Caricatura Francesa do final do século XVIII.
Biblioteca Nacional de Paris
“minha
boca será a boca das desgraças que não têm boca”
Por muito tempo
se ensinou que Revoluções nascem do assalto aos palácios, da ruptura
institucional e troca abrupta das elites no poder. Mas há outra forma de
revolução, mais profunda e mais duradoura, aquela que se faz no terreno
simbólico. Ela não começa com a tomada do poder e sim pela tomada da palavra e
da arte. Não ocupa quartéis, ocupa imaginários. Arte, nesse sentido, deixa de
ser ornamento para se transformar em motor oculto da história; e irá
impulsionar a revolução quando as desgraças do mundo deixarem de parecer
inevitáveis.
Antes da
insurreição das ruas e da queda dos regimes, há a insubordinação da imaginação
e a queda das certezas. Quando algo se desloca no campo do sensível o que
parecia eterno revela-se histórico, é nesse ponto que a arte atua, desfazendo a
aparência da inevitabilidade até conquistar dimensão revolucionária ao operar
no território onde se decide o que é pensável, dizível e desejável.
Não existimos
fora das relações que nos constituem, somos trama de vínculos, trabalho,
memória e conflito. Ocorre que na tensão entre Sistemas Históricos (Estado,
Mercado, Instituições Religiosas, Educação...) e Vida tal qual vivida, essas
relações se cristalizam, instalando a reificação. Reificando processos sociais
e mentais, relações humanas e conceitos abstratos são transformados em coisa;
como decorrência, os seres humanos e suas ideais viram objetos, instituições
abstratas, como “O Mercado”, passam a adquirir personalidade própria, como uma
entidade física real, com gostos e vontades. Reificação, ou fetichização, ou
coisificação, três palavras para dizer o mesmo, que precisam ser explicitadas,
pois nos fazem enxergar o mundo como realidade dada, não como realidade
produzida a partir de relações. É assim que o “Sistema” domina a vida.
A vida social
coisifica-se, e com ela a nossa percepção. É quando entra a função
revolucionária da arte. Arte só é revolucionária quando rompe essa névoa e
restitui à experiência comum sua espessura histórica, revelando que aquilo que
parece sólido, “desmancha no ar”, conforme o Manifesto escrito por
Engels e Marx. Para tanto é necessário desmanchar a coisificação dos processos
sociais, retomando a categoria de totalidade.
A tarefa
revolucionária da Arte é desfazer o fetiche. No poema Nosso Tempo, Carlos
Drummond de Andrade apresenta essa tarefa em verso:
“São tão fortes
as coisas
mas eu não sou as
coisas
e me
revolto!”.
Arte é rebeldia
em forma de reflexão, sensação e ação. Pela arte é possível retomar a
totalidade como categoria viva e com isso compreender o particular, e cada
experiência individual, como expressão de uma trama contraditória de mediações
e conflitos. Quando o poema, a cena ou a narrativa, reinserem o drama
individual na história coletiva, devolvem movimento ao presente e resgatam o
fio da história. É quando a arte deixa de ilustrar a transformação e passa a
preparar o plano do sensível, restituindo historicidade e revelando as
mediações invisíveis do mundo social.
Reificação não é
apenas econômica, é perceptiva. Por isso transforma relações sociais em coisas
e naturaliza a ordem opressiva vigente. Uma arte crítica deve operar o
movimento inverso, rompendo o fetiche que aliena e revelando historicidade com
a restituição da dimensão processual do real. Arte como forma de revolução não
é mero evento político, mas superação da coisificação que captura a
subjetividade.
A arte pode ser
conformista, reacionária ou revolucionária, isso depende de como vai se
absorver o particular como expressão de uma totalidade contraditória. É o
sentido que desfaz o fetiche e a reificação da vida, pelo sentido devolveremos
movimento de transformação profunda ao presente. Pela categoria de totalidade
revela-se que cada experiência individual carrega a marca de um sistema de
opressões e dominações e pela arte é possível apreender e desvelar essas marcas,
reabrindo o que parecia fechado. Por ela deixamos de perceber o mundo como algo
dado, imutável, que “sempre foi assim”. A arte só é revolucionária quando rompe
com a reificação/coisificação do mundo, até que a gente, as pessoas e sociedades
se transformem em multitude em ação, deixando de se adaptar e se conformar.
No mundo social
nada é natural, por isso, não se conformem, não se adaptem. Revoltem-se e vamos
à luta!
