quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O carnaval em Aracaju/SE foi tranquilo

 Foto: Site Atalaia Agora www.atalaiaagora.com.br 

O carnaval em Aracaju/SE foi tranquilo, até porque a maior festa, promovida pelo bloco  Rasgadinho, promoveu alegria com Frevo, Marchinha de Carnaval e o Bar do Forró. A certeza da alegria, sem violência, está na beleza das músicas que atearem fogo, no bom sentido, a famílias inteiras que só querem se divertir. O paradoxo acontece com festas recheadas de bandas que cantam a discriminação, menosprezando as mulheres dançadas com coreografias provocantes e tal. Nestas festas a violência, muitas vezes, impera.
Joaquim Antônio do grupo musical Casaca de Couro

Leia também: Carnaval (a opino de Dom Hélder) AQUI

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Unit lança curso de atualização em Arte Contemporânea


Estão abertas as inscrições para o curso inédito de atualização em Arte Contemporânea da Universidade Tiradentes. As aulas acontecerão nos finais de semana entre 13 de abril e 7 de julho, no Campus Aracaju Farolândia da Unit. O objetivo é reunir profissionais, educadores e alunos das artes plásticas, arquitetura, design gráfico, de interiores e áreas correlatas para conhecer, analisar e trocar experiências sobre a arte contemporânea em suas diversas perspectivas.

O curso será ministrado pelo artista plástico, músico, escritor e pedagogo Vicente Coda, especialista em Arte e Educação com 25 exposições e um catálogo na linha contemporânea, além de outros professores convidados. A carga horária total é de 96 horas, com direito a certificado de extensão. A Unit também disponibilizará livro didático e parte da matéria-prima utilizada nas atividades práticas.

Diversos temas serão abordados, como conceituação da arte contemporânea; construção de discursos conceituais; a arte digital; música; cinema de vanguarda, entre outros. “Nosso objetivo é fazer com que os alunos conheçam fatos históricos que contribuíram para o surgimento da arte contemporânea, debatam sobre as suas diferentes perspectivas e dominem as referências teórico-metodológicas mais recentes”, explica Coda.

O valor do investimento é de R$ 300 que podem ser divididos em três parcelas. Clique aqui e faça sua inscrição.




“A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte.” Titãs


Os participantes do 2º Fórum de Políticas Publicas reunidos no dia 02 de agosto de 2003, no CAIC A. Rolemberg, para discutir formas de apoio ao trabalho com arte desenvolvidos por crianças e adolescentes residentes no Conjunto Jardim, vem a publico manifestar a necessidade do envolvimento urgente de toda a sociedade e de todas as esferas do governo para que as iniciativas de resgate a dignidade de centenas de crianças e adolescentes com arte sejam fortalecidas sob pena do agravamento da tragédia social que sacrifica milhares de vidas inocentes em nosso Pais.
Mas para isso como diz a letra da música “Até Quando - Gabriel, O Pensador”: “Na mudança de atitude, não há mal que não se mude, nem doença sem cura. Na mudança de postura a gente fica mais seguro, na mudança do presente a gente molda o futuro”. È preciso uma mudança de atitude das famílias, da sociedade e dos governantes. É necessário mudar a atitude de descaso, de desinteresse, de falta de atenção e incentivo, de falta de apoio material e financeiro. Por isso é urgente que Empresários, ONGs, Igrejas, Sindicatos, o Presidente Lula através dos Ministérios da Cultura, da Educação, da Ação Social e do Esporte. O Governador João Alves através dos órgãos similares e os Prefeitos reunam adolescentes, jovens e especialistas e destinem recursos para o investimento em políticas públicas que integrem a arte, a educação, o esporte, a saúde e a geração de emprego e renda.
E mais barato do que investir nas Febens, na Policia e nos Presídios. Não é custo e sim investimento revertendo a favor do desenvolvimento econômico e social do país.
A reflexão sobre o que fazemos e as propostas que elaboramos são as seguintes.
O que queremos atingir através do resultado do trabalho com Arte:
• Queremos que nossas crianças saibam valorizar a nossa cultura, que elas tenham historia para contar, para que não sejam futuramente jovens desregrados, adultos sem criatividade, e sejam vozes que protestem contra o que a mídia joga aos seus filhos: danças que não constroem, não ensinam, nem os estimulam a pensar, não incentiva a sua criatividade. Para que não se construam pessoas sem objetivos, crianças que são concebidas, não sejam rejeitadas desde o ventre e para que vidas não mais se destruam , para que assim cada um como o beija flor, faca a sua parte.
• A arte e uma maneira de retirar as pessoas das ruas, uma expressão de identidade de cada um. Uma maneira de resgate social, revelando um novo olhar sobre as relações do individuo na sociedade. E preciso despertar a sensibilidade para recuperar a humanidade do ser para com outro ser e com o universo;
• Queremos construir um futuro melhor, ao mostrar talentos no campo profissional;
• Queremos adquirir respeito, e acabar com a discriminação acerca dos jovens do Conjunto Jardim;
• Queremos transmitir alegria;
• Queremos levar uma mensagem clara de amor aos adolescentes e jovens;
• Queremos promover a união no bairro;
• Mostrar o que há de bom, o que o jovem do Conjunto Jardim tem a oferecer de melhor e dessa forma modificar a idéia que as pessoas tem sobre a violência no bairro.

Quais são as nossas dificuldades para atingir estes objetivos:
• Falta de valorização da comunidade e muitas vezes da família;
• A falta de incentivo da família e devido a dificuldades financeiras, os jovens precisam a começar a trabalhar cedo para ajudar na renda familiar, eles muita das vezes são chamados de vagabundos por fazerem parte de um grupo de arte e não trabalharem na maioria das vezes por falta de qualificação e oportunidade.
• Falta de espaço propicio para a pratica desportiva e para o trabalho artístico. O Conjunto Jardim necessita de quadras de esporte e da reforma e manutenção dos espaços já disponíveis de modo a permitir ensaios com segurança;
• Falta de apoio no que diz respeito a espaço físico, recursos financeiros, formação humana e técnica profissional na perspectiva de desmistificação da arte como forma de expressão de uma classe abastada, rompendo com o preconceito em relação aquilo que vem da periferia;
• Falta de espaço cultural para apresentações;
• Falta de apoio financeiro;
• Falta de materiais adequados;
• As escolas não trabalham conteúdos de danças populares;
• Falta de encontro de grupos artísticos (Festival de Arte, Mostra Cultural);
• Falta de união e respeito entre os grupos.

