segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Brigitte Bardot: linda, talentosa, xenófoba, homofóbica e ativista de extrema direita

 A atriz francesa Brigitte Bardot, ícone do cinema mundial e uma das maiores estrelas da cultura pop do século 20, morreu aos 91 anos. Alçada ao estrelato como símbolo sexual nos anos 1960, Bardot construiu uma trajetória pública que, ao longo das décadas, passou por uma guinada radical: do glamour das telas para o ativismo animal e, mais tarde, para um engajamento político controverso à extrema direita francesa.  

Depois de uma carreira meteórica que a levou ao reconhecimento internacional, Bardot decidiu se afastar definitivamente do cinema aos 39 anos. Reclusa desde então, passou a viver em Saint-Tropez, na Riviera Francesa, cidade que ajudou a transformar em destino turístico global.

Do estrelato ao ativismo animal

Em 1986, Bardot fundou a Fundação Brigitte Bardot, dedicada à proteção dos animais. A instituição tornou-se uma das mais conhecidas da França na área e esteve à frente de campanhas contra a caça de focas, em defesa de elefantes, pelo fim de sacrifícios rituais de animais e pelo fechamento de abatedouros de cavalos.

O engajamento lhe rendeu apoio de ambientalistas e defensores da causa animal, mas também ampliou sua visibilidade pública em um período em que suas posições políticas passaram a gerar fortes reações negativas.

Condenações por incitação ao ódio

A partir dos anos 1990, declarações de Bardot sobre imigração, islamismo e homossexualidade levaram a uma série de processos judiciais. Entre 1997 e 2008, tribunais franceses aplicaram seis multas à atriz por incitação ao ódio racial, sobretudo por comentários dirigidos à comunidade muçulmana na França.

Em um dos casos mais emblemáticos, um tribunal de Paris a condenou ao pagamento de 15 mil euros após declarações em que afirmou que muçulmanos estariam “destruindo o país ao impor seus atos”. Ao todo, Bardot acumulou cinco condenações por esse tipo de crime ao longo da vida.

Vínculo com a extrema direita

Em 1992, Bardot se casou com Bernard d’Ormale, ex-assessor da Frente Nacional, partido de extrema direita. Desde então, tornou-se apoiadora declarada da legenda e de seus principais líderes, Jean-Marie Le Pen e Marine Le Pen, a quem chegou a chamar de “a Joana d’Arc do século XXI”.

Após a morte da atriz, o atual presidente do partido, Jordan Bardella, foi um dos primeiros a se manifestar. Em publicação nas redes sociais, escreveu que “o povo francês perdeu a Marianne que tanto amava, cuja beleza espantou o mundo”.

A imagem de Marianne

A referência à Marianne — figura alegórica da República Francesa — remete a um símbolo nacional que representa os valores de liberdade, igualdade, laicidade e soberania popular. Tradicionalmente retratada como uma mulher com o barrete frígio, Marianne já teve seu rosto inspirado em diversas atrizes e personalidades francesas ao longo do tempo, o que explica associações simbólicas como a feita com Bardot.

Último livro e críticas à França contemporânea

Poucas semanas antes da morte, Bardot lançou seu último livro, “Mon BBcédaire” (“Meu Alfabeto BB”). Na obra, criticou o que descreveu como uma França “monótona, triste e submissa” e atacou a transformação de Saint-Tropez em um reduto de turistas ricos — fenômeno que ela própria ajudou a impulsionar.

O livro também reacendeu controvérsias ao trazer comentários depreciativos sobre pessoas gays e transgêneros, reforçando a imagem de uma figura pública tão influente quanto divisiva.

Com uma vida marcada por contrastes, Brigitte Bardot deixa um legado complexo: ao mesmo tempo em que redefiniu padrões de beleza e protagonizou uma das carreiras mais emblemáticas do cinema francês, tornou-se uma das personalidades mais controversas do país nas últimas décadas.

Atriz morta aos 91 sai de cena como a bela que virou fera

Ela bradava contra imigrantes, muçulmanos, judeus, gays

28.dez.2025 às 8h25 - Guilherme Genestreti - São Paulo

Brigitte Bardot, morta aos 91 anos, não foi a primeira nem a segunda nem a terceira opção para viver Camille Javal, a mulher escanteada de "O Desprezo", filme lançado por Jean-Luc Godard em 1963. O que se conta é que Kim Novak, Sophia Loren e Monica Vitti estavam na fila, mas não puderam ou não quiseram abraçar o papel.