Nenhuma
transformação estrutural se consolida sem mutação cultural prévia, sem
revolucionar o modo de pensar, ser e agir. O Renascimento deslocou o eixo do
universo simbólico ao reinscrever o humano no centro da representação; a nova
perspectiva artístico-pictórica que floresceu na península italiana a partir do
século XV não foi mero recurso técnico, foi reorganização da relação entre
sujeito e mundo. O mesmo com o Iluminismo, quando expandiu um novo gesto social
ao formular outra gramática da legitimidade. As pessoas deixaram de se sujeitar
à aristocracia herdeira do Feudalismo e ergueram o sentido da soberania
popular. Os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, foram primeiro
imaginados em livros, panfletos, enciclopédias, peças teatrais, para só depois
ganharem a forma institucional da Revolução Francesa. Os costumes, a sociedade,
a política e a economia, seguem primeiro a imaginação e, ato contínuo,
tornam-se reais.
Sob a Revolução
Russa de 1917 ocorreu processo semelhante e a explosão ético-estética antecipou
a ruptura política. Vanguardas artísticas, cinema, poesia e arquitetura
buscaram criar formas compatíveis com uma sociedade que pretendia romper com a
ordem czarista e capitalista. Não se tratava apenas de ilustrar a mudança, mas
de inventar uma nova linguagem para um sujeito coletivo em emergência. Ainda
que posteriormente capturada pelo realismo oficial (realismo socialista, sob o
período de Stálin), aquela experiência revelou que a transformação social exige
invenção formal.
As lutas
anticoloniais do século XX igualmente confirmam essa dinâmica. A dominação
colonial opera não só pela violência material, mas pela captura do imaginário
através da colonialidade do poder. Libertar territórios, portanto, implica em
libertar consciências. O movimento Negritude, os teatros de resistência, as
músicas insurgentes, reconstruíram identidades dilaceradas de povos
colonizados. Há um aspecto lindo nas independências de países africanos que
pouco se comenta, parte significativa das independências na África aconteceu
sob a liderança de poetas. Léopold Senghor, poeta, pensador e um dos fundadores
do movimento Negritude, foi o primeiro presidente do Senegal; Amílcar Cabral,
da libertação de Guiné Bissau e Cabo-Verde, idem; Agostinho Neto, médico e
poeta, foi primeiro presidente de Angola. Como esses, outros poetas foram
fundamentais para a construção da consciência nacional de seus povos em luta
pela libertação: José Craveirinha e Mia Couto em Moçambique, Manuela Margarido
em São Tomé e Príncipe, A palavra tornou-se ato de desalienação e a estética
foi arma de reconquista da natureza do Ser colonizado; ontológica, portanto,
revelando os sentidos da existência e da realidade. Pela arte venceram
exércitos e descolonizaram o imaginário.
Do Caribe
mestiço, especificamente da Martinica, o mundo ganhou a poesia de Aimé Césaire
e as reflexões de Frantz Fanon, dois pensadores fundamentais para mostrar que a
dominação colonial operava no plano psíquico e cultural; para eles, libertar
territórios implicava libertar consciências. Idem na América Latina, onde
música, literatura e teatro tornaram-se espaços de reconstrução identitária
frente à violência imperialista; de Emílio Recabarrén, no Chile, e José Carlos
Mariátegui, no Peru e Astrojildo Pereira no Brasil, sem esquecer de mencionar Augusto
Boal para o mundo. Talvez a mais romântica das revoluções do século XX tenha
sido a Revolução dos Cravos, em Portugal. Em 25 de abril de 1974, uma canção
transmitida pelo rádio, “Grândola, Vila Morena”, serviu como senha
para o levante militar que derrubaria a ditadura salazarista. O símbolo que
ficou não foi a arma, mas o cravo vermelho inserido no cano do fuzil. Essa
imagem sintetiza o poder do sensível: uma flor interrompendo a lógica da
violência. Não foi apenas a queda de um regime, foi a instauração de outra
atmosfera coletiva. A música antecedeu o ato revolucionário e o gesto poético
antecipou a transformação política.
Esses exemplos
não são coincidências históricas, revelam um padrão. Antes que as estruturas
mudem é preciso mudar a percepção das pessoas, reorganizando afetos,
redefinindo narrativas, restituindo dignidade simbólica. Arte não substitui
organização, luta e estratégia política revolucionária, mas prepara o terreno
subjetivo que torna possível a ação. Nesse momento a arte deixa de ser
ornamento para tornar-se um dos motores invisíveis da história; o mais
poderoso, imagino, ou melhor, sonho. A política segue a imaginação, não o
contrário. Muito do fracasso político do chamado progressismo de esquerda na
América Latina nas primeiras décadas do século XXI, e mesmo antes disso, na
Europa, é resultado dessa incompreensão. A explosão estética antecipa a ruptura
política, quando ela não acontece, o que se pretendia mudança vira desilusão.
