sábado, 4 de abril de 2026

Ontem, sexta-feira da paixão, para cristãos e não cristãos, um dia bom para assistir o Jesus de Pasolini e hoje sábado de aleluia, o Jesus Cristo Superstar. Zezito de Oliveira

Ontem, 03/04/2026,  assisti ao Jesus simples e despojado do filme O Evangelho Segundo São Mateus, de Pier Paolo Pasolini. O cineasta, de formação católica, mas "convertido" ao marxismo, mesmo tendo se tornado ateu — o que nem sempre acontece nesses casos —, realiza uma das melhores produções fílmicas sobre a vida de Jesus.



Isso para quem procura uma narrativa textual e visual com fidelidade ao projeto de Jesus de Nazaré, com base na explicação do teólogo e escritor Frei Betto, o qual sustenta com base nos evangelhos,  que Jesus não pretendeu fundar uma nova religião ou instituição eclesiástica, mas sim implantar um projeto político-civilizatório denominado "Reino de Deus". Diferentemente de uma realidade após a morte, esse Reino é concebido como uma utopia realizável na história humana, conforme expresso na oração do Pai Nosso ("venha a nós o vosso reino").

O Reino de Deus opõe-se ao "reino de César", identificado com o Império Romano e, por extensão, com os sistemas de poder baseados na opressão e na desigualdade. Seus pilares fundamentais são: (1) a partilha dos bens da terra e a igualdade de direitos (isonomia), o que implica uma oposição à acumulação privada e à exclusão social; e (2) a justiça social como centro da mensagem de Jesus, em contraposição a uma religiosidade focada exclusivamente na salvação individual após a morte.

Voltando ao filme, lançado em 1964, como afirmamos acima, a simplicidade e o despojamento da obra de Pasolini estão assentados nas seguintes razões:

1. Recusa ao espetáculo hollywoodiano

O diretor optou por uma abordagem despojada que prioriza a crueza da realidade em detrimento da idealização religiosa tradicional.

2. Escolha de atores amadores

Ao escalar atores amadores e camponeses da região da Basilicata, na Itália, Pasolini conferiu ao filme rostos marcados pelo sol e pelo trabalho, que substituíram o glamour dos estúdios, atribuindo à narrativa um tom documental. O próprio protagonista, interpretado pelo então estudante Enrique Irazoqui, afasta-se da imagem do "Jesus angélico" para dar lugar a um Cristo austero, cujas palavras possuem a urgência de um revolucionário focado na justiça social.

3. Cenário e linguagem

Como complemento a essa escolha, o cenário e a linguagem desempenham papéis fundamentais. A decisão de filmar em locações áridas e pedregosas evoca a precariedade da Palestina histórica, criando um ambiente de "verdade" visual. Além disso, a fidelidade absoluta ao texto de Mateus — o mais político e direto dos evangelistas — permitiu que a obra mantivesse uma integridade intelectual rara. Pasolini não inventou diálogos; ele permitiu que a força das palavras bíblicas guiasse o ritmo da montagem.

O filme  "O Evangelho Segundo São Mateus" (1964), dirigido por Pier Paolo Pasolini, está disponível para assistir principalmente no Prime Video e também pode ser encontrado no catálogo do MUBI. E também no YouTube. 

Sobre o Filme Jesus Cristo Superstar escreveremos depois. Por ora seguimos com a trilha sonora original.


'Evangelho segundo São Mateus'. Vaticano reabilita o filme de Pasolini

Dedicado por Pasolini “à memória querida, alegre e familiar de João XXIII”, há 50 anos, embora premiado e exitoso, ‘O Evangelho segundo São Mateus’ de Pier Paolo Pasolini, foi objeto de escândalo e censura. Hoje, a Santa Sé o qualifica como “obra de arte” e “a melhor jamais filmada” sobre Cristo. Seu diretor era um ateu fascinado pelo relato evangélico.  AQUI

A poesia do Jesus de Pasolini

Na percepção de Faustino Teixeira, o cineasta italiano apresenta um Jesus que vive e participa das tramas de nossa “aldeia” humana, e que enquanto demasiadamente humano traduz para nós as marcas do divino

Espiritualidade e religiosidade estão muito presentes no cinema contemporâneo, observa Faustino Teixeira
Ao conceder a entrevista a seguir para a IHU On-Line, por e-mail, o teólogo Faustino Teixeira defende que, enquanto “arte total”, o cinema atravessa as grandes questões do humano e da criação, envolvendo todos os sentidos. “Ele trata do vazio e da incomunicabilidade; da finitude, da dor e impermanência; das histórias de vida e das alegrias; dos sonhos e melancolias, das jornadas pessoais e autoconhecimento, da beleza e delicadezas da vida”. Ao comentar sobre o filme O Evangelho segundo São Mateus, de Pier Paolo Pasolini, Faustino argumenta que “o fato de ser um ateu não retira de Pasolini o dom e a capacidade de retratar Jesus com profundidade e beleza. O resultado está aí, ao acesso de todos. Assim como a espiritualidade não é uma propriedade de quem é religioso, a capacidade de adentrar-se no coração de uma figura humana como Jesus não se reserva apenas aos que se declaram cristãos ou religiosos. Em alguns casos isso pode ser até um impedimento...”. Ele continua descrevendo a obra em questão, ao afirmar: “fiel ao traço do neorrealismo italiano, essa obra de Pasolini traduz uma comovente simplicidade e, sobretudo, uma intenção precisa de retratar o caminho de Jesus sob o ponto de vista do evangelho de Mateus. Distanciando-se claramente das imagens idealizadas de Jesus, presentes em obras anteriores, Pasolini busca descrever um Jesus humano, profundamente humano, dotado de paixão, doçura e serenidade, mas também de revolta e ira”.





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