Sugestões para o Poder Publico, ONGs e Empresas:
• Fortalecer as organizações já existentes, grupos de dança, teatro, musica e capoeira;
• E necessário trazer para o Conjunto Jardim profissionais capacitados para dar aulas de teatro, musica, pintura, artesanato etc., de modo a não só afastar o jovem do ócio e da marginalidade, como propiciar uma profissionalização, ou seja, que o jovem possa encontrar na arte uma fonte de renda;
• Projetos que fomentem o desenvolvimento humano e social, despertando a auto-estima, valorizando a pessoa humana, e buscando descobrir a identidade cultural do bairro. Os projetos devem nascer da comunidade, ter os incentivos necessários, ser acompanhado por profissionais que tenham sensibilidade de respeitar o que e genuíno dos produtores em potencial que são os indivíduos envolvidos no projeto;
• Apoio cultural e financeiro, divulgação e trabalho feitos por esses grupos, criar um espaço cultural (academias, espaços para o lazer).

Como possibilidade de tornar possível a realização destas demandas apresentamos as seguintes alternativas:
Programa VAI – Programa de Valorização de Iniciativas Culturais – Tem como objetivo apoiar financeiramente por meio de subsidio, atividades artisitico-culturais, principalmente de jovens de baixa renda e de regiões do Município desprovidas de recursos e equipamentos culturais. Apresentado e aprovado na Câmara Municipal de São Paulo e sancionado pela Prefeita Marta Suplicy. Em Aracaju será apresentado na Câmara Municipal pelo Vereador Magal da Pastoral. Foi sugerida a extensão da proposta para todos o pais nos seminários promovidos pelo Ministério da Cultura em São Paulo e em Salvador, nesta ultima cidade a sugestão partiu do Coordenador Pedagógico do Projeto Ecarte, Professor Zezito. O projeto de lei será apresentado a Câmara Municipal de Socorro e a Assembléia Legislativa de Sergipe.
Bolsa Jovem – Sugestão apresentado pelo jornalista Gilberto Dimenstein, coordenador da Cidade Escola Aprendiz, através da internet aos candidatos a Presidência da Republica. A proposta inspirada no programa bolsa escola e Peti, propõe destinar um salário mínimo para os adolescentes e jovens estudantes que estejam envolvidos com a promoção de atividades artísticas e desportivas.
A proposta foi acatada, mas foi sugerido em termos emergenciais o seguinte:
Que o Estado e a Prefeitura contratem jovens protagonistas da ação cultural no Conjunto Jardim para desenvolver trabalhos nas Escolas, sendo que metade do tempo será dedicado as atividades de apoio à administração e a outra metade será destinada ao trabalho artístico com as crianças, adolescentes e jovens.
Esta proposta busca evitar que os coordenadores dos grupos desistam do trabalho com arte e cultura em virtude da necessidade de buscar trabalho no mercado formal e informal.
O principal argumento de defesa da idéia e o fato do trabalho desenvolvido pelos grupos representar um beneficio para toda a sociedade, na medida que evita o envolvimento de muitos adolescentes com drogas, com furtos e assaltos, previne a gravidez precoce, aumenta a auto estima etc.. Por isso e justo que o poder publico colabore desta forma
Programa Escolas da Paz – Este programa da Unesco, testado e aprovado no Rio de Janeiro, já extendido para outros Estados e Municípios tem como objetivo oferecer oportunidades de acesso à cultura, esporte, arte e lazer para jovens em situação de `vulnerabilidade social`, utilizando a estratégia de abrir escolas nos finais de semana – período de maior incidência de atos violentos envolvendo a juventude. Esta proposta amplia o trabalho desenvolvido pelos grupos em termos de quantidade de crianças e adolescentes atendidos, disponibiliza profissionais qualificados para dar suporte técnico às atividades, elabora um planejamento integrado, melhora os espaços físicos para a realização das atividades etc..

Participaram do evento 30 adolescentes e 10 jovens e adultos, envolvidos com as seguintes organizações.

Grupo de dança Ecarte, Grupo teatral Artes, Grupo Sest+dance, Grupo de dança Novos Talentos, Grupo de dança Leão Brasil , Grêmio Estudantil Zumbi dos Palmares. Professores e ex-professores do Colégio Leão Magno Brasil, Atuais e ex-integrantes da Pastoral da Juventude da Arquidiocese de Aracaju. Ex-integrante do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua e Movimento Sem Teto.

Agradecemos a Deus e a todos que colaboraram para o sucesso do evento

Nossa Senhora do Socorro, 04 de agosto de 2003

Claudionor dos Santos
Coordenador do II Fórum de Políticas Publicas

Professor Zezito de Oliveira
Coordenador Pedagógico do Projeto Estatuto da Criança e do Adolescente com Arte.

É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

(Constituição Federal Art.227)

No processo educacional respeitar-se-ão os valores culturais, artísticos e históricos próprios do contexto social da criança e do adolescente, garantido-se a estes a liberdade de criação e o acesso às fontes de cultura.
(ECA Art.58)

Os Municípios, com apoio dos Estados e da União, estimularão e facilitarão a destinação de recursos e espaços para programações culturais, esportivas e de lazer voltadas para a infância e a juventude.
(ECA Art. 59)

Leia também: Adolescentes usuários de drogas tiram sossego no Conjunto Jardim. AQUI

 Acidente trágico neste domingo de carnaval com foliões no Conjunto Jardim, municipio de Socorro, Sergipe. AQUI

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Acidentes expõem falta de segurança em trios elétricos

Repercussão do acidente do domingo de carnaval no Conjunto Jardim (Socorro).

Imprensa nacional.
  
Leia matéria e assista reportagem da TV Record  AQUI 

Reportagem da TV Brasil   AQUI

Reportagem da TV Sergipe (retransmissora local da Rede Globo)  AQUI

Mais:  

Acidentes expõem falta de segurança em trios elétricos
Edição do dia 06/03/2011 - Atualizado em 06/03/2011 21h38
Fonte: Portal Globo.Com 

Neste carnaval, houve mortes em acidentes envolvendo trios. No sábado, em Recife, duas pessoas caíram de um carro de som.


