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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Gente Feliz pode viver o carnaval de diversas maneiras. Pode até juntar Retiro, Acampamento e Carnaval como fez o Projeto Reculturarte na Aracaju dos anos 1990.

 

Gente feliz não se incomoda com poucoEu acho que a felicidade não vem sóOs meus amigos eu escolhoSão sócios da alegria que eu gosto de levar
Gente feliz não se incomoda com os outrosCada um tem sua maneira de existirSe cuide para não ficar amarguradoNão seja o tipo que reclama e fica sentado
Não procure maisGente que te faz sofrerPra que o auto-abusoDar o rosto a bater
Há problemas simSem beijo na bocaSem solução mágicaVamos trabalhar
Eu vi o sorriso de Nelson MandelaÉ quando meu coração desmantelaOuvindo as notas precisas de FelaE vendo as cores que pintam na tela
Sinceridade, sinceridadeO sorriso do bem tem que ser de verdadeSinceridade, sinceridadeO sorriso do bem tem que ser de verdade
Eu vou fazer uma mandinga pra tirar QuizilaE o sorriso amarelo descer na banguelaE mergulhar no teu juízo
Eu vou fazer uma mandinga pra tirar QuizilaE o sorriso amarelo descer na banguelaE mergulhar no teu juízo
Não procure maisGente que te faz sofrerPra que o auto-abusoDar o rosto a bater
Há problemas simPois estamos vivosSe existe vidaVamos celebrar
Não deixe que ninguém te tire o sorrisoHá sempre alguma coisa para celebrarNão deixe que ninguém te tire o sorrisoHá sempre alguma coisa para celebrar
Não deixe que ninguém te tire o sorrisoHá sempre alguma coisa para celebrar

Este artigo integra o segundo volume da trilogia AMABA/Projeto Reculturarte: 'Ação Cultural para a Cidadania na Aracaju dos anos 1990', que será lançado no final de 2026. O texto propõe uma reflexão sobre a criação de oportunidades para a felicidade coletiva, pautada na liberdade interior e no respeito à individualidade, sem a imposição de padrões de bem-estar ao próximo, evitando, assim, a postura dos 'conservadores em conserva', criticados no desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói no último domingo, 15/02/2026, na Sapucaí. A agremiação levou ao Sambódromo uma reflexão necessária sobre aqueles que tentam  impor seu modo de pensar e de viver, ignorando a pluralidade das formas de existência."

OS RETIROS DO RECULTURARTE COMO UM TEMPO E LUGAR QUE NUNCA DEVERIA ACABAR. 


Retiro Reculturarte - 
Fonte: Acervo AMABA.
 

Oito (8) horas da manhã, hora de acordar. Hora de ouvir o Pe. Zezinho, a senha para começar mais um dia de retiro no projeto Reculturarte, ou retiro-acampamento.

Das canções ouvidas nas primeiras horas da manhã, antes mesmo do café, "Nova Geração" era uma das mais constantes. Um trecho da letra diz muito o que e quem impulsionava alguns jovens, residentes do bairro América e do seu entorno, para se engajarem na organização da proposta socioeducativa, cultural e espiritual dos retiros do Reculturarte.

 

Não tenho passado, mas sei entender
Um jovem foi crucificado
Por ter ensinado a gente a viver
Eu grito ao mundo descrente que eu quero ser gente
Que eu creio na cruz
Eu creio na força do jovem
Que segue o caminho de Cristo Jesus.
 

O QUE SÃO RETIROS?

Segundo a Wikipédia, “entre religiosos é muito comum a realização de Retiros Espirituais visando ao aprimoramento do indivíduo e de sua relação com o sagrado”.

Com origem católica, retiro é um termo muito usado por cristãos para designar uma atividade da igreja em que, geralmente, eles são levados para lugares ao ar livre a fim de que possam usufruir ao máximo do encontro com Deus. Nesse sentido, “(...) existem diversos tipos de retiros, tais como formação, espiritual, meditação, reflexão, entre outros”.

Há também uma interpretação de que “Retiro” pode ser um local como chácara, sítio, acampamento, fazenda etc. Enfim, algum estabelecimento afastado ou isolado da cidade, onde possa ser possível a realização de eventos de natureza mais pessoal ou em grupo.

 O QUE FOI O RETIRO/ACAMPAMENTO RECULTURARTE?

No caso do Reculturarte, algumas características do retiro espiritual foram assimiladas. Porém, pelo fato de buscarmos um espaço para a formação integral, criamos uma espécie de retiro-acampamento. Isto porque juntamos, em determinados momentos e locais específicos, conhecimentos a partir da realidade pessoal e do cotidiano dos adolescentes, acrescentando ainda outros saberes no campo social, cultural e político, assim como tínhamos situações de lazer (dinâmicas e brincadeiras/jogos de salão, jogos esportivos, natação, comemoração de aniversários, passeios e práticas artísticas). Entretanto, sem deixarmos de realizar momentos de oração, leitura, reflexão bíblica e relaxamento da mente. Inclusive, havia uma opinião frequente dos entrevistados, a saber: “nos retiros haviam momentos para tudo, e tudo era bem organizado”.

Todos os entrevistados, sem exceção, também consideraram os retiros como “bons demais”. Era uma das maiores alegrias que se tinha no projeto. Quando era mês de viagem para retiro, o povo gostava, como bem destacado por Cláudia da Silva, mais conhecida como Kaká.

Diversidade, conforme disse Sandra , é uma palavra que resume muito bem a razão pela qual ela gostava dos retiros. E acrescenta Márcia Maria: “os retiros significavam um momento para conversar mais com os amigos do projeto e com os educadores, me sentia em família e conhecia novas pessoas”.

