terça-feira, 3 de março de 2026

Contra a guerra injusta e injustificada com o Irã. Editorial da revista jesuíta America. #Análise de Conjuntura

 03 Março 2026

"Qualquer pessoa com memória de 2003 e do período que antecedeu a segunda Guerra do Golfo contra o Iraque também se lembrará de outra lição que os Estados Unidos aprenderam da maneira mais difícil: as aventuras militares americanas no Oriente Médio tendem a terminar muito, muito mal", afirma a revista dos jesuítas americanos America, 02-03-2026, em editorial.

Segundo o editorial, "não há dúvida de que estamos enfrentando uma emergência nacional e internacional enquanto as bombas continuam a cair. Embora ainda tenhamos esperança de um retorno à diplomacia e ao respeito pelo Estado de Direito, também enfrentamos o pior cenário possível, apropriadamente descrito pelo Papa Leão XIV logo após o início dos ataques: o de que não seremos capazes de “assumir a responsabilidade moral de deter a espiral de violência antes que ela se torne um abismo irreparável”.

Eis o editorial.

O Oriente Médio mergulhou mais uma vez em conflitos e incertezas — e o principal culpado é o presidente americano que prometeu acabar com o hábito dos EUA de se envolver em “guerras intermináveis”: Donald J. Trump. Ao se unir a Israel para executar o assassinato do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, Trump ignorou a lei americana e envolveu o país em uma guerra por sua própria conta e risco. Ele também continua ignorando os custos e os riscos de desestabilizar a já frágil ordem internacional. Como os editores disseram sobre seu aventureirismo na Venezuela há apenas dois meses: “Intervenções militares sem princípios e imprevisíveis tornarão os conflitos regionais mais duradouros e destrutivos”.

É evidente que a oposição ao ataque conjunto EUA-Israel ao Irã não significa, de forma alguma, um endosso ao atual regime iraniano, como se apenas duas opções ruins fossem possíveis: destruir o regime violentamente ou apoiá-lo. Décadas de regime totalitário e a violenta repressão de protestos civis, combinadas com o apoio a guerras por procuração destinadas a minar a estabilidade da região e o desrespeito às resoluções da ONU sobre o desenvolvimento de armas nucleares — juntamente com frequentes apelos à destruição literal dos Estados Unidos e de Israel — fizeram com razão do regime iraniano um pária. Mas reconhecer essa realidade não justifica a mudança de regime pela força, nem torna esse resultado praticamente alcançável.

O cálculo político do governo Trump até agora sugere uma disposição para que os fins justifiquem os meios: uma vez que a oportunidade de eliminar a liderança iraniana por meio de ataques de decapitação se apresentou, era uma oportunidade imperdível, independentemente do que estivesse acontecendo na mesa de negociações. No entanto, esse raciocínio não apenas deixa de atender aos critérios para ação militar em qualquer formulação da teoria da guerra justa ou do direito internacional, como também falha no teste do bom senso. Qual é o fim que supostamente justifica esses meios perigosos e imprevisíveis?

Será uma mudança de regime, como disse o Sr. Trump em duas mensagens de vídeo no fim de semana, após o início dos ataques aéreos? Será uma nova tentativa de destruir o programa nuclear iraniano, após os ataques deste verão? A eliminação de qualquer ameaça de mísseis aos Estados Unidos e a Israel? Ou, como disse o secretário de Defesa Pete Hegseth em uma coletiva de imprensa esta manhã, o objetivo é simplesmente transmitir a mensagem: “Se vocês matarem americanos, se ameaçarem americanos em qualquer lugar do mundo, nós os caçaremos sem remorso e sem hesitação, e os mataremos”? Não está claro que alguém no governo dos EUA — e certamente não na comunidade internacional — saiba qual é o objetivo final.

Qualquer pessoa com memória de 2003 e do período que antecedeu a segunda Guerra do Golfo contra o Iraque também se lembrará de outra lição que os Estados Unidos aprenderam da maneira mais difícil: as aventuras militares americanas no Oriente Médio tendem a terminar muito, muito mal. Essa segunda guerra resultou em enormes baixas civis e militares e praticamente levou o Estado iraquiano à falência. Mesmo hoje, um quarto de século depois, o Iraque permanece uma nação fragmentada e violenta. Enquanto isso, as forças americanas permaneceram em solo iraquiano por décadas após o presidente George W. Bush declarar "Missão Cumprida". A ação americana contra o Iraque em 2003 também contribuiu para a ascensão do Estado Islâmico e a subsequente Guerra Civil Síria, deixando também aquele país devastado.

Em 2003 (e em 1991), o governo dos EUA procurou convencer seus próprios cidadãos e a comunidade internacional, incluindo o Vaticano, da necessidade de intervenção militar no Iraque antes de realizar a invasão propriamente dita. Mesmo em 2003, quando os Estados Unidos agiram com uma coalizão de nações muito menor do que em 1991 e com base no que mais tarde se revelou ser uma evidência exagerada de um programa de armas nucleares iraquiano, o governo de George W. Bush ao menos seguiu os trâmites para obter alguma autorização do Congresso e consenso internacional antes da intervenção militar. Desta vez, o Sr. Trump não fez tal tentativa.

Talvez reconhecendo que não receberia o apoio do Congresso, especialmente à luz das deserções públicas de Rand Paul e outros republicanos proeminentes, o Sr. Trump optou por não se dar ao trabalho. Tampouco tentou apresentar argumentos públicos ao povo americano, do qual apenas um a cada quatro apoia os ataques ao Irã, ou à comunidade internacional.

Existe alguma saída para esse impasse moral e jurídico? Dado que a capacidade do Sr. Trump de iniciar uma guerra supera em muito sua capacidade de terminá-la, o que os Estados Unidos devem fazer em relação ao Irã daqui para frente, agora que assassinaram grande parte de sua liderança sênior, mas não possuem uma maneira viável de fortalecer qualquer alternativa ao regime atual?

O primeiro passo é que o Sr. Trump pare — ou que o Congresso o impeça — de conduzir esta guerra de forma desordenada, com objetivos obscuros e irrealistas. É necessária uma cooperação bipartidária robusta em resposta às ações do presidente: um debate aberto e irrestrito no Congresso, que inclua as vozes francas de legisladores republicanos se manifestando contra a guerra, poderia convencer o Sr. Trump a retornar à mesa de negociações e a formular um plano que ele possa defender perante os aliados, tanto nacionais quanto internacionais. Infelizmente, os Estados Unidos provavelmente precisarão planejar o fim deste conflito sem depender dos aliados ocidentais. Não podemos contar com a comunidade internacional, em grande parte porque, nos últimos 15 meses, a maior parte da comunidade internacional aprendeu a parar de contar conosco.

Não há dúvida de que estamos enfrentando uma emergência nacional e internacional enquanto as bombas continuam a cair. Embora ainda tenhamos esperança de um retorno à diplomacia e ao respeito pelo Estado de Direito, também enfrentamos o pior cenário possível, apropriadamente descrito pelo Papa Leão XIV logo após o início dos ataques: o de que não seremos capazes de “assumir a responsabilidade moral de deter a espiral de violência antes que ela se torne um abismo irreparável”.

Leia o texto na fonte original IHU.

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