terça-feira, 28 de abril de 2026

Viva-SE: entre o avanço da infraestrutura cultural e a ausência da visão cultura viva (*)

 Programa Viva-SE integra projetos que fortalecem a cultura e o turismo em Sergipe

Iniciativa compreende 19 intervenções com foco no desenvolvimento sustentável, valorização da sergipanidade e fomento à economia criativa

O fortalecimento da sergipanidade e o legado cultural do Estado são base para a implementação do Programa Integrado de Desenvolvimento Cultural e Turístico de Sergipe (Viva-SE), que já iniciou sua fase de execução. A primeira ordem de serviço, para implantação da Pinacoteca de Sergipe, foi assinada neste mês pelo governador Fábio Mitidieri. Ao todo, o programa reúne 19 projetos voltados à cultura e ao turismo, com foco na transformação social, desenvolvimento sustentável e fomento à economia criativa.

Instituído pelo Governo de Sergipe, através da Secretaria Especial de Planejamento, Orçamento e Inovação, da Cultura, Secretaria de Estado do Turismo, do Trabalho, do Emprego e do Empreendedorismo (Seteem), de Desenvolvimento Urbano e Infraestrutura (Sedurbi) e Fundação de Cultura e Arte Aperipê (Funcap), em parceria com o Instituto Banese, o programa é viabilizado por meio de operação de crédito com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com investimentos totais de R$ 195 milhões, aprovado na Assembleia Legislativa de Sergipe. 

O secretário Especial de Planejamento, Orçamento e Inovação, Julio Filgueira, destaca o Viva-SE como um projeto de democratização ao acesso  à cultura. “É um trabalho realizado de forma multidisciplinar, com um alinhamento entre várias secretarias e órgãos do Estado, para alcançar aquilo que a gente mais deseja: a valorização da nossa cultura e da nossa sergipanidade. O objetivo é preservar e democratizar o acesso à cultura no nosso estado, impulsionar o desenvolvimento sustentável e fomentar a economia criativa, respeitando as particularidades de cada região. Temos muitas entregas pela frente para fazer com que as manifestações culturais e o turismo em Sergipe sejam cada dia mais valorizados”, ressaltou.

Para além do resgate e preservação do patrimônio sergipano, os projetos do Viva-SE caracterizam-se também como vetores de transformação social, com a finalidade de impulsionar o desenvolvimento sustentável por meio da implementação de novos espaços de fomento à cultura e à economia criativa em diversas regiões de Sergipe, com foco na singularidade e especificidade de cada local.

Segundo o secretário Especial de Cultura, Valadares Filho, além da instalação de novos instrumentos turísticos, o projeto busca ainda a valorização dos espaços já existentes e a pluralidade, com destaque para a importância do turismo religioso e cultural.

“O Viva-SE é um programa que pensa a cultura como vetor de desenvolvimento para Sergipe. Ele integra patrimônio, identidade, turismo e economia criativa, respeitando a história de cada território e, ao mesmo tempo, projetando esses espaços para o futuro. Estamos falando de uma política pública estruturante, que articula diferentes órgãos, fortalece a rede de equipamentos culturais e amplia o acesso da população à cultura. O Governo de Sergipe colocando a cultura como sinônimo de desenvolvimento", enfatizou. 

Principais intervenções

O Viva-SE é composto por 19 projetos divididos entre implantação, instalação e revitalização de equipamentos. Entre as principais intervenções, destaca-se a Pinacoteca, um espaço permanente para exposição, curadoria e educação cultural, que será instalado no Centro de Aracaju, com o objetivo de valorizar o acervo público de artes visuais. Também em Aracaju, o Mirante de Santo Antônio será um espaço destinado à contemplação da vista da cidade na colina do bairro Santo Antônio. 

A Casa do Artesanato Sergipano abrange oito territórios com o objetivo de potencializar a cadeia produtiva do artesanato sergipano e valorizar as tipologias regionais. O Museu do Forró será um espaço dedicado à valorização do forró, reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial de Sergipe, no Complexo Cultural Gonzagão, em Aracaju. O Vila Vaticano trata-se de um projeto de revitalização urbana de casarões históricos no Centro de Aracaju, com foco em direcionar novos usos aos espaços e promover o turismo na região central da capital.