Não é preciso nem dizer que foi a chegada de mademoiselle BB que transformou a obra no que ela é, a mais sublime de toda a carreira do cineasta. Metade de todo o orçamento do longa, aliás, foi para o cachê da atriz, àquela altura já consagrada como o maior "sex symbol" do planeta, graças a "E Deus Criou a Mulher", rodado seis anos antes.

Godard pode até ter torcido o nariz de início, e diria, mais tarde, que só a escalou porque "fazia parte do pacote", mas não deixou de ironizar o fato de que tinha à disposição a figura mais desejada pelos homens. Em boa parte das cenas, ocultou suas famosas madeixas loiras debaixo de uma peruca morena e, numa piscadela debochada aos produtores que exigiam cenas mais tórridas —afinal, se tratava de Bardot—, a desnudou logo em sua primeira aparição.

"Vê os meus pés no espelho? Gosta deles? E dos meus joelhos, você gosta? E das minhas coxas? Dos meus ombros? E da minha cara? Toda?", ela pergunta ao marido, deitada de bruços, enquanto a câmera passeia por seu corpo para se demorar em seu fabuloso derrière, escancarado.

Nas mãos do mais metalinguístico dos diretores, a cena ganha múltiplas camadas. O que na superfície é erótico se torna um comentário sobre o próprio voyeurismo no cinema —de um olhar que se sabe cúmplice, que se exibe e se questiona.

A cena é também um resumo da inflexão que "O Desprezo" provocou na carreira da atriz. É como se, depois dele, ela deixasse de ser apenas vista e passasse a olhar de volta, o que selou seu afastamento de obras que apenas a tinham por objeto de fetiche e a pôs no coração da nouvelle vague.

No começo da trama, temos os dois personagens centrais, estirados num provável momento pós-sexo, pouco antes de tudo desmoronar. Michel Piccoli vive Paul Javal, autor de histórias detetivescas de qualidade duvidosa que é chamado a desenvolver o roteiro para uma adaptação cinematográfica de "Odisseia", de Homero, a ser filmada pelo lendário Fritz Lang, interpretado pelo próprio. Jack Palance faz Jeremy Prokosch, o truculento produtor americano que o contrata.

As coisas desandam no casamento de Paul quando Camille, sua mulher, passa a desconfiar que ele não a valoriza. Nem sequer teme a deixar a sós com o macho alfa Prokosch. Nos 103 minutos seguintes, veremos o marido se apequenar, se emascular diante dela. É o desprezo do título que toma conta. A certa hora, ele indaga por que a moça parece tão pensativa. "Acredite ou não, eu penso. Isso surpreende você?", ela retruca, insinuando que não cabe no papel de esposa-troféu.

Tudo culmina no terço final do longa, ambientado numa deslumbrante casa de veraneio em Capri, na Itália, sobre rochas tão dramáticas quanto as curvas de Bardot. Lang e o produtor americano não parecem se entender sobre o que leva Ulisses, protagonista de "Odisseia", a empreender a viagem a Troia. O último defende de maneira ardorosa que o estopim é a infidelidade de Penélope, casada com o herói helênico. Quando Paul parece endossar essa versão, Camille se enfastia de vez e ruma ao desfecho trágico.

"O Deprezo" é o filme mais linear, mais quadrado de Godard, com uma narrativa claramente delimitada por três atos. Ainda assim, como de costume na obra do cineasta franco-suíço, a trama é só uma moldura. Ele reflete sobre o embate entre arte e comércio no cinema, que ocorre dentro e fora das telas, e põe no liquidificador boa parte do cânone ocidental, como mitologia grega, o movimento romântico, a contracultura, o expressionismo alemão e a era das celebridades.

Não à toa, opõe as duas tradições herdeiras —a europeia (personificada por Lang) e a americana (encarnada por Prokosch)— para duelar em torno de como interpretar a certidão de nascimento dessa civilização, isto é, a obra de Homero.

Tudo isso recai sobre um drama puramente doméstico, uma crise conjugal em meio à turbulência da revolução dos costumes dos anos 1960, das quais os próprios Godard e Bardot foram alguns dos principais motores. O curioso é que nos anos seguintes, os dois, artista e musa, se radicalizaram em direção a polos opostos.