 Rosilar   também relembra:

 

Tem retiro, eu era a primeira a chegar. Em alguns casos fomos até em cima de caminhão. Lembro o frio de Propriá e em Pedrinhas. Era tão bom, fosse aonde fosse, porque, você sair de sua casa, pra ir pra dentro dos matos, dormir no chão, mal com um lençolzinho, em cima de uma esteira ou colchonete,  precisava gostar, às vezes sem iluminação. Embora no Recanto dos Frades tinha mais conforto. Iam muitos responsáveis pela gente nos retiros. Lembro em Pedrinhas, de madrugada, andando de mata fora. Foi Benicio, um dos educadores, e uma outra pessoa que me seguiram, disseram que não podia me acordar e então me acompanharam, dei uma “vortinha”, quando acordei, estava ceia de formiga, ficaram tirando formiga durante um tempo. E era sonâmbula, mas não sabia.

 

Nos retiros participavam em torno de vinte e cinco a trinta adolescentes, além de uma média entre cinco e dez adultos. Em seguida, um exemplo da programação de um retiro a que tivemos acesso por meio de documentação escrita:

Retiro do Projeto Reculturarte em Propriá

(Local: Sede do PT Propriá - De 08 a 11 de abril de 1993).

 

PROGRAMAÇÃO

QUINTA-FEIRA

Tarde

1) Chegada, arrumação;

2) Passeio para conhecer a cidade;

SEXTA-FEIRA

Manhã

1) Oração inicial;

2) O que o projeto representa para mim? (roda de conversa); 

 

Tarde

3) Repasse do curso de geração de renda (Paulo Rogério e Ronaldo Lima) – (roda de conversa);

Noite livre;

                                                    SÁBADO

Manhã

1) Oração;

2) Planejamento da programação do festinfantil (festival de arte infantil) – (subgrupo e plenária);

Tarde

1) O que é minha família? O que eu represento pra ela? O que quero dela? (rodas de conversa e plenária);

DOMINGO
Manhã

1) Ida à missa;

2) Debate sobre tema livre a escolher;

3) Tarde Livre (proposta aberta).

 

Também descobrimos um pequeno relato resumido sobre o segundo retiro realizado na cidade de Propriá. 

 

Mais uma vez a AMABA realiza uma programação de sucesso em 1995. Dessa vez foi o primeiro retiro do ano, promovido durante o carnaval na cidade de Propriá. Sem dúvida, a melhor parte da programação foi o banho de rio, além disso tivemos a apresentação de uma banda afro de Propriá, exibição de fitas de vídeo, dramatização, roda de músicas, debates e um bate-papo com o deputado estadual Renatinho Brandão. Participaram 26 pessoas, a maioria adolescentes que participam do Projeto Reculturarte. (...) No planejamento de 1995 está previsto mais três retiros, os temas a serem estudados, serão: Família, Amizade, Namoro e Sociedade. No retiro de Propriá não houve um tema em destaque, tendo sido mais um retiro de lazer.

 

LOCAIS DE REALIZAÇÃO DOS RETIROS/ACAMPAMENTOS E ALGUMAS HISTÓRIAS

Dentre os locais em que os retiros foram realizados, destaca-se a chácara dos frades franciscanos no Mosqueiro. Este é um dos locais que se tem as melhores lembranças. Além deste local, foram lembrados as seguintes localidades: Povoado Jenipapo – Lagarto (1991 e 1995); Capela (1992 e 1995), Povoado Pedrinhas – Areia Branca (1993), Japoatã (S/D) , Propriá (1993 e 1995), Macambira e Malhador  (1994),  Praia de Atalaia Nova (1995) . 

A chácara dos frades franciscanos deixou boas recordações, segundo os entrevistados, porque era uma casa grande de estilo colonial, com muitas camas, grande área verde no entorno, com mangueiras, cajueiros e jaqueiras, além de estar localizada à beira de um rio.

O retiro em Areia Branca, no povoado Pedrinhas, marcou porque o alojamento de dormir foi instalado em um galinheiro. Não havia mau cheiro porque estava desativado, mas era bastante frio na hora de dormir. E isso ficou bem gravado na memória de Sandra e de outros entrevistados. Este retiro também marcou por causa de um riacho e de uma cachoeira, conforme lembrou Márcio, ainda que fosse “uma boa caminhada para chegar até lá”.

Outros aspectos negativos também são lembrados por Cláudia da Silva: “algumas brincadeiras sem graça que levaram a brigas”. Cláudia da Silva lembra, por exemplo, de ter tido o olho pintado com pasta de dente por um outro colega, o Alex, e isso enquanto dormia, o que fez com que ela, com raiva, pegasse uma faca e ameaçasse enfiar no rapaz. Nesse dia, foi uma confusão muito grande, na qual em um certo momento: “era eu correndo com uma faca e Alex correndo e se defendendo com uma cadeira”, destacou Kaká sorrindo.

Foi por causa de uma brincadeira inconveniente que Everaldo Guedes  (Vevé) foi enviado imediatamente de volta para casa, quando ele participava do retiro no povoado Jenipapo. Isto foi como castigo, o que o levou a chorar muito. Vevé só não consegue lembrar como foi a brincadeira.

Como um exemplo de lembrança boa, Cláudia da Silvs lembra de um exercício proposto após assistirem ao filme Sonho de Uma Noite de Verão, baseado em uma obra de Shakespeare, o grande escritor de teatro que viveu na Inglaterra do século XVI. A tarefa era formar grupos e cada um produzir uma apresentação com base em uma ou mais cenas do filme.

Já Kekê (ou Cleildes da Silva), irmã de Cláudia da Silva, lembra positivamente das cantorias com violão como, por exemplo, da canção “minha boneca de lata”, em que cantou várias vezes para o neto dormir. Em alguns retiros, o violão ficava a cargo de Ronaldo Lma, frequentador e colaborador esporádico da AMABA. No retiro, ele levava violão e tocava utilizando as revistinhas com cifras.