Ao todo, serão instalados cinco memoriais regionais que funcionarão como espaço para exposição, valorização e preservação das manifestações culturais, são eles: Memorial Arthur Bispo do Rosário, em Japaratuba; Memorial Escritor Francisco Dantas, em Riachão do Dantas; Memorial do Vaqueiro, em Porto da Folha; Memorial dos Náufragos de Sergipe, em Aracaju; e Memorial do Cangaço, também em Aracaju.

Como preservação da memória religiosa dos sergipanos e sergipanas, o Viva-SE inclui o roteiro turístico-religioso denominado Caminho do Crepúsculo de Santa Dulce dos Pobres, em São Cristóvão, intervenção que refaz o trajeto de chegada da Irmã Dulce a São Cristóvão, da estação do trem até o Convento dos Carmelitas, na Igreja Nossa Senhora do Carmo.

Reformas de equipamentos culturais

O Programa Viva-SE engloba também o restauro e revitalização de equipamentos culturais. Em agosto do ano passado, o Governo de Sergipe reuniu gestores e especialistas no Seminário de Gestão de Espaços Culturais para debater os novos rumos, desafios e tendências na preservação e funcionamento de espaços públicos que acolhem diversas manifestações culturais sergipanas.

Entre as instalações que serão restauradas, a Biblioteca Estadual Epiphânio Dória, em Aracaju, receberá reforma e modernização tecnológica. Ainda em Aracaju, o Museu da Gente Sergipana passará por modernização tecnológica do acervo e reforma da estrutura física, enquanto o Palácio Museu Olímpio Campos será reformado e modernizado, com foco em ampliar o acesso à memória política e histórica de Sergipe.

Museus históricos como o Museu Histórico de Sergipe e a Casa do Patrimônio do Iphan, em São Cristóvão, e o Museu Afrobrasileiro de Sergipe e Casa de Cultura João Ribeiro, em Laranjeiras, também receberão restauro e modernização.

https://www.se.gov.br/agencia/noticias/governo/programa_viva_se_integra_projetos_que_fortalecem_a_cultura_e_o_turismo_em_sergipe

Etapas

Em relação aos componentes do programa, seis estão em etapa avançada, com perspectivas de inauguração até dezembro deste ano. Das 19 intervenções, sete estão em etapa de desenvolvimento, com perspectivas de início das obras até o final de 2026. Três componentes estão com projetos e ou licitações em andamento.

Municípios e projetos do Viva-SE

Município Projeto / Equipamento

Aracaju Pinacoteca de Sergipe, Mirante de Santo Antônio, Memorial dos Náufragos, Memorial do Cangaço, Museu do Forró, Biblioteca Epiphânio Dória, Palácio Museu Olímpio Campos, Museu da Gente Sergipana, Vila Vaticano, Casa Master do Artesanato (Orla da Atalaia), Ver de Tototó 

São Cristóvão Museu Histórico de Sergipe, Casa do Patrimônio do Iphan, Caminho do Crepúsculo de Santa Dulce dos Pobres 

Laranjeiras Museu Afrobrasileiro de Sergipe, Casa de Cultura João Ribeiro, Museu Histórico 

Japaratuba Memorial Arthur Bispo do Rosário 

Riachão do Dantas Memorial Escritor Francisco Dantas 

Porto da Folha Museu do Vaqueiro 

Campo do Brito Memorial Regional 

Canindé de São Francisco Veredas do Sertão (projeto de valorização territorial) 

Observações importantes

Casa do Artesanato Sergipano: O programa prevê a instalação de unidades em oito territórios do estado, contemplando múltiplos municípios. 

Abrangência total: De acordo com informações divulgadas pelo Governo do Estado em parceria com o BNDES, o programa contempla mais de 30 municípios sergipanos .

Projetos em Aracaju: A capital concentra o maior número de intervenções, com pelo menos 10 equipamentos culturais sendo implantados ou revitalizados .

Atualização do programa: O Viva-SE foi apresentado inicialmente com 15 projetos , sendo posteriormente ampliado para 19 intervenções , com investimento total de R$ 195 milhões .

Caso necessite de informações sobre outros municípios específicos não listados, posso aprofundar a busca.


