sábado, 28 de março de 2026

De avô para neto. (ou: a história da Porteira da Capivara). Fragmento de memória social e afetiva da Greve de 1917 em Campinas. Por Célio Turino

 

Na cidade de Campinas, dois mausoléus do Cemitério da Saudade – Quadra 32, Perpétuas números 40 e 41 – têm notável valor histórico, cultural e social: eles completaram 100 anos em  16 de julho de 2017.  A tragédia ocorreu durante o auge da primeira greve geral de trabalhadores que se espalhou pelas principais cidades do Brasil, em julho de 1917.

 Aos meus netos, Beatriz e Pedro

 

O túnel.

A porteira.

Duas travessias.

Passos que ecoam gerações. Avô e neto.

Eu tinha dez anos, algo assim; ele, a idade que tenho hoje, sessenta e tantos. Um caminho entre luz pálida sob os trilhos da antiga Companhia Paulista de Estradas de Ferro. No Túnel, como é conhecido o túnel de pedestres, me encontrei com meu avô, à época de criança e agora, cinquenta anos depois. Não foi apenas lembrança, foi presença.

José Turino, filho de imigrantes italianos, primeiro a nascer neste chão chamado Brasil, no bairro proletário da Vila Industrial, Campinas, estado de São Paulo. Como ele, sou desse lugar. Tudo era muito demarcado. Os trilhos da ferrovia separando os dois lados. “De lá”, o lado dos palacetes dos Barões de Café e das casas das classes médias que viviam em torno desses, o grande comércio, o poder local. “De cá”, o lado do proletariado, imigrantes e ex-escravizados vivendo entre cortiços, casas e vilas, o pequeno comércio, as igrejas e fábricas; o lado e lugar dos sem-poder.

Por conta da ferrovia o entorno foi recebendo um parque fabril desde a segunda metade do século XIX. A primeira das fábricas: Fundição Lidgerwood, que produzia ferramentas agrícolas, desde 1868 e que depois veio a ser sede do Museu da Cidade, cujo projeto eu elaborei, bem como o tombamento do edifício foi assinado por mim na condição de secretário de cultura (isso no século passado). Território de indústrias nascentes: a Companhia Mac Hardy, a Cervejaria Colúmbia, entre outras. E a grande Fábrica e Oficina de locomotivas e vagões da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, que produziu a primeira locomotiva em solo nacional, em 1905, e aglomerava 3 mil operários. 

Travessia estreita, subterrânea. Pelo Túnel desço degraus, atravesso tempo, trezentos metros de caminhada. Fiz muito esse trajeto quando criança e adolescente e agora volto a ele. Por aquele corredor misterioso ouvi histórias pela voz de meu avô. Zé Turino gostava de contar sobre os livros que lia: O velho e o mar, de Hemingway, Os Miseráveis de Vitor Hugo, ou Jack London, seu autor preferido. Mas a mais funda de todas as histórias não estava em livro, estava nele e foi passada a mim.

Nas proximidades do Túnel aconteceu o massacre dos operários na Porteira da Capivara. A porteira não existe mais, tendo sido substituída por um viaduto, e depois outro (viaduto Vicente Cury). O ano: 1917.

A esperança erguida nas fábricas ecoava o grito das Mulheres da Mooca, tecelãs que ousaram desafiar o patrão e pararam a cidade de São Paulo. O grito chegou a Campinas e os operários da Fábrica de locomotivas e vagões também pararam. Gente da Vila Industrial, como em todas as vilas proletárias do mundo.

Um mundo desconhecido se abria. A greve transcorria pacífica, mas firme. Um dos líderes, o anarquista Ângelo Soave, foi preso para ser julgado na capital. Os grevistas deduziram que ele seria deportado. Á época muitos imigrantes, sobretudo italianos, eram considerados indesejáveis no país, por anarquistas e lutadores sociais, por isso eram deportados sumariamente.

Mas os operários disseram:

- Não!

Famílias colocam-se na frente dos trilhos junto à porteira da Capivara. Tentavam impedir que o líder fosse levado à capital. Meu avô estava lá. Menino de dez anos, a mesma idade que eu tinha quando confiou o segredo no meio da travessia pelo túnel. Tradição, a verdade que fala silenciosamente.

De súbito, os soldados. Rastejando como caçadores em busca da presa. A soldadesca da Força Pública de São Paulo iniciou os disparos contra a população. O estampido dos fuzis. O fogo. As bombas. O apito do trem. Pedras atiradas pelo povo contra os soldados. O chão foi coberto de sangue. Feridos sem conta. Os mortos. Três: Antônio Rodrigues Magotto, Tito Ferreira de Carvalho, Pedro Alves.

Onde estão eles?

Os corpos dos três operários mortos estão enterrados em dois Mausoléus no Cemitério da Saudade: Quadra 32, Perpétuas n. 40 e 41. Sepulcros erigidos em mármore com recursos arrecadados entre os trabalhadores grevistas. Moedas operárias a erguer um monumento singelo, o primeiro em honra a operários grevistas no Brasil. Logo depois, parte da lápide foi destruída a marretadas. Meu avô disse-me que foi pela polícia. No epitáfio, cuja continuidade da frase desapareceu, estava escrito:

“...barbaramente assassinados pela polícia na porteira da Capivara”.

O final da frase sumiu.

Mas permaneceu na memória das famílias presentes no massacre e na voz de velhos combatentes. A pedra perdeu a palavra, mas sobreviveu nos olhos do menino. Assim um povo se ergue:

na memória que passa;

na sombra que não apaga;

na palavra que resiste.

A identidade de um povo também se constrói por histórias repassadas de avô para neto.

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