sexta-feira, 20 de março de 2026

Frei Enoque Salvador de Melo: O Sertão que Rezava e Lutava. Por Emanuel Rocha

 No sertão nordestino, onde a terra exige resistência e a fé caminha ao lado da luta diária pela sobrevivência, algumas figuras ultrapassam os limites da própria biografia e passam a integrar a memória coletiva de um povo. Assim foi a trajetória de Frei Enoque Salvador de Melo, religioso franciscano que marcou profundamente a história social e política do Alto Sertão de Sergipe.

Frei Enoque - Arquivo Pessoal

Frei Enoque nasceu em 1943, no estado de Pernambuco, na cidade de Cachoeirinha, tendo sido registrado civilmente no município de Belo Jardim. Filho de uma família simples do interior nordestino, cresceu em meio à religiosidade popular e às dificuldades da vida rural que historicamente marcaram o Nordeste brasileiro.

Sua caminhada religiosa ganhou direção a partir de 1966, quando teve contato com o frei franciscano Angelino Caio Feitosa. Esse encontro marcaria profundamente sua vida e sua vocação pastoral, inspirada pela espiritualidade de Francisco de Assis, marcada pela simplicidade, pela proximidade com os pobres e pela defesa dos marginalizados.

Chegando a Sergipe, Frei Enoque iniciou seu trabalho pastoral na região do Baixo São Francisco, integrando a Diocese de Propriá, que à época era conduzida pelo bispo Dom José Brandão de Castro. Nesse período, a Igreja Católica brasileira vivia um processo de renovação inspirado pelo Concílio Vaticano II, que incentivava os religiosos a se aproximarem das comunidades mais pobres e marginalizadas, promovendo uma pastoral comprometida com a justiça social e a transformação das realidades rurais.

No sertão sergipano, especialmente em Poço Redondo, Frei Enoque encontrou o espaço onde sua vocação se realizaria plenamente. Percorrendo estradas de terra, visitando comunidades rurais e celebrando missas em pequenas capelas, aproximou-se profundamente da vida do povo sertanejo. Conversava com agricultores, escutava trabalhadores rurais e acompanhava de perto as dificuldades impostas pela seca, pela pobreza e pelo isolamento das regiões mais distantes.

Naquele tempo, religiosos como Frei Enoque caminhavam pelas comunidades, visitavam casas simples e partilhavam o cotidiano das famílias do sertão. Era uma igreja presente na poeira das estradas, nas pequenas capelas e nas reuniões comunitárias. Hoje, muitos percebem que parte dessa tradição parece ter se enfraquecido. Em alguns setores da Igreja, multiplicam-se religiosos mais preocupados com a visibilidade das telas, com transmissões em redes sociais e aparições na televisão, enquanto a presença junto aos pobres e marginalizados parece cada vez mais rara. A memória de figuras como Frei Enoque recorda que a força da fé, no sertão, sempre esteve na proximidade concreta com o povo.

Entre as causas que abraçou esteve também a defesa do povo indígena Xocó, que vive na histórica Ilha de São Pedro, às margens do Rio São Francisco. Durante décadas, os Xocós enfrentaram conflitos pela posse de suas terras e pressões para abandonar o território. Frei Enoque tornou-se um “Xocó de coração”, compreendendo que a luta indígena era a raiz de todas as lutas pela terra no Brasil, e usando sua voz para denunciar nacionalmente o genocídio silencioso que se desenrolava.

Um dos episódios mais dramáticos que marcou sua atuação aconteceu após uma tragédia em Santa Rosa dos Ermírios. Um ônibus que circulava entre povoados pegou fogo, transportando passageiros, combustível e botijões de gás de cozinha. O incêndio transformou o veículo em uma armadilha mortal, provocando a morte de várias pessoas queimadas vivas. Diante do silêncio das autoridades, Frei Enoque denunciou publicamente as condições inseguras do transporte por meio dos meios de comunicação da época, iniciando um processo lento de melhorias e maior fiscalização nos transportes do sertão.

Com o passar dos anos, sua liderança ultrapassou o campo religioso e social. A confiança que o povo sertanejo depositava nele acabou levando-o também para a vida política. Frei Enoque Salvador de Melo foi eleito prefeito de Poço Redondo por três vezes, experiência rara para um religioso que decidiu assumir diretamente a administração pública de um dos municípios mais emblemáticos do Alto Sertão sergipano. Em seus mandatos, buscou ampliar políticas sociais, melhorar as condições de vida da população rural, fortalecer a presença do poder público nas comunidades mais distantes e dar ênfase à educação, incentivando a construção e melhoria de escolas, ampliando o acesso ao ensino nas comunidades rurais e defendendo a educação como instrumento fundamental para transformar a realidade do sertão. Posteriormente, por orientação da Igreja, afastou-se da política partidária, retornando integralmente à vida religiosa e pastoral.

Entre suas iniciativas culturais mais conhecidas está a criação da celebração conhecida como Missa do Cangaço, realizada na histórica Gruta do Angico, local onde, em 1938, tombaram Lampião e Maria Bonita. A celebração transformou o espaço marcado pela violência em um local de memória, reflexão e encontro com a história do sertão.

Entre as muitas histórias que cercam sua trajetória, guardo também uma lembrança pessoal. Tive a felicidade de conhecê-lo e conversar com ele algumas vezes. Nosso último encontro aconteceu em 2019, quando eu e a professora da Universidade Federal de Sergipe, Erna Barros, fomos entrevistá-lo para o documentário Angicos de Fora a Fora. Naquele momento Frei Enoque já enfrentava problemas de saúde, mas mesmo assim nos recebeu com a mesma gentileza e simplicidade que sempre o caracterizaram. Conversou longamente sobre o sertão, sobre a fé e sobre as lutas do povo que marcaram sua caminhada. Ficou claro, mais uma vez, que Frei Enoque não foi um santo, mas um homem do bem, profundamente comprometido com seu povo.

Quando sua morte foi anunciada em uma sexta-feira, 13 de março de 2026, muitos sertanejos sentiram que o sertão perdia uma de suas vozes mais marcantes. Na tradição cristã, a sexta-feira recorda a memória da paixão de Jesus Cristo, dia que simboliza sofrimento, mas também esperança.

Hoje, nas margens do Rio São Francisco e nas estradas de terra do interior sergipano, a lembrança de Frei Enoque continua viva entre agricultores, ribeirinhos e comunidades sertanejas. Mais do que religioso ou político, ele permanece na memória do povo como alguém que escolheu caminhar ao lado dos mais simples, compartilhando suas lutas, suas dores e suas esperanças, deixando um legado que une fé, justiça social e compromisso com a educação.

(*) Historiador, poeta popular, escritor  e repórter fotográfico







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