Não se trata de ilustrar a mudança, mas de cria-la sensivelmente. Só assim se
coloca o povo em movimento para uma nova era, a Era da Consciência.
No Manifesto
Surrealista, André Breton proclamou: “A imaginação talvez esteja a
ponto de retomar seus direitos”. Não era metáfora e sim declaração de
ruptura, reestabelecendo a centralidade da imaginação. Libertar o imaginário
significa romper as fronteiras do possível impostas pela ordem dominante, por
essas fronteiras não nos atrevemos ir além, nos conformando e nos formatando.
No Brasil, com o Movimento Modernista, houve igual tentativa de fratura
simbólica. Com seus versos, Mário de Andrade desafiou a adiposidade cerebral no
poema “Ode ao Burguês”:
“Eu insulto o
burguês! O burguês-níquel,
o burguês
burguês!
A digestão bem
feita de São Paulo!
O homem curva! O
homem nádegas!
[...]
Ódio e insulto!
Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês
de giolhos, [de joelhos]
cheirando
religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho!
Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento,
sem perdão!
Fora! Fu! Fora o
Bom Burguês!...”
O insulto poético
de há um século foi gesto estético e político de rompimento com a subordinação
parasita-colonial-burguesa. A arte estava preparando o país para
pensar-se diferente, afirmando uma outra voz nacional. Mas o presente
impõe um desafio mais complexo. Se de um lado a ideologia dominante e suas
Instituições, incluindo indústria cultural, produz sujeitos ajustados à ordem,
a reprodução das relações sociais sob o hipercapitalismo, ou tecnofeudalismo,
tornou-se difusa, algorítmica, capilar, povoando e direcionando desejos. A
ideologia já não opera apenas por crença ingênua, mas por cinismo esclarecido.
Sabemos das contradições e, ainda assim, agimos como se as injustiças e
desigualdades fossem inevitáveis. No livro “Realismo Capitalista”, Mark Fisher
diagnosticou com acuidade o fato de que nos tempos atuais instala-se a sensação
de que “não há alternativa”, pois o horizonte do imaginável foi colonizado. De
fato.
Nesse cenário a
arte corre dois riscos: neutralização mercantil ou impotência melancólica. Pode
tornar-se produto mensurável por métricas de engajamento, ou denúncia que não
alcança mudanças estruturais, sequer compreendendo o funcionamento de suas
engrenagens. Fica na superficialidade da crítica, como uma válvula de escape
que funciona como catarse, sem alterar o Sistema. A Indústria Cultural e a
presentemente chamada “economia criativa”, oferece a simulação da ruptura
enquanto mantém intacta a lógica que a produz.
A ideologia
contemporânea funciona cinismo esclarecido: “sabemos muito bem o que de mal
estamos fazendo, mas ainda assim o fazemos”. Como na linguagem de artes
periféricas a exaltarem a ostentação, reprodução do machismo, individualismo,
misoginia e outras opressões. A arte revolucionária, então, não deve apenas
denunciar ilusões evidentes, ela precisa atingir esse núcleo cínico, onde o
sujeito já não acredita no Sistema, mas continua participando e reproduzindo
seus mecanismos de dominação, e os incorpora.
Arte não é
exterior à ideologia, ela a atravessa. O sentido revolucionário só acontece
quando a arte reconfigura perguntas, restituindo totalidade ao fragmentado,
possibilitando a produção de contra-interpelações. Sua potência está em criar
fissuras na narrativa dominante, abrindo espaço para que o sujeito se reconheça
como agente histórico e não apenas como peça funcional do Sistema. Contudo, não
basta tematizar a injustiça, há que apontar caminhos indo além da superfície.
Permanecer no nível da aparência não alcança a estrutura nem permite
compreender o particular à luz das mediações que o constituem. Uma estética
revolucionária exige consciência de totalidade, sendo preciso repetir. O poema,
a cena teatral, a música, a dança, as histórias narradas, quando isolam o
indivíduo de suas determinações sociais, reforçam a fragmentação própria da
pós-modernidade capitalista, quando reinserem o drama pessoal na trama histórica,
restituem a dimensão coletiva do Ser.