Tudo era uma só uma brincadeira que foi crescendo e virou uma das maiores manifestações populares do Brasil: o trio elétrico. Quando três músicos plugaram seus instrumentos e desfilaram em cima de um carro comum pelas ruas de Salvador, nascia o trio elétrico. Dos anos 50 para cá, muita coisa mudou. Eles se espalharam pelo Brasil e agora são grandes caminhões de som que atraem multidões em várias cidades do país. Mas colocar um trio na rua exige planejamento e segurança - o que não acontece em todo o Brasil.

No Rio, a estudante Camila Dib, de 21 anos, morreu no desfile do Bloco Ensaio Geral. Quando o trio se aproximou de um fio, todo mundo teve que se abaixar, e ela caiu.

“Você observa no guarda-corpo lateral que tem uma trava central, um barramento central no guarda-corpo que impede que as pessoas caiam. O único local em que não tem a barra é no fundo. Ela passa justamente entre as ferragens do guarda-corpo por ausência daquela barra central”, aponta Moacyr Duarte, especialista em emergência.

Salvador, a cidade que inventou o trio, tem normas para o guarda-corpo. Pelo menos um metro de altura e barras ou telas para evitar quedas. Segundo a polícia do Rio, não era para Camila nem ninguém ter subido no trio.

“O Ensaio Geral não tinha autorização para levar pessoas em cima do bloco. A autorização dada foi apenas para que o trio elétrico desfilasse como carro de som”, explica a delegada Daniela Terra.

O bloco tinha que ter apresentado laudo de um engenheiro provando que o trio pode carregar pessoas no teto. O laudo então deveria ser entregue ao corpo de bombeiros.

“A função específica do Corpo de Bombeiros nesse caso é a parte documental. Ele não vai ao bloco carnavalesco fiscalizar”, avisa Marcelo Rosa, do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro.

O trajeto também não é fiscalizado.

“O que cabe à prefeitura é dar autorização para o bloco sair. Todo percurso precisa ser de sabedoria do próprio bloco”, alerta o presidente da Riotur, Antônio Pedro Figueira Melo.

No Recife, a segurança do trajeto aumentou este ano.

“O padrão normal da rede elétrica de baixa tensão é 5,5 metros em vias urbanas no Brasil todo, mas nós elevamos a 6,5 metros por uma solicitação para facilitar o desfile dos trios”, diz Amauri Pereira, da Companhia Energética de Pernambuco.

Mesmo assim, na quinta-feira passada (3), o primeiro desfile do Galo da Madrugada precisou de uma mãozinha - com luvas que não deixam a eletricidade passar.

Foi a eletricidade que matou 15 e feriu 56 pessoas no carnaval de Bandeira do Sul, em Minas. Ainda não se sabe o que causou o curto-circuito, mas esse acidente poderia ter sido evitado.

“Olha a largura do carro e a largura da rua. Os fios são extremamente próximos”, analisa Moacyr Duarte.

Grandes capitais do mundo não têm esse problema da fiação exposta. A Times Square, em Nova York, é a esquina do mundo. A energia gasta no local todos os dias daria para iluminar uma cidade como Maceió, por exemplo, que tem quase um milhão de habitantes. Mas aí, você procura e não enxerga de onde vem toda essa eletricidade.

É porque na ilha de Manhattan a energia elétrica corre por debaixo da terra. São 151 mil quilômetros de cabos e 35 mil transformadores, tudo debaixo das ruas e calçadas. Para chegar até eles, 264 mil bueiros. Três quartos da rede de energia em Nova York estão nos subterrâneos.

Em Londres, não é diferente. São 34 mil quilômetros de rede que levam eletricidade para 2,3 milhões de pessoas. Os cabos passam por túneis, que não param de ser escavados, já pensando na ampliação da rede no futuro.

São Paulo é a cidade brasileira com a maior rede de cabeamento subterrâneo. Ao todo, 10% da rede estão debaixo do chão. Se a instalação é mais cara, também traz vantagens.

“Essa rede, por ser subterrânea, é muito menos sujeita a problemas causados por agentes externos, como raios, queda de árvores e carros que derrubam postes. O custo com relação à manutenção é muito menor”, diz o professor de energia e eletrotécnica da USP, Alexandre Piantini.

O carnaval de Salvador acontece na orla da cidade, onde não há fiação elétrica exposta.

“Desde que foi criada a central, há 15 anos, nunca tivemos um acidente”, conta o Major Sampaio, diretor da central de fiscalização.

Mais: os trios são fiscalizados com rigor, por 12 órgãos públicos.

“No Trio da Estrela, com Ivete Sangalo, nós procuramos cumprir as determinações para não correr nada de errado, para ela desfilar e fazer um belíssimo carnaval”, diz o produtor Railton Nunes.

“Não se pode sobrepor o interesse da festa à segurança das pessoas, isso aí tem que acabar. A gente tem que ter uma festa que tenha só felicidade”, opina Moacyr Duarte.

Leia também: 

Acidente trágico neste domingo de carnaval com foliões no Conjunto Jardim, municipio de Socorro, Sergipe. AQUI

