O texto a seguir parte dos aplausos em um aeroporto de uma parte da classe média a André Mendonça, para refletir sobre a falta de uma rede organizada da sociedade civil capaz de defender a democracia. Reconhece os avanços do MinC — Lei Paulo Gustavo, Aldir Blanc, Cultura Viva, Comitês e Agentes Territoriais —, mas critica que o financiamento, sozinho, não forma consciência política, autonomia e mobilização popular. Defende transformar a política cultural em política de cidadania cultural, com educação popular, comunicação comunitária e organização de base. A pergunta central é: “onde está a nossa rede?”. Conclui que não precisamos de heróis, principalmente de falsos heróis, mas de gente organizada e de sujeitos coletivos capazes de sustentar a democracia.
O efeito da vitimização
Na manhã desta quinta-feira (17), o ministro André Mendonça foi aplaudido em um voo de Brasília para São Paulo aos gritos de "nosso herói". O episódio reflete o tensionamento no STF, onde o magistrado trava um embate direto com Alexandre de Moraes. Diante disso, vale lembrar a célebre frase de Bertolt Brecht na peça Vida de Galileu (1938): "Infeliz a terra que precisa de heróis". O cenário se mostra ainda pior quando os supostos "heróis" são figuras mequetrefes como Moro, Bolsonaro e essa nova liderança de ocasião. A crise brasileira, afinal, vai muito além das instituições.
A verdadeira saída passa pela educação popular, pela ação cultural e pelo fortalecimento da comunicação alternativa/independente. Esse trabalho de base e de educação política, defendido por Frei Betto e tantos outros intelectuais, já existe em pequena escala. No entanto, ou expandimos essas iniciativas, ou reviveremos o retrocesso que enfrentamos a partir do golpe de 2016 contra Dilma Rousseff.
A curto prazo, para essas eleições, nossa esperança reside na resistência ativa de milhares de militantes e na força dos veículos progressistas de comunicação digital. Precisamos desse fôlego para conter mais uma tentativa de empurrar o país para o precipício. A luta continua, e ouvir quem propõe soluções reais na base, a começar por Frei Betto, é fundamental.
Escrevi o texto acima a partir de uma postagem publicada pelo Pe. Manuel, do clero de Londrina, em um grupo de mensagens. Em seguida, compartilhei o mesmo texto nesse grupo e em outros grupos, e de forma individual, além de publicá-lo no Facebook.
Em uma das respostas individuais, recebi uma resposta bastante provocadora e, ao mesmo tempo, necessária, de um companheiro, amigo de fé e irmão camarada. A reflexão dele foi direta: “O MinC não disse pra que veio e, assim, perdemos uma imensa rede que poderia estar na rua neste momento.”
Foi essa provocação que me levou a aprofundar a reflexão e produzir o artigo abaixo, com o apoio da inteligência artificial (IA), procurando transformar aquela inquietação em uma questão mais ampla sobre o papel das políticas culturais na formação, organização e mobilização da sociedade civil.
Vamos ao texto....
Bem se sabe que os aplausos recebidos por André Mendonça dentro de um avião não representam o conjunto da sociedade brasileira. Mas também não acho que devamos simplesmente rir ou desprezar o episódio. A política tem dessas coisas. Às vezes começa dentro de um avião, passa pelas redes sociais e termina ocupando as ruas. E quando percebemos, uma narrativa que parecia pequena já ganhou corpo. É aí que entra uma pergunta que me acompanha há algum tempo e que agora parece ainda mais necessária: onde está a nossa rede?
Não estou falando apenas da rede de militantes partidários. Falo de uma rede muito maior, construída durante décadas por educadores populares, artistas, Pontos de Cultura, organizações comunitárias, coletivos juvenis, comunicadores, produtores culturais, cineclubistas, grupos de teatro, quadrilhas juninas, mestres da cultura popular e tantas outras experiências que existem nos bairros, nas periferias e nos pequenos municípios brasileiros. Essa rede existe e recebeu, nos últimos anos, recursos e políticas públicas como há muito tempo não recebia. Por isso mesmo, a pergunta precisa ser feita: o que fizemos com essa oportunidade?
O Ministério da Cultura foi recriado depois de um período em que a própria existência do Ministério chegou a ser colocada em questão. Vieram a Lei Paulo Gustavo, a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, a retomada da Política Nacional Cultura Viva, os Comitês de Cultura e os Agentes Territoriais de Cultura. Não é pouca coisa. A Lei Paulo Gustavo mobilizou bilhões de reais, a Política Nacional Aldir Blanc criou uma política continuada de financiamento e a Cultura Viva voltou a ocupar um lugar importante na política cultural brasileira. Mas é justamente por reconhecer a dimensão desse investimento que a pergunta se torna ainda mais necessária: dinheiro para a cultura é fundamental, mas dinheiro, sozinho, não constrói consciência política, organização popular ou capacidade de mobilização.