Conforme recorda Crécia:

 

Os retiros se pareciam mais com um acampamento de férias do que com um retiro religioso. Era tudo planejado antecipadamente pelos educadores. Acontecia cerca de três vezes por ano, em feriados prolongados, principalmente no período do carnaval e da semana santa, duravam de três a quatro dias.

Os retiros era momento de abrirmos as nossas mentes e os nossos corações. Fazia-se muitas atividades para facilitar o relacionamento interpessoal. Em todos os retiros, tínhamos atividades para relaxamento, em que às vezes nos tocávamos corporalmente, em especial com massagens nos ombros, costas e etc.,  mas com respeito, sem malícia. Para participar dos retiros, como no caso de algumas meninas, inclusive no meu caso, tinha que haver uma insistência muito grande junto a família, com visitas de educadores jovens-adultos a minha casa para buscar convencer principalmente meu pai, isso porque tratava-se de retiros que eram realizados no interior do estado, e ele não queria que eu dormisse fora de casa.

Quem participava dos retiros contribuía com alimentos. Os critérios para ir era ter bom comportamento em casa, na escola e no projeto e a permissão dos pais, assim como ter boas notas na escola. No caso de haver um número maior de participantes por atividade, além da quantidade definida previamente, havia uma votação de escolha por parte de colegas da atividade e educadores. Os retiros eram importantes para nós, porque do contrário ficávamos nos feriados prolongados, “largados” no bairro, com os nossos pais sem condições financeiras para nos oferecer alternativas sadias de lazer ou de cultura para nós.

 

Para colaborar com informações sobre questões que não tínhamos conhecimento, em alguns momentos, eram convidadas pessoas de fora para participar dos retiros, em que participavam de uma espécie de roda de conversa ou mesa de debate. Por exemplo, Renato Brandão, então deputado estadual pelo PT, Zenaide Sandres e Vera Vilar, educadoras populares ligadas aos movimentos sociais, e Evanildo de Oliveira, sendo este integrante de movimento religioso ligado à igreja católica.

Todo mundo dormia no mesmo local, mas separados, ou seja, com meninos de um lado e meninas do outro, junto com os educadores (as). Já para Dona Fátima, a cozinheira responsável pela alimentação, o retiro era importante porque permitia uma melhor comunicação com as crianças, o que permitia uma melhor orientação e convivência dentro de um bom ambiente social, de respeito e afeto. Era um forte momento de confraternização. Dona Fátima era considerada, nos retiros/acampamentos, como a mãe de todos e aqui ela reforça uma opinião semelhante à de Márcia Maria, citada acima.

O local que Dona Fátima mais gostava era a chácara Recanto dos Franciscanos. Lá alguns meninos gostavam de nadar e pescar: “uma vez, à noite, fui pescar siri com alguns meninos e meninas. Foi uma noite de fartura, um balde cheio de siri. Quem nos emprestou a canoa e a tarrafa emprestada foi o caseiro da chácara”.

Já em retiro realizado em outro local   Dona Fátima se recorda de uma fazenda sem água, o que fez com que ela e os meninos andassem uma distância de quilômetros para encher garrafas nas águas em um minadouro. Além disso, também lembra de ter utilizado lenha para cozinhar. Em uma escola em Capela e no povoado Jenipapo, Fátima conta da grande quantidade de sapos, quando afirma:

Foi o segundo local, onde Dona Marilene, uma das senhoras participantes e mãe de Márcio e Mauricio, membros da capoeira, quase infartou porque ela tinha pavor de sapos. Quando precisava ir ao banheiro, os meninos tinham que entrar antes para ver se não tinha sapos e ficavam olhando de fora para afastar os que poderiam se aproximar.

 

E a questão das maledicências, das fofocas, intrigas? Para não ficar falando somente das flores, encontramos informações a respeito disso. Em um dos registros na agenda de um dos educadores, tratando da conversa com um subgrupo de participantes em um retiro no povoado Jenipapo sobre o que foi espalhado por um integrante do projeto ligado à banda afro, punido com a não participação nesse retiro por causa de problemas com indisciplina e insubordinação.

Assim ficou registrado: 

        “O que nós viemos fazer no retiro?”. Trabalhar, estudar, divertir, ouvir música, realizar partilha, discutir gravidez na adolescência, brincar, andar de cavalo, namorar, visitar a cidade, ir até o rio e a cachoeira, trabalhar, dormir, conhecer a cidade, dormir, avaliar, passear. Mas “o que falaram do retiro de forma negativa?”: Que todo mundo, meninos e meninas, dormiam misturados, a comida era sem sal, que não era para chegar perto de três meninas que não tomavam banho.  Quem falou isso, estava na torcida para alguém não vir, desistir, para ele vir como substituto.  Quem fez isso, fez por qual razão?” Para vir, porque sente-se rejeitado (antes ia para tudo), inveja, porque as coisas mudaram, o sucesso subiu demais à cabeça sem ele ter feito as bases de preparação”. Aqui estavam se referindo a um dos integrantes e líder da banda afro Meninos do B.A.

As recordações de Emanuel Rocha, um dos principais educadores e coordenadores dos Retiros/Acampamentos, reafirmam muito do que foi lembrado acima, com acréscimos importantes:

 

Os retiros foram vários e em lugares diferentes. Desde em locais mais confortáveis como a casa de Retiro dos Frades Franciscanos, até em um sítio com um galinheiro desativado, sendo este o nosso principal local para realização de algumas atividades, assim como local de dormida com esteiras, mas eles não reclamaram.

Esse era um momento único pra os meninos e para os educadores também porque não era, amanhã vai ter um retiro, e pronto.

Não, era preparado meses antes, até para quem ia como educando. Até porque estes tinham que ter boas notas na escola, bom comportamento no projeto etc.

Por que isso era necessário? Para que os outros seguissem como uma direção na vida deles.

