terça-feira, 17 de março de 2026

O "Agente Secreto" sem ganhar o Oscar ganhou o mundo....

 por Silvia Macedo*

Existe uma ferida específica que as cidades do interior do Brasil – e Recife, que insiste em ser metrópole e ao mesmo tempo carrega dentro de si toda a intimidade de uma cidade pequena, sabe bem disso – carregam há décadas. Não é a ferida da pobreza, embora ela exista e doa. É outra coisa, mais difícil de nomear: é a ferida de não ser levada a sério. De ter seus ritmos, suas lendas, seu sotaque, sua maneira torta e generosa de estar no mundo tratados como curiosidade folclórica, como exotismo para consumo alheio, nunca como matéria-prima para a arte mais alta. O Recife aprendeu cedo, e a contragosto, que as coisas que importavam – as coisas que mereciam câmera, atenção, eternidade – aconteciam em outro lugar.


O cinema pernambucano chegou e desfez esse ensinamento. Não suavemente.

Em O Agente Secreto, Kléber Mendonça Filho não fez uma carta de amor à cidade no sentido piegas da expressão. Fez algo mais violento e mais verdadeiro: tratou o Recife como se fosse Paris. Com a mesma exigência, a mesma seriedade, a mesma convicção de que cada ângulo de uma rua, cada letreiro gasto, cada fachada marcada pela umidade do mar continha dignidade suficiente para a tela grande. O Recife virou um personagem a mais no filme, assim como o seu elenco. E quando uma cidade se vê tratada assim, quando percebe que sua existência cotidiana foi considerada arte, algo se move nela que não é apenas orgulho. É uma espécie de reparação.

O que aconteceu nas ruas depois não foi só entusiasmo. Foi reconhecimento. E reconhecimento, quando ocorre numa cidade que foi sistematicamente ensinada a se diminuir, tem a textura de um abalo sísmico que ninguém vê mas todos sentem.

O sotaque local, vários rostos conhecidos, expressões populares e os espaços onde a vida acontecia – e ainda acontece – ocuparam um lugar nas telonas que, para o público mais amplo, cabia apenas a cidades como Paris, Nova York ou Londres. Isso pode parecer uma observação simples. Não é. Há décadas de subalternidade cultural acumulada nessa constatação. Há uma geração inteira de recifenses que cresceu acreditando – não conscientemente, mas nas fibras mais fundas do que se acredita sem saber que se acredita – que o lugar onde nasceu era provisório. Que a vida de verdade acontecia em outro eixo geográfico. Que o sotaque era coisa a ser perdida, a frase longa e sinuosa do nordestino, coisa a ser encurtada, a referência à Perna Cabeluda, à La Ursa, ao frevo de bloco, coisas íntimas demais para o espaço público da cultura nacional.

O filme devolveu tudo isso. Não como museu. Como urgência.

Ao ver sua cidade, seus costumes e sua cultura projetados para o mundo, parte do público reagiu com orgulho e entusiasmo, é o orgulho recifense, como se costuma dizer, em linha reta. Mas havia, por baixo desse orgulho em linha reta, algo mais complexo – uma torção, uma perturbação, como quem encontra numa gaveta antiga uma fotografia de si mesmo que não sabia que existia e precisa parar para reconhecer o próprio rosto. O encantamento dos pernambucanos estava ligado a um sentimento de pertencimento e orgulho.

A crítica internacional identificou no filme uma obra capaz de articular história, tensão e ironia sem perder o contato com a realidade que representa – e reconheceu nele uma forma própria, insubstituível, de falar sobre violência, repressão e território. O mundo olhando para o Recife e dizendo: isto aqui é universal. Não porque o Recife deixou de ser particular. Ao contrário, porque foi particular o suficiente para se tornar universal. Porque foi fundo o bastante na sua própria especificidade para tocar o que é de todos. Uma produção que atingiu um contingente mais amplo, não os cinéfilos de sempre, mas o motorista de aplicativo, a funcionária dos Correios, o rapaz que vende mingau na avenida Guararapes, que estava de repente torcendo para um filme como quem torce para o Santinha, Sport ou Náutico.

