Acabo de saber do adiamento da suposta Teia Nacional dos Pontos de Cultura. A única que seria realizada durante os quatro anos do atual governo. Antes que questionem a razão de eu haver escrito “suposta”, logo esclareço: o que está para acontecer em Aracruz, Espírito Santo, não será uma Teia em seus fundamentos filosóficos e práticos, tratando-se de um encontro, hiperverticalizado e controlado, permeado por disputas, sequer com proporcionalidade razoável entre os entes federativos. Ao que me informaram, trinta delegados por estados e distrito federal, independente da população e quantidade de Pontos de Cultura; só esse aspecto já distorce por completo o ambiente de encantamento e congraçamento, transformando o encontro em um funil. Não se trata de uma questão menor ou operacional, o que está havendo é a apropriação de uma palavra para uso diverso do original, esvaziando-a de sentido.
Eu que formulei o conceito e filosofia e coordenei as primeiras quatro Teias Nacionais que houve no Brasil entre 2006/10. Depois disso, houve uma em 2014 e agora essa que se adia. O tema seria “Justiça Climática”, bom tema, mas que poderia ser mais poético e menos subordinado à linguagem tecnoburocrática dos Organismos Internacionais, a exemplo das primeiras Teias. Enfim... Mas esse não é o problema principal. Teia é a realização da potencia dos Pontos de Cultura em rede, é o momento do encantamento, da auto-organização e reflexão, é filosofia da práxis, que só pode acontecer com a quebra de hierarquias culturais e a emergência de novas legitimidades. Foi assim até 2010, mesmo com as Teias estaduais, regionais ou municipais. Teia como o ambiente para aceleração de processos e vínculos. Por isso não cabe representação delegada, ao menos uma pessoa por Ponto de Cultura precisa estar lá, bem como quem mais queira ir, e coletivos e grupos. Na primeira Teia, na Bienal de São Paulo, fretamos ônibus por vezes para atender um único Ponto de Cultura, como as crianças da favela da Rocinha no Rio de Janeiro, ou o povo Yawalapíti, do Xingu, liderados pelo cacique Aritana, meu amigo já falecido, eles viajaram 24 horas de barco até o município de Canarana no Mato Grosso para depois virem à São Paulo, só dançarem em frente à Oca no Ibirapuera e para que o público ouvisse Aritana em conferência no SESC-Vila Mariana. Foi um turbilhão de emoções e sensações. Pela primeira vez na história do país o povo entrava pela “porta da frente”, o prédio da Bienal de São Paulo se abriu para o Brasil de baixo, não mais como mostra, mas como agentes. Junto à Teia, a Primeira Feira Nacional da Economia Solidária, que organizei junto com o professor Paul Singer, então secretário da economia solidária. “Venha se ver e ser visto”, foi o lema da primeira Teia em 2006; mail de mil participantes (à época havia pouco menos de 500 Pontos de Cultura no país). Ano seguinte, em Belo Horizonte, no Palácio das Artes, “Tude de Todos”, já eram 800 Pontos. Quinze dias antes eu quase desmarquei a Teia. Sabem por que? O governo do estado, bem intencionado, mas sem compreender plenamente a filosofia, queria transferir a Teia para um Centro de Convenções. Eu respondi: “O melhor para o povo, o povo tem que adentrar no mais consagrado espaço de cultura do estado, do contrário as hierarquias culturais prevalecerão. Nosso povo nunca mais entrará pela porta dos fundos, mesmo que seja um fundo bem organizado e aparentemente adequado.” A questão é simbólica. Em 2008, em Brasília, na Esplanada dos Ministérios, sob o tema “Reproclamação da República”, aí já passavam de milhares. E em 2010, “Tambores Digitais”no Dragão do Mar em Fortaleza, cinco mil pessoas foram levadas para lá.
Uma Teia não se mede por braços levantados, nem por regimentos frios, se mede por abraços, maravilhamento, contatos pessoa a pessoa, comunidade a comunidade, criações e invenções. É tão difícil compreender esse significado? Será que novamente sucumbe-se à lógica patriarcal do Poder, das hierarquias e verticalizações? E nem isso se fez direito, tanto que estão tendo que adiar uma Teia acanhada.