O retiro não era apenas um retiro, era um momento de grande lazer pra os meninos, assim também como espaço para adquirir novos conhecimento, para a descoberta de novos talentos.

Quantos meninos não foram descobertos naqueles retiros para o teatro? Isso por meio dos exercícios e dinâmicas que eram realizadas. A gente descobriu assim, pessoas com boa capacidade de oratória e outras qualidades no campo da criatividade e da arte.

Por outro lado, a gente não repetia muito os participantes. A gente fazia rodízio. Um rodízio até para descobrir os talentos em potencial que depois poderiam se tornar educadores mirins.

Houve momento em que fomos de caminhão tipo pau de arara, porque naquele tempo isso era permitido. 

Tudo era novidade. Mas tudo com responsabilidade. Tinha que ter autorização dos pais, os pais também eram visitados neste sentido.

Outra coisa, era muito participativo, onde todos tinham suas funções, tudo dividido, com a formação em diversas equipes, apoio a cozinha, limpeza, animação

E pra gente também era um momento legal, porque o aprendizado não era somente para os meninos, mas para nós educadores também.

A gente, como educadores, saíamos ricos com o que eles nos informavam. E então não tinha ninguém que soubesse mais da história deles, das ruas e do bairro onde morávamos do que a gente.

Momentos tristes era quando eles contavam sobre algumas situações em casa, como alguns eram espancados e/ou enfrentavam situações de fome.

Era um encontro terapêutico, podemos dizer assim. Sobre questões de sexualidade, incluindo assédio ou violência sexual, quem tratava mais dessas questões com as meninas era Cléia e algumas vezes Adriana, educadora da dança. Com os meninos, eu, Benicio e Paulo Rogério.

 A RELAÇÃO PASSADO PRESENTE NOS RETIROS/ACAMPAMENTOS RECULTURARTE

 Sobre a relação passado e presente nos retiros Reculturarte, quem nos traz uma boa reflexão sobre isso é Rejane Conceição, a partir do papel que ela exerce nos dias de hoje como professora no município de Poço Redondo: 

 

"O que chamava atenção era a forma de planejar, a gente não tinha tempo ocioso. Era tudo muito bem programado. A gente ficava longe das nossas famílias, mas não era pra fazer qualquer coisa. A gente tinha nossos dias e horários, tudo muito bem programado.  Pela manhã, a gente trabalhava temas, tipo seminários, rodas de conversa, e depois a gente voltava pra debater. Eu lembro muito disso que a gente se dividia em grupos, discutia ali, e depois voltava pra plenária, para haver uma discussão mais ampla. Além disso, tinha muitas dinâmicas, que eu ainda hoje uso em sala de aula, telefone sem fio é uma delas. São coisas dessa bagagem anterior e que ainda uso hoje em sala de aula, principalmente quando estou no início do ano, que é pra fazer integração, quando faço uso de algumas dinâmicas. Tudo isso, tudo da base que trago dos retiros. A gente falava muito de política nos retiros e o meu fraco era não falar muito desse assunto e as comidas? Hoje quando eu como ovo com charque e cuscuz, só vem o retiro na cabeça, acredita? Até hoje quando eu faço ovo com charque, lembro dos retiros".

 

Retiro Reculturarte. Pedrinhas, o retiro em um sitio que incluiu galinheiro desativado como espaço de utilização. Quem está de amarelo é o autor desse artigo.



Fonte: Acervo AMABA 

LEMBRANÇA POÉTICA-AFETIVA

 

Uma noite de retiro em Propriá, de acordo com depoimento de Ronaldo Lima:

 

Uma noite depois do jantar, o grupo dos participantes ficou liberado para atividades livres, alguns ficaram assistindo filmes na televisão, o projeto sempre levava o aparelho DVD e algumas fitas VHS como opção, outros preferiram ficar jogando dominó. Já outros preferiram dar uma volta pelas redondezas e uma dupla formado por Ronaldo e Zezito, acompanhado de uns três adolescentes preferiram sentar-se em um banco localizado na praça, em frente à casa onde ficamos alojados e onde as atividades do retiro estavam sendo realizadas. O fundo da praça era o cemitério da cidade.

O tempo passou, a noite ia ficando mais funda e, quem veio junto, resolveu voltar para a casa, e então ficou somente eu Ronaldo,  e Zezito. E foi aí que chegou um senhor levemente embriagado que começou a ficar próximo, ouvindo as canções e conversando sobre histórias de corações partidos como o dele, ficou um tempo e depois foi embora, antes disso cantamos SAMPA do Caetano Veloso, dedicando a ele, e como esta canção tem uma linha melódica que chama  outra, RONDA do Paulo Vanzolini, demos sequência, com  o moço caminhando, indo embora,  como a noite que também se ia, tendo como fundo musical a bela melodia de RONDA e seus versos, um dos quais até que poderia se adequar à situação do moço, na busca do amor que foi embora. “De noite eu rondo a cidade a te procurar, sem encontrar. No meio de olhares espio, em todos os bares, você não está (...)”.  Ao longe, a despedida do moço com um adeus, antes de nos perdermos de vista. Uma situação que marcou as nossas vidas.

 Zezito de Oliveira




Ainda há exemplares disponíveis do Vol. 1 - Preço: R$30.00 incluindo o frete,  para qualquer lugar de Sergipe e do Brasil.  Para solicitar: zezitodeoliveira@gmail.com

Leia também: Ajuda a entender as razões da publicação do artigo acima.

O Carnaval e a alegria do Espírito. Por Marcelo Barros (*) & CARNAVAL ou RETIRO. A FALSA POLÊMICA CONSERVADORA Romero Venâncio (*)


domingo, 27 de dezembro de 2020

OS DIAS QUE CORREM TRAZENDO A MEMÓRIA DO TEMPO BOM DOS RETIROS/ACAMPAMENTOS DA AMABA/PROJETO RECULTURARTE.

