quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Coragem de enfrentamento. Pe. Manuel Joaquim - Arquidiocese de Londrina

 

“Pois virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo coceira nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; E desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas”. (2 Timóteo 4,3-4 ) 

Na época em que as trevas da (des) política cobriam este país e vivíamos afligidos por uma pandemia que devorava os nossos amigos e familiares, vários colegas padres me confidenciaram que temiam abordar o “evangelho nu e cru” nas homilias, com receio de confronto dentro do próprio templo. Eu mesmo, assisti vídeos em que leigos se levantaram e discutiram com o padre! Cenas inimagináveis anteriormente. Não é que eu tenha algo contra atitudes democráticas na Igreja (a sinodalidade veio para ficar). Sempre lutei pela maturidade dos leigos. Mas não era disso que se tratava! Era puro enfrentamento! Leigos obtusos, petrificados em seus posicionamentos doutrinários, domados pelo zap, ideologizados pela extrema direita, não suportavam mais ouvir a Palavra de Deus! E alguns ministros, acuados, amenizavam-na com receio de que numa situação limite, houvesse uma intervenção superior ou transferência. A Igreja não dava proteção e apoio aos que desejavam ser fiéis ao Evangelho. Por motivos óbvios! Com católicos deixando o rebanho, dízimos diminuiriam e isso não seria bom! 

Ora, esse tempo, infelizmente ainda não se foi! A extrema polarização que tomou conta do Brasil e do mundo, dita comportamentos, inclusive dentro da Comunidade Cristã. Há no ar uma tentativa de relativizar o Evangelho, moldando-o consoante convicções ideológicas previamente assumidas. Sem pudor! À luz do sol, como bem referia o meu avô! Em nossos templos de classe média, ainda cheios, olhos e ouvidos atentos nos vigiam e observam, para nos apontar o dedo caso lhe causemos perturbação doutrinal! Em palestras sobre a Campanha da Fraternidade, eu mesmo vi no meio da plateia, vários com o CIC e o CDC. Esperavam um mini tropeço meu, para se levantar com os Documentos em riste! Conheço colegas ameaçados veladamente por “gente próxima” que insiste em reduzir a Boa Nova a insossa mensagem de sacristia! 

Com o advento de mais um período eleitoral, em que o que está em causa é o futuro do país a médio e longo prazo, onde a omissão dos justos se transformará em cumplicidade, temo que as nossas igrejas sigam uma linha de neutralidade total em prol da paz paroquial! Se ela é deveras apreciada e desejada, parecer-se-á, no entanto, mais com a pax romana do que com a inquietude evangélica. Contudo, o Brasil não vive uma normalidade política-eleitoral! Ele está sendo atacado interna e externamente, por forças que o devorarão e o entregarão a quem cobiça suas riquezas – e não é de hoje! Os irmãos evangélicos optaram pela teologia do domínio, visando instaurar no país uma teocracia e eliminando o estado laico. Isso hoje é explícito e sem reservas. Pastores, obreiros, bispos, figuram em “santinhos” espalhados pelas nossas cidades. Todos em conluio com o que de pior temos em termos de políticos e de siglas partidárias. A preocupação genuína com o destino de nossa gente não existe para a maioria deles! A democracia é uma ideia vaga que não está em discussão e a corrupção, essa só incomoda se vier do adversário! 

A eleição de Outubro é ontologicamente decisiva para o Brasil. O que está em causa, é a essência do que entendemos como nação, como pátria, como país. Nos governos de centro esquerda ao longo destes 25 anos, são irrefutáveis as conquistas de emancipação das classes mais desfavorecidas tendo reflexo nos números da educação e, claro, no PIB. A fome saiu do mapa e voltou exatamente no intervalo desses governos, sendo excluída de novo, neste último do Lula. É claro, que há um longo caminho a percorrer ainda, para transformar o Brasil num país onde todos tenham lugar ao sol, quebrando os grilhões que nos fazem ser um dos lugares com mais desigualdades entre os cidadãos. É por isso mesmo, que abdicar do que vem sendo realizado e entregar à extrema direita os destinos da nação é atitude temerária e um risco extremo à desintegração do nosso país. Tivemos quatro anos de completa escuridão, de porteiras abertas e universidades públicas humilhadas e desprezadas, como aperitivo perverso do que essa gente é capaz! Voltariam com mais apetite de destruição civilizatório! 

A Igreja Católica não tutela os seus fiéis! Não “ensinamos” ninguém a votar bem! Respeitamos a liberdade de consciência acima de tudo. No entanto, repousa no mais sagrado de nosso património espiritual a obrigação de “sermos sentinelas”! Sempre o fomos ao longo da história e o papa Leão o demonstrou com muita propriedade, na sua carta encíclica Magnifica Humanitas. O bem da nossa gente nos diz respeito. A denúncia dos lobos que devoram o rebanho, faz parte integrante da dimensão profética que nos caracteriza. Por conseguinte, a omissão e o silêncio constituem uma cumplicidade grave e com seríssimas consequências para, como sempre acontece, os mais fracos. A CNBB, embora com certa timidez e receio de ultrapassar qualquer linha vermelha, tem se manifestado claramente em favor da democracia e do respeito às Instituições. 

A defesa intrépida dos valores do Evangelho, principalmente em momentos como este, exige preparação, coragem e a pedagogia correta. E o essencial: se o líder não for amado pelos seus, sua exposição será contraproducente! Templo não é palanque! Ambão não é tribuna! Os irmãos que celebram, precisam acreditar no seu presidente. Se ele se calou ao longo do ano sobre DSI ou deixou de formar consciências com uma verdadeira catequese, sua postura incisiva em período eleitoral poderá soar até com certa agressividade e as suas palavras não encontrarem o eco adequado. É recomendável que ele apele para o exercício cidadão do voto e lembrar que quando não o usamos como arma democrática, outros irmãos sairão prejudicados. Explorar a sensibilidade epidérmica e a solidariedade é um “bom começo de conversa”. Mas, as circunstâncias exigem que vamos mais além! E para isso, temos números a apresentar; temos estatísticas, temos fatos. “Contra fatos não há argumentos”! Nosso povo que labuta dia e noite nem sempre tem a mesma visão ampla que nós. A informação via zap é a sua única fonte – ou o JN! Ser líder religioso profícuo é resgatar a verdade fática e educar para o bem! A nossa liturgia nos proporciona excelentes oportunidades de conjugar exegese com esta catequese repleta de informações. 

Levantar-se-ão alguns? Se incomodarão outros? Não duvido. Mas existem preços a pagar quando uma nação está em causa! Os bispos e pastores alemães não tiveram sucesso em impedir a extrema direita de vencer o pleito da Saxônia! Mas, não se omitiram! E é disto que estamos falando. 


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