A “onda azul” varreu a América Latina. Colômbia, Peru, Chile, El Salvador, Argentina: a direita avançou, e faltava a joia da coroa. Mas o Brasil disse não. Depois de sair atrás no primeiro turno, Lula virou e venceu Flávio Bolsonaro por 51,8% a 48,2%. Viradas assim não caem do céu e podem servir de exemplo a outras democracias que estão tentando se salvar.
O que mudou não foi apenas o voto, mas as ruas e as redes. Jovens, fandoms, movimentos com gente que ama, tolera ou critica Lula se encontraram para barrar o retorno do bolsonarismo. Aprenderam a combinar redes e manifestações, humor e organização, sem depender exclusivamente de partidos. Quando a democracia entrou em jogo, divergências não desapareceram, mas deixaram de ser desculpa para a paralisia.
E a disputa esteve longe de ser limpa. Decisões no TSE ameaçaram o Exército de Lula, tocado por André Janones, no WhatsApp. A Meta admitiu falhas (sic) após denúncias de tratamento claramente desigual. Flávio foi buscar pressão nos Estados Unidos — sim, patriotismo de exportação: pede-se socorro estrangeiro para impor a própria vontade em casa.
A vitória impôs um limite ao trumpismo na maior nação latino-americana. Enquanto a maioria dos governantes de direita da região cumprimentaram Lula, Milei preferiu o silêncio. Há uma diferença entre a direita que reconhece a derrota e a extrema direita que só aceita eleições quando vence.
Mas ninguém encomende o enterro da extrema direita. Ela segue forte, financiada, influente nas redes e nas instituições. Tampouco o voto deu a Lula cheque em branco. Quem saiu às ruas terá de cobrar o governo, fiscalizar concessões e defender os direitos conquistados com luta — nunca presenteados por governantes.
O antídoto contra o autoritarismo não é um salvador da pátria, de vermelho ou amarelo. É uma sociedade que se recusa a ficar sozinha, a calar e a abandonar quem precisa. A eleição acabou. A disputa pelo futuro, não.
Óleo sobre tela. A derrota. 2026.

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