A foto mostra uma equipe de filmagem trabalhando em uma rua. Em primeiro plano, aparecem dois carros antigos: um Fusca azul e outro carro vermelho com pneus marcados com “Cooper Cobra”. Ao redor deles, várias pessoas da produção estão em ação — um homem agachado ao lado do Fusca, uma mulher de camisa rosa e calça branca, e outro homem com fones de ouvido. Acima, vê-se um microfone de boom captando o som. Mais ao fundo, há equipamentos e membros da equipe sob guarda-sóis azuis, compondo o ambiente típico de bastidores de um set de filmagem.

Abordagem de Kléber Mendonça Filho levou recifenses a redescobrirem o que já conheciam

Crédito: Divulgação

O público pernambucano passou a torcer pelo filme como quem torce por um time ou por um bloco de Carnaval. A comparação não é retórica. É sociológica. No Recife, a identidade coletiva se forja nas disputas: o bloco contra o outro bloco, o time contra o outro time, a cidade contra o descaso do sul. Quando o filme entrou nessa estrutura afetiva – quando passou a ser “o nosso” filme, não um filme sobre nós, mas nosso – ele se tornou veículo de algo que a cidade precisava e não encontrava espaço para expressar. A certeza de que existir aqui é suficiente. Que não é preciso ir embora para ser levado a sério.

E então aconteceu uma coisa estranha e linda: as pessoas começaram a redescobrir o que já conheciam.

Os lugares que serviram como cenário para o longa passaram a ser procurados por turistas e pela própria população local, que tem redescoberto a história da cidade. A avenida Guararapes, o Cinema São Luiz voltaram a ficar nos olhos e na boca do povo. Voltaram – essa palavra importa. Não chegaram. Voltaram. Como se tivessem estado sempre ali, na periferia do que se vê, esperando que alguém os olhasse com atenção suficiente para que os outros também vissem. Isso é o filme funcionando como espelho, não o espelho liso que reflete o que já sabemos, mas o espelho levemente torto que mostra o que estava ali e não víamos porque era óbvio demais para ser visto.

O Ginásio Pernambucano, fundado em 1825, teve como alunos ilustres Clarice Lispector e Ariano Suassuna. Clarice Lispector, que nasceu na Ucrânia e veio para o Recife quando ainda não tinha dois meses de vida, que aprendeu a ler português nessas ruas antes de partir para o Rio e de lá para a língua – Clarice, que talvez seja a escritora brasileira que mais visceralmente escreveu sobre o que significa pertencer a um lugar que não se pode explicar. Ela foi aluna do Ginásio Pernambucano. O mesmo Ginásio que Kleber usou como cenário. A cidade que a fez está na cidade que ele filmou. Não é saudade. É continuidade. É a prova de que há uma linha subterrânea que conecta todas as formas de amor por esse lugar específico, e que esse amor, quando encontra expressão pública à altura de sua intensidade, produz nos que o reconhecem uma espécie de tremor.

A socióloga e folclorista Rúbia Lóssio diz que cidade portuária, ponto de passagem de diferentes povos, o Recife absorveu influências judaicas, portuguesas, africanas e indígenas — um caldeirão de efervescência criativa cuja construção social é pautada pela manifestação do fantástico. O fantástico que Kleber trouxe para a tela – a Perna Cabeluda como alegoria do medo de Estado, a lenda urbana que o jornalismo de 1975 inventou e amplificou até que virasse verdade coletiva – não é exotismo. É arqueologia. É ir fundo o suficiente numa cidade para encontrar onde sua psicologia coletiva se formou, e mostrá-la sem pudor e sem condescendência.

No Carnaval de 2026, a imagem que ficará não será a do presidente no desfile do Galo da Madrugada, nem o coração de Dom Helder Câmara na escultura da Boa Vista. Será a camisa retrô da Pitombeira, a mesma que Wagner Moura veste no filme, produzida em série, copiada aos milhares, transformada em brinde, vestida por milhares de pessoas na torcida pelo Oscar. Uma camisa de troça carnavalesca fundada em 1947, patrimônio vivo de Pernambuco, virando símbolo de uma disputa global de cinema. Há nisso uma dignidade que nenhum planejamento cultural inventaria: ela surge quando uma cultura que sempre foi rica e nunca foi suficientemente reconhecida finalmente encontra o canal por onde pode transbordar.