O verdadeiro ato
político não é escolha entre opções dadas, é redefinição do próprio campo das
escolhas. Arte é para ir além do estabelecido. Ao criar formas que não se
encaixam na lógica dominante, a arte supera aquilo que não é plenamente
absorvido e produz experiências coletivas. Em um tempo que isola, apesar do
aparente turbilhão das redes socais, é gesto radical. Um sarau periférico, uma
ocupação cultural, uma canção que circula fora das engrenagens comerciais, não
são margens pitorescas, nem a cultura popular é folclórica, são ensaios de
outra sociabilidade. Ali se experimenta o comum como prática, não como
abstração.
Entretanto, o
tempo presente apresenta o desafio específico das relações sociais difusas,
capilares e comandadas pelo algoritmo e alucinações da chamada Inteligência
Artificial, que não é inteligente nem artificial, como bem apontou o eminente
cientista brasileiro, Miguel Nicolelis. Com isso a crítica é rapidamente
absorvida, domesticando a rebeldia, que é convertida em estilo e espetáculo.
Nesse ambiente a contestação vira mercadoria a se comprar e vender nas
prateleiras das redes sociais.
O capitalismo
contemporâneo não apenas organiza a economia, ele coloniza o horizonte do
imaginável ao instalar a sensação de que não há alternativa, como já dito, e o cinismo
conformista é a maior das armas do Capital, pois a precariedade é apresentada
como flexibilidade e a devastação ambiental, como custo inevitável do
progresso, assim como a hiperexploração do trabalho. A solidão digital amplia a
sensação de que tudo é inescapável, reduzindo pertencimento e participação à
conectividade em rede. A naturalização mercantil transforma toda criação em
produto segmentado, mensurável por métricas de engajamento; e a impotência
melancólica impõe limites à denúncia criada artisticamente, sem reorganizar o
campo da transformação profunda.
A arte
revolucionária precisa escapar a ambos riscos. Sua tarefa não é oferecer
respostas simplistas, mas reconfigurar perguntas, tornar visível o que foi
falsamente naturalizado e dar sentido de unidade ao fragmentado. O ser humano
não é entidade abstrata, mas síntese de relações sociais, e a consciência não
paira acima da matéria, ela emerge da prática, da vida realmente vivenciada.
Essa prática é mediada por formas simbólicas, como linguagem, arte e cultura,
que estruturam a experiência. Produzir experiências coletivas em um tempo que
isola, pressupõe desmontar a reificação que separa indivíduo e totalidade. É
quando a criação estética comunitária adquire um significado único, que pode
restabelecer mediações profundamente transformadoras, quiçá revolucionárias, em
gestos que não são marginais, mas ensaios de outra sociabilidade.
A revolução
estética urgente e emergente que proponho, não se anuncia como explosão súbita,
mas como recomposição paciente do comum. Ela começa quando comunidades retomam
a capacidade de narrar a si mesmas e a cultura deixa de ser consumo, voltando a
ser produção compartilhada. Nesse momento o imaginário coletivo recusa o
fatalismo. A história não é herança passiva, mas tarefa, responsabilidade. Pelo
fio da história carregamos desilusões e esperanças, derrotas e persistências, compreendendo-o
teremos condições para retomar continuidade crítica em processos
intergeracionais, e assim sair do labirinto.
É o sentido de
revolução, urgente e emergente, que apresento.
Revolução para
já!
Agora. Não menos
que isso.
O mundo pode ser
bom, belo e justo para todo mundo, só depende de nós. E a arte é o caminho. Arte
reabre o futuro quando este parece fechado. Arte para recordar que o mundo que
nos oprime não é destino. Tudo o que foi construído pode ser reinventado.
Como já dito, arte como forma de revolução não substitui a ação política
organizada, mas a antecede e a acompanha, impedindo que revoluções se desviem
pelo caminho (acontece muito, mas é tema para outro ensaio). A arte inaugura
possibilidades e disputa sentido. Se o capitalismo pretendeu colonizar o
imaginário para formar pessoas obedientes, a revolução tem início quando a
imaginação se recusa a obedecer, pois toda revolução começa assim: imaginar o
impossível até que ele se torne real.
Revolução (um poema)
Revolução não é grito
(ou talvez seja),
mas dela parte um grito,
meio rouco,
meio gasto,
um grito que começa baixinho,
como quem escava o silêncio com as unhas.
Revolução é isso:
uma vontade de pegar o mundo nos braços,
de arrancar os arames das fronteiras,
de devolver o rio ao leito,
a chuva ao campo,
o fruto à boca.
E se Revolução não for isso,
que seja outra coisa,
mas que seja agora,
porque a terra cansa,
a fome pesa,
as bombas matam,
o sangue escorre.
E o tempo não espera.
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