Continuar a mobilização, organizar o campo popular e assumir nossa responsabilidade no novo governo. |
Eu ia fazer uma laive hoje, mas esqueci que ia ter uma obra em casa: muito barulho, impossível manter o plano. Escrevo aqui algumas impressões iniciais da grande vitória de ontem, que espero desenvolver em textos nos próximos dias.
Tivemos um dia tenso ontem, que terminou com essa vitória histórica. Uma vitória não só para o Brasil, mas para a América Latina e para o mundo. Nós, brasileiros, renovamos a esperança de derrotar a extrema-direita, de resistir ao Império e de salvar o planeta.
Não é pouca coisa. Como profetizou Assis Valente, quando chegou a hora, nossa gente bronzeada mostrou seu valor.
Pra mim, na verdade, a tensão começou a se dissipar logo depois das 19 horas. Já os primeiros números indicavam a vitória de Lula. Enquanto no primeiro turno Flávio Bolsonaro ganhou a dianteira logo que se abriram as primeiras urnas do Brasil, ontem Lula permanecia à frente mesmo com a apuração andando – no primeiro turno, a primeira parcial, com 1,5% das urnas apuradas já colocava Flávio na frente e ontem ele só virou com mais de 13%, um sinal claro da mudança de cenário.
E, claro, os modelos estatísticos de projeção de resultados ajudaram muito. Acompanhei sobretudo pelo Rodrigo Mahlmeister, que fez um trabalho incrível, mas também fiquei vendo outros três e todos apontavam, desde o começo, que Lula ia ganhar. Com 3%, o cenário já estava delineado. Com 20%, já dava para ter quase certeza. Com menos de 50%, já podíamos comemorar.
Tenho três agradecimentos a fazer, acredito que em nome de todos nós.
O primeiro agradecimento é para o povo brasileiro. É claro que é chocante saber que quase 60 milhões dos nossos compatriotas estavam dispostos a aceitar aquele sujeito como presidente do Brasil.
Mas a maioria, uma maioria ampla, entendeu a importância de proteger a democracia, de proteger os nossos direitos, de proteger a vida de todos nós. E votou pela Constituição. Votou pelo fim da escala 6x1. Votou por justiça para Ana Clara.
Esse agradecimento é, obviamente, em primeiro lugar para o povo nordestino.
O Nordeste, que dá tanto para o Brasil, que já nos deu e nos dá tantos artistas, tantos intelectuais, tantos cientistas, se levantou de novo para salvar nossa democracia. O Nordeste mostrou que não desiste do Brasil e sabe que o povo brasileiro não quer gorjeta, quer desenvolvimento.
Mas vamos reconhecer: em todos em todos os estados em que ganhou no primeiro turno, Lula aumentou a diferença. Virou em Minas Gerais e no Amapá, E nas outras unidades da federação diminuiu a diferença, em alguns casos significativamente. Foi uma vitória completa.
Então, parece que muitos brasileiros das outras regiões se inspiraram nos nordestinos para dizer não a barbárie.
O segundo agradecimento é ao presidente Lula.
Lula não precisava disso. Já tem seu lugar na história. Já tem a gratidão de milhões de brasileiros, cujas vidas ele transformou. Já podia gozar de uma merecida aposentadoria.
Mas o Brasil precisava de Lula e ele assumiu a responsabilidade.
Sempre fui crítico de seus governos; até quando escrevi o prefácio de seu livro, A verdade vencerá, fiz um balanço muito crítico de sua gestão. Aliás, o fato de que ele permitiu um prefácio assim mostra a grandeza do presidente. Mas eu também nunca deixei de reconhecer em Lula o maior líder popular da nossa história, o maior estadista que esse país já teve. E ele provou isto, uma vez mais, no dia de ontem.
Por fim, óbvio, o agradecimento ao deputado-general André Janones. Ele foi fundamental para reativar a mobilização da militância. O que ele fez não mudoi apenas o jogo nas redes, que formam um terreno crucial, porém hostil para o campo democrático. Foi essencial também para retomarmos as ruas.
A militância borocoxô que só pensava em morrer depois do resultado do primeiro turno se transformou num exército cheio de garra, trabalhando 24 horas por dia, com esperança na vitória. Sem isso, provavelmente as manifestações puxadas pela juventude não teriam sido tão gigantescas, tão lindas. Sem isso, o esforço de conversar, de convencer cada pessoa ao nosso lado, não teria ocorrido de forma tão infatigável.
Em 2022, Janones também teve um papel importante, mas ele amadureceu muito lá pra cá. Praticamente abandonou os factoides, mostrou que é possível disputar o debate nas redes sem recorrer a mentiras, enfatizou a centralidade do trabalho coletivo.
Estratégia unificada e iniciativa descentralizada, partindo de cada um: a receita da vitória.
As lições que ele ensinou vão servir à esquerda, aos progressistas, aos democratas, não só no Brasil, mas no mundo todo.
Enquanto isso, os bolsonaristas tentam contestar o resultado da eleição, com base em pretextos sem fundamento.
Creio que já dá para ter um panorama bem claro do que aconteceu. Prefeitos vinculados à direita, como em São Paulo e em Salvador, boicotaram a oferta de transporte coletivo, em descumprimento frontal das decisões da justiça, a fim de prejudicar o acesso do eleitorado de Lula as urnas.