O conflito de gerações na pauta de Haddad


Por Marco Antonio L.
Da Rede Brasil Atual

SP vai inserir a juventude nos projetos da cidade, diz secretário de Haddad

Em entrevista, Gabriel Medina fala sobre as prioridades de sua gestão na Coordenadoria Municipal de Juventude e afirma que governos devem deixar de ver a questão como 'problema'
Por: Gisele Brito, da Rede Brasil Atual
SP vai inserir a juventude nos projetos da cidade, diz secretário de Haddad
O coordenador de Juventude da Secretaria de Direitos Humanos da prefeitura de São Paulo, Gabriel Medina: inclusão e soberania nos projetos urbanos (Antonio Cruz/ABr)
São Paulo – Com o intuito de equilibrar conflitos geracionais, conter a violência e oferecer espaço para dar vazão à criatividade e potencialidades, o petista Gabriel Medida assumiu recentemente a Coordenadoria de Juventude da prefeitura de São Paulo, aceitando convite de Fernando Haddad. 
Medina afirmou em entrevista exclusiva à RBA que pretende recuperar o papel de articulação da coordenadoria e pautar os interesses da juventude nos grandes projetos da cidade. Entre as suas prioridades, disse, está o mapeamento dos equipamentos voltados à faixa etária entre 15 e os 29 anos e a definição do perfil desses cidadãos – trabalho que deve tomar todo o primeiro ano de sua gestão, prevê.
Medina foi presidente do Conselho Nacional de Juventude entre os anos 2000-2002. Agora, aos 31 anos, à frente da Coordenadoria paulistana, tem a missão de colaborar na formulação de políticas públicas que atendam cerca de 3 milhões de habitantes da maior capital do país, grande parte deles protagonistas de alguns dos mais interessantes movimentos sociais surgidos recentemente na cidade, mas ao mesmo tempo alvos principais da violência homicida.
Leia a seguir trechos da entrevista
Na última gestão municipal, a Coordenadoria de Juventude não teve um papel muito destacado. Já dá para fazer uma avaliação do que foi efetivamente feito e o que tem de ser feito daqui para frente?
A primeira coisa é reconhecer que houve um constante desmonte desse trabalho de juventude no governo. Teve algum avanço na época da Marta (Suplicy, prefeita entre 2001-2005), quando existia uma coordenadoria ligada à secretaria de governo. Era uma coordenadoria muito voltada à mobilização e alguns temas para dar visibilidade para o tema da juventude. O tema do skate, da cultura, por exemplo.
Fez o Agosto Negro, um grande evento que envolvia a turma do Hip Hop. Foi uma coordenadoria com muita visibilidade e, no conjunto do governo, existia uma série de políticas voltadas para o jovem. O Bolsa Trabalho também era uma referência bem importante, uma política de inclusão social em que a juventude tinha espaço.
Nos últimos anos, houve uma iniciativa interessante: a criação do CCJ (Centro Cultural da Juventude) – tem de se reconhecer isso como um legado desse período (gestão Serra/Kassab, entre 2005 e 2012) da coordenadoria. Mas depois, esse equipamento foi para a Cultura e a Coordenadoria de Juventude ficou meio sem papel. Na verdade, respondendo à linha dessa Secretaria de Participação e Parceria, que era uma secretaria que estabelecia diálogo com várias entidades, organizações, ONGs.
O problema é que ela não tinha diretriz para desenvolver políticas públicas, era uma secretaria para receber demandas da sociedade civil e acabava sendo mais uma secretaria de eventos, de apoio a atividades, mais do que de fato um espaço de formulação. Essa coordenadoria não tem – e a gente nunca defendeu isso na política de juventude – status de uma secretaria, um ministério. Ela é uma coordenadoria de articulação. Cabe a ela oferecer e municiar o conjunto do governo sobre quais políticas devem ser desenvolvidas nesse tema que é tão transversal.
Ao falar de juventude, você fala de saúde, cultura, esporte, educação, lazer. Então juventude é um tema que precisa ser considerado em todas as áreas de governo e é um pouco essa vocação que a gente quer recuperar, reconstituir.
Houve essa mudança no papel institucional da coordenadoria?
Mudou porque a gente teve uma alteração nessa secretaria. Agora ela vai chamar Direitos Humanos e Cidadania, então possibilita, nessa reorganização, repensar o papel do tema diante de uma secretaria que tem um desafio: compreender os direitos humanos como tema fundamental. Não só a juventude, mas se a gente olhar os desafios da cidade, vai ver que tem aí as questões da população em situação de rua, do migrante. Agora, pensar a cidadania é pensar justamente uma grande política de reconstrução da dimensão pública da cidade. Pensar como a gente volta a conviver na cidade e, a partir dessa convivência, a gente voltar a valorizar a diversidade.
Isso lembra várias iniciativas protagonizadas por jovens que têm como mote a ocupação da cidade, por meio da cultura, que surgiram recentemente. O Baixo Centro, o #ExisteAmoremSP e a Agência Solano Trindade, por exemplo. Como a prefeitura pretende interagir com essas iniciativas que têm feito ações importantes?
Nós temos que pensar esse problema da cidadania como uma política articulada ente várias secretarias. E pensar a questão da ocupação do espaço público como centro da política municipal, envolvendo uma série de iniciativas que vão acontecer. Porque você pensa o desenvolvimento urbano da cidade voltado para a ideia do encontro, da ocupação, e não como um lugar para mera circulação das pessoas. Isso pressupõe colocar a Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania com papel muito importante.
A secretaria de cultura tem também papel fundamental, porque se ocupa o espaço público com arte, com criatividade, com as pessoas podendo conviver. E para isso, precisa ter uma dimensão não só do diálogo, mas precisamos estar integrados com uma política cultural, relacionados com o planejamento da cidade.
Temos algumas iniciativas que já estão sendo lançadas que são parte desse projeto, como, por exemplo, o Wi-Fi grátis pela cidade. Se a gente redimensiona as praças e parques da cidade com internet, se a gente cria uma política de ocupação dos espaços com programação cultural, se a gente promove debates na área do combate ao racismo, machismo, homofobia, do diálogo geracional, certamente a gente tem a possibilidade de reconstruir a centralidade dessa questão no governo.
