O
túnel.
A
porteira.
Duas
travessias.
Passos
que ecoam gerações. Avô e neto.
Eu
tinha dez anos, algo assim; ele, a idade que tenho hoje, sessenta e tantos. Um
caminho entre luz pálida sob os trilhos da antiga Companhia Paulista de
Estradas de Ferro. No Túnel, como é conhecido o túnel de pedestres, me
encontrei com meu avô, à época de criança e agora, cinquenta anos depois. Não foi
apenas lembrança, foi presença.
José
Turino, filho de imigrantes italianos, primeiro a nascer neste chão chamado
Brasil, no bairro proletário da Vila Industrial, Campinas, estado de São Paulo.
Como ele, sou desse lugar. Tudo era muito demarcado. Os trilhos da ferrovia
separando os dois lados. “De lá”, o lado dos palacetes dos Barões de
Café e das casas das classes médias que viviam em torno desses, o grande
comércio, o poder local. “De cá”, o lado do proletariado, imigrantes e
ex-escravizados vivendo entre cortiços, casas e vilas, o pequeno comércio, as
igrejas e fábricas; o lado e lugar dos sem-poder.
Por
conta da ferrovia o entorno foi recebendo um parque fabril desde a segunda
metade do século XIX. A primeira das fábricas: Fundição Lidgerwood, que
produzia ferramentas agrícolas, desde 1868 e que depois veio a ser sede do
Museu da Cidade, cujo projeto eu elaborei, bem como o tombamento do edifício
foi assinado por mim na condição de secretário de cultura (isso no século
passado). Território de indústrias nascentes: a Companhia Mac Hardy, a
Cervejaria Colúmbia, entre outras. E a grande Fábrica e Oficina de locomotivas
e vagões da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, que produziu a primeira
locomotiva em solo nacional, em 1905, e aglomerava 3 mil operários.
Travessia
estreita, subterrânea. Pelo Túnel desço degraus, atravesso tempo, trezentos
metros de caminhada. Fiz muito esse trajeto quando criança e adolescente e
agora volto a ele. Por aquele corredor misterioso ouvi histórias pela voz de
meu avô. Zé Turino gostava de contar sobre os livros que lia: O velho e o
mar, de Hemingway, Os Miseráveis de Vitor Hugo, ou Jack London, seu
autor preferido. Mas a mais funda de todas as histórias não estava em livro,
estava nele e foi passada a mim.
Nas
proximidades do Túnel aconteceu o massacre dos operários na Porteira da
Capivara. A porteira não existe mais, tendo sido substituída por um viaduto, e
depois outro (viaduto Vicente Cury). O ano: 1917.
A
esperança erguida nas fábricas ecoava o grito das Mulheres da Mooca, tecelãs
que ousaram desafiar o patrão e pararam a cidade de São Paulo. O grito chegou a
Campinas e os operários da Fábrica de locomotivas e vagões também pararam.
Gente da Vila Industrial, como em todas as vilas proletárias do mundo.
Um
mundo desconhecido se abria. A greve transcorria pacífica, mas firme. Um dos
líderes, o anarquista Ângelo Soave, foi preso para ser julgado na capital. Os
grevistas deduziram que ele seria deportado. Á época muitos imigrantes,
sobretudo italianos, eram considerados indesejáveis no país, por anarquistas e
lutadores sociais, por isso eram deportados sumariamente.
Mas
os operários disseram:
-
Não!
Famílias
colocam-se na frente dos trilhos junto à porteira da Capivara. Tentavam impedir
que o líder fosse levado à capital. Meu avô estava lá. Menino de dez anos, a
mesma idade que eu tinha quando confiou o segredo no meio da travessia pelo
túnel. Tradição, a verdade que fala silenciosamente.
De
súbito, os soldados. Rastejando como caçadores em busca da presa. A soldadesca
da Força Pública de São Paulo iniciou os disparos contra a população. O estampido
dos fuzis. O fogo. As bombas. O apito do trem. Pedras atiradas pelo povo contra
os soldados. O chão foi coberto de sangue. Feridos sem conta. Os mortos. Três: Antônio
Rodrigues Magotto, Tito Ferreira de Carvalho, Pedro Alves.
Onde
estão eles?
Os
corpos dos três operários mortos estão enterrados em dois Mausoléus no
Cemitério da Saudade: Quadra 32, Perpétuas n. 40 e 41. Sepulcros erigidos em
mármore com recursos arrecadados entre os trabalhadores grevistas. Moedas
operárias a erguer um monumento singelo, o primeiro em honra a operários
grevistas no Brasil. Logo depois, parte da lápide foi destruída a marretadas.
Meu avô disse-me que foi pela polícia. No epitáfio, cuja continuidade da frase
desapareceu, estava escrito:
“...barbaramente
assassinados pela polícia na porteira da Capivara”.
O
final da frase sumiu.
Mas
permaneceu na memória das famílias presentes no massacre e na voz de velhos
combatentes. A pedra perdeu a palavra, mas sobreviveu nos olhos do menino. Assim
um povo se ergue:
na
memória que passa;
na
sombra que não apaga;
na
palavra que resiste.
A
identidade de um povo também se constrói por histórias repassadas de avô para
neto.

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