar mais, explicar com paciência. Esse raciocínio parte de uma ideia confortável: a de que todo mundo erra sem querer. Até que alguém resolveu olhar para o problema por outro ângulo e perguntar o que acontece quando a ignorância não é um acidente, mas um projeto.

Foi aí que conheci o trabalho de Robert Proctor, historiador da ciência, professor em Stanford, e o homem que deu nome a esse mecanismo desconfortável chamado agnotologia. Agnotologia é o estudo da produção deliberada da ignorância. Não do erro honesto. Não da dúvida legítima. Mas da ignorância construída com método, dinheiro, estratégia e paciência histórica.

Proctor chegou a isso estudando a indústria do tabaco. E aqui vale ser bem didático. Nos anos 1950, a ciência já havia identificado com clareza a relação entre cigarro e câncer de pulmão. O consenso estava se formando. O que a indústria fez não foi negar frontalmente esses estudos. Isso seria fácil de desmontar. O que ela fez foi algo muito mais sofisticado.

Ela financiou pesquisas paralelas, pagou especialistas para relativizar conclusões, criou institutos “independentes” e passou a repetir uma frase-chave: “a ciência ainda não é conclusiva”. Não era mentira direta. Era fabricação de dúvida. O objetivo não era convencer as pessoas de que fumar fazia bem. O objetivo era fazer com que elas pensassem que ainda era cedo demais para ter certeza.

Aqui está o ponto central da agnotologia: não se trata de convencer, mas de paralisar. Se existe dúvida, não há urgência. Se há controvérsia então, não há decisão. Se tudo parece incerto, ninguém precisa agir agora.

Esse método deu tão certo que passou a ser reutilizado. Mudam os temas, mas a engrenagem é a mesma. Mudanças climáticas, por exemplo. Durante décadas, empresas financiaram campanhas não para negar o aquecimento global, mas para transformá-lo em “debate”. O planeta aquecia, os dados se acumulavam, mas a pergunta pública permanecia sempre a mesma: “Será mesmo?”

Vacinas seguiram caminho parecido. Não foi preciso provar que elas não funcionam. Bastou sugerir que talvez não fossem tão seguras assim, que talvez ainda houvesse algo escondido, que talvez fosse melhor esperar. A dúvida virou produto. A hesitação virou comportamento social.

História também entra nessa conta. Quando tudo vira “versão”, quando fatos documentados passam a disputar espaço com opinião, quando arquivos viram narrativa opcional, a ignorância deixa de ser ausência e passa a ser política. Não é esquecimento. 

É uma escolha.

A agnotologia não nasceu na filosofia, mas dialoga diretamente com ideias que muita gente já sentiu na pele sem saber nomear. Michel Foucault já havia mostrado como saber e poder caminham juntos, como certos discursos ganham status de verdade enquanto outros são empurrados para a margem. Proctor mostra o outro lado da moeda: não apenas o que é dito, mas o que é sistematicamente impedido de ser sabido.

Décadas depois, pesquisadores como Naomi Oreskes deixaram isso ainda mais explícito ao analisar como a dúvida científica foi usada como arma política no debate climático. Não se vence a verdade com mentira escancarada. Vence-se desgastando-a, cercando-a de ruído, colocando-a no mesmo nível de qualquer palpite. Quando tudo vira opinião, a verdade deixa de ter urgência.

Esse mecanismo fica ainda mais eficiente quando encontra um terreno fértil chamado dissonância cognitiva. Um conceito da psicologia formulado por Leon Festinger, que explica algo simples e profundamente humano. A gente não gosta de informações que nos obrigam a rever quem somos, no que acreditamos ou ao grupo ao qual pertencemos. Quando uma informação ameaça nossa identidade, o cérebro não reage buscando verdade. Ele reage buscando alívio.

E a dúvida fabricada oferece exatamente isso. Ela não exige mudança. Não cobra revisão. Não pede desconforto. Ela apenas sussurra: “calma, talvez não seja bem assim”. A agnotologia não precisa criar essa tensão. Ela só precisa explorá-la.