Por exemplo, a Praça Roosevelt, em que eu tenho trabalhado. A praça representa um problema de conflito de gerações e de como elas ocupam aquele espaço, que foi mal planejado, inaugurado às pressas e que não pensou, dentro do seu projeto de uso, que um lugar de cimento liso seria totalmente ocupado por skatistas que não tiveram seu lugar na cidade garantido. Agora os skatistas o sentem como seu. Você não faz uma política de pensar a praça para todos sem estabelecer diálogos, pactos.
Estamos agora em pleno processo de pensar uma pista legal para os skatistas. Inclusive para poder negociar. Claro que a gente não precisa confiná-los, mas temos que pensar que determinados lugares devem ser para os idosos, crianças. Assim como nós precisamos pensar um plano de eventos para a praça. Senão vai concentrar tudo lá, porque é um espaço novo e simbólico.
E esses novos movimentos culturais jovens têm um papel central nessa política que a prefeitura vai organizar. Elas serão parceiros. Diferente de antigamente. Inclusive, eu acho que a motivação deles vai mudar. Eles tinham um simbolismo muito grande porque era tudo proibido na cidade. Havia um simbolismo mais forte por conta de estar fazendo uma política de transgressão ao que se estabelecia. A prefeitura agora vai estimular o diálogo, a ocupação do espaço – claro, com a necessidade de pactuar com a sociedade, com os moradores, porque não pode ser festa todo dia, toda hora e no mesmo lugar.
Certamente esses movimentos terão outro simbolismo, mas encontrarão na prefeitura uma parceira para que seus festivais, suas formas de ocupação possam se expressar. As próprias ações que o Fora do Eixo faz pressupõem internet, o Busão Hacker e outras. Então, se a gente tem wi-fi, é possível que se façam eventos transmitidos, com diálogos entre outras praças, criando circuitos integrados.
O Mapa da Violência mostra que os jovens são as principais vítimas, especialmente os jovens negros. Esse é justamente o foco do programa federal Juventude Viva, que atualmente só foi implantado em Alagoas. São Paulo vai para aderir a ele? E em quanto tempo?
A primeira coisa que estamos fazendo é o diagnóstico da cidade, dos domicílios na cidade e também da violência, entendendo quais são as questões que precisam ser encaradas no Juventude Viva. Nós não vamos combater homicídio com mais violência. Não é repressão que combate homicídio. No nosso entendimento, é uma série de políticas articuladas no território que vão permitir que o jovem saia de uma situação de vulnerabilidade, seja envolvimento com o crime organizado ou com tráfico e uma série de situações que acabam expondo ele mais gravemente. Não foi à toa que, nessa onda de violência, a grande maioria dos jovens que morreram tinha passado por medidas socioeducativas, tinha saído da situação prisional. Tem um perfil claramente identificado aí.
A maioria das vítimas dessa última onda de violência era fichada criminalmente?
É. Nas próprias chacinas que aconteceram, foi até relatado em vários veículos de comunicação, os jovens eram, em sua maioria, fichados. Inclusive, nesse mapeamento poderemos entender quais são as políticas que nós devemos priorizar. Dificuldade de conciliar trabalho e estudo é um fator importante. Dificuldade de acesso à cultura também.
Esses já são dois temas que dá para colocar como importantes. Nós temos pouca oferta de uma rede pública de lazer e cultura para a juventude. O grande espaço de convivência hoje na cidade são os shoppings e as igrejas. O Estado não oferece uma rede alternativa de convivência. Não queremos que o shopping center seja o lugar de convívio porque isso estimula o consumo. Nós queremos disputar valores. Então estamos nessa fase de diagnosticar quais são as demandas específicas de São Paulo para o programa e, mais do que isso, como a prefeitura entra com mais força.
A realidade de São Paulo é diferente da de Alagoas...
Nós temos condições em São Paulo de desenvolver políticas complementares a esse arco de parcerias que nós vamos estabelecer. É diferente de uma prefeitura de Alagoas. Estamos começando a olhar os dados e territorializá-los a partir dessa situação de homicídios e tentar identificar quais são os territórios que vamos atacar prioritariamente.
Quando se olha a situação de São Paulo, pode-se dizer que a taxa de homicídios está baixa, porque hoje é de dez mortes para cada 100 mil habitantes, uma taxa realmente pequena para padrões internacionais para as capitais. Agora, quando você territorializa, vai perceber que, em algumas regiões, tem índices altíssimos e que acometem principalmente a juventude. E tem uma incidência muito alta de jovens negros envolvidos nessa situação. Mas não são só negros que são mortos, temos jovens pobres brancos que também sofrem esse problema.
Como está o andamento do processo para estabelecer o convênio para Juventude Viva?
A ideia é que a gente desenvolva o projeto, para o governo federal fechar o pacote que será oferecido para São Paulo. Estamos em pleno diálogo, e vamos constituir o plano de trabalho com as secretarias. Provavelmente depois do carnaval conseguiremos instituí-lo.
Mesmo sem esses mapeamentos, o que já se sabe sobre as demandas para a juventude?
Você tem um grande problema hoje dos jovens que saem de medidas socioeducativas porque caem em um limbo completo. Como as políticas de juventude são muito novas, não temos um estatuto da juventude e não temos plano nacional de juventude aprovado, o Estado só pensa até os 18 anos. E quando faz essa idade, cai em um limbo completo de ausência de políticas. E quando a gente olha as faixas etárias, é entre os 18 e os 26 anos que há mais vítimas, do ponto de vista de homicídios, por exemplo.
Como a Coordenadoria vai se envolver na formulação de políticas na prática?
Nosso principal desafio agora é mapear todas as iniciativas do governo voltadas para a juventude. Você não faz políticas públicas sem entender qual é o alcance, o quanto se investe, quem são os beneficiados, qual é a faixa etária. Enfim, você precisa entender o que o governo faz para juventude. Essa é a primeira coisa que estamos fazendo.
Já fizemos um levantamento prévio e estamos estimulando que as secretarias nos digam 'tem isso, não tem isso' para fazer esse diagnóstico interno. Também é fundamental ter um bom mapa sobre juventude na cidade. Nós vamos ter dados. Isso passa por pegar o IBGE, pegar pesquisas voltadas para juventude, o PNAD, o Mapa da Violência. Pegar e territorializar. Porque não nos interessa saber só os dados gerais da cidade, mas entender como a juventude encara o território.
