sábado, 14 de março de 2026

Arte como forma de revolução. Por Célio Turino

 

Caricatura Francesa do final do século XVIII.
Biblioteca Nacional de Paris
 

 minha boca será a boca das desgraças que não têm boca”

Aimé Césaire

 

Por muito tempo se ensinou que Revoluções nascem do assalto aos palácios, da ruptura institucional e troca abrupta das elites no poder. Mas há outra forma de revolução, mais profunda e mais duradoura, aquela que se faz no terreno simbólico. Ela não começa com a tomada do poder e sim pela tomada da palavra e da arte. Não ocupa quartéis, ocupa imaginários. Arte, nesse sentido, deixa de ser ornamento para se transformar em motor oculto da história; e irá impulsionar a revolução quando as desgraças do mundo deixarem de parecer inevitáveis.

Antes da insurreição das ruas e da queda dos regimes, há a insubordinação da imaginação e a queda das certezas. Quando algo se desloca no campo do sensível o que parecia eterno revela-se histórico, é nesse ponto que a arte atua, desfazendo a aparência da inevitabilidade até conquistar dimensão revolucionária ao operar no território onde se decide o que é pensável, dizível e desejável.  

Não existimos fora das relações que nos constituem, somos trama de vínculos, trabalho, memória e conflito. Ocorre que na tensão entre Sistemas Históricos (Estado, Mercado, Instituições Religiosas, Educação...) e Vida tal qual vivida, essas relações se cristalizam, instalando a reificação. Reificando processos sociais e mentais, relações humanas e conceitos abstratos são transformados em coisa; como decorrência, os seres humanos e suas ideais viram objetos, instituições abstratas, como “O Mercado”, passam a adquirir personalidade própria, como uma entidade física real, com gostos e vontades. Reificação, ou fetichização, ou coisificação, três palavras para dizer o mesmo, que precisam ser explicitadas, pois nos fazem enxergar o mundo como realidade dada, não como realidade produzida a partir de relações. É assim que o “Sistema” domina a vida.  

A vida social coisifica-se, e com ela a nossa percepção. É quando entra a função revolucionária da arte. Arte só é revolucionária quando rompe essa névoa e restitui à experiência comum sua espessura histórica, revelando que aquilo que parece sólido, “desmancha no ar”, conforme o Manifesto escrito por Engels e Marx. Para tanto é necessário desmanchar a coisificação dos processos sociais, retomando a categoria de totalidade.

A tarefa revolucionária da Arte é desfazer o fetiche. No poema Nosso Tempo, Carlos Drummond de Andrade apresenta essa tarefa em verso: 

“São tão fortes as coisas

mas eu não sou as coisas

e me revolto!”. 

Arte é rebeldia em forma de reflexão, sensação e ação. Pela arte é possível retomar a totalidade como categoria viva e com isso compreender o particular, e cada experiência individual, como expressão de uma trama contraditória de mediações e conflitos. Quando o poema, a cena ou a narrativa, reinserem o drama individual na história coletiva, devolvem movimento ao presente e resgatam o fio da história. É quando a arte deixa de ilustrar a transformação e passa a preparar o plano do sensível, restituindo historicidade e revelando as mediações invisíveis do mundo social.

Reificação não é apenas econômica, é perceptiva. Por isso transforma relações sociais em coisas e naturaliza a ordem opressiva vigente. Uma arte crítica deve operar o movimento inverso, rompendo o fetiche que aliena e revelando historicidade com a restituição da dimensão processual do real. Arte como forma de revolução não é mero evento político, mas superação da coisificação que captura a subjetividade.

A arte pode ser conformista, reacionária ou revolucionária, isso depende de como vai se absorver o particular como expressão de uma totalidade contraditória. É o sentido que desfaz o fetiche e a reificação da vida, pelo sentido devolveremos movimento de transformação profunda ao presente. Pela categoria de totalidade revela-se que cada experiência individual carrega a marca de um sistema de opressões e dominações e pela arte é possível apreender e desvelar essas marcas, reabrindo o que parecia fechado. Por ela deixamos de perceber o mundo como algo dado, imutável, que “sempre foi assim”. A arte só é revolucionária quando rompe com a reificação/coisificação do mundo, até que a gente, as pessoas e sociedades se transformem em multitude em ação, deixando de se adaptar e se conformar.

No mundo social nada é natural, por isso, não se conformem, não se adaptem. Revoltem-se e vamos à luta!

