quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Fábio Mitidieri e a cultura sergipana: entre a agenda cultural e a política de Estado

 o artigo analisa a política cultural do governo Fábio Mitidieri e as perspectivas apresentadas para um possível segundo governo, com base no seguinte mote: a diferença entre agenda cultural de governo e política cultural de Estado.

Por Zezito de Oliveira

Toda vez que chega uma grande festa, uma parte da política parece ganhar luz própria. Os palcos são montados, as bandas anunciadas, as autoridades aparecem, as redes sociais se enchem de imagens e os discursos falam em valorização da cultura, geração de renda, turismo e economia criativa. Por alguns dias, parece que a cultura finalmente ocupa o lugar que merece. Mas existe uma pergunta que costuma aparecer depois que o último caminhão deixa a praça, o último artista desmonta seus equipamentos e as luzes se apagam: o que ficou?

Não estou falando apenas da memória da festa ou do dinheiro movimentado, que também importam. Estou falando daquilo que deveria permanecer como política pública depois que termina o espetáculo. Essa questão me acompanha há algum tempo, talvez porque venho de uma geração que aprendeu a olhar para a cultura não apenas como entretenimento, mas como espaço de organização social, formação, memória, identidade e disputa por direitos. Antes de existir a expressão “economia criativa”, muita gente já fazia cultura nos bairros, nas comunidades, nas escolas, nas associações, nos grupos de teatro, nas quadrilhas, nos terreiros, nas rodas de capoeira, nas bandas, nos grupos de dança e nos coletivos juvenis. O Estado chegou depois, e talvez uma boa política cultural seja justamente aquela que não esquece disso.

É por esse caminho que venho olhando para a política cultural do governo Fábio Mitidieri e para aquilo que está sendo colocado no horizonte de um possível segundo governo. Não para fazer torcida, porque cultura pública não deveria ser campeonato de torcida, mas para tentar entender que concepção de política cultural está se formando em Sergipe. No fundo, permanece uma questão central: estamos construindo uma política cultural de Estado ou apenas ampliando uma agenda cultural de governo?

O problema não está na festa

É preciso dizer logo de saída que o problema não são os grandes eventos. Seria uma simplificação transformar Arraiá do Povo, Verão Sergipe, festivais, shows e grandes programações em vilões da política cultural. Um evento pode gerar trabalho, renda, circulação artística, ocupação do espaço público, turismo e acesso à cultura, além de criar oportunidades para artistas que dificilmente teriam espaço em outros circuitos.

A questão começa quando a programação de eventos passa a ocupar quase todo o campo de visão e deixamos de enxergar aquilo que acontece durante os outros onze meses do ano. Porque cultura não começa quando o governo anuncia uma programação: ela já estava lá, no grupo que ensaiou durante meses, na quadrilha junina que sobreviveu mais um ano, no mestre que continua ensinando, no jovem que descobriu o audiovisual, na mulher que mantém uma tradição familiar, no artista que paga do próprio bolso o transporte para uma apresentação, no Ponto de Cultura que funciona quase sem dinheiro, na associação que abre suas portas para uma oficina e no professor que transforma a sala de aula em espaço de criação.

É aí que a política cultural deveria chegar, não para substituir o que a sociedade já faz, mas para criar condições para que isso possa continuar existindo, se desenvolver e alcançar novos públicos.

Quando o Estado começa a enxergar quem já fazia cultura

Talvez uma das mudanças mais importantes dos últimos anos tenha vindo de fora dos governos estaduais. A pandemia mostrou de maneira brutal aquilo que muitos agentes culturais já sabiam: a cultura movimenta trabalho, mas uma enorme parcela dos trabalhadores da cultura vive em condições precárias. A Lei Aldir Blanc e, depois, a Lei Paulo Gustavo produziram uma espécie de choque de realidade, porque, de repente, o Estado precisou perguntar quem eram essas pessoas e descobriu uma multidão formada por artistas, técnicos, produtores, grupos, coletivos, espaços culturais, mestres e organizações comunitárias.