As redes sociais transformaram esse processo em escala industrial. Algoritmos aprenderam a entregar conforto cognitivo com precisão assustadora. Se você acredita em algo, sempre haverá um conteúdo dizendo que você tem razão em duvidar do resto. Nesse ambiente, a ignorância não precisa ser imposta. Ela passa a ser escolhida.

Eu faço questão de falar disso aqui porque entender esse mecanismo é uma forma de defesa. Não contra pessoas, não contra ideias específicas, mas contra estruturas invisíveis que moldam o debate público. A melhor forma de se prevenir é entender o mecanismo. A agnotologia não te transforma automaticamente em alguém mais informado ou mais inteligente. Ela te transforma em alguém mais atento. E atenção, hoje, é um ato quase subversivo.

Talvez você nunca tenha ouvido essa palavra antes. E tudo bem. Ela não costuma circular fora da academia justamente porque nomear o problema é o primeiro passo para desmontá-lo. Mas o efeito dela está por toda parte. Nos debates que nunca avançam. Nas discussões que se repetem em círculos. Na sensação constante de que algo está errado, mas nunca errado o suficiente para exigir mudança imediata.

Quando identidade vira trincheira, qualquer dúvida que proteja essa identidade parece virtude. É assim que a guerra cultural se alimenta. Não pela força da verdade, mas pelo conforto da hesitação. Em certos momentos da história, não é a mentira que vence. É a dúvida bem administrada.

E é exatamente por isso que escrever este texto me dá um tipo específico de orgulho. Não aquele orgulho inflado, performático, mas um orgulho quieto, quase teimoso. O de continuar falando de coisas difíceis num tempo em que o fácil viraliza mais rápido. O de explicar um conceito pouco conhecido quando o mundo parece preferir gritar certezas rasas.

Com tudo o que tem acontecido comigo, com o debate público e com o próprio planeta, sentar para escrever sobre isso é, para mim, uma forma de resistência lúcida. E também um gesto de confiança em quem ainda lê com atenção. Se isso aqui servir como munição para quem pensa criticamente, mesmo que só para reconhecer a engrenagem, já valeu.

(*) é doutor em História do Trabalho pela Unicamp – SP

PROFESSORA DE HISTÓRIA BOLSONARISTA SE CONFUNDE COMPLETAMENTE E ERRA TUDO O QUE FALA | Galãs Feios


O que já está sendo feito e o que pode ser ainda mais realizado para combater esse fenômeno da agnotologia.

Litígios e investigações legislativas (modelo do tabaco)

Nos EUA e na Europa, processos judiciais contra empresas de combustíveis fósseis (Exxon, Shell) usam documentos internos para provar que elas sabiam dos danos climáticos décadas atrás, mas financiaram a dúvida. Isso é agnotologia sendo combatida no campo legal.

Jornalismo investigativo e fact-checking

Agências como Lupa, Aos Fatos (Brasil), Snopes, Full Fact (UK) desmontam não apenas mentiras, mas a criação de falsas controvérsias. Elas identificam quando uma “dúvida legítima” foi fabricada.

Divulgação científica e educação midiática

Projetos como Science Vs (podcast), Crash Course (YouTube) e currículos escolares de media literacy (Finlândia, por exemplo) ensinam a identificar táticas de relativização, não apenas fatos.

Regulação de plataformas digitais

O DSA (Lei de Serviços Digitais, na UE) exige que grandes plataformas mitiguem riscos sistêmicos à informação pública. No Brasil, o PL 2630 (em debate) prevê transparência de algoritmos – essencial para expor como a dúvida é amplificada.

Movimentos de transparência científica

Iniciativas como AllTrials (exigem registro público de todos os ensaios clínicos) e Retraction Watch (monitoram estudos fraudulentos) reduzem o espaço para “pesquisas paralelas” financiadas por interesses.

