"A força histórica dos pobres", não é um conceito vago e sim um caminho que a Igreja não pode/deve prescindir, para não ser infiel a sua primeira vocação desde os apóstolos. Na origem das comunidades paulinas – tomando o período dos anos 55 até 80 – o que reluzia era o rosto de um Senhor pobre, destemido, profético e que animava a vida dos novos cristãos: “Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza” (2 Cor 8,9).
REVENDO UM pouco (os) NOS ATOS dos Apóstolos, os filhos e filhas da comunidade que demandavam atenção eram as viúvas e os pobres. Por isso, não podemos negar a importância de uma teologia que tem raízes na palavra de Deus: Atos 4,34-35. Ela também encontra subsídios nas encíclicas dos papas – como é o caso da Dilexi Te do Papa Leão XIV – e nas conferências episcopais da América Latina e Caribe.
Essa força foi tomada pela TdL e de modo singular nos ensina Leonardo Boff, que a prática da teologia deve levar em conta a realidade do povo que a circunda e falar da vida a partir do que se sente, se celebra e se busca transformar na vida eclesial e na sociedade. E o teólogo nos assegura: “A Teologia da Libertação deu um voto de confiança nos pobres, considerando-os protagonistas de sua própria libertação e atores na sociedade como a nossa que cria mais e mais pobres e vergonhosamente os despreza e relega à marginalidade”. Para melhor aprofundar, vamos apontar alguns caminhos históricos:
1. A base histórica. Toda pesquisa tem suas raízes que possam ajudar na reflexão. A TdL tem a sua origem na América Latina e o pensamento complexo e profundo de Gustavo Gutierrez, soube dar encaminhamento a este pensar teológico. Seu livro e também chamado de obra, Teologia da Libertação de 1971, é considerado o marco referencial para o estudo do método da TdL. Já na busca de uma hermenêutica e uma compreensão (guardemos bem essa palavra que em breve vamos debater) mais acurada, o melhor caminho é o da Conferência de Medellin. A força do pensamento teológico dos bispos em 1968, colheu toda a problemática social dos nossos povos e conseguiu dar a essa atividade um caráter teológico e profundamente salvífico. Como entender o amor compassivo de Deus, na história humana, excluindo os pobres? Como? Medellín soube apontar essa visão e coloca nos ombros da Igreja uma responsabilidade que condiz com sua missão e, por isso, ensina que: “No centro de sua atenção o homem deste continente, que vive um momento decisivo de seu processo histórico” (Introdução, n. 1.). A conferência não se furta a missão de esclarecer a raiz da pobreza e dos males que afligem nossos povos.
2. Mais traços de Medellin. Na carta aos Colossenses, Paulo ensina que “Jesus é o rosto invisível do Pai” (Col 1,15). O rosto de Jesus é tomado pelos seus seguidores? A Igreja na América Latina, guarda essa figura amorosa? Em Medellin foi exposta uma queixa imensa de que muitos bispos, o clero e até religiosos não se aproximam dos pobres e ostentam a riqueza de uma Igreja opulenta e distante dos pobres. Citemos Medellin:
“E chegam igualmente até nós as queixas de que a hierarquia, o clero e os religiosos, são ricos e aliados dos ricos. Sobre isso devemos esclarecer que com muita frequência se confunde a aparência com a realidade. Muitos fatores têm contribuído para a formação desta imagem de uma Igreja hierárquica rica. Os grandes edifícios, as residências dos párocos e religiosos, quando são superiores às dos bairros em que vivem; os veículos próprios, às vezes luxuosas; a maneira de vestir herdada de outras épocas, são alguns desses fatores” (n. 14,2).