Investimento do Governo Federal no Viva-SE

Valor total: R$ 195 milhões 

Este montante é viabilizado por meio de operação de crédito com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) , aprovada pela Assembleia Legislativa de Sergipe .

Há uma variação na informação sobre o valor exato financiado pelo BNDES:

R$ 180 milhões — valor mencionado pela diretora Socioambiental do BNDES, Tereza Campello, como recursos de financiamento do banco, com prazo de pagamento de até 34 anos .

R$ 195 milhões — valor total do programa, que inclui investimentos do governo estadual (contrapartida) e a operação de crédito com o BNDES .

Etapas deexecução

O programa está dividido em três etapas :

Primeira etapa (R$ 48 milhões já aprovados) :

Pinacoteca de Sergipe (ordem de serviço assinada em fevereiro)

Mirante de Santo Antônio

Memoriais regionais (Escritor Francisco Dantas e Arthur Bispo do Rosário)

Museu do Vaqueiro (Porto da Folha)

Casas do Artesanato Sergipano

Segunda etapa (início das obras previsto até dezembro de 2026):

Reforma da Biblioteca Epiphânio Dória

Restauração dos museus históricos de São Cristóvão e Laranjeiras

Museu do Forró

Caminho do Crepúsculo de Santa Dulce dos Pobres

Memorial dos Náufragos

Terceira etapa:

Vila Vaticano

Museu do Cangaço

Rota turística fluvial Ver de Tototó

Museu da Gente Sergipana

Estrutura de governança

O programa é coordenado por múltiplos órgãos estaduais :

Secretaria Especial de Planejamento, Orçamento e Inovação (Seplan)

Secretaria de Estado da Cultura (Secult)

Secretaria de Estado do Turismo (Setur)

Secretaria do Trabalho, Emprego e Empreendedorismo (Seteem)

Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Infraestrutura (Sedurbi)

Fundação de Cultura e Arte Aperipê (Funcap)

Instituto Banese

Nota importante: O BNDES, embora seja um banco público federal vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, atua na modalidade de financiamento (operação de crédito), não se tratando de repasse direto de recursos do Orçamento Geral da União. O programa Viva-SE é uma iniciativa do Governo de Sergipe, viabilizada por meio de captação de recursos junto ao BNDES .

Abaixo,  análise comparativa do programa VIVA_SE com o conteúdo sobre politica e gestão cultural publicada no blog da cultura. Com utilização de IA

O lançamento do Programa Viva-SE, com investimento de R$ 195 milhões do BNDES, representa um dos maiores esforços recentes do Governo de Sergipe na área cultural. Ao articular patrimônio, turismo e economia criativa, o programa sinaliza uma compreensão importante: a cultura não é apenas expressão simbólica, mas também vetor de desenvolvimento.

No entanto, quando analisado à luz das críticas, propostas e reflexões acumuladas por agentes culturais sergipanos — especialmente aquelas sistematizadas no blog da Cultura — o Viva-SE revela tanto avanços significativos quanto lacunas estruturais.

O que o programa acerta

É inegável que o Viva-SE responde a uma demanda histórica do campo cultural: a necessidade de investimento público consistente. Durante anos, uma das principais reclamações dos agentes culturais foi o abandono de equipamentos, a precariedade de museus e a ausência de políticas estruturantes.

Nesse sentido, iniciativas como a criação da Pinacoteca, os memoriais regionais, a modernização de museus e a recuperação de espaços históricos dialogam diretamente com essa crítica. O mesmo vale para o reconhecimento de expressões culturais como o forró e o artesanato, frequentemente apontados no blog como pilares da identidade sergipana.

Outro ponto positivo é a tentativa — ainda que parcial — de interiorização. A presença de ações em municípios fora da capital responde a uma reivindicação recorrente: a descentralização das políticas culturais.

Onde o programa não alcança

Apesar desses avanços, o Viva-SE mantém um padrão já criticado de forma insistente no blog da Cultura: o foco predominante em infraestrutura, em detrimento dos sujeitos da cultura.

Diversos textos disponíveis no blog  apontam que a principal fragilidade das políticas culturais não está apenas na ausência de espaços, mas na falta de apoio direto aos agentes culturais — grupos, coletivos, artistas e pontos de cultura que sustentam a produção cotidiana.