Talvez aqui esteja uma das maiores contradições do atual ciclo das políticas culturais. O próprio Ministério da Cultura afirma que os Comitês de Cultura foram criados para promover mobilização social, formação em direitos e políticas culturais, comunicação social, educação popular, formação cidadã sobre democracia e fortalecimento da participação social. Não sou eu que estou inventando essa finalidade; está escrito nos documentos do próprio MinC. Em 2024, o Ministério informou ainda que havia selecionado 601 Agentes Territoriais de Cultura para atuar justamente com mapeamento, mobilização social e comunicação comunitária.
Então a pergunta fica ainda mais incômoda: se a gente sabia que cultura também é democracia, por que essa dimensão não ganhou a mesma força que a dimensão do financiamento? Não estou dizendo que os artistas deveriam sair às ruas para defender um governo, muito menos que o Ministério da Cultura deveria transformar Pontos de Cultura em comitês partidários. Seria um equívoco, porque a cultura brasileira é plural demais para caber dentro de um partido, de um governo ou de uma corrente ideológica. O que estou dizendo é outra coisa: uma política cultural democrática deveria formar sujeitos capazes de compreender o seu tempo e participar da vida pública, e isso é muito diferente de transformar cultura em instrumento de propaganda.
Aprendi isso muito antes de existir a Lei Paulo Gustavo ou a Política Nacional Aldir Blanc. Quem veio da educação popular sabe que o mais importante de um projeto não é apenas aquilo que acontece durante a oficina, o espetáculo ou a atividade, mas aquilo que fica depois. O jovem que participou da oficina começa a participar da associação; a comunidade que organizou um sarau passa a discutir a praça; o grupo cultural começa a reivindicar políticas públicas; o cineclube passa a discutir o bairro; o Ponto de Cultura deixa de ser apenas um lugar onde acontece uma atividade e se transforma em referência para a comunidade. É aí que a cultura deixa de ser somente programação e passa a ser organização social.
Talvez esse seja o ponto em que precisamos avançar. Durante muitos anos, nós aprendemos a disputar edital, preencher formulário, fazer plano de trabalho e prestar contas. Tudo isso é necessário, mas será que aprendemos, na mesma proporção, a construir redes? Será que conseguimos formar uma geração de agentes culturais capazes de conversar com a comunidade sobre democracia, direitos, comunicação, desinformação, participação popular e projeto de sociedade? Será que os Pontos de Cultura estão conversando entre si para além dos editais? Será que os Comitês de Cultura conseguiram se tornar uma presença permanente nos territórios? Será que os Agentes Territoriais de Cultura estão construindo vínculos que permanecerão depois do programa?
São perguntas que não diminuem o que foi feito. Ao contrário, só podem ser feitas porque muita coisa foi reconstruída. O próprio MinC reconhece que sua política precisa atuar para além do financiamento e apresenta os Comitês como uma rede voltada à educação popular, mobilização social e comunicação. O Ministério também vem desenvolvendo ações relacionadas à comunicação popular. Portanto, talvez o problema não seja a inexistência da rede, mas o fato de que essa rede ainda não adquiriu a densidade política, territorial e comunicacional necessária para funcionar como uma força social autônoma.
E isso não se resolve apenas com mais um edital. Precisa de tempo, formação, confiança, autonomia e comunicação, mas, sobretudo, precisa de gente encontrando gente. Foi assim que muitas experiências de organização popular nasceram no Brasil. Não nasceram de cima para baixo; nasceram da conversa na comunidade, da reunião na associação, da pastoral, do sindicato, do movimento de bairro, do grupo cultural, da escola, da igreja, do terreiro, do teatro, da música e da comunicação comunitária. Eu venho de uma geração que aprendeu alguma coisa com isso: uma sociedade organizada não se convoca pelo WhatsApp na véspera de uma manifestação; ela é construída antes, muito antes.
Talvez essa seja uma das diferenças entre uma política cultural que financia a sociedade civil e uma política cultural que fortalece a sociedade civil. A primeira transfere recursos; a segunda deixa capacidade instalada. E é essa segunda dimensão que precisamos discutir, porque não basta dizer que o Brasil possui milhares de Pontos de Cultura. Precisamos perguntar quantos deles possuem capacidade de articulação territorial. Não basta dizer que existem Comitês de Cultura em praticamente todos os estados; precisamos perguntar se eles conseguiram criar vínculos permanentes com as organizações de base. Não basta dizer que existem Agentes Territoriais; precisamos saber o que esses agentes conseguiram construir nos territórios e o que permanecerá quando o programa terminar. Não basta comemorar bilhões destinados à cultura; precisamos saber quantos novos sujeitos sociais foram formados com esses bilhões.
