Nessa pesquisa, Bruna Carolina mostra que Harry Stone era um fervoroso anticomunista alinhado ao Partido Republicano nos Estados Unidos.
Ele organizava sessões de cinema privada com a cúpula militar, chegando a convidar Costa e Silva para assistir "OO7 contra a chantagem atômica" e, sabendo da paixão do general João Figueiredo por cavalos, enviou-lhe uma cópia do filme "O corcel negro".
Só é possível entender a gravidade dessa comunicação entre Hollywood e o regime militar quando se entende a importância de quem era o remetente e o destinatário.
No mínimo, essa carta mostra o representante dos maiores estúdios de cinema dos Estados Unidos municiando o sistema de inteligência da ditadura militar no Brasil. Sistema esse que perseguia, torturava e matava dissidentes.
Quebra-cabeça do passado
Eu conheci o pesquisador Marcelo Mello através do documentário "Os ruminantes", que ele dirige com a cineasta Tarsila Araújo, com estreia prevista para agosto deste ano.
O documentário conta a tentativa frustrada de Luiz Sergio Person de encampar seu novo filme "A hora dos ruminantes", que seria baseado no livro homônimo do escritor goiano José J. Veiga.
A obra fala sobre uma pequena cidade invadida misteriosamente por forasteiros arrogantes, cachorros e bois – uma alegoria do regime autoritário.
A conexão entre o representante de Hollywood e o general é mostrada no documentário. Quando assisti ao filme – tive a oportunidade de vê-lo antes da estreia – pensei logo no Armando de "O agente secreto" e na Eunice Paiva de "Ainda estou aqui".
Ambos vítimas de um regime autoritário que, em algum momento e em alguma medida, foi aliado de Hollywood. Agora, as representações de ambos são aplaudidas por Hollywood.
Para os diretores do filme, Marcelo Mello e Tarsila Araújo, essa conexão entre Hollywood e os militares pode ter ajudado a frustrar os planos de Person.
Meses depois da carta de Harry Stone, ele viajou aos Estados Unidos para reuniões com executivos do cinema, com o objetivo de angariar fundos para seu novo projeto de filme, sem obter sucesso.
Mello compara o seu trabalho e o de Tarsila com o de juntar peças de um quebra-cabeça que foi apagado. “A ditadura prejudicou muito o cinema brasileiro, e isso afetou também a carreira do Person.
Se o Person soubesse dessas denúncias (contra o filme dele), talvez ele nem fosse para os Estados Unidos procurar financiamento”, me disse o pesquisador.
O pesquisador vai além e lembra que, se tivesse sido concluído, o filme não feito de Person teria antecipado a tradição latino-americana de obras que misturam elementos fantásticos com o cotidiano.
“A gente tem plena convicção de que ‘A hora dos ruminantes’ teria revolucionado o cinema nacional e mundial”, diz Mello.
Eu também conversei com a Tarsila, que faz a leitura de que havia um interesse dos Estados Unidos em boicotar o cinema brasileiro. “É uma maneira de colonizar os outros países”. E, de fato, a fala da cineasta faz sentido.
É irônico, e dá até uma ponta de raiva, ler Harry Stone em uma entrevista para a Folha de S.Paulo em 1995 dizendo que o cinema brasileiro vivia o seu auge nos anos 1950, mas depois teria começado a "fazer os chamados 'filmes de arte', com histórias tristes e complicadas".
Se estivesse vivo (ele morreu em 2000 aos 74 anos), o que diria o representante de Hollywood, amigo dos militares, sobre dois filmes brasileiros “tristes e complicados” concorrendo e vencendo o maior prêmio da indústria cinematográfica.
*A descoberta da carta por Marcelo Mello aconteceu durante a pesquisa de seu doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais "Espetáculo e resistência no roteiro cinematográfico inédito de ‘A hora dos ruminantes’", de 2019. O documento não havia sido revelado na imprensa até agora.
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