Nenhuma transformação estrutural se consolida sem mutação cultural prévia, sem revolucionar o modo de pensar, ser e agir. O Renascimento deslocou o eixo do universo simbólico ao reinscrever o humano no centro da representação; a nova perspectiva artístico-pictórica que floresceu na península italiana a partir do século XV não foi mero recurso técnico, foi reorganização da relação entre sujeito e mundo. O mesmo com o Iluminismo, quando expandiu um novo gesto social ao formular outra gramática da legitimidade. As pessoas deixaram de se sujeitar à aristocracia herdeira do Feudalismo e ergueram o sentido da soberania popular. Os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, foram primeiro imaginados em livros, panfletos, enciclopédias, peças teatrais, para só depois ganharem a forma institucional da Revolução Francesa. Os costumes, a sociedade, a política e a economia, seguem primeiro a imaginação e, ato contínuo, tornam-se reais.

Sob a Revolução Russa de 1917 ocorreu processo semelhante e a explosão ético-estética antecipou a ruptura política. Vanguardas artísticas, cinema, poesia e arquitetura buscaram criar formas compatíveis com uma sociedade que pretendia romper com a ordem czarista e capitalista. Não se tratava apenas de ilustrar a mudança, mas de inventar uma nova linguagem para um sujeito coletivo em emergência. Ainda que posteriormente capturada pelo realismo oficial (realismo socialista, sob o período de Stálin), aquela experiência revelou que a transformação social exige invenção formal.

As lutas anticoloniais do século XX igualmente confirmam essa dinâmica. A dominação colonial opera não só pela violência material, mas pela captura do imaginário através da colonialidade do poder. Libertar territórios, portanto, implica em libertar consciências. O movimento Negritude, os teatros de resistência, as músicas insurgentes, reconstruíram identidades dilaceradas de povos colonizados. Há um aspecto lindo nas independências de países africanos que pouco se comenta, parte significativa das independências na África aconteceu sob a liderança de poetas. Léopold Senghor, poeta, pensador e um dos fundadores do movimento Negritude, foi o primeiro presidente do Senegal; Amílcar Cabral, da libertação de Guiné Bissau e Cabo-Verde, idem; Agostinho Neto, médico e poeta, foi primeiro presidente de Angola. Como esses, outros poetas foram fundamentais para a construção da consciência nacional de seus povos em luta pela libertação: José Craveirinha e Mia Couto em Moçambique, Manuela Margarido em São Tomé e Príncipe, A palavra tornou-se ato de desalienação e a estética foi arma de reconquista da natureza do Ser colonizado; ontológica, portanto, revelando os sentidos da existência e da realidade. Pela arte venceram exércitos e descolonizaram o imaginário.

Do Caribe mestiço, especificamente da Martinica, o mundo ganhou a poesia de Aimé Césaire e as reflexões de Frantz Fanon, dois pensadores fundamentais para mostrar que a dominação colonial operava no plano psíquico e cultural; para eles, libertar territórios implicava libertar consciências. Idem na América Latina, onde música, literatura e teatro tornaram-se espaços de reconstrução identitária frente à violência imperialista; de Emílio Recabarrén, no Chile, e José Carlos Mariátegui, no Peru e Astrojildo Pereira no Brasil, sem esquecer de mencionar Augusto Boal para o mundo. Talvez a mais romântica das revoluções do século XX tenha sido a Revolução dos Cravos, em Portugal. Em 25 de abril de 1974, uma canção transmitida pelo rádio, “Grândola, Vila Morena”, serviu como senha para o levante militar que derrubaria a ditadura salazarista. O símbolo que ficou não foi a arma, mas o cravo vermelho inserido no cano do fuzil. Essa imagem sintetiza o poder do sensível: uma flor interrompendo a lógica da violência. Não foi apenas a queda de um regime, foi a instauração de outra atmosfera coletiva. A música antecedeu o ato revolucionário e o gesto poético antecipou a transformação política.

Esses exemplos não são coincidências históricas, revelam um padrão. Antes que as estruturas mudem é preciso mudar a percepção das pessoas, reorganizando afetos, redefinindo narrativas, restituindo dignidade simbólica. Arte não substitui organização, luta e estratégia política revolucionária, mas prepara o terreno subjetivo que torna possível a ação. Nesse momento a arte deixa de ser ornamento para tornar-se um dos motores invisíveis da história; o mais poderoso, imagino, ou melhor, sonho. A política segue a imaginação, não o contrário. Muito do fracasso político do chamado progressismo de esquerda na América Latina nas primeiras décadas do século XXI, e mesmo antes disso, na Europa, é resultado dessa incompreensão. A explosão estética antecipa a ruptura política, quando ela não acontece, o que se pretendia mudança vira desilusão. Não se trata de ilustrar a mudança, mas de cria-la sensivelmente. Só assim se coloca o povo em movimento para uma nova era, a Era da Consciência.