 Estes dias  que correm, entre o natal e amanhã, dia 28/12/2020,  são dias que nos recordam alguns momentos na AMABA/Projeto Reculturarte, nos dias que antecediam os retiros/acampamentos, lá pelos meados de 1990.

Eram dias de muito “frisson”,  como está sendo aqui em casa, com a preparação que começava  um ou dois meses antes, com a procura de um local de realização, neste caso, sítios, casas antigas, como em Propriá, casas de retiro pertencentes a igreja católica, localizada no interior e cercada de amplo espaço, arvores frutíferas e rios, em muitos  casos.

Já nos dias de hoje , também iremos para uma casa ligada a igreja católica, que acolhe tanto grupos que irão fazer encontros e retiros, como grupos pequenos ou famílias que queiram  passar alguns dias dentro de um antigo/moderno mosteiro, localizado dentro em uma região com  mata e  águas, na fronteira de Alagoas com Pernambuco.

E nesse tempo de pandemia, a segunda opção de grupos ou famílias para relaxar, descansar, rezar, está sendo mais comum e com as normas de proteção e segurança sanitária, inclusive com pequeno numero.

Sobre os retiros da AMABA/ Projeto Reculturarte,  já escrevi a respeito e também temos a fala recente  de dois participantes quando criança/adolescente, Rejane Conceição e José Cosme (Nano),  na gravação abaixo.

Amostra grátis do livro sobre a AMABA/Projeto Reculturarte (1). A ser lançado em 2019.


Rejane Conceição no "Ao Vivo" sobre o Projeto Reculturarte (Reeducação, Cultura e Arte)





E em junho de 2021, traremos mais informações sobre os retiros/acampamentos e muito mais, por intermédio do primeiro volume do livro Amaba/Projeto Reculturarte, cujo projeto para a primeira edição foi aprovado para receber apoio financeiro via Lei Aldir Blanc.

Sinopse da Obra   “AMABA/PROJETO RECULTURARTE: O ESQUECIDO CIRCULO DE

CULTURA DA ARACAJU DAS DÉCADAS DE 1980/1990. – VOLUME I

 É um livro que traz a tona, experiência educativa, social e cultural ocorrida entre os anos de 1983 e 2008, no Bairro América, localizado na periferia de Aracaju, tendo como base  o pensamento filosófico e pedagógico  do educador  Paulo Freire. São relatos e análises  com base principalmente em pesquisa  documental e entrevistas, e   coloca em pauta memórias e vivências de moradores vivendo  com sérios problemas de ordem familiar e social, mas que encontraram na AMABA/Projeto Reculturarte condições e oportunidades de superação, reforçando conhecimentos e habilidades que já possuíam, assim como adquirindo novos, no campo da cidadania, educação, comunicação,   convivência,  artes, saúde e  esporte. 

Para uma amostra resumida do que será abordado no livro:

AMABA/PROJETO RECULTURARTE – O ESQUECIDO CÍRCULO DE CULTURA DA ARACAJU DOS ANOS DE 1980 E 1990

hoje...


Ontem..



terça-feira, 8 de outubro de 2019

AMABA/PROJETO RECULTURARTE – O ESQUECIDO CÍRCULO DE CULTURA DA ARACAJU DOS ANOS DE 1980 E 1990





E-BOOK DO CURSO ‘PAULO FREIRE EM TEMPOS DE FAKE NEWS’ JÁ ESTÁ NO AR!



São 57 artigos e 6 projetos de intervenção, em 421 páginas, escritos por 75 autores(as) que analisam sob diferentes pontos de vista as "fake news" em relação ao pensamento, à obra e até mesmo à pessoa de Paulo Freire.



Baixe gratuitamente em: http://bit.ly/2J9Nv26






Frente da sede da AMABA - Av. Camilo Calazans - Bairro América - 1990. 

SANTOS, José Oliveira[i]

RESUMO

Este artigo apresenta o Projeto Reculturarte (Reeducação, Cultura e Arte), realizado nos anos de 1990 em Aracaju, proposta pioneira e inovadora de arte-educação popular, atual e necessária nestes tempos de fake news, individualismo exacerbado e falta de espaços para a socialização criativa e crítica de crianças, jovens e adultos. Os resultados preliminares da pesquisa iniciada em 2018 mostram avanços no campo da construção de sentido, protagonismo cidadão e preenchimento do tempo livre de forma construtiva.

Palavras-chave: adolescentes; arte; comunidade; cultura de paz; educação popular.

ABSTRACT
This article presents the Reculturarte Project (Reeducation, Culture and Art), carried out in 1990 in Aracaju. It was a pioneering and innovative proposal of popular and up-to-date popular art education, in these times of fake news, exacerbated individualism and lack of spaces for the creative and critical socialization of children, youth and adults. Preliminary results of the research, begun in 2018, show progress in the field of meaning making and citizen protagonism, and in constructively filling free time.
Keywords: art; community; culture of peace; popular education; teenagers.

No final da década de 1980,  uma confraria de jovens católicos e  idealistas,  participantes de grupos de jovens e/ou da  Associação de Moradores do Bairro América (AMABA) em Aracaju – organização de matriz combativa e inovadora fundada em 1983 –, iniciou a discussão e realização de ações em prol de uma proposta de trabalho com crianças e adolescentes, cujo objetivo era prevenir a entrada deles (as) no mercado de usuários/traficantes de drogas e na prostituição, ao mesmo tempo buscava combater a mendicância e envolvimento em ações de pequenos furtos. Como tantas outras organizações criadas na década de 1980, de acordo com Carlos Rodrigues Brandão na obra O que é método Paulo Freire (1986):

Ao longo dos últimos anos, não são só algumas comunidades populares trabalhadas pela prática pastoral da igreja, ou pela iniciativa de grupos, equipes ou partindo de intelectuais de dentro e de fora das universidades, ao que aos poucos aprendem a reencontrar os seus recursos e as suas práticas de mobilização comunitária, de resistência e luta popular (BRANDÃO, 1986, p. 92-93).