Foi uma experiência dolorosa, mas também reveladora. A cultura deixou de ser apenas uma rubrica para contratar artistas para uma festa e passou a ser tratada, em muitos momentos, como uma política de proteção e fomento ao trabalho. É nesse ambiente que precisamos compreender o que aconteceu em Sergipe durante o governo Mitidieri. O Estado recebeu e executou recursos importantes da Lei Paulo Gustavo e da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, ampliando o número de editais e ações de fomento. Mas talvez o dado mais interessante não esteja apenas no dinheiro, e sim na tentativa de aproximar a política dos municípios e das comunidades culturais.

O interior não é uma extensão de Aracaju

Quando aparecem palavras como “interiorização” nos programas de governo, sempre fico com uma certa desconfiança, não porque interiorizar seja ruim, muito pelo contrário, mas porque já vimos muitas vezes a chamada interiorização se resumir a colocar uma programação em uma praça distante da capital. Isso é circulação de evento, mas não necessariamente é descentralização da política pública.

A diferença parece pequena, mas não é. Interiorizar uma política significa que o artista de Poço Redondo, Porto da Folha, Lagarto, Itabaiana, Propriá, Laranjeiras, Nossa Senhora da Glória ou Estância precisa ter condições de acessar informação, formação, financiamento, equipamentos, circulação e participação sem precisar descobrir sozinho como funciona a burocracia cultural de Aracaju.

Foi nesse sentido que chamou minha atenção a criação dos agentes territoriais vinculados à Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura. Dois agentes em cada um dos oito territórios de planejamento podem parecer uma pequena engrenagem administrativa, mas podem se transformar em uma das experiências mais importantes se conseguirem construir uma ponte permanente entre o Estado e aqueles que normalmente ficam do lado de fora dos editais. Porque o problema muitas vezes não é falta de talento, mas falta de informação, de acesso, de formação, de documentação ou de alguém para explicar; e, às vezes, falta sobretudo alguém no Estado disposto a escutar.

Cultura Viva é outra conversa

Aqui chegamos a um ponto que considero ainda mais importante. Existe uma diferença entre o Estado perguntar “quem tem um projeto para receber recurso?” e reconhecer quem já faz cultura em determinado território e precisa ser fortalecido. Essa segunda perspectiva está muito mais próxima da lógica da Cultura Viva.

Os Pontos de Cultura não nasceram porque algum governo resolveu inventar cultura nos territórios. Eles existem porque a sociedade já produz cultura e encontrou formas próprias de organização. Por isso, fortalecer Pontos e Pontões de Cultura é mais do que executar um edital: é reconhecer que o Estado não é dono da cultura.

Talvez essa seja uma das mudanças de mentalidade que mais precisamos consolidar em Sergipe. Não precisamos de um Estado que diga às comunidades o que é cultura, mas de um Estado que ajude as comunidades a continuar fazendo cultura. Essa diferença é enorme.

E os mestres?

A mesma lógica aparece quando falamos dos mestres da cultura popular. A criação e implementação do Patrimônio Vivo da Cultura Sergipana é uma iniciativa importante porque desloca o olhar. Durante muito tempo, o poder público teve mais facilidade para preservar prédios do que pessoas; era mais fácil restaurar uma fachada do que garantir que determinado saber continuasse sendo transmitido.

Mas o patrimônio também está no corpo, na voz, na memória, na maneira de tocar um instrumento, de fazer uma comida, de dançar, de contar uma história, de rezar e de manter uma tradição. Quando o Estado reconhece um mestre enquanto ele está vivo, existe ali uma compreensão diferente da política cultural: não estamos apenas preservando o passado, mas tentando garantir que o passado possa conversar com o futuro.

O concreto também faz falta

É claro que precisamos de equipamentos. Quem vive a cultura sabe disso e não adianta romantizar a precariedade. Precisamos de teatros funcionando, museus estruturados, bibliotecas atualizadas, salas de cinema, espaços para ensaio, centros culturais, arquivos, espaços de formação e equipamentos descentralizados.