Mas o problema não se resume só com a Teia. Isso é só reflexo de um desmonte conceitual-filosófico que prossegue desde 2011. Ponto de Cultura é um conceito matemático, pressupõe unidade e igualdade entre os Pontos. Isso também tirou-se. Tudo virou disputa em editais artificializados (e hoje em dia até projeto se faz por IA, seleção também, portfólios que nem existem, também). A Cultura Viva perdeu vida, virou um sistema burocrático de transferência de recursos para organizações culturais de base comunitária. E nem isso faz bem, ao contrário, reproduz preconceitos e discriminações, os valores são insuficientes para manutenção de atividades contínuas e processuais; e a origem do recurso nem é do Ministério da Cultura em sentido direto, mas da Lei Aldir Blanc que foi uma conquista anterior da sociedade mobilizada. Novamente, eu que fiz o cálculo sobre o valor que seria adequado para a manutenção de um Ponto de Cultura: R$ 60 mil/ano, em valores de 2004, e que deveriam prever uma processualidade de no mínimo três anos, renováveis e sem necessidade de disputa; ou seja, R$ 180 mil por Ponto de Cultura. Atualizado pela inflação esse valor daria R$ 144 mil/ano, arredondando, R$ 150 mil, ou R$ 450 mil em três anos. Por qual razão foi possível em 2004/10 e hoje não é mais? À época a Secretaria de Programas e Projetos, que eu assumi em junho de 2004, contava com apenas 5 funcionários de carreira e 5 DAS, o orçamento para o Brasil era de apenas R$ 5 milhões (para o ano seguinte saltou para R$ 67 milhões). Hoje pulveriza-se valores para ilustrar powerpoints e cifras fictícias. O que importa é a ação no território, e o valor recebido pelas comunidades precisa ser digno, adequado, do contrário não vira um lápis de cor nas mãos de uma criança na favela, é só espuma. Ou então, a reprodução dos velhos preconceitos de sempre: “ao povo, qualquer coisa serve”. E o direito vira ajuda, e a política pública, benesse. E não é só o valor de repasse ao Ponto de Cultura. Cultura Viva é um ecossistema. Tem Ações. Cultura e Saúde, Cultura Digital, Economia Viva, Pontinhos, Griôs (o termo sequer era popularizado à época, foi através da Cultura Viva que o reconhecimento e respeito). Por isso não é possível falar em retomada. Penso até que seria melhor mudar o nome do programa para alguma sigla; burocratas adoram siglas. Ao menos não criaria a confusão quanto ao sentido e filosofia.
Voltando ao adiamento da Teia. De algum tempo eu decidi não me pronunciar sobre a Cultura Viva em sua gestão atual. Por vezes sou convidado a palestras e entrevistas, não me furto, mas prefiro ficar no campo da filosofia e história e não mais do dia a dia. Estou feliz assim, voltando às minhas origens caipiras, morando no interior, escrevendo de pé descalço e olhando para uma mata que arrodeia o meu quintal. Porém, como recebi vários telefonemas e mensagens indignadas quanto ao adiamento, sobretudo por ter acontecido por mal planejamento e incapacidade, vários sentimentos voltaram à baila. Tristezas e injustiças entaladas na alma e que por um lampejo voltam. Por isso escrevo.
Dediquei muito de minha vida à formulação e implantação da Cultura Viva e dos Pontos de Cultura, foram décadas. Não me arrependo de nada e faria novamente. No entanto, o êxito da Cultura Viva no Brasil e no mundo, foi, ao menos da parte do governo que deveria ter sido de continuidade em 2011, foi a razão de tentarem me colocar sob assédio e ostracismo. Desconstruções e assédios violentos, intencionais e maldosos. Em parte, por incompreensão e incapacidade em seguir com o programa no mesmo ritmo, em parte por mediocridade e mesquinharia, em parte por poder; também por conta dos horizontes de autonomia e soberania popular que se abriam, sobretudo com a ousadia que tivemos com a Cultura Digital (hoje percebo que esse também foi um fator relevante, e em outro momento, se houver interesse, posso explicar). O fato é que produziram intrigas, mentiras, desmontes. Valeram-se do poder para ofender e afastar. Falsificaram depoimento meu, quando me convidaram para esclarecimentos sobre um edital e deram uma lista de presença para que eu assinasse, que depois foi juntada a uma ata sem que eu tivesse sido notificado do conteúdo. Essa ata alicerçou uma sindicância contra mim, isso em 2012. Pior, a comissão de sindicância, após meses, reconheceu que não havia nada irregular a dar prosseguimento ao processo. No dia seguinte foram trocados e substituídos por outra comissão que ignorou todo o apurado. Daí o processo foi encaminhado para a Controladoria Geral da União, em 2013. Alguém tem ideia do que é ter 82 auditores da CGU investigando à lupa os contratos assinados? Novamente não encontraram nada de substancial. Daí outra comissão teve que mentir e inventar novas “irregularidades”, todas irrelevantes, mas que davam a impressão de algo enorme. Com isso me encaminharam para um PAD (processo administrativo disciplinar) e foram mais cinco anos de assédio. Que ao final terminou inconcluso e eu sequer tive acesso ao resultado, a despeito de iniciado em 2014. Com isso eu voltei a ter asma (que tenho desde criança, mas que havia curado), minha esposa teve psoríase (descolamento da unha por fundo nervoso), e outros danos a familiares. A bem da verdade só tive paz sob o governo Temer (olha só a ironia), antes, negavam-se a me receber, eu era ofendido, humilhado e atacado na surdina. Ao fim, a vida me levou ao mundo e fui muito bem acolhido fora do Brasil, mas em meu país e sob um governo que eu apoiei, foi assim que aconteceu. Com a retomada em 2023, o mesmo assédio. Com menos ímpeto, porque o tempo havia passado, mas com muita intriga e silenciamento. Em 2024, quando comemorados os 20 anos da Cultura Viva, eu recebi 11 desconvites. Onze. Agentes culturais me convidavam para algum encontro ou palestra e depois, constrangidos, desconvidavam. Até para o Enecult, em que houve um conjunto de mesas sobre a Cultura Viva eu fui afastado (mas dois dias antes do encontro, constrangido, o organizador encaminhou uma mensagem dizendo que eu poderia acompanhar as atividades, na Bahia; foi patético). Enfim...