Com pouco tempo, essa iniciativa passou a contar com a assessoria do recém-criado Centro Sergipano de Educação Popular (CESEP), fundado em 1988, cuja sede naquele momento estava situada no Bairro América, além da participação do posto de extensão da Fundação Estadual de Bem-Estar do Menor (FEBEM), no bairro América.
Após algumas tentativas de elaboração de estratégias para agrupar, socializar, reeducar e formar grupos de produção e geração de renda junto ao público infanto-juvenil, decidiu-se utilizar como pontos de partida a arte e a recreação, considerando que devia-se partir daquilo que é mais ligado ao mundo da criança para então favorecer sua grupalização.
Assim, ficou constituído o objetivo do projeto, que foi batizado com o nome de Reculturarte (Reeducação, Cultura e Arte), o qual, em 1990, começou a receber apoio financeiro da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE)[1] e da Visão Mundial[2].  O que perdurou no caso da segunda, até o final dos anos de 1990.
Paulo Sérgio Santos, um dos jovens que participaram das primeiras reuniões que culminaram no Projeto Reculturarte, lembra com saudade do clima daquele momento histórico, tempo de redemocratização pós-ditadura militar de 1964,  cujos marcos mais importantes foram a campanha das Diretas Já (1983-1984), eleição de Tancredo Neves no colégio eleitoral (1985), Constituição cidadã de 1988 e, em 1989, a disputa Lula e Collor no segundo turno da primeira eleição presidencial após 1964.

Quando comecei a participar da AMABA/Projeto Reculturarte, eu me sentia protagonista de uma história; hoje, não. A coisa boa que a gente pode relembrar daquela época é o sonho, o idealismo de tornar o mundo melhor. Naquele momento, a gente achava que isso era possível, ainda é possível, acho que nunca podemos perder a esperança, mas naquela época era uma efervescência, uma energia, a gente tinha uma vida, para a gente aquilo ali estava impactando todo mundo e a gente fazia com muito gosto, muito gosto, muito gosto. Porque assim, porque a gente não ganhava dinheiro para fazer isso, naquela época, eu ia a pé do Conjunto Eduardo Gomes para o Bairro América e voltava depois de participar das reuniões na AMABA e no Projeto Reculturarte (informação verbal)[3].

Antes do projeto Reculturarte (1989), a AMABA, fundada em 1983, notabilizou-se pela campanha contra a poluição da fábrica de cimento da Rua Acre,  cercanias do bairro américa, no que foi vitoriosa em parceria com a Igreja São Judas Tadeu, precursora dessa luta. Concomitante a isso, foram realizadas campanhas em favor da pavimentação de ruas e de saneamento básico, melhoria do atendimento no campo do transporte e da saúde, promoção de palestras sobre cidadania e saúde, bem como ações culturais, recreativas e iniciativas no campo da comunicação alternativa.
Já o projeto Reculturarte, entre 1992 e 1995, chegou a realizar simultaneamente até 11 atividades culturais, educativas e esportivas, alcançando diretamente 300 pessoas. Foram elas: 1 - capoeira; 2 - teatro; 3 - dança; 4 - banda afro; 5 - reforço escolar; 6 - escolinha de esportes; 7 - rádio comunitária (serviço de alto-falantes); 8 - artesanato; 9 - jornal comunitário; 10 - oficinas de alimentação alternativa e medicina natural; 11 - estudos sobre ecologia, afetividade/sexualidade e étnico-racial.
Apresentação do grupo de teatro infantil - Festival Infantil Reculturarte - Concha Acústica da Pça dos Capuchinhos - 1992
Batizado do grupo de capoeira Mocambo - Escola Estadual Souza Porto - Bairro América - 1992.

Apresentação da Banda Meninos do B.A. - Concha Acústica da Pça, dos Capuchinhos - Bairro América - 1993.

Apresentação do grupo de dança Reculturarte - Centro de Criatividade - 1992 - Bairro Cirurgia  -Aracaju

A esse propósito, Edenilson Barbosa, outro jovem engajado na igreja e na associação de moradores, também integrante da equipe que idealizou o projeto, afirmou em entrevista para o livro Os princípios políticos e a prática educativa do CESEP (2003). 

A concepção do projeto Reculturarte surgiu na AMABA, com a [sic] idéia de que ocupando as crianças com atividades culturais dava-se a elas isto e ao mesmo tempo formação. O CESEP teve uma participação importante na elaboração do projeto. Havia, anterior ao projeto, o grupo teatral Pipiri que desenvolvia atividades educativas, existia a capoeira, entre outras atividades culturais no bairro. O projeto Reculturarte possibilitou unificar todas essas atividades (FIGUEIREDO, 2003, p.78).[4]

Sobre esse aspecto da formação integral, em especial no que diz respeito aos aspectos da subjetividade, a AMABA/Projeto Reculturarte esteve atenta à necessidade colocada por Paulo Freire, conforme afirmação do professor Moacir Gadotti no curso “Paulo Freire em tempos de Fake News” (2019). Gadotti responde abaixo se Paulo Freire era marxista, socialista, e fala em especial sobre a forma pejorativa em que Freire é retratado como “doutrinador” por campanhas nas redes sociais e manifestações contra o pensamento crítico no campo da educação.

[...] Paulo Freire faz uma leitura, fez uma crítica do marxismo, como fez também do cristianismo e fez uma síntese superadora, própria, unindo temas cristãos e temas marxistas, e ele transitava bem [...]. No marxismo não se valorizava muito a subjetividade, valoriza-se mais a luta de classes, e Paulo Freire, ao contrário, disse: tudo bem, aceito que existe as classes em luta, isso é demonstrado cientificamente, mas é preciso enquanto educador realizar o papel do sujeito na história. Isso através da leitura do mundo, através da ideia – cada um poder dizer a sua palavra e construir a sua própria história [...] (INSTITUTO PAULO FREIRE, 2019).