Mesmo não recebendo as estatuetas do Oscar, o filme fez história. Os debates urbanos que dele eclodem e os sentimentos de apropriação da cidade talvez sejam conquistas ainda mais duradouras do que qualquer prêmio.

Sim. Porque o que O Agente Secreto fez não se guarda numa prateleira. Guarda-se no gesto do recifense que parou na frente do Cinema São Luiz e o olhou como se o visse pela primeira vez – sendo que o havia passado por ele 300 vezes sem ver. Guarda-se na criança que foi levada aos passeios pelas locações e perguntou ao pai o que era aquele prédio, e o pai soube responder, e os dois ficaram um pouco em silêncio depois. Guarda-se em tudo o que uma cidade descobre de si mesma quando alguém, finalmente, decide olhá-la com o sério e o terno que ela sempre mereceu.

Há coisas que uma cidade carrega por décadas sem saber que carrega. O Agente Secreto foi a mão que abriu a gaveta.

*Arquiteta formada na UFPE, mestre em Teoria da Arquitetura e Urbanismo e PhD em Film Studies na Universidade de Reading (Reino Unido). No Brasil, trabalhou como diretora de arte no audiovisual, teatro e televisão. Atualmente vive na Inglaterra, onde finaliza seu documentário UK-Ukrainians — sobre a presença ucraniana no Reino Unido — e investiga as relações entre cinema e cidade em sua pesquisa de pós-doutorado no King’s College London.

Fonte: Marco Zero Conteúdo

É um coletivo de jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.




A Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) se orgulha de Kleber Mendonça Filho e de todos aqueles que tornaram possível o filme "O Agente Secreto", obra que fez Pernambuco como um todo e o Recife em especial entrarem no circuito mundial do cinema. 

Já são mais de 85 premiações e 159 indicações, incluindo as quatro categorias nas quais o filme concorreu no Oscar 2026, realizado na noite de domingo (15). 

A UFPE é grata a Kleber, seu ex-aluno, por ter sido reconhecida por ele como fundamental nessa trajetória de tantas conquistas, e também por ter sido escolhida para ser cenário de uma história que vai fundo na alma recifense.

René Ruschel

 ·“O AGENTE SECRETO”. ENTRE SOMBRAS E SILÊNCIOS

Não sou crítico de cinema. Apenas um cinéfilo moderado que assiste filmes com curiosidade e interesse, especialmente documentários e histórias ancoradas em fatos históricos.

Assisti “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho e achei excelente. 

Ainda assim, não imaginava que pudesse conquistar um prêmio no Oscar. A obra faz um recorte muito particular da ditadura militar brasileira.

O enredo acompanha Marcelo, personagem interpretado por Wagner Moura, um professor universitário que retorna ao Recife em 1977, em pleno período do regime militar. 

Fugindo de conflitos ligados a interesses políticos e econômicos daqueles tempos sombrios, ele busca se recolher, reorganizar a própria vida, proteger o filho e compreender episódios do passado de sua família.

Ao chegar à cidade, Marcelo encontra um ambiente marcado pela vigilância policial, pela tensão e por uma repressão que paira no ar. 

Enquanto procura documentos e tenta resolver questões pessoais, acaba se aproximando de pessoas que foram perseguidas pelo regime e passa a viver sob a sombra constante do medo.

O filme não segue o caminho mais óbvio para retratar aquele período. Não há cenas explícitas de tortura, nem violência mostrada dentro de prisões. 

Não vemos interrogatórios em celas escuras nem confrontos claros entre heróis e vilões. 

A história prefere o silêncio, as entrelinhas, o clima de suspeita permanente e as pequenas estratégias de sobrevivência de quem tenta seguir vivendo.

Talvez por isso seja uma obra mais difícil para o público externo compreender plenamente. 

Trata-se de um olhar muito específico sobre a experiência brasileira durante a ditadura, cheio de nuances e contextos que nem sempre são evidentes para quem está fora dessa história.

Em contraste, o vencedor “Ainda Estamos Aqui” apresenta uma narrativa mais direta, carregada de emoção, dor e sentimentos expostos para retratar a violência da ditadura militar iniciada em 1964. 

Histórias assim costumam atravessar fronteiras com mais facilidade.

Por isso, mesmo considerando “O Agente Secreto” um grande filme, não me surpreende que não tenha levado um Oscar. 