No Manifesto Surrealista, André Breton proclamou: “A imaginação talvez esteja a ponto de retomar seus direitos”. Não era metáfora e sim declaração de ruptura, reestabelecendo a centralidade da imaginação. Libertar o imaginário significa romper as fronteiras do possível impostas pela ordem dominante, por essas fronteiras não nos atrevemos ir além, nos conformando e nos formatando. No Brasil, com o Movimento Modernista, houve igual tentativa de fratura simbólica. Com seus versos, Mário de Andrade desafiou a adiposidade cerebral no poema “Ode ao Burguês”:

“Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,

o burguês burguês!

A digestão bem feita de São Paulo!

O homem curva! O homem nádegas!

[...]

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!

Morte ao burguês de giolhos, [de joelhos]

cheirando religião e que não crê em Deus!

Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!

Ódio fundamento, sem perdão!

 

Fora! Fu! Fora o Bom Burguês!...”

 

O insulto poético de há um século foi gesto estético e político de rompimento com a subordinação parasita-colonial-burguesa.  A arte estava preparando o país para pensar-se diferente, afirmando uma outra voz nacional.  Mas o presente impõe um desafio mais complexo. Se de um lado a ideologia dominante e suas Instituições, incluindo indústria cultural, produz sujeitos ajustados à ordem, a reprodução das relações sociais sob o hipercapitalismo, ou tecnofeudalismo, tornou-se difusa, algorítmica, capilar, povoando e direcionando desejos. A ideologia já não opera apenas por crença ingênua, mas por cinismo esclarecido. Sabemos das contradições e, ainda assim, agimos como se as injustiças e desigualdades fossem inevitáveis. No livro “Realismo Capitalista”, Mark Fisher diagnosticou com acuidade o fato de que nos tempos atuais instala-se a sensação de que “não há alternativa”, pois o horizonte do imaginável foi colonizado. De fato.

Nesse cenário a arte corre dois riscos: neutralização mercantil ou impotência melancólica. Pode tornar-se produto mensurável por métricas de engajamento, ou denúncia que não alcança mudanças estruturais, sequer compreendendo o funcionamento de suas engrenagens. Fica na superficialidade da crítica, como uma válvula de escape que funciona como catarse, sem alterar o Sistema. A Indústria Cultural e a presentemente chamada “economia criativa”, oferece a simulação da ruptura enquanto mantém intacta a lógica que a produz.

A ideologia contemporânea funciona cinismo esclarecido: “sabemos muito bem o que de mal estamos fazendo, mas ainda assim o fazemos”. Como na linguagem de artes periféricas a exaltarem a ostentação, reprodução do machismo, individualismo, misoginia e outras opressões. A arte revolucionária, então, não deve apenas denunciar ilusões evidentes, ela precisa atingir esse núcleo cínico, onde o sujeito já não acredita no Sistema, mas continua participando e reproduzindo seus mecanismos de dominação, e os incorpora.

Arte não é exterior à ideologia, ela a atravessa. O sentido revolucionário só acontece quando a arte reconfigura perguntas, restituindo totalidade ao fragmentado, possibilitando a produção de contra-interpelações. Sua potência está em criar fissuras na narrativa dominante, abrindo espaço para que o sujeito se reconheça como agente histórico e não apenas como peça funcional do Sistema. Contudo, não basta tematizar a injustiça, há que apontar caminhos indo além da superfície. Permanecer no nível da aparência não alcança a estrutura nem permite compreender o particular à luz das mediações que o constituem. Uma estética revolucionária exige consciência de totalidade, sendo preciso repetir. O poema, a cena teatral, a música, a dança, as histórias narradas, quando isolam o indivíduo de suas determinações sociais, reforçam a fragmentação própria da pós-modernidade capitalista, quando reinserem o drama pessoal na trama histórica, restituem a dimensão coletiva do Ser.

O verdadeiro ato político não é escolha entre opções dadas, é redefinição do próprio campo das escolhas. Arte é para ir além do estabelecido. Ao criar formas que não se encaixam na lógica dominante, a arte supera aquilo que não é plenamente absorvido e produz experiências coletivas. Em um tempo que isola, apesar do aparente turbilhão das redes socais, é gesto radical. Um sarau periférico, uma ocupação cultural, uma canção que circula fora das engrenagens comerciais, não são margens pitorescas, nem a cultura popular é folclórica, são ensaios de outra sociabilidade. Ali se experimenta o comum como prática, não como abstração.