Ainda não temos recursos, mas queremos fazer um mapa que complemente esse cruzamento, com novas questões que nem o IBGE tenha eventualmente conseguido fazer. Questões mais específicas sobre comportamentos, grupos, como foi feito no primeiro Mapa, em 2002, que era para entender como os jovens se organizavam, quais eram os grupos.
Mas com os dados que nós temos, já é possível saber sobre desemprego, escolaridade, evasão escolar, uma série de indicadores. E esse indicador na cidade de São Paulo não pode ser geral. Porque senão, você não consegue resolver. Então nós vamos precisar ter indicador por território, subprefeitura.
Isso é a prioridade?
Sem dúvida alguma. E uma terceira dimensão, que complementa essas, é saber onde estão os equipamentos voltados à juventude. Para você produzir algumas respostas, tem que saber se vai ter naquele território equipamento que vai te permitir fazer alguma coisa ou inclusive planejar a criação de outro equipamento. Então é esse cruzamento sobre o que o governo faz, quem é e o que precisa a juventude da cidade e como os equipamentos públicos respondem a essas demandas.
É um cruzamento fino que precisa ser territorializado e que nos subsidia para poder fazer o diálogo. Então o próximo passo é articular conversas com o conjunto do secretariado do governo para poder oferecer tanto dados quanto sugestões de políticas. Aqui podemos criar hipóteses, sugerir programas. Mas é no dialogo com cada secretaria que vamos municiar o governo para responder a essas questões tão importantes. Vamos trazer escola técnica federal? Mas qual é o curso? Qual é a região? Porque não é só trazer, é pensar e inserir a juventude nos grandes programas da cidade. Vai ter o Arco do Futuro, que certamente terá centralidade, qual é o lugar da juventude no Arco do Futuro?
Isso tudo demora um tempo.
Com certeza. A gente não pode querer sair fazendo coisas sem ter planejamento. Isso certamente nos limita a ter resultado nos quatro anos. Acho que uma gestão tem que ser pensada em seus quatro anos. Tem gente que quer acelerar, botar logo na rua. Se você bota sem planejamento, a chance disso dar certo é muito pequena. É preciso ter calma, tranquilidade, porque às vezes as coisas não acontecem na velocidade que você quer.
Eu acho que, para ter um planejamento em conjunto, demora quase um ano. Não é que em um ano não vamos botar nada na rua. Não é isso. Acho que a gente precisa de meio ano para, além desse esforço de de levantamento de dados, reconstituir equipe, azeitar equipe, organizar etc. No final de um ano a gente já começa a ver a engrenagem funcionar. 
A gente falou muito sobre cultura e violência. São nessas áreas que estará centrada a política de juventude em São Paulo?
Por estar concentrada em uma secretaria de direitos humanos, vai haver uma força para que o tema da violência seja importante, apesar de termos de romper com a ideia de que juventude é só problema. Nós procuramos construir a política do Juventude Viva muito mais na positiva do que na negativa. Nós queremos pensar que o Juventude Viva é um grande programa de oferta de direitos e não de contenção da juventude.
E isso quebra a lógica de como o Estado trabalhou com a questão da violência, de que 'se jovem é violento, cria-se mais Febem, mais polícia. Bota quadra de esporte só para o cara cansar'. Nós não. Queremos quebrar isso com oferta de direitos e possibilidade de vivência até do tempo livre. Reconhecer que o período da juventude é um momento de escolhas. Até por isso que a gente fala em autonomia e não mais tutela e proteção como o ECA trabalhou durante muito tempo.
Juventude é participação, autonomia, emancipação. Agora há temas que nós estamos tentando trabalhar aqui e que são centrais. O tema da educação é muito importante, mas nós não temos muita condição municipal de avançar, porque a faixa etária que a gente trabalha, na sua grande maioria, é atendida por políticas estaduais ou federais. Então nos cabe acompanhar a vinda do Pronatec, acompanhar a vinda da escola técnica federal.
Enfim, temos que ajudar a pensar, mas não é efetivamente o município que cuida dessa área. Mas o trabalho é muito, muito importante, porque tem a ver com políticas municipais. Por exemplo, o Bolsa Trabalho, um programa que foi bastante importante e hoje está bem precário, como uma política de apoio de não-pressão para o jovem trabalhar muito cedo, para que possa continuar seus estudos, ampliar sua escolaridade, poder fazer uma disputa de inserção produtiva lá na frente. Olhar para a questão de oferta de qualificação profissional, potencial de desenvolvimento da região e mão de obra disponível. O que a gente oferta para esses jovens de qualificação, quais as possibilidades de inserção. Isso exige planejamento de gestão.
Isso tem a ver com aquela reivindicação de alguns grupos de parar de só oferecer curso de padeiro e costureira, não é?
Tem tudo a ver. Porque a gente não faz disputa com o crime organizado oferecendo condições precárias de inserção produtiva para a juventude. Nós precisamos pensar nisso. Nós precisamos planejar uma cidade para um desenvolvimento pulsante, criativo. Desenvolver polos de economia solidária. Você tem uma gama de possibilidade de formação para a juventude se inserir que é enorme. Claro que você precisa desse tipo de mão de obra, mas não pode ser só isso.
O problema é que se pensa política de formação para juventude sempre com políticas de precarização. E os outros temas centrais, que eu esqueci, tem a cultura que eu já falei, e a cidadania digital. Mais que a inclusão digital porque agora não é só incluir, mas como você utiliza das tecnologias da informação, da internet para constituir redes, ampliar horizontes, potencializar inclusive do ponto de vista do trabalho.
Então isso tem muita centralidade para a juventude. E também políticas de mobilidade que possibilitem o trânsito do jovem, ou seja, o direito à cidade. Porque hoje a gente tem a situação de vários jovens confinados em um território que não os pertence porque esse território não oferece nada que ele possa experimentar.
Com o bilhete único mensal, por exemplo, aumenta muito a pauta do estudante, porque ele vai poder circular livremente pela cidade, não tem mais cota. Permite que ele vá a uma biblioteca, namorar, ao cinema, na balada, enfim, vivenciar. E eu acho que tem o desafio de pensar políticas de acessibilidade noturna também. Esse é um tema que nós vamos precisar provocar o governo para conseguir avançar.