Por isso, os investimentos anunciados por meio do Viva-SE e os projetos envolvendo a Pinacoteca, o Museu do Forró, a Biblioteca Epiphânio Dória, o Palácio-Museu Olímpio Campos e outros equipamentos merecem ser acompanhados. Mas existe uma armadilha: um prédio bonito não é uma política cultural, uma inauguração não é uma política cultural. Um teatro reformado que permanece sem programação continua sendo um problema; uma biblioteca sem política de leitura é apenas uma biblioteca; um museu sem pesquisa e educação patrimonial pode virar uma sala silenciosa cheia de objetos.

O equipamento é importante, mas precisa estar integrado a uma política de programação, formação, acesso, preservação, pesquisa e participação social.

O segundo programa volta a bater na mesma tecla

É interessante observar o programa apresentado para 2026. Ele retoma várias ideias que já estavam presentes no programa de 2022: Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, fortalecimento dos mecanismos de financiamento, economia criativa, audiovisual, interiorização, patrimônio, culturas populares e afro-brasileiras, Cinema na Praça, Cultura sobre Rodas, Circuito de Eventos Regionais, equipamentos culturais e outros projetos.

Isso pode ser lido como continuidade, algo relevante numa área em que resultados estruturantes raramente aparecem em apenas quatro anos. Ao mesmo tempo, quando uma proposta retorna em um novo programa de governo, torna-se necessário confrontá-la com o que aconteceu no primeiro ciclo.

Foi realizada? Foi parcialmente realizada? Mudou de formato? Foi incorporada por outra política? Continua pendente?

Essa prestação de contas é necessária justamente porque uma política de Estado não pode depender da memória seletiva dos governos. O programa novo deveria dialogar não apenas com aquilo que se pretende fazer, mas também com aquilo que foi efetivamente realizado, com os resultados alcançados e com aquilo que não avançou.

Secretaria nova, velha questão

A proposta de uma Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa também merece atenção. Uma secretaria pode melhorar a coordenação, fortalecer o orçamento e aproximar cultura, economia criativa, turismo, patrimônio e desenvolvimento. Mas existe algo que aprendi acompanhando política pública: muitas vezes, o problema não está no nome da secretaria, mas naquilo que existe — ou não existe — dentro dela.

Orçamento, equipe, planejamento, participação social, conselho, fundo, transparência, avaliação, continuidade, diálogo com os municípios e relação permanente com os Pontos de Cultura são elementos que dão conteúdo à estrutura administrativa.

Podemos mudar o organograma e continuar fazendo a mesma política. Também podemos construir uma política consistente mesmo quando a estrutura administrativa não é perfeita. O nome importa, mas o conteúdo importa muito mais.

A cultura não pode ser apenas economia

Existe uma coisa boa no fato de a cultura ter entrado definitivamente na conversa sobre economia criativa: finalmente o poder público começa a reconhecer que cultura gera trabalho e renda. Mas precisamos tomar cuidado para não transformar esse reconhecimento em uma nova forma de reduzir a cultura, porque nem tudo precisa dar lucro para ter valor.

Uma roda de capoeira pode formar uma criança. Uma oficina de teatro pode recuperar a autoestima de um adolescente. Uma biblioteca pode mudar uma trajetória. Um grupo de tradição popular pode manter viva uma memória coletiva. Uma roda de conversa pode reconstruir vínculos. Um Ponto de Cultura pode ser mais importante para uma comunidade do que qualquer grande evento.

O valor da cultura não cabe inteiro numa planilha. Ela tem dimensão econômica, mas também tem dimensão simbólica e cidadã. Talvez seja justamente aí que esteja o equilíbrio que precisamos buscar.

E a juventude?

O programa de 2026 fala em integrar segurança, educação, assistência social, cultura, esporte e cidadania em uma política voltada para a juventude. É uma ideia que merece ser discutida, mas eu acrescentaria uma coisa: o jovem não é apenas alguém que precisa ser protegido, é alguém que produz cultura.

