segunda-feira, 30 de março de 2026

Para reto com Neri Silvestre - Por uma gestão cultural para e com o povo (8)

A movimentação existe, é justa e deve acontecer. O que ocorre é que ela precisa ser permanente e pedagógica. O Sistema Nacional de Cultura deve até existir , porém tem que ser anti neoliberal.

Os fatores que nos impedem de pensar são vários: o economicismo estéril, a setorização da subjetividade humana.

Acho que podemos focar nos direitos culturais, na participação e no controle social. Deixamos privatizar os espaços da cidade e perdemos a oportunidade de exercer esse controle. Perdemos os conselhos gestores dos espaços públicos e dos postos de saúde, enquanto seguimos apostando em uma política sustentada por editais, colocando a população em disputa, em pé de guerra o neoliberalismo destrói subjetividades.

Além disso, a setorização da cultura beneficia os grupos já organizados. Em uma cidade, por exemplo, foram destinados quatro editais para quatro comunidades indígenas de 25 mil cada que as quatro podem disputar( vai jogar um contra o outro) deveria haver rateio entre as comunidades e valor precisa ser maior, enquanto o setor do audiovisual recebeu 500 mil, e os indígenas ficaram com cerca de 100 mil. São distorções que não fazem sentido, e há muitas outras.

Não adianta ter editais com ou sem burocracia, com ou sem cotas, com ou sem prestação de contas, se os valores continuam irrisórios. O que precisamos pensar é que os recursos da PNAB podem e devem fortalecer as instituições, as secretarias e os conselhos de políticas culturais, além de promover um aumento significativo do Fundo de Cultura.

Também é necessário haver flexibilidade nos planos de cultura, metas podem ser ajustadas, e buscar formas de fazer a população compreender que cultura é a sua própria vida, tudo aquilo que ela carrega como ser humano.

Como venho refletindo, é hora de ouvir os de baixo, os “ninguéns”, como escreveu Eduardo Galeano. Talvez seja o momento de investir em uma formação permanente nesse campo + educação nas escolas, antes mesmo de pensar a cultura como uma política universal que, de fato, é, e que faça valer o direito à cultura, e entendida como tudo aquilo que somos.

Neri Silva Silvestre: Produtor cultural, articulador e gestor cultural, idealizador do Sarau na Quebrada, poeta e agitador cultural. Sempre foi um sujeito inquieto. Quando jovem lança com o grêmio escolar, o Jornal Macunaíma, daí não parou mais. Esteve à frente como coordenador do 1° Ponto de Cultura de Santo André (SP) de 2010/2013. Produziu inúmeros eventos que vão da música à literatura.

O texto de Neri Silvestre apresenta uma crítica contundente à lógica de mercado aplicada às políticas públicas, dialogando com diversas vertentes do pensamento crítico contemporâneo.
Aqui estão os principais intelectuais e conceitos que sustentam essa argumentação:

  • Eduardo Galeano: Citado diretamente no texto através dos "ninguéns". Sua obra foca na invisibilidade das populações marginalizadas da América Latina e na necessidade de dar voz aos que são historicamente silenciados pelo poder econômico.
  • Pierre Bourdieu: A crítica à "setorização da cultura" e aos grupos já organizados remete ao conceito de capital cultural. Bourdieu explica como as instituições podem reproduzir desigualdades se as regras do jogo (como os editais burocráticos) favorecerem apenas quem já detém o conhecimento técnico e social.
  • David Harvey: A reclamação sobre a privatização dos espaços da cidade e a perda de controle social ecoa o conceito de "Direito à Cidade". Harvey critica como o neoliberalismo transforma espaços públicos em ativos financeiros, retirando o poder de decisão das comunidades locais.
  • Michel Foucault e Wendy Brown: A ideia de que o "neoliberalismo destrói subjetividades" é um tema central na análise da governamentalidade neoliberal. Brown, seguindo Foucault, argumenta que o neoliberalismo não é apenas um modelo econômico, mas uma lógica que transforma todas as esferas da vida (incluindo a cultura e a saúde) em métricas de competição e rentabilidade.
  • Milton Santos: No Brasil, a defesa de "ouvir os de baixo" e a crítica ao "economicismo estéril" conversam com a ideia de "Globalização de Baixo" ou o "espaço do cidadão" de Milton Santos, que propõe uma visão de mundo baseada na solidariedade em vez da escassez imposta pelo mercado.
  • Byung-Chul Han: A menção à "disputa" e "pé de guerra" gerada pelos editais pode ser relacionada à sua análise sobre a "sociedade do desempenho", onde o indivíduo é explorador de si mesmo e o coletivo é fragmentado pela competição constante.
ALDIR BLANC AGORA É POLÍTICA NACIONAL


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