O TRAÇO que procuramos é outro e a TdL ajudou a Igreja a descobrir uma postura mais digna de sua própria vocação, trazendo para o conjunto das ações pastorais os anseios de quem busca a libertação da exclusão e que deve encontrar no evangelho e na Igreja, a motivação de sua missão. Quem assume o papel de agente de pastoral, não pode negar a defesa do evangelho e com ele, a defesa de quem não consegue viver com dignidade (Mateus 25,31-46). Se a prática religiosa é necessária, é também vital para nós cristãos, não separar o corpo e suas dores, o espírito e sua busca de interioridade que formam uma única coisa. A TdL deseja abrir espaços de reflexão na Igreja e fora dela, para os mesmos agentes de pastoral que desejam compreender a interpretação que essa teologia faz da história de nosso povo, da prática de Jesus de Nazaré, da realidade sofrida dos pobres e excluídos e da prática pastoral que vive atenta ao que acontece ao nosso redor. Teologia da Libertação é caminho de liberdade, profundidade e resistência na fé, na cultura, na sociedade e na política, para quem crê no Jesus que foi perseguido e julgado até a morte pelo poder político e religioso do império e do sinédrio.
3. A TdL na atualidade. Os debates atuais seguem fazendo da teologia o centro da vida da Igreja. Percebe-se de um lado a carência de formação teológica e pastoral do nosso povo – inclusive por culpa de parte do clero – e de outro lado, notamos grandes discursos teológicos, artigos e livros que apontam caminhos para a vida da Igreja e da sua identidade. Daqui brota uma pergunta: não seria melhor pôr em relevo o Evangelho? Qual a pertinência teológica em insistir sobre dados racionais da fé, quando nos distanciamos do evangelho de Jesus? Sendo assim, a TdL continua sendo atual e no pensamento iluminador do padre José Comblin (in memorian) podemos ver o seguinte: a liberdade cristã e o evangelho, encontraram eco na sua obra teológica, porque Comblin foi “o grande profeta da Igreja dos pobres’”, desafiando-nos a não perder de vista a Jesus, sua missão libertadora e o impulso que ele deu para que seus seguidores e seguidoras, continuassem o caminho traçado por ele.
Na obra de Comblin e de tantos outros teólogos e teólogas, a TdL continua buscando identificar os desafios que hoje se apresentam à Igreja, ao mundo globalizado, à constante exclusão dos pobres e as questões pertinentes que o papado de Francisco suscitou, como a imigração e a questão ecológica. A TdL é sim comprometida com as transformações sociais e procura atualizar mecanismos de leitura da realidade que nos ajudam a enxergar o porquê de sua pertinência, sua inserção na vida cristã atual e uma constante proximidade com o evangelho de Jesus. Nas sábias palavra do Padre Comblin, a conclusão desse primeiro texto sobre a TdL: “A identidade da Igreja somente pode ser recuperada a partir da identidade do cristianismo. A Igreja não é um fim em si própria, mas está à serviço do Reino. Somente um retorno ao evangelho pode fornecer base sólida a uma identidade firme no meio do mundo atual. O evangelho cristão é sinônimo de vocação para a liberdade”.
Obs. No próximo texto vamos abordar alguns números do documento da Sagrada C. Doutrina da Fé – Liberdade Cristã e Libertação de 1986.
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Müller e a Teologia da Libertação “normalizada”
“Pobre e para os pobres”. As palavras do Papa são também o título do mais recente livro de Gerhard Ludwig Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Um texto que parece ser o passo definitivo para uma Teologia da Libertação “normalizada”. O volume, que conta com o prólogo de Francisco, foi apresentado em um auditório do Vaticano, a alguns passos da Praça de São Pedro, e com um relator surpresa: Gustavo Gutiérrez. Müller é o principal artífice dessa “normalização” de uma corrente de pensamento que ainda provoca ardentes debates na América Latina. Ele é, há décadas, amigo pessoal de Gutiérrez, “pai” dessa teologia. Após a apresentação do livro, o recente cardeal alemão explicou aos jornalistas a razão pela qual a apoia sem hesitar.
A entrevista é publicada por Vatican Insider, 27-02-2014 . A tradução é do Cepat.
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