Deputado diz que a redução da jornada seria desastrosa, pois há um “vazio cultural” nas favelas e sertões. Elitista, ignora efervescência que vai além de museus e teatros – e a revolução dos Pontos de Cultura, com mais de 15 mil coletivos espalhados pelo país
O deputado federal Marcos Pereira, presidente do Partido Republicanos, afirmou em recente entrevista à Folha de São Paulo que o fim da escala 6 x 1 causaria um problema para o trabalhador na medida em que não há, segundo ele, opções de lazer e cultura nas periferias e nos sertões do país. De acordo com o parlamentar, a medida seria inócua e até nociva, já que o ócio poderia elevar o consumo de álcool e outros vícios. Para além da aporofobia e do elitismo contidos na fala do deputado, o argumento por ele utilizado denota uma ignorância sobre a cena cultural nas favelas e periferias do Brasil. Entretanto, ele não está sozinho nesse desconhecimento. Há um entendimento disseminado na sociedade segundo o qual é necessário equipamento para se ter acesso à cultura e arte.
Esse tipo de visão leva a crer que haja um “vazio cultural” nas periferias, percepção respaldada por certas pesquisas sobre consumo cultural que indicam, por exemplo, que 90% da população nunca foi a um museu. É um tipo de dado enganoso. A baixa frequência a museus institucionalizados não quer dizer que as pessoas não tenham acesso às artes visuais, pois elas estão nas ruas, nos muros e empenas de edifícios. Estão nos monumentos, nos prédios históricos, na publicidade outdoor e em espaços alternativos.
A cultura e as artes não estão somente no palco e nos museus; a cultura é uma prática social manifestada no dia a dia. Está nas ruas, no Carnaval, nos bailes, nas batalhas de rima que ocupam praças, nas rodas de samba nos botecos, nos fluxos do funk, em bibliotecas comunitárias, no teatro de rua, no cinema na laje, além dos espaços mantidos por coletivos culturais, muitos deles ocupações de prédios abandonados pelo poder público. Essa questão do acesso tanto à produção quanto à fruição está no centro da disputa política no campo da cultura em todos os níveis: federal, estadual e municipal.
Política Cultura Viva cada vez mais viva
No âmbito federal, há a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura que irriga estados e municípios com recursos, parte dos quais é destinado obrigatoriamente à Política Cultura Viva que mantém os Pontos de Cultura. Após dois ciclos de aplicação da referida política, houve um salto de 5 mil para 15 mil pontos de cultura e a expectativa é chegar a 20 mil até o final de 2026, segundo o Ministério da Cultura (MINC). Isso decorre, principalmente, da possibilidade de certificação do coletivo cultural, exigência para concorrer aos editais.
Os Pontos de Cultura evidenciam a ampla rede de grupos culturais existentes nos fundões das metrópoles e dos interiores do país, além das comunidades quilombolas e aldeias indígenas, e que oferecem cotidianamente atividades culturais à população nos seus territórios. Não por acaso, o acontecimento de maior importância do MinC no primeiro semestre de 2026 é a Teia Nacional dos Pontos de Cultura, que será realizada neste mês de maio em Aracruz, no Espírito Santo. Está confirmada a participação de cerca de mil delegados distribuídos equitativamente pelos Estados e um público de mais de 5 mil pessoas durante o evento. A realização da Teia Nacional após mais de 15 anos da última edição será uma demonstração de força da produção cultural de base comunitária. Uma cultura que não tem glamour, mas que faz diferença nas bordas das metrópoles e nos rincões mais distantes do Brasil.
Não existe amor em SP
Ao nível estadual, como já é notório, a Secretaria de Cultura, Economia e Indústria Criativas priorizou projetos ligados à indústria cultural numa obsessiva crença no potencial econômico da cultura. O órgão também tem dado destaque à efeméride dos 20 anos do Proac (Programa de Ação Cultural), política que se fortaleceu nessas duas décadas, mas que ficou restrita a editais, além do incentivo fiscal. A secretária Marilia Marton, porém, não descuidou da Política Cultura Viva, garantindo a realização do Fórum Paulista dos Pontos de Cultura em Campinas em fevereiro, que reuniu 700 delegados de todo o Estado e assegurou a publicação dos editais voltados aos ponteiros previstos para abril.
Ao nível municipal, a política cultural tem priorizado os grandes eventos. O secretário Totó Parente tem se dedicado à programação cultural em detrimento da política de fomento, que sofreu cortes no orçamento para 2026. Essa política se refletiu no Carnaval que privilegiou os mega blocos, enquanto blocos pequenos e médios nos bairros ficaram com pouca estrutura (os grandes também), além de terem sido reprimidos pela GCM como aconteceu com o tradicional Bloco Vai Quem Quer, no Butantã. A Prefeitura também manteve sua peleja contra os espaços culturais de coletivos. Não resolveu o caso do Teatro Vento Forte, cuja sede foi destruída pela própria administração municipal e despejou o Teatro de Container.
A revolução dos Pontos de Cultura
Em 2010, quando foi promulgado o primeiro Plano Nacional de Cultura, foi estabelecida uma meta para se chegar a 15 mil Pontos de Cultura em 10 anos. Até 2020, porém, nem um terço desse objetivo foi alcançado. Somente nos últimos anos, graças à PNAB, como foi dito, se chegou ao referido número. Com o avanço dessa política, que tem mais três ciclos pela frente, podemos ter uma rede de coletivos e organizações culturais imensa, capaz de atingir todo o território nacional.
Segundo pesquisa feita para o IV Fórum Estadual dos Pontos de Cultura do Estado de São Paulo, cada Ponto de Cultura atinge, em média, 7 mil pessoas. Se essa métrica valer ao nível federal, e há estudos do Ipea que corroboram o dado, 105 milhões de pessoas estariam impactadas pela Política Cultura Viva. E a tendência é que a PNAB possa garantir mais 15 mil pontos até o final de sua vigência. Se tal projeção for confirmada, o Brasil todo estará no raio de alcance dos Pontos de Cultura. Seria uma revolução cultural!
Ou seja, caro deputado, com o fim da escala 6 x 1, não faltará oferta de atividades culturais para os trabalhadores e trabalhadoras beneficiados com a redução da jornada de trabalho. E mais do que fruição, os Pontos de Cultura oferecem formação e produção artística. Teremos um povo com acesso, mas também fazedor de cultura.

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