Essa talvez seja uma pergunta mais importante do que a quantidade de recursos executados, porque cultura não é apenas economia criativa, emprego e renda ou entretenimento. Cultura também é memória, identidade, pertencimento, comunicação, educação, disputa de narrativa e capacidade de imaginar outro futuro. Por isso mesmo, é também uma dimensão da democracia.
Talvez tenhamos demorado demais para compreender isso. Enquanto uma parte da sociedade aprendeu a ocupar as redes, produzir vídeos, construir narrativas e transformar ressentimentos em mobilização política, nós continuamos muitas vezes presos à velha lógica de que basta organizar uma boa atividade cultural. Não basta. Precisamos contar a história do que fazemos, disputar a narrativa, conversar com quem está fora dos nossos círculos, formar jovens, recuperar a memória, fortalecer a comunicação comunitária e aprender novamente a fazer educação popular. E precisamos fazer isso sem transformar a cultura em aparelho de governo ou de partido.
Essa é a parte mais difícil, porque uma rede cultural forte precisa ter autonomia suficiente para cobrar o governo que a financia. Precisa poder dizer “sim” quando concorda e “não” quando discorda. Precisa defender a democracia sem depender de nenhum governo para existir. Talvez seja justamente essa autonomia que possa produzir uma rede mais resistente. Quando a crise chega, não adianta procurar uma sociedade civil organizada se passamos anos tratando organizações culturais apenas como executoras de projetos.
É aqui que volto ao episódio dos aplausos. Enquanto alguns conseguem transformar uma figura pública mequetrefe como André Mendonça em símbolo de resistência, nós ainda estamos tentando descobrir como transformar milhares de experiências culturais dispersas em uma narrativa comum de defesa da democracia. Não precisamos de heróis; precisamos de gente organizada. Bertolt Brecht já havia percebido isso quando escreveu: “Infeliz a terra que precisa de heróis.” Talvez o nosso problema seja ainda mais profundo: estamos construindo uma democracia que, de tempos em tempos, sofre abalos de alta intensidade e ainda não conseguiu construir suficientemente os sujeitos coletivos capazes de defendê-la.
É por isso que não consigo olhar para a política cultural apenas pelo tamanho dos recursos investidos. Reconheço a importância deles, mas quero saber o que ficou depois: que rede ficou, que consciência ficou, que organização ficou, que comunicação ficou e que capacidade de mobilização ficou? Se a resposta for que temos mais projetos, mais equipamentos, mais artistas contemplados e mais recursos chegando aos territórios, já teremos avançado bastante, mas ainda não será suficiente.
Precisamos dar o próximo passo: transformar política cultural em política de cidadania cultural, transformar Pontos de Cultura em pontos de encontro, transformar comunicação cultural em comunicação popular, transformar formação técnica também em formação cidadã e transformar a enorme diversidade cultural brasileira em uma rede de organizações autônomas, conectadas e capazes de dialogar com a sociedade. Não para defender Lula, o PT ou o Ministério da Cultura, mas para defender algo maior: a democracia, a liberdade, os direitos culturais e a possibilidade de uma sociedade organizada construir seu próprio futuro. Mas isso se o golpe engendrado por dentro do STF desta vez, não produzir os efeitos esperados pelos seus idealizadores e operadores.
Uma canção que dialoga com o que escrevi acima...
Onde Estava Você - Guilherme Arantes (Video Clipe Oficial)
O interlocutor do texto abaixo de 2006, é o mesmo que dialogou comigo no dia de hoje
OUTRO BRASIL? SOMENTE COM PARTICIPAÇÃO E ARTE.
Certa feita, conversando com um amigo educador/artista, que reside na cidade de Olinda, em Pernambuco, sobre o modo de a esquerda governar, ele externou para mim algumas preocupações referentes ao modelo de gestão de muitas administrações progressistas que ele conheceu e que se moldam facilmente à cultura política das oligarquias locais e realizam, mesmo que de forma mais eficiente, uma gestão cuja prioridade são apenas as grandes obras, os programas assistenciais e os shows com grandes artistas ligados à cultura de massa, o que acaba lembrando uma canção do Cazuza: “Um museu de grandes novidades” ou parafraseando Belchior: “Minha dor é perceber que apesar de tudo que fizemos, ainda somos os mesmos, “pensamos” e administramos a coisa pública como os velhos coronéis.”
http://www.overmundo.com.br/overblog/outro-brasil-somente-com-participacao-e-arte-1


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