Nem sempre as obras mais sutis e profundamente enraizadas em uma realidade local conseguem cruzar com facilidade as fronteiras culturais. 

O QUE O SOFT POWER COREANO DO K-POP PODE ENSINAR AO BRASIL E À ÓTIMA ONDA DO NOSSO CINEMA?

A chamada hallyu, ou 'onda coreana', é um projeto de Estado que nasceu da crise asiática e se impôs como alternativa ao industrialismo exausto da época. Enquanto o Ocidente apostava no 'hard power', a Coreia optou pela sedução

Renata Freitas*

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O Agente Secreto' mostra que ditadura tinha 'difusão psicológica do terror como princípio fundamental', diz psicanalista

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A torcida pelo Oscar foi legal. Mas saibamos: aquilo ali é campo do adversário, por Gilberto Maringoni
A torcida faz parte, mas é sempre preciso dar uma de chato: o Oscar não é a olimpíada mundial ou o campeonato internacional do cinema.

Por Gilberto Maringoni - Site GGN
16/03/26 • 09:03

Saí, como toda/o brasileira/o frustrado da cerimônia do Oscar deste domingo. Aliás, saí duplamente, pois embora torcesse pelo ‘Agente secreto’, gostaria que dois filmes recebessem a estatueta de melhor produção estrangeira: o nosso e o excepcional e necessário ‘A Voz de Hind Rajab’. A fita tunisiana exibe a história da menina palestina de 6 anos assassinada no carro de sua família por forças israelenses em Gaza, em 2024. O ator principal, Motaz Malhees, foi proibido de entrar nos EUA nesta semana.

A torcida faz parte do evento, mas é sempre preciso dar uma de chato: o Oscar não é a olimpíada mundial ou o campeonato internacional do cinema. É uma cerimônia anual da indústria cinematográfica estadunidense e ponto. Sua primeira edição aconteceu em 1929, sob o patrocínio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que congrega profissionais do setor, críticos e jornalistas e é patrocinada pelos monopólios do audiovisual do Império.

Em 1957, no meio da Guerra Fria, abre-se a categoria ‘Melhor filme estrangeiro’. O cinema, como todos sabem, faz parte do aparato de difusão ideológica da potência hegemônica. Não tenho dúvida que o cinema norteamericano é o melhor do mundo. Isso se dá pela genialidade de diretores, roteiristas, produtores, técnicos e artistas amparados pela infindável capacidade da indústria em amealhar fartos financiamentos e de possuir imenso poder de comercialização e distribuição ao redor do planeta. Aliás, é a grana farta que dá a possibilidade de Hollywood recrutar os melhores profissionais do mundo.

A categoria de ‘Melhor filme estrangeiro’ faz parte das habilidades do país hegemônico em exercer seu poder brando (soft power) diante do mundo. Em outras palavras, sua capacidade de sedução ideológica, ou de convencimento, se pensarmos hegemonia nos moldes gramscianos de coerção e convencimento.

A Academia laureou 69 filmes estrangeiros desde que a categoria foi instituida. Só por curiosidade, resolvi contabilizar a divisão por continente de origem dessas produções. Eu me espantei com algo que não deveria me espantar. Vejam minha conta de padaria:

CONTINENTE DE ORIGEM NÚMERO DE PREMIADOS
Europa 50
América Latina 5
Ásia 4
URSS/Rússia 4 *
Oriente Médio 3 **
África 2
Canadá 1***

Separei URSS/Rússia de Ásia por sua característica híbrida, euroasiática
** Dois são filmes iranianos
Decidi separar Canadá de América do Norte para não causar confusão
Assisti quase metade dessas fitas. São obras-primas, algumas delas claramente de denúncias de ações dos EUA, como entre outros os argentinos ‘A história oficial’ e ‘O segredo de seus olhos’ e o brasileiro ‘Ainda estou aqui’.

Chamo atenção, contudo, para o viés Norte Global da maioria dos escolhidos. Dos 69, temos 53, se incluirmos os 2 japoneses. Isso dá 78% do total. É certo que produções estrangeiras podem concorrer em outras categorias, mas me ative aqui apenas a uma modalidade específica. Ela dá ideia do viés da premiação.