Carnaval: “adeus, carne”, uma metáfora do reino da liberdade

Fonte: Site de Leonardo Boff
10/02/2013
Dei uma entrevista à jornalista da Globo, Patrícia Kalil para [http://redeglobo.globo.com/globocidadania]. Ela  consultou outros especialistas sobre o tema, especialmente Roberto da Matta. Aproveiou algo do minha contribuição. Fez um bela e extensa matéria  da qual eu mesmo  aprendi muito.Leiam-na que vale a pena.
Como é carnaval, tomo a liberdade de publicar a minha parte, esperando não magoar a entrevitadora. Uso as perguntas dela.
lboff
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1. Li referências do tempo em que o carnaval nasce primeiro como manifestação popular na antiguidade para agradecer a chegada da primavera (ou da vida no hemisfério norte). Depois, durante o período medieval, a festa é assumida pela Igreja, algo que pelo que pesquisei só permanece até o final da idade média. Por que o carnaval deixa de ser da igreja? Em algum lugar ele ainda é vinculado à Igreja?
    
R/ O berço do carnaval ocidental se encontra na Igreja, apesar dos antecedentes na cultura greco-latina. O próprio nome carnaval lembra esse fato. A palavra “Carnaval”  é a combinação de duas palavras latinas: “carnis” que é carne e “vale” que é uma saudação, geralmente no final das cartas ou no final de uma conversa. Significa “adeus”. Então antes de começar o tempo da quaresma na quaarta-feira de cinzsas, que é tempo de jejuns e penitências, se reservaram  uns dias anteriores para dizer “adeus” à “carne”. Pois durante todo o tempo da quaresma não se podia comer carne, como ainda hoje em algumas regiões na Baviera alemã. De festa de  cunho religioso passou a ser uma festa meramente profana, na qual tudo podia ocorrer como bebedeiras e até prostituição aberta. Ai a Igreja se afastou mas nunca totalmente. Em muitos lugares, como no convento  franciscano em que vivi em Munique, nos meus tempos de estudo universitário, os frades no carnaval dançavam no convento e chamavam freiras dos conventos vizinhos para dançar com eles. E depois se revezavam: os frades iam dançar no convento das freiras. E se bebia vinho e cerveja e muitas salsichas com mostarda. Mas tudo na maior decência. Não deixava de ser engraçado de ver aqueles hábitos de frades e de freiras esvoaçando em círculos. Eu como brasileiro no início ficava escandalizado, pois no Brasil não havia isso. Mas acabei entendendo o sentido de liberdade antes de começar o tempo do rigor e das penitências que eram sentidas à mesa, mais sóbria e na falta de cerveja e vinho.
2. Encontrei referência que citam a origem do nome como carnis levare (de retirar a carne) e como carnis valles (retirar o prazer). Qual das duas deram origem ao nome carnaval?
R/ Ficou respondida anteriormente
3. Calha que essa festa popular pagã usa o calendário cristão para se posicionar. E o carnaval, ao longo do último século, sofreu transformações importantes dentro do seu papel em comunidades e valorização do ritmo negro para hoje ser algo mais ligado ao showbusiness e não necessariamente social. Como o senhor vê o papel do carnaval no Brasil, historicamente, e a relação entre Igreja e essa festa popular
R/ O carnaval possuía no passado e posssui ainda hoje grande significado sociológico e antropológico. Há a intuição no povo e uma certeza entre os estudiosos de que a sociedade com suas hierarquias e papéis definidos é uma construção humana. Ela é fruto da vontade, geralmente, dos poderosos que estabelecem as leis e as ordens que os beneficiam. É o mundo da ordem estabelecida. A sociedade é assim uma construção que tem algo de arbitrárip.O carnaval é a inversão desta ordem. É conduzir a todos ao estado original onde não havia hierarquias e papéis, ordem no qual todos eram iguais. No carnaval cria-se um caos criador. Invertem-se os papéis. O rei deixa de ser rei e cria-se o rei Momo; o rico se veste de pobre; o pobre se veste de rico; a empregada  anônima vira a princesa da ilha encantada; o vendedor de rua se transmuta em príncipe e o príncipe num escravo. Até no carnaval romano os escravos, durante aqueles dias, ficavam libertos. A sociedade precisa tirar as máscaras e voltar ao seu estado “natural”. O carnaval possui uma função socialmente terapêutica: pela inversão dos papéis todos podem se recriar, dar vazão ao que no fundo gostariam de ser. Essa reviravolta, para acontecer, deve vir acompanhada de uma mudança de consciência; dai a importância da bebida e da comida que produz esta alteração:  alteram-se as relações entre todos. Agora não funciona o tempo do trabalho com leis, normas, prescrições e comandos. Funciona o tempo livre, liberto das injunções,o ansiado reino  da liberdade de cada um ser, pelo menos por um momento, aquilo que lhe passar pela cabeça. Pelo fato de no tempo  medieval tudo era regido pela religião e pela Igreja, os carnavais se realizavam dentro do espírito de alegria e de liberdade permitidas por estas instâncias. Era a famosa festa dos foliões. Leigos podiam se vestir de bispos e até de papas. As máscaras eram para esconder as identidades e no fundo para dizer que tudo na sociedade e tambem na Igreja são máscaras. Bobos somos todos que as tomamos a sério e cremos nelas. São os papéis sociais. Mas chega um momento que nos damos conta de que as máscaras são apenas máscaras e que os  papéis sociais são criados e distribuidos conforme a vontade dos que detém o poder. E que no fundo somos todos humanos que tem as mesms necessidades básicas que são intransferíveis. O presidente da república não pode dizer ao secretário: vá fazer pipi para mim. Ele mesmo tem que ir. Na medida em que a sociedade foi separando o sagrado do profano, o carnaval escapou do controle da Igreja. Ganhou sua identidade própria. Mas o seu significado básico continua o mesmo. O importante é que seja feito pelos populares, por aqueles que socialmente nada contam. No carnaval eles contam. São aplaudidos quando normalmente são eles que devem aplaudir. Especialmente importante é o carnaval para os afro-descendentes: sempre estiveram por baixo, eram os invisíveis. Agora se tornam visíveis, mostram a sua rica humanidade que lhes tinha sido roubada e continua ainda a ser roubada. Dai que no carnaval mostram todo o seu potencial criador. Bem dizia o Betinho: o carnaval carioca é a nossa Mitsubishi.Quer dizer: tudo funciona maravilhosamente como funciona  a fábrica de automóveis japonesa.
4. Para finalizar e porque o carnaval é uma festa altamente ligada ao prazer e a liberdade, direitos cada vez mais exigidos, por que a condenação do prazer é algo tão marcante na vida religiosa? O vilão é mesmo o prazer ou é o egoísmo, a falta de humanidade, de compaixão, de respeito pelo próximo e pela vida? Por que tanta culpa pelo prazer? Por que, afinal, o homem sente prazer.
R/ A essência do carnaval é tirar os super-egos castradores e ordenadores da vida social. Eles são responsáveis pela ordem. A ordem sempre impõe limites, cerceia o campo da liberdade, quando esta quer não ter cerca nenhuma para se expressar. Quer espontaneidade e supõe criatividade. É nesse âmbito que o ser humano se sente feliz. Porque há um momento em que os controles caem e os homens da ordem não tem mais poder para impor a ordem. Eles mesmos aproveitam a liberdade e tiram a máscara. Viram gente, gente livre, que brinca, come e bebe sem se impor ordem. O prazer é essencial na vida, também para as religiões, embora tenham sublimado o prazer projetando-o no céu. Mas não existe céu sem terra. O prazer começa no tempo  e culmina na eternidade. Prazer é irradiação da vida, a sensação de estar sem amarras e viver segundo seu ritmo interior. A busca da droga se deve a isso: ela produz prazer. Somente que este prazer é destrutivo. Para curar alguém da droga precisa-se inventar outras fontes de prazer que não sejam destrutivas. Qualquer outro método é condenado à ineficácia. O carnaval resgata os direitos do prazer, do corpo embelezado, ou libertado de adereços e roupas. O carnaval, de forma secular, nos lembra que o céu não é outra coisa que um eterno e infinito carnaval de Deus e com Deus, onde o ser humano pode ser radicalmente humano, por isso totalmente livre, livre para plasmar a sua vida, construir a sua figura e viver de festa em festa. A Igreja antiga, especialmente a oriental, a ortodoxa, elaborou toda uma reflexão do céu como uma dança celeste e Deus como o Grande Dançarino. Criou o universo num momento auge de sua dança: jogou para um lado as galáxias, para outro as estrelas, depois inventou a fauna e a flora e num passe mágico de dança, o ser humano. Tudo é fruto do Deus dançarino. Não há festa sem bebida e sem comida. Elas expressam a vida. Não bebemos nem comemos para matar a fome. Isso é outro momento. Bebemos e comemos para celebrar. E toda festa tem que ter abundância de comida e bebida, senão não é festa. Mesmo nas comunidades em que trabalhei, muito pobres, as festas eram feitas com abundante pipoca e coca-cola, a ponto de sobrar. Tem que sobrar senão a festa não é boa. O carnaval tem sempre excessos. Mas eles não devem ser entendidos moralisticamente. Eles tem uma função humana: violar a ordem, afastar os limites, exorcizar os controles, pois tudo isso foi inventado pelos seres humanos, especialmente, pelos que tem poder de se impor aos outros. No carnaval se volta ao caos originário. Ele nunca é caótico, mas criativo. No carnaval todos tem a sensação: finalmente estamos livres, podemos viver como  gostaríamos, podemos inverter os papéis porque eles não passam de papéis. O carnaval é uma metáfora do que pode ser a  humanidade um dia reconciliada e feliz.
Mas como tudo o que é sadio pode ficar doente, assim no carnaval há doenças no sentido de alguns extrojetarem seu exibicionismo, se embebedarem em demasia e aproveitarem a liberdade reconquistada  para se vingar dos desafetos. Mas essa é uma patologia, uma doença. E toda doença  remete à saúde. Quer dizer, o carnaval é algo saudável especialmente em sociedades de grande desigualdade. No carnaval as desigualdades caem. Todos estamos juntos para festejar, comer e beber numa ilimitada fraternidade.
Eu não posso me imaginar o céu senão como um eterno carnaval ou então uma luminosa virada de ano na praia de Copacabana, na qual todos se confraternizam, conhecidos e desconhecidos, chorando de alegria pela beleza dos fogos. Quando alguém chega ao céu, imagino eu, Deus lhe prepara como recepção um carnaval ou uma festa de virada de ano com fogos e luzes sem fim. E a alegria começará e o bom é que será então eterna. Bom carnaval para quem gosta.