(Não podemos esquecer: eles precisam ser julgados por crime eleitoral.)
Diante da lentidão na solução do problema, o PT decidiu pedir o adiamento do fechamento das urnas. O ministro KN optou por sentar em cima do pedido, até que fosse tarde demais para decidir. Em jogada ensaiada, o PL também pediu a prorrogação da eleição, mas só nos estados do Sul, para poder dizer depois que Lula não tinha direito de reclamar, já que eles também tinham pedido e não sido atendidos.
Diante da inação do TSE, a campanha de Lula recorreu ao Supremo, que no entanto demorou horrores para sortear o relator. Sorteado Zanin, ele decidiu pela garantia do direito de voto de brasileiros, com a prorrogação do horário. O problema é que a decisão sai muito tarde e o próprio TSE não buscou informar as seções eleitorais, o que causou alguma confusão.
Essa confusão, no entanto, foi muito insuficiente para ter qualquer efeito no resultado. O total de votos colhidos depois do horário não chega a 0,5% da diferença de 4,6 milhões de votos que o presidente Lula abriu sobre o filho do capeta. O próprio KN, subitamente preocupado em limpar sua imagem, já falou que não existe motivo para contestar o resultado.
O que eles querem é pretexto para fazer uma agitação golpista.
É grave que agentes públicos, como deputados federais ou mesmo o governador do maior estado do país, se prestem a isso. No caso de Tarcísio, sabemos que ele simplesmente quer se credenciar, na disputa pelo espólio do bolsonarismo, que agora vai ter que sair da família do capetão.
Mas não é correto que esse tipo de comportamento permaneça sem consequências. É fundamental punir o golpismo de funcionários públicos eleitos, até para estimular a direita oportunista a se distanciar deles. Não sei se temos força para isso, mas os mandatos de gente como Nikolas, Pavanato e Tarcísio deviam ser cassados.
Mas chega de falar dos derrotados.
Agora, é hora de comemorar, mas não de desmobilizar. O primeiro passo é impedir o golpe.
Com o Poder Executivo federal operando a favor da democracia, não contra, o ímpeto golpista deve ser bem menor. Mas é preciso estar alerta contra provocações e para dar apoio a medidas de repressão aos mais exaltados.
Depois, é preciso impedir que a direita inviabilize o novo governo. Não é simplesmente apoiar o presidente Lula. Creio que temos que assumir a nossa responsabilidade no governo, uma responsabilidade proporcional à importância que a mobilização da militância teve nesta vitória.
Isto significa cumprir as tarefas necessárias para garantir a governabilidade, pressionando o Congresso. O caso da aprovação do fim da escala 6x1 é ilustrativo: um povo consciente do que está em jogo, que se manifesta, é capaz de garantir vitórias mesmo diante de um grupo de parlamentares majoritariamente hostil aos seus interesses.
Mas significa também ser ouvido no governo. A pressão é forte para que esse novo governo ceda ainda mais à direita. A imprensa corporativa, que aliás vacilou feiamente na defesa da democracia e cumpriu muito mal seu papel de informar o que estava em jogo na eleição, agora já está cobrando “responsabilidade fiscal”, redução de gastos sociais, fim das “bondades” para com a classe trabalhadora. Cabe a nós cobrar do governo os compromissos com sua base popular.
Uma coisa não é incompatível com a outra: apoiamos cobrando. Vamos lembrar que, quando ganhou em 2022, o próprio presidente Lula disse que queria ser cobrado.
Para isso, é preciso continuar o engajamento nas redes, com técnicas avançadas, aproveitando o enorme aprendizado do segundo turno, e também a mobilização nas ruas, mas combinados com processos de formação política mais aprofundada. E com atenção, sobretudo, à necessidade de organização do campo popular: sindicatos, associações de moradores, movimento estudantil, partidos.
Para um trabalho de resistência prolongada, como o que nos espera, não basta mobilização pontual. É necessária organização.
Do ponto de vista institucional, tornou-se imperativo construir uma federação de todos os partidos de centro-esquerda e esquerda. Já fui contra, mas estava errado – e o cenário mudou. A ausência da federação levou a um grande desperdício de votos e perda de cadeiras na Câmara dos Deputados e nas assembleias estaduais.
Uma grande federação, da centro-esquerda à esquerda, e, se possível, outra do centro à centro-direita, esta sob o comando do PSB de Alckmin e Tebet, seria o melhor cenário. Lembrando que a federação não anula as diferenças dos partidos que a compõem.
Afinal, esse é outro ponto: construir nossa unidade aceitando a diversidade do campo democrático e da esquerda, convivendo com diferenças e mesmo com discordâncias, sempre priorizando as pautas materiais que delimitam com clareza qual é cada lado e que tiram terreno da direita.
São quatro anos em que temos o desafio de encontrar um sucessor para Lula, é verdade, mas também outro desafio, maior ainda: desarmar a extrema-direita, civilizar os quase 60 milhões de concidadãos que estão enredados em sua teia, afastar a política do banditismo.
São ideias para debate, que estou jogando aqui de forma muito telegráfica. Paro, para descansar um pouco, descansar das semanas de tanta luta (e também da comemoração, que ninguém é de ferro). Nos próximos dias, aos poucos, vou desenvolver estas reflexões.
Parabéns a todos nós.
Leia mais em: https://lfmiguel.substack.com/

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