Alguns podem alegar que a maior quantidade de produções provêm dos EUA e da Europa para justificar a proporção de distinções. OK. Mas aí não conseguiremos explicar como a Índia, que coloca nas salas e no streaming centenas de atrações ao ano, nunca tenha merecido um Oscar de Melhor filme estrangeiro.

Enfim, não quero aqui justificar minha frustração com a premiação do norueguês ‘Valor sentimental’, um belo filme, mas sem temática ou abordagem original. Quero apenas dizer que ganhar o Oscar é bacana, tendo em mente que ali jogamos no campo do adversário.

Eu sei, eu sei. Dá um tremendo gosto golear no terreno dos outros em jogo apitado pelos juízes deles. Desculpem o lugar-comum, mas a vida é assim.

Gilberto Maringoni de Oliveira é um jornalista, cartunista e professor universitário brasileiro. É professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, tendo lecionado também na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade Federal de São Paulo.




A herança esquecida da ditadura é o atraso científico do Brasil

Décadas de censura, perseguição a pesquisadores, exílio intelectual e desmonte universitário deixaram marcas profundas

https://revistaforum.com.br/opiniao/a-heranca-esquecida-da-ditadura-e-o-atraso-cientifico-do-brasil/?utm_source=dlvr.it&utm_medium=facebook


Lições que o cinema brasileiro nos dá.

            Juca Ferreira

Devemos prestar atenção a duas lições que o cinema  brasileiro vem dando, porque só nos engrandecerá se formos capazes de levá-las realmente em conta.

1-A primeira lição, vem do sucesso que muitos filmes brasileiros vêm  fazendo em todo o mundo e que é um reflexo do grau de desenvolvimento que a sétima arte atingiu entre nós. Prêmios nos principais festivais do mundo e o reconhecimento da qualidade de alguns dos nossos filmes. Essas notícias constantes estão chamando a atenção para a oportunidade de termos algo que nos falta, uma política industrial capaz de fazer do nosso potencial uma realidade e multiplicar esse sucesso, tornando-o perene e, pela constância desse sucesso, sermos capazes de ocupar um significativo quinhão do mercado internacional e de virmos a ser hegemônicos no mercado interno. Não podemos perder mais tempo, a lição já está dada. 

 2-A segunda lição, eu me lembro como se fosse ontem. O primeiro governo Lula mal começara, quando o Conselho Superior de Cinema escolheu Cidade de Deus para representar o Brasil no Oscar. Foi um pega prá capar... quase foi imediatamente substituído por um outro filme. O filme era considerado por muita gente um péssimo cartão de visita do Brasil, porque mostrava a miséria social, o ambiente social degradado e as entranhas do crime e do tráfico nas periferias, em particular do Rio de Janeiro. A violência e a miséria humana naquela favela brasileira, segundo essas pessoas, não deveria ser exposta. Vários argumentos foram utilizados para tentar bloquear a indicação. Até que iria prejudicar o turismo no Rio.

O mal estar era imenso e o zum, zum, zum no meio cultural foi ficando insuportável. Era inaceitável para os que compreendem a importância da arte e da cultura para consolidar a democracia no Brasil e para os que acreditavam que nosso governo, que representava a luta contra a censura e o dirigismo cultural da época da ditadura, não podia admitir, nem em pensamento, em se utilizar de uma medida dessa natureza. Sugeri ao ministro Gil que eu fosse para o embate em defesa da indicação para protegê-lo do desgaste. Gil queria ir, mas entendeu que eu poderia defender sem desgastar a figura do ministro, central para o ministério e para a afirmação da política cultural que tínhamos em mente.

Foram dias muito tensos e intensos e todo o debate acabou servindo para fortalecer a cultura e as artes no governo. 

Por fim,  ficou pactuado que não seria utilizado censura de nenhum tipo para limitar a expressão artística e teríamos que aprender a conviver com as contradições e vicissitudes advindas da arte e da cultura e que, ao contrário, deveríamos prestar a atenção às mensagens dos nossos artistas e criadores, que Glauber Rocha costumava chamar  de antenas da raça, para destacar o papel de antecipação que os artistas cumprem na sociedade , ao botar o dedo nas feridas que ainda não são do plano da consciência social.

Esse filme tem feito um sucesso enorme desde que se tornou conhecido e faz parte de várias listas dos 100 filmes mais importantes do mundo.





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