sábado, 14 de março de 2026

O agente secreto de Hollywood que conversava com a ditadura no Brasil

 Fonte: Intercept Brasil

https://www.intercept.com.br/2026/03/14/o-agente-secreto-de-hollywood-que-conversava-com-a-ditadura-no-brasil/

Documento inédito revela como grandes estúdios americanos entregavam informações de filmes brasileiros ao aparato repressivo militar.

Apesar do recente sucesso internacional dos filmes "Ainda estou aqui" e "O agente secreto", nem sempre o cinema brasileiro foi o queridinho de Hollywood.


Uma correspondência, da mesma década de 1970 que esses dois longas-metragens brasileiros se passam, revela que um representante do cinema estadunidense repassava informações para o aparato repressivo da ditadura


Eu conversei com o professor da Universidade do Distrito Federal Marcelo Mello, que fez essa descoberta durante uma pesquisa no Arquivo Nacional em Brasília para o seu doutorado*. E ele me mostrou o documento.


É uma carta de 1972 enviada por Harry Stone, representante da Motion Picture no Brasil, para o general Nilo Caneppa Silva, então diretor-geral da Polícia Federal em Brasília. 


Basicamente,  Harry Stone "delata" a exibição em Nova York de um filme brasileiro que retratava tortura e estava sendo usado para denunciar o estado de exceção que acontecia no então governo Médici. 


A Motion Picture representava os interesses dos grandes estúdios de Hollywood no exterior, como Paramount, Universal e Warner Bros. Essa organização ainda existe e, hoje em dia, também representa serviços de streaming, como a Netflix.

Associação Brasileira Cinematográfica era a fachada da Motion Picture no Brasil

Já o general Nilo Caneppa Silva é conhecido por seu papel direto na censura de obras de arte. Além disso, chegou a participar de uma detenção ilegal e tortura durante o regime militar, segundo relatório final da Comissão Nacional da Verdade


‘My friend the general’


Harry Stone menciona na carta uma correspondência anterior com o general, indicando a existência de outras comunicações entre ambos. E sugerindo que o oficial de altíssima patente teria requisitado informações sobre um filme brasileiro que falava sobre "Brazilian police brutality" (brutalidade da polícia brasileira, em portugês).


Na correspondência ao general, Harry Stone anexou  uma carta em inglês de um representante da Motion Picture nos Estados Unidos chamado J. William Piper, que entrega o local onde estaria sendo exibido o filme citado: o Carnegie Hall, tradicional conjunto de salas de espetáculo, localizado na esquina da 57th Street com a 7th Avenue, em Nova York. 


O filme em questão era "O caso dos irmãos Naves", de Luiz Sergio Person, diretor mais conhecido por “São Paulo Sociedade Anônima”. A obra narra a brutal prisão e tortura de dois irmãos no interior de Minas Gerais durante a ditadura do Estado Novo, na década de 1930. 


Sob privação de liberdade e maus-tratos, eles foram obrigados a confessar o homicídio do primo, que jamais cometeram. O caso é considerado como um dos maiores erros do Judiciário, que só anulou a sentença 15 anos depois do crime. 


A obra escapou da censura, pois os militares não perceberam a crítica implícita. Só que o filme teve sucesso comercial e começou a ser usado para denunciar os casos de tortura da ditadura militar. 

Representante de Hollywood se refere a general como “seu amigo”

ega o nome e local de exibição do filme, o J. William Piper se refere ao general Caneppa como "your friend the General" (seu amigo, o general, em português).


Amiguinho dos militares


Harry Stone era conhecido como "o embaixador de Hollywood" e promovia festas com sessões de filmes inéditos para um público seleto. Se na imprensa ele era descrito como “elegante”, “eficiente” e “carismático”, para o diretor brasileiro Glauber Rocha o executivo americano não passava de um “agente da CIA”, a Central Intelligence Agency, agência de inteligência dos Estados Unidos.


Vendo a carta descoberta pelo pesquisador Marcelo Mello é possível perceber que o apelido não era tão injustificado.


Fiquei curioso para entender melhor quem era Harry Stone, e Mello me indicou a dissertação da pesquisadora Bruna Carolina de Oliveira Rodrigues sobre ele.

Harry Stone, conhecido como “o embaixador de Hollywood” no Brasil


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