Jovem negro e favelado é injustamente preso por semelhança em álbum policial, mas libertado após amigos músicos tocarem em frente ao presídio em ato de resistência e comoção social.
A arte como arma: foto no Turano faz parte do Favelagrafia Foto: Anderson Valentim/Favelagrafia
Justino
Justino, o filho do Justo, aquele que se
apega à Justiça. Nome que veio do avô como honra ao passado e promessa de
futuro. Menino nascido no Morro da Grota, um daqueles
lugares que a cidade esquece como se quisesse fazer sumir da paisagem; mas
que não consegue.
A cidade do Rio de Janeiro é emoldurada
pelos morros.
Morros de tirarem o fôlego até encontrarem
céu e mar.
Mãe lavadeira, pai ausente, o menino
cresceu entre barracos e ladeiras, sempre com o ouvido atento aos sons do mundo.
Numa manhã de sábado, assistiu uma apresentação musical com instrumentos e
arranjos diferentes dos que estava acostumado a escutar. Era uma Orquestra Sinfônica
apresentando-se na quadra da Escola de Samba.
Foi quando o destino afinou a alma dele com
a música.
Na profusão de instrumentos, um, em
especial, chamou a atenção do menino: o violoncelo.
Violoncelo, uma caixa de ressonância com
braço e cordas a transmitir tristeza e felicidade. Corpo de madeira escura que
mais parecia o corpo de uma mulher que chorava e se alegrava ao mesmo tempo. O instrumento
fez com que ele se encantasse até o último acorde.
No dia seguinte o menino já dedilhava
cordas de arame num instrumento improvisado em madeiras de caixa de feira. O
gosto era tanto que a mãe decidiu inscrever o filho em oficinas de música que
estavam a acontecer no Ponto de Cultura existente na favela.
Anos passaram-se.
Justino teve a vida guiada pelo compasso
da música em sinfonia. De posse de seu violoncelo, podia ensaiar em casa todos
os dias. Também fez do instrumento seu meio de trabalho, apresentando-se em
escolas ou padarias, festas ou pequenos concertos. Por toda favela Justino
seguia com seu violoncelo nas costas. Os ombros haviam se amoldado ao peso do
instrumento. Ele atravessava becos, vielas, tomava ônibus lotado. Sempre com o
instrumento nas costas. Jovem negro, favelado, carregado o violoncelo. E
suportando olhares desconfiados.
Um crime no caminho
Era domingo.
O rapaz acordou cedo, como sempre.
Desceu o morro, como sempre.
Dirigia-se à padaria próxima à favela, onde
iria tocar na hora do almoço.
Repertório ensaiado, camisa lavada e
passada pela mãe, esperança nos olhos.
No meio do caminho houve um crime.
Não importa qual,
nem quem o cometeu.
Para essa história
só importa uma coisa, o violoncelista de pele negra foi o acusado. Como prova, a
imagem dele identificada em um álbum de fotografias da polícia. Nada mais. Nenhuma
testemunha além daquela que identificou o rosto do jovem negro no álbum da
polícia.
Nenhuma arma.
Nem o resultado do
roubo.
Nada mais.
Só uma prova: a cor
da pele.
Identificado como
criminoso, Justino foi acusado pela Justiça por assalto à mão armada. De nada
adiantaram as provas de inocência, abundantes, registradas em foto e vídeo. Tampouco
as declarações da dona da padaria que o contratou. Nem os depoimentos de
conhecidos, da gente do Ponto de Cultura, do maestro. Nem o histórico de bom
rapaz. Nada.
Nada mais contou.
Nem os vídeos do público que o gravara tocando Bach na padaria. Ele já havia
sido parado antes, numa dessas batidas policiais, e fora fotografado. Estava no
álbum como suspeito. Uma testemunha o havia identificado. Já era o suficiente.
Era negro, carregava um estojo grande nas costas, que facilmente poderia
esconder uma arma, o produto do roubo.
Ao ver a foto, a
vítima afirmou atordoada:
- Foi ele!
A história persiste.
Teima, enfrenta,
afronta, condena.
Ele era negro, carregava a culpa. A juíza, olhos treinados em papéis, não quis assistir os vídeos nem
escutar os sons. Conduziu-se apenas pelos autos, pelo depoimento da vítima e a
acusação dos policiais. As demais testemunhas não estavam no local do
acontecido. Eram só declarações. E os vídeos poderiam ter sido gravados em
outra data, foi o que alegou a Justiça, desconfiada. Não importava que a arma
do crime ou o fruto do roubo não tivessem sido encontrados. A epiderme foi a
prova inconteste.
Condenado por semelhança em álbum de
delegacia, Justino foi trancado no presídio de Benfica. Lá onde a cidade
abandona aqueles que quer fazer sumir da paisagem.
O som da sinfonia
foi substituído pelo som do sofrimento.
Entre grades, o
jovem sentia-se só.
Mas não foi
abandonado.
A Sinfonia
Como a Cultura Viva
que se faz viva por todas as formas e jeitos, jovens da Orquestra da Grota, irmãos e irmãs de som e
favela, vestiram suas roupas mais solenes, lavadas e perfumadas pelas mães.
Foram ao presídio carregando seus instrumentos musicais como quem caminha para
uma batalha.
Apresentaram suas
armas:
flautas e
harmônicas,
violas, violinos,
violoncelo.
Na porta do presídio, levantaram-se e afinaram os instrumentos.
E ali, tocaram. Tímidos, depois firmes.
A flauta soou como prece.
O violino, rasgou o ar como lamento.
As violas ressoaram como chamado à luta...
...até que o arco do violoncelo rompeu o muro do presídio e
atravessou as grades. Lá dentro, carcereiros baixaram os olhos e os presos se
colocaram em reverência.
A cidade ouviu.
Alguém gravou.
O vídeo correu.
A história circulou.
Dias depois o portão se abriu.
Lento, como se ao mundo pedisse perdão. Dele saiu Justino com o
violoncelo nas costas, como escudo, como resposta. O jovem violoncelista caminhou
em direção aos amigos que o esperavam. Sentou-se no asfalto, pegou o violoncelo
e começou a tocar.
Pura poesia!
Partitura viva de um povo que insiste em compor a sua Sinfonia como
Justiça.
Desafiaram o
silêncio.
Jovens negros,
pobres, favelados, desprezados.
Armados com arcos
de crina de cavalo, violinos e violoncelos de pau-brasil.
Tocaram cordas pela
liberdade do amigo.
Pela música
ergueram-se em desassombro.
Nas portas do
presídio a orquestra persistente apresentou a Sinfonia daqueles que resistem.
Arte, sons de luta
e libertação mudam os destinos do mundo.
E mudaram o destino
de Justino.
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