Eu, coitado, fico em casa tirando os atrasos dos textos e livros que estou escrevendo.

Comentários 

Zezito de Oliveira 
10/02/2013 12:26
“Eu, coitado, fico em casa tirando os atrasos dos textos e livros que estou escrevendo."
Não acho, como tu faz com prazer, não deixa de ser um carnaval particular. E você não está sozinho rsrsrsrsrsrss

Luís Felipe Borduam 
10/02/2013 13:58
Uau! Como cristão protestante nunca havia pensado no carnaval com esse olhar. Obrigado pela nova perspectiva. Contudo, não se torna um pouco contraditório seu comentário final? Me deu o entendimento que o carnaval é bom, mas só serve para os outros, pois eu ficarei em casa.
Na minha leiga percepção o carnaval não se originou com a igreja, mas sim foi absorvida pela mesma como uma estratégia da ICAR para manter ou “satisfazer” seus seguidores..
Outra pergunta, se eu tiver errado e o carnaval realmente tiver uma origem com a igreja, será que este sentido já não se perdeu há muito tempo? Se sim, o que é melhor tentarmos fazer uma recuperação do “sentido original” do carnaval ou uma apologia contrária a ele? Digo isso de um ponto de vista pragmático como um jovem que vive em um mundo pós-moderno no século XXI, pois não vislumbro uma “purificação” desta festa aos termos aqui propostos. Muito pelo contrário, vejo jovens/adolescente cada vez mais cedo se prostituindo e se entregando a excessos que só geram sofrimento no curto e médio prazo.
Paz e bem!

10/02/2013 16:16
Luis Felipe,
É certo que o carnaval surgiu num contexto litúrgico. A quaresma antiga, ainda no meu tempo, era coisa séria, de restrição de festas, não podia haver bailes, cada sexta-feira era de abstinência de carne Antes de entrar neste regime mais severo a Igreja permitia que as pessoas aproveitassem para se divertir, comer, beber, dançar…E depois com muita cinza na cabeça começava a quaresma.No meu tempo o pessoal saia do baile e ia direto à Igreja a receber a cinza. Eu adorava por muita cinza na cabeça das madames e naqueles que vinham de peito aberto.E eles se sentiam “perdoados”.
Logicamente a sociedade se seculrizou e tambem o sentido do carnaval. Hoje é uma festa popular do calendário, com desfiles….dias em que as pessoas se tomam a liberdade de “vadiar”, de não precisar fazer nada. Alias no Brasil não se faz nada de serio , nem negocios, antes do Carnaval. Tudo é para depois do carnaval. Agora começa o ano laboral.
Precisamos superar uma visão moralista, frequente nos irmãos evangelicos, muito ligados ao pecado e à cruz.A festa tem seu lugar. Jesus compara o Reino a uma festa de casamento, a um banquete.
Mas como em todas as coisas, há sempre defeitos, excessos que não invalidam a essência original boa do carnaval. O extravio atual da juventude não se deve ao carnaval mas a ocaso da figura do pai na família e na decadência geral de nosso tipo de cultura materialista e consumista que não atende aos reclamos mais profundos da busca humana e não apresenta ideiais que galvanizem os jovens.
um abraço
lboff