O que pode ser ainda mais realizado (ações necessárias e pouco exploradas)
1. Criar um “índice de dúvida fabricada” (rastreabilidade tática)
Assim como há índices de desinformação, poderíamos mapear padrões de argumentação típicos da agnotologia: “a ciência não é conclusiva”, “faltam mais estudos”, “ambos os lados têm razão”. Um banco de dados público dessas frases, com origem financeira e histórica, desnudaria o método.

2. Responsabilizar “fabricantes de dúvida” criminalmente em casos de dano grave (saúde, clima)
Se a indústria do tabaco foi condenada nos EUA por fraude (não por fumar, mas por mentir sistematicamente), por que não aplicar o mesmo raciocínio a empresas que, sabendo dos riscos, financiaram institutos para semear hesitação vacinal ou negacionismo climático? Ações penais por dolo eventual são possíveis.

3. Ensinar agnotologia como disciplina obrigatória no ensino médio
Não basta aprender sobre fake news. É preciso aprender sobre a fabricação da dúvida. Isso envolve história da ciência, epistemologia e psicologia cognitiva (dissonância). A Finlândia já faz algo próximo – mas focado em fact-checking, não em mecanismos estruturais.

4. Regular o financiamento de “institutos de pesquisa” de fachada
Muitos think tanks que produzem dúvida são juridicamente “independentes”, mas 100% financiados por setores econômicos. Uma lei que exija declaração pública de todos os financiadores acima de 5% da receita, com penalidade por omissão, dificultaria o anonimato da produção de ignorância.

5. Criar selos de “integridade de controvérsia” para veículos de comunicação
Um selo certificador (por universidades ou consórcios de jornalismo) que ateste: “Esta controvérsia tem base científica real, não foi fabricada”. O oposto seria um selo vermelho: “Há evidência de produção deliberada de dúvida neste tópico”. Isso mudaria o incentivo econômico – ninguém quer ser rotulado como disseminador de ignorância organizada.

6. Algoritmos que desacelerem a dúvida fabricada, não apenas removam mentiras
Atualmente, plataformas removem falsidades explícitas, mas a dúvida (“será mesmo que…?”) permanece porque é mais sutil. Um algoritmo poderia identificar padrões de hesitação repetitiva sem evidência nova e reduzir seu alcance orgânico – não por censura, mas por critérios de relevância informacional.

7. Campanhas de “inoculação psicológica” (psychological inoculation)
Pesquisas (como as de Sander van der Linden) mostram que expor as pessoas a uma versão enfraquecida da tática de manipulação, com aviso prévio, gera resistência. Exemplo: mostrar um anúncio antigo do tabaco (“a ciência ainda não é conclusiva”) e explicar a técnica antes que ela seja usada sobre vacinas ou clima.

8. Criar um fundo global de resposta rápida à agnotologia
Quando surgir uma nova controvérsia fabricada (ex.: inteligência artificial maléfica, transgênicos, cloroquina), um consórcio de cientistas, comunicadores e psicólogos poderia lançar em 48 horas uma contranarrativa estrutural – não apenas factos, mas expondo quem financia a dúvida, com que método, há quanto tempo.

Conclusão (alinhada ao espírito do texto)
Nomear o problema é o primeiro passo. O segundo é tratar a agnotologia não como falha individual de informação, mas como crime epistêmico organizado. Hoje, combatemos mentiras. Mas a dúvida fabricada é mais resiliente – porque se disfarça de prudência, modéstia científica ou abertura ao debate.

O que pode ser feito a mais é mudar a pergunta. Deixar de só perguntar “isso é verdade?” e passar a perguntar “por que essa dúvida ainda existe?” – e quem se beneficia com ela. Enquanto não houver responsabilização jurídica, desenho algorítmico defensivo e educação sistemática sobre esse mecanismo, a ignorância continuará sendo um projeto lucrativo.
Com IA Deepseek 


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