O que tenho a dizer sobre isso tudo? Não sei. Mas senti vontade em dizê-lo. Viver sob assédio, ainda mais por tanto tempo e sob podres poderes, é muito duro.
PS - escrito em um fôlego só, sem revisão (do contrário eu apagaria), mas sentindo-me aliviado. A partir de agora esse é um assunto encerrado pra mim.
Nota do editor do blog- O texto escrit0 chegou ao nosso conhecimento no horário da manhã. No horário da noite o Ministério da Cultura divulga a nota abaixo:
A Teia Nacional dos Pontos de Cultura tem nova data: maio de 2026Alteração foi anunciada nesta quinta-feira (5) pelo Ministério da Cultura e a Comissão Organizadora
Publicado em 05/03/2026 21h00 Atualizado em 05/03/2026 21h07
6ª TEIA NACIONAL – PONTOS DE CULTURA PELA JUSTIÇA CLIMÁTICA
1. A Comissão Organizadora da 6ª Teia Nacional – Pontos de Cultura pela Justiça Climática, (Portaria SCDC/MinC n° 13 de 29.12.2025), com vistas a assegurar as condições adequadas para a realização do evento, informa que a 6ª Teia será realizada no período de 19 a 24 de maio de 2026, no estado do Espírito Santo, município de Aracruz.
2. A decisão foi adotada a partir de criteriosa avaliação do contexto político- institucional e operacional vigente, quando foram identificados entraves operacionais incontornáveis relacionados à logística, que inviabilizam a plena realização da programação cultural e artística, com os níveis necessários e adequados de segurança, acolhimento e qualidade de recepção, considerando o perfil do público envolvido e as especificidades das suas demandas.
3. Todo o planejamento de programação da Teia e as parcerias institucionais seguem inalterados, com destaque que, pela primeira vez, temos a articulação dos três níveis federativos e da sociedade civil, além de importantes parcerias no território, e a interação com a rede local de pontos e pontões de cultura, em especial com as doze aldeias indígenas (etnias Tupiniquim e Guarani), bem como as comunidades quilombolas, que integram as ações de cooperação com ensino, pesquisa e extensão, e a formação de agentes cultura viva.
4. Vale destacar que a primeira etapa da Teia Nacional, com a realização de fóruns e teias estaduais e distrital foi realizada com sucesso em 26 unidades da federação, permanecendo os mesmos prazos para o envio dos relatórios, e que a ampliação do tempo de preparação permitirá uma escuta mais qualificada, maior articulação colaborativa, com ações formativas para as delegações, realização de fóruns regionais, alinhamento entre os diversos atores envolvidos e agregação de parceiros. O principal objetivo desse encontro é ser um espaço de articulação, participação social e construção da Política Nacional de Cultura Viva do tamanho do Brasil.
5. Cientes dos desafios que se apresentam na realização desse importante projeto coletivo, apresentamos nossas desculpas pela alteração do cronograma, reiterando o compromisso da Comissão Organizadora em envidar todos os esforços necessários para o êxito e a efetividade da 6ª Teia Nacional e dos respectivos fóruns nacionais, fortalecendo a Cultura Viva como política pública estruturante, de base comunitária, no âmbito do Sistema Nacional de Cultura, promotora de direitos culturais, cidadania e desenvolvimento territorial.
6. Por fim, agradecemos a compreensão e o apoio de todas as instituições, ponteiros e ponteiras, reconhecendo que, embora a decisão possa gerar impactos operacionais pontuais, ela se orienta pelo princípio do interesse público, visando garantir a qualidade, a segurança, o cuidado com as pessoas e a legitimidade do evento. Seguimos enfrentando os desafios com responsabilidade e resiliência, certos de que a construção coletiva se fortalece com o apoio e a parceria de todos, e sempre com foco na efetividade dos resultados desse importante momento da rede Cultura Viva.
7. A Comissão Organizadora coloca-se à inteira disposição para quaisquer esclarecimentos adicionais que se fizerem necessários, por meio do endereço eletrônico teia2026@cultura.gov.br e no site www.gov.br/culturaviva/pt-br/rede-cultura-viva/teia- 2026/6a-teia-nacional-dos-pontos-de-cultura.
Saudações culturais, Viva a Cultura Viva!
Comissão Organizadora da 6ª Teia Nacional – Pontos de Cultura pela Justiça Climática
Em meio ao clima de tensão dessa tarde, aguardando a decisão final de uma reunião do Ministério da Cultura com a Comissão Nacional dos Pontos de Cultura as duas canções abaixo foram lembradas em duas conversas via whatsapp.


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