Ontem, 03/04/2026, assisti ao Jesus simples e despojado do filme O Evangelho Segundo São Mateus, de Pier Paolo Pasolini. O cineasta, de formação católica, mas "convertido" ao marxismo, mesmo tendo se tornado ateu — o que nem sempre acontece nesses casos —, realiza uma das melhores produções fílmicas sobre a vida de Jesus.
Isso para quem procura uma narrativa textual e visual com fidelidade ao projeto de Jesus de Nazaré, com base na explicação do teólogo e escritor Frei Betto, o qual sustenta com base nos evangelhos, que Jesus não pretendeu fundar uma nova religião ou instituição eclesiástica, mas sim implantar um projeto político-civilizatório denominado "Reino de Deus". Diferentemente de uma realidade após a morte, esse Reino é concebido como uma utopia realizável na história humana, conforme expresso na oração do Pai Nosso ("venha a nós o vosso reino").
O Reino de Deus opõe-se ao "reino de César", identificado com o Império Romano e, por extensão, com os sistemas de poder baseados na opressão e na desigualdade. Seus pilares fundamentais são: (1) a partilha dos bens da terra e a igualdade de direitos (isonomia), o que implica uma oposição à acumulação privada e à exclusão social; e (2) a justiça social como centro da mensagem de Jesus, em contraposição a uma religiosidade focada exclusivamente na salvação individual após a morte.
Voltando ao filme, lançado em 1964, como afirmamos acima, a simplicidade e o despojamento da obra de Pasolini estão assentados nas seguintes razões:
1. Recusa ao espetáculo hollywoodiano
O diretor optou por uma abordagem despojada que prioriza a crueza da realidade em detrimento da idealização religiosa tradicional.
2. Escolha de atores amadores
Ao escalar atores amadores e camponeses da região da Basilicata, na Itália, Pasolini conferiu ao filme rostos marcados pelo sol e pelo trabalho, que substituíram o glamour dos estúdios, atribuindo à narrativa um tom documental. O próprio protagonista, interpretado pelo então estudante Enrique Irazoqui, afasta-se da imagem do "Jesus angélico" para dar lugar a um Cristo austero, cujas palavras possuem a urgência de um revolucionário focado na justiça social.
3. Cenário e linguagem
Como complemento a essa escolha, o cenário e a linguagem desempenham papéis fundamentais. A decisão de filmar em locações áridas e pedregosas evoca a precariedade da Palestina histórica, criando um ambiente de "verdade" visual. Além disso, a fidelidade absoluta ao texto de Mateus — o mais político e direto dos evangelistas — permitiu que a obra mantivesse uma integridade intelectual rara. Pasolini não inventou diálogos; ele permitiu que a força das palavras bíblicas guiasse o ritmo da montagem.
Sobre o Filme Jesus Cristo Superstar escreveremos depois. Por ora seguimos com a trilha sonora original.

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