Nessa perspectiva defendida por Paulo Freire, momentos fortes desse processo permanente de formação humana integral, com base no desenvolvimento da consciência crítica, criativa e sensível, foram os retiros do projeto Reculturarte.
Retiro Reculturarte - Acima - Sitio em Capela SE - 1993. Abaixo - Sitio no povoado Pedrinhas, municipio de Areia Branca SE. 1994


Os “retiros” do projeto, a despeito da denominação, teve pouco daquilo que encontramos nos retiros dos grupos religiosos, tanto pelo aspecto de conteúdo, como pelo aspecto da forma. Os conteúdos ou temas estavam baseados nas necessidades e problemas mais comuns. O tema “família”, por exemplo, foi abordado a partir do cotidiano dos presentes, relacionando-se com a história da sociedade, a religião e a cultura.
As dimensões lúdica (brincadeiras, cânticos), espiritual (celebração e oração), afetiva (reforçada por meio de técnicas de relaxamento e terapia corporal) e estética (audiovisual, desenhos, colagens e dramatizações) estiveram sempre presentes.
Também com forte inspiração em Paulo Freire, podemos definir a AMABA/Projeto Reculturarte como um “Círculo de Cultura”, embora esse termo nunca tivesse sido utilizado na época como uma denominação da iniciativa.
Aliás, mesmo que assumisse o legado de Paulo Freire como referência, nunca houve um estudo aprofundado acerca da influência da filosofia e da metodologia freiriana na ação educativa e cultural, mesmo que muito do que era realizado pelos educadores do projeto Reculturarte fosse apreendido nos seminários e oficinas promovidos pelo CESEP-SE, além do CESEEP-SP[5] e CENAP-PE,  entidades cujo ideário e práxis tinham Paulo Freire como  uma das principais  fontes de inspiração.
A partir de 1991,  começa  a participação de educadores da AMABA/Projeto Reculturarte  no curso de verão do CESEEP-SP, e a partir de 1993, na relação prioritária com o CENAP[6] – este por causa do trabalho de arte-educação popular desenvolvido no projeto Reculturarte (1989-1999), além de ter sede no Recife, o  que facilitava a locomoção, e pela forma de organização da programação com temas e metodologia de trançado holístico, unindo arte; educação popular; relações de gênero; racismo; meio ambiente e questões ligadas ao mundo do trabalho,  fundamentais para nutrir política, estética  e pedagogicamente os educadores da AMABA/Projeto Reculturarte.

A respeito do conceito de “Círculo de Cultura”, o professor Padilha, em outra aula do curso “Paulo Freire em tempos de Fake News” (2019), apresenta o seguinte:

[...] O Círculo de Cultura foi uma experiência e depois, também, uma teoria desenvolvida nos anos de 1960 por Paulo Freire com seu trabalho no Movimento de Cultura Popular (MCP). Os círculos de cultura permitem que a educação se faça primeiramente com as pessoas juntas, organizadas, especialmente a partir de seu território, do seu contexto de vida. Para que elas juntas definam um tema para ser estudado, escolham os conteúdos programáticos que lhes interessam. Elas trabalham com base na realidade, no contexto social histórico, político e econômico da sociedade [...] (INSTITUTO PAULO FREIRE, 2019).

E a criação do Projeto Reculturarte seguiu esse percurso. A começar pela escolha da arte e da recreação como pontos de partida. Dentro dessa perspectiva: “[...] após várias tentativas no sentido de sistematizar e desenvolver um projeto de trabalho junto aos menores carentes do bairro América [...] fazia-se necessário partir daquilo que é mais peculiar à criança e que mais lhe apraz, ou seja, da recreação” (CESEP, 1990, p.2).
Com isso, os temas geradores ligados às necessidades da comunidade deram a tônica. Aqui, não apenas como linguagem artística ou recurso metodológico, mas também como linha de discussão temática, além de estratégias de ensino-aprendizagem. Como atesta a professora Jussara Rosa, educadora de dança no período 1993-1994.

Primeiro dia de aula, as meninas rejeitaram o repertório musical, composto de música  instrumental,  consideraram uma música chata, indo totalmente de encontro ao planejamento que fiz , o qual visava utilizar o repertório que escolhi, base para os exercícios que tinha e cujo objetivo era servir para eu conhecer os corpos das meninas com quem eu ia trabalhar,  para eu poder ter um diagnóstico,  se tinham noções de lateralidade, de  eixo, postura. Foi quando tive um estalo, reuni o grupo em círculo, saindo do papel de superior, de quem está acima, e propus uma conversa em grupo, sobre o que queriam com a dança. Gosto do círculo, o círculo coloca a gente em condição de igualdade. Aí propus: O que move vocês? O que vocês gostam? O que vocês querem? O que mais apareceu nas respostas foi a predileção pela dança afro. Como não tinha experiência anterior com essa realidade da dança afro, propus às meninas assumirem o papel de professora naquele dia. Como uma delas disse ser “a fera do grupo”, a Sandra, convidei ela para ser a professora naquele momento, para me ensinar, assim como as outras colegas dela, depois eu então ocuparia o papel de professora (informação verbal).[7]