Entretanto, o tempo presente apresenta o desafio específico das relações sociais difusas, capilares e comandadas pelo algoritmo e alucinações da chamada Inteligência Artificial, que não é inteligente nem artificial, como bem apontou o eminente cientista brasileiro, Miguel Nicolelis. Com isso a crítica é rapidamente absorvida, domesticando a rebeldia, que é convertida em estilo e espetáculo. Nesse ambiente a contestação vira mercadoria a se comprar e vender nas prateleiras das redes sociais.

O capitalismo contemporâneo não apenas organiza a economia, ele coloniza o horizonte do imaginável ao instalar a sensação de que não há alternativa, como já dito, e o cinismo conformista é a maior das armas do Capital, pois a precariedade é apresentada como flexibilidade e a devastação ambiental, como custo inevitável do progresso, assim como a hiperexploração do trabalho. A solidão digital amplia a sensação de que tudo é inescapável, reduzindo pertencimento e participação à conectividade em rede. A naturalização mercantil transforma toda criação em produto segmentado, mensurável por métricas de engajamento; e a impotência melancólica impõe limites à denúncia criada artisticamente, sem reorganizar o campo da transformação profunda.

A arte revolucionária precisa escapar a ambos riscos. Sua tarefa não é oferecer respostas simplistas, mas reconfigurar perguntas, tornar visível o que foi falsamente naturalizado e dar sentido de unidade ao fragmentado. O ser humano não é entidade abstrata, mas síntese de relações sociais, e a consciência não paira acima da matéria, ela emerge da prática, da vida realmente vivenciada. Essa prática é mediada por formas simbólicas, como linguagem, arte e cultura, que estruturam a experiência. Produzir experiências coletivas em um tempo que isola, pressupõe desmontar a reificação que separa indivíduo e totalidade. É quando a criação estética comunitária adquire um significado único, que pode restabelecer mediações profundamente transformadoras, quiçá revolucionárias, em gestos que não são marginais, mas ensaios de outra sociabilidade.

A revolução estética urgente e emergente que proponho, não se anuncia como explosão súbita, mas como recomposição paciente do comum. Ela começa quando comunidades retomam a capacidade de narrar a si mesmas e a cultura deixa de ser consumo, voltando a ser produção compartilhada. Nesse momento o imaginário coletivo recusa o fatalismo. A história não é herança passiva, mas tarefa, responsabilidade. Pelo fio da história carregamos desilusões e esperanças, derrotas e persistências, compreendendo-o teremos condições para retomar continuidade crítica em processos intergeracionais, e assim sair do labirinto.

É o sentido de revolução, urgente e emergente, que apresento.

Revolução para já!

Agora. Não menos que isso.

O mundo pode ser bom, belo e justo para todo mundo, só depende de nós. E a arte é o caminho. Arte reabre o futuro quando este parece fechado. Arte para recordar que o mundo que nos oprime não é destino. Tudo o que foi construído pode ser reinventado.  Como já dito, arte como forma de revolução não substitui a ação política organizada, mas a antecede e a acompanha, impedindo que revoluções se desviem pelo caminho (acontece muito, mas é tema para outro ensaio). A arte inaugura possibilidades e disputa sentido. Se o capitalismo pretendeu colonizar o imaginário para formar pessoas obedientes, a revolução tem início quando a imaginação se recusa a obedecer, pois toda revolução começa assim: imaginar o impossível até que ele se torne real.

 

Revolução (um poema)

 

Revolução não é grito

(ou talvez seja),

mas dela parte um grito,

meio rouco,

meio gasto,

um grito que começa baixinho,

como quem escava o silêncio com as unhas.

 

Revolução é isso:

uma vontade de pegar o mundo nos braços,

de arrancar os arames das fronteiras,

de devolver o rio ao leito,

a chuva ao campo,

o fruto à boca.

 

E se Revolução não for isso,

que seja outra coisa,

mas que seja agora,

porque a terra cansa,

a fome pesa,

as bombas matam,

o sangue escorre.

 

E o tempo não espera.

Abaixo, seleção do editor do blog


Clube da Esquina nº 2 - Milton Nascimento


Emiliano Zapata, Felipe Carrillo Puerto e José Guadalupe Rodríguez com o estandarte "Tierra y Libertad".













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