O jovem da batalha de rima, do audiovisual, do grafite, da dança, da música produzida no quarto, dos conteúdos criados pelo celular, do coletivo organizado no bairro, da quadrilha junina ou do teatro encontra na cultura uma maneira de dizer “eu existo”. Se a política cultural não conseguir conversar com essa juventude, continuará falando muito sobre futuro sem ouvir quem vai viver esse futuro.

A questão do orçamento

Todo discurso cultural costuma encontrar sua prova de realidade no orçamento. É fácil falar em valorização da cultura; mais difícil é reservar dinheiro para ela e garantir que esse dinheiro chegue aos municípios, aos artistas, aos grupos, às organizações e aos trabalhadores que sustentam a cultura durante o ano inteiro.

Para qualquer próximo governo, uma questão central deveria ser o volume de recursos próprios destinado permanentemente à cultura. Não apenas quanto virá de Brasília, quanto será captado ou quanto será anunciado para determinadas programações, mas quanto o próprio Estado considera necessário para manter sua política cultural funcionando.

Orçamento também é discurso. Só que é um discurso escrito em números.

De quem é a cultura?

Talvez essa seja uma questão que atravesse todas as outras. A cultura pertence ao governo, ao secretário, ao artista contratado, ao equipamento cultural, à empresa patrocinadora? Ou pertence à sociedade?

Minha experiência em educação popular, organização comunitária e cultura me ensinou que a resposta não pode ser outra senão a sociedade. O governo passa, a sociedade fica; o secretário muda, o grupo cultural continua; o mandato acaba, a cultura segue.

Por isso, uma política cultural verdadeiramente democrática não pode ser construída apenas de cima para baixo. Ela precisa ouvir, reconhecer, financiar, descentralizar, prestar contas e criar condições para que aqueles que historicamente fizeram cultura sem o Estado possam contar com o Estado sem deixar de ser protagonistas.

O que fica?

É nesse ponto que a discussão sobre a política cultural de Sergipe ganha maior importância. O governo Fábio Mitidieri apresenta elementos concretos que precisam ser acompanhados: a execução de recursos da Lei Paulo Gustavo e da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, a ampliação dos editais, os agentes territoriais, o fortalecimento da rede de Pontos e Pontões de Cultura, o reconhecimento dos mestres da cultura popular e os investimentos em equipamentos culturais.

Ao mesmo tempo, permanecem questões que não podem ser resolvidas apenas com anúncios: o tamanho do orçamento próprio da cultura, a continuidade dos mecanismos de financiamento, o funcionamento dos espaços culturais, a participação social, a relação entre Estado e municípios, a descentralização das oportunidades e a capacidade de transformar ações isoladas em políticas permanentes.

É justamente aí que a discussão sobre um possível segundo governo ganha importância. O programa de 2026 retoma propostas anteriores e acrescenta outras, mas o desafio agora não é apenas anunciar mais iniciativas. É consolidar aquilo que já começou, explicar aquilo que não avançou e criar condições para que a política cultural não dependa da capacidade de cada governo produzir novidades.

Não precisamos descobrir se Sergipe tem cultura. Isso seria perder tempo. Sergipe tem cultura de sobra, tem memória, artistas, mestres, grupos, territórios culturais e uma juventude que continua inventando novas formas de expressão. O desafio está em construir uma política pública à altura dessa riqueza.

E isso não depende apenas de quem estiver no governo. Depende também da capacidade da sociedade civil, dos artistas, dos produtores, dos pesquisadores, dos Pontos de Cultura, dos conselhos, dos municípios e dos próprios cidadãos de cobrar, participar e propor. Uma política de Estado não nasce apenas dentro de um gabinete. Ela se consolida quando a sociedade consegue afirmar que a cultura não é favor, não é enfeite e não é apenas espetáculo: cultura é direito.

Talvez seja essa a questão que deveria acompanhar qualquer programa de governo daqui para frente: depois que a programação termina, o que terá ficado para a cultura sergipana?

É na resposta a essa questão que poderemos começar a distinguir uma política cultural de Estado de uma agenda cultural de governo.

Fontes para pesquisa — Fábio Mitidieri e a política cultural de Sergipe



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