Nesse aspecto, o programa é silencioso. Não há detalhamento sobre:

mecanismos de fomento direto

políticas continuadas de apoio

financiamento para manutenção de grupos culturais

A consequência desse modelo já é conhecida: equipamentos culturais que, sem política de ocupação e financiamento, tornam-se subutilizados ou desconectados da realidade local.

A ausência de participação social

Outro ponto crítico, amplamente debatido no blog, é a fragilidade da participação social. O campo cultural sergipano tem reivindicado maior protagonismo na formulação das políticas públicas, por meio de conselhos, fóruns e redes.

O Viva-SE, entretanto, é apresentado como uma política construída de forma institucional, com articulação entre secretarias, mas sem evidência de processos estruturados de escuta da sociedade civil.

Essa ausência compromete um princípio fundamental das políticas culturais contemporâneas: a gestão compartilhada.

Cultura viva versus cultura como produto

O programa também reforça uma tendência que aparece com frequência nas críticas do blog: a aproximação entre cultura e turismo. Embora essa integração possa gerar զարգացման econômico, ela traz riscos.

Quando a cultura é tratada prioritariamente como produto turístico, há o perigo de invisibilizar práticas culturais que não se encaixam na lógica de mercado. O blog da Cultura frequentemente alerta para esse desequilíbrio, defendendo a cultura como direito e não apenas como ativo econômico.

Formação e sustentabilidade: pontos frágeis

Outro eixo recorrente nas reflexões do blog é a necessidade de formação cultural continuada — tanto técnica quanto política. O Viva-SE menciona educação cultural, mas não apresenta uma política estruturada de capacitação de agentes.

Além disso, permanece a dúvida central: como serão mantidos os equipamentos após sua entrega? Sem financiamento contínuo, equipes qualificadas e programação permanente, o risco é repetir problemas já conhecidos na gestão cultural.

Entre a estrutura e a vida cultural

O Viva-SE representa, sem dúvida, um avanço na dimensão material da política cultural em Sergipe. Ele fortalece a infraestrutura, valoriza o patrimônio e amplia a presença do Estado no setor.

No entanto, como apontam diversas análises disponíveis no blog da Cultura, o desafio mais profundo permanece: transformar investimento em estrutura em fortalecimento da cultura viva.

Isso implica:

apoiar diretamente os fazedores de cultura

garantir participação social efetiva

estruturar políticas de fomento contínuo

investir em formação e autonomia dos agentes culturais

Sem esses elementos, há o risco de que o Estado construa espaços culturais sem garantir que eles sejam, de fato, ocupados, apropriados e sustentados pela sociedade.

O futuro da política cultural em Sergipe dependerá, portanto, da capacidade de equilibrar essas duas dimensões: a infraestrutura que se inaugura e a vida cultural que precisa ser permanentemente cultivada.

 

(*)  Para além da lei: o que realmente significa “cultura viva”

Nos últimos anos, o termo “cultura viva” ficou conhecido sobretudo por sua incorporação em uma política pública brasileira – a Política Nacional de Cultura Viva (PNCV), criada em 2014. Mas reduzir o conceito ao que diz a lei é empobrecê-lo gravemente. Antes de ser um programa de pontuação, edital ou certificação, cultura viva é uma ideia-força que nasce da própria dinâmica das comunidades.

Em sentido amplo, cultura viva é tudo aquilo que um grupo social cria, recria, pratica e celebra no cotidiano. São as rodas de conversa onde se aprende um ofício, as festas que reúnem vizinhos, as rezas, os mutirões, as narrativas orais que atravessam gerações. Ela não está nos museus ou nos palcos institucionais como algo petrificado: está na ação, no gesto, na relação entre pessoas e territórios.

Três características definem essa compreensão mais abrangente:

Processo, não produto – Cultura viva não se consome; vive-se. Ela se transforma a cada nova execução, sem medo do hibridismo ou da reinvenção.

Memória em movimento – Ela não nega a tradição, mas tampouco a congela. A tradição serve de chão para o voo criativo do presente.

Protagonismo comunitário – Quem define, faz e preserva a cultura viva são os próprios agentes culturais de base, não especialistas externos ou burocracias estatais.



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