E assim, a AMABA/Projeto Reculturarte foi caminhando, entre erros, acertos, contradições, encontros, desencontros. Até que chegou ao fim no ano de 2004.  Mas, em 2018, a experiência retorna como memória de um tempo bom, por meio de entrevistas e coleta de documentos, fotos, recortes de jornais, pesquisas acadêmicas, base para a produção de um livro cujo objetivo principal é demonstrar   a necessidade e o potencial de iniciativas culturais de base comunitária.
Ao mesmo tempo em que começava as primeiras entrevistas, nos deparamos com a disputa eleitoral de 2018, dentro de um ambiente marcado pela apatia, pela desinformação e preconceitos gerados e disseminados pelas empresas de produção de  fake news e, decorrente disso, a  virulência verbal e odienta nas redes sociais e em muitos encontros  nas casas, nas ruas.
Por outro lado, uma sensação de impotência e angústia de quem foi um dos idealizadores da AMABA e do Projeto Reculturarte, mas que nesse momento não dispunha dos meios e  pre-textos, as linguagens artísticas, a comunicação popular, o esporte etc. para reunir pessoas de diversas idades para discutir e aprender coletivamente, visando à superação dos muitos equívocos e da desinformação espalhados como recursos para a vitória de algumas ideias e candidaturas a cargos eletivos.
Com certeza, caso a iniciativa tivesse continuidade, um expressivo contingente de pessoas residentes em um bairro periférico de Aracaju estaria vacinado contra a apatia e contra as fake news que tomaram conta das últimas eleições e do processo cotidiano de convivência e vínculos, com possibilidade de participar de forma positiva como protagonista dos acontecimentos sociais e políticos, sejam aqueles mais próximos relacionados ao bairro, rua, escola, posto de saúde etc., como aqueles mais distantes, os momentos de decidir pelo voto os rumos e a gestão da cidade, do estado, do país.


[1] A Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), nasceu em 1973, como fruto da reflexão sobre o compartir ecumênico, na busca de uma sociedade mais justa e democrática para os empobrecidos. Conta com recursos oriundos da cooperação internacional e de captação no Brasil.
[2] Organismo internacional de ajuda criado por um pastor batista norte-americano durante a década de 1950 para assistir crianças órfãs na Coreia. Posteriormente, passou a atender projetos de igrejas evangélicas na área social em diversas partes do mundo. A partir da década de 1990, passou a estabelecer convênios com organizações comunitárias.
[3] Cf. CONCEIÇÃO, Paulo Sérgio da. Entrevista XXIX. [janeiro de 2019]. Entrevistador: José de Oliveira Santos. Aracaju, 2019. 1 arquivo .mp3 (54 min.).
[4] CESEP é uma Organização da Sociedade Civil, não mais existente, criada em Sergipe no ano de 1988, formada a partir da iniciativa conjunta e ousada de lideranças populares, estudantes e professores da Universidade Federal de Sergipe. Seu foco foi o desenvolvimento contínuo de projetos e ações nos campos da Educação Popular e da Comunicação para Organizações Populares.

[5] O CESEEP-SP nasceu em 1982 por iniciativa de um grupo de bispos, pastores/as, teólogos/as, biblistas e cientistas sociais com o objetivo de oferecer formação a lideranças comunitárias, de movimentos e pastorais sociais, e a pessoas vinculadas a igrejas cristãs, abertas ao diálogo e à cooperação com pessoas de outras crenças religiosas.
[6] “Nas oficinas do CENAP, lançando mão da música e da dança, do teatro, da performance, do desenho e da pintura, da expressão corporal, das práticas de relaxamento, meditação, massagem, da collage, da mistur(ação) de sons, imagens e textos – uma (re) mixagem – promovemos a participação e motivamos para a (re)leitura e a (re)criação da realidade social na qual atuamos. O aprofundamento da reflexão e o estudo não estão descartados, ao contrário, mas também são desafiados a encontrar formas inovadoras de se realizarem” (SILVA, 1995, p. 33). 
[7] Cf. ROSA, Jussara da Silva. Entrevista XXX. [novembro de 2018]. Entrevistador: José de Oliveira Santos. Aracaju, 2018. 1 arquivo .mp3 (42 min.).



[i] Licenciado em História (UFS); especialista em Arte-Educação (FSLF); professor de História na rede pública de ensino; agente/produtor/assessor de iniciativas culturais de base comunitária. Contato: zezitodeoliveira@gmail.com



REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é método Paulo Freire. 11ª edição. São Paulo: Brasiliense, 1986.
CENTRO SERGIPANO DE EDUCAÇÃO POPULAR (Cesep). Projeto Reculturarte, Aracaju, Sergipe, 1989.
CONCEIÇÃO, Paulo Sérgio da. Entrevista XXIX. [janeiro de 2019]. Entrevistador: José de Oliveira Santos. Aracaju, 2019. 1 arquivo .mp3 (54 min.).
DUSSANTUS, Anderson. A Educação Popular e os Desafios do CESEP e das Organizações da Sociedade Civil. Portal Entrenoticias, 2017. Disponível em: >  Acesso em: 25  jul. 2019.
FIGUEIREDO, Acácio Nascimento. Os princípios políticos e a prática educativa do Cesep. Aracaju: Edições Cesep, 2003.
INSTITUTO PAULO FREIRE. A noção de fake news, de pós-verdade e as contribuições de Freire à educação. Docente: Moacir Gadotti. Curso Paulo Freire em tempos de fake News: atualidade, metodologias e práticas. Produção: EAD Freiriana, São Paulo: Coordenação Geral: Paulo Roberto Padilha, 2019. Videoaula 1/16 (22:38 minutos).
INSTITUTO PAULO FREIRE. O Círculo de Cultura como referência de metodologia ativa: por uma pedagogia intertranscultural. Docente: Paulo Roberto Padilha. Curso Paulo Freire em tempos de fake News: atualidade, metodologias e práticas. Produção: EAD Freiriana, São Paulo: Coordenação Geral: Paulo Roberto Padilha, 2019. Videoaula 4/16 (35:49 minutos).
LEITE, Álvaro Luiz Pantoja. A construção pedagógica de sujeitos em processos formativos. 2013. Tese (Doutorado em Ciências da Educação) – Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Universidade do Porto, p.393.
SILVA, Gerson Flávio. Arte-Educação como espaço-tempo de (re)mixagem. Revista Tecendo Ideias (2), Recife, p.29-38.