Ele abraçou causas da esquerda, flertou com o maoísmo, simpatizou com os norte-vietnamitas que lutavam contra o Exército americano e ficou cada vez mais hermético, filmando até seus últimos dias, aos 91 anos.

Ela largou o cinema pouco antes de completar 40 dizendo que queria "sumir com elegância", aparecendo no noticiário apenas quando bradava contra imigrantes, muçulmanos, judeus, gays ou apoiava ultradireitistas como Jean-Marie Le Pen. Agora, em tempos de ultrassensibilidade "woke", Bardot sai de cena pintada como um monstro, a bela que virou fera por causa de suas posições políticas.

Mas é só rever esse que é o único filme que BB fez com Godard e congelar diante do olhar que ela por vezes lança para a câmera para entender por que o longa se tornou peça central da história do cinema. A todo o resto, o desprezo.

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2025/12/brigitte-bardot-hoje-cancelada-foi-o-olhar-que-devolve-o-desejo.shtml

Morre Brigitte Bardot, lenda do cinema francês e o 'sex symbol' absoluto de uma era

Atriz encarnou a imagem da mulher leve, moderna e altiva

Morte foi confirmada neste domingo por sua fundação

28.dez.2025 às 7h16 - Inácio Araujo - São Paulo

Alguém escreveu que, antes de BB, a mulher que tinha um amante era uma sem-vergonha. Depois de BB, é uma mulher liberada. A frase pode não ser de todo correta, mas não está longe da verdade. Brigitte Bardot, morta aos 91 anos, encarnou, desde os anos 1950, a imagem da mulher leve, moderna, de porte altivo, atrevida e tímida ao mesmo tempo, insinuante e de uma beleza sem afetações —mas sobretudo mulher livre para ser e fazer o que bem quisesse.

Sua morte foi confirmada neste domingo pela fundação que leva o nome da atriz.

Essa imagem se torna famosa em todo o mundo, paradoxalmente, não por causa da França, mas pelos Estados Unidos, já que "E Deus Criou a Mulher", de 1956, fracassou em seu lançamento na França e foi massacrado pela crítica. Quem se salvou foram os cineastas Claude Chabrol, François Truffaut e Jean-Luc Godard, que de imediato viram no filme o surgimento de uma França moderna e, em Bardot, o símbolo da nova mulher francesa do pós-Guerra.

Resultado —Roger Vadim, autor do filme e então marido de Bardot, relançou a obra nos Estados Unidos, onde o sucesso foi grande o bastante para reverter o fracasso original, se espalhar pelo mundo, fazer dela um "sex symbol" absoluto de sua era e, de quebra, consagrar a frase publicitária "Deus criou a mulher, e o diabo inventou BB". Com efeito, o filme hoje está um tanto ultrapassado —ainda assim, a cena em que Bardot dança em cima de uma mesa ainda é memorável.

Na verdade, sua vida na arte começa pelo balé. Filha de um industrial de família tradicional e católica de Paris, nascida em setembro de 1934, começou a dançar aos oito anos. Aos 15 anos se tornou capa da revista Elle e foi convidada pelo diretor Marc Allegret.

Duas coisas ocorreram nesse momento, no entanto. A primeira foi cruzar com Roger Vadim, então com 21 anos, encontro em que ambos se apaixonaram de imediato. A segunda foi o drama familiar que viveu, já que o pai não queria ver a filha de modo algum no cinema. Bardot foi salva pelos argumentos do avô que a defendeu —"se tiver de ser puta, essa menina vai ser com cinema ou sem, se ela não tiver de ser puta, não é o cinema que a vai mudar".

E lá foi ela. Em dezembro de 1952, chegando aos 18 anos, Bardot se casou com Vadim, então com 24. O convite de Allegret primeiro não deu em nada, mas Bardot começou a conseguir papéis numa série de filmes, por vezes significativos, como "Se Versalhes Falasse", de Sacha Guitry, de 1954, "As Grandes Manobras", de 1955, de René Clair —e ainda aquele com o título sugestivo de "Desfolhando a Margarida".

A celebridade que chegou com "E Deus Criou a Mulher" foi instantânea e basicamente mundial. Ainda nos anos 1950, Kirk Douglas, fascinado por ela, queria levar a atriz para os Estados Unidos —sua mulher não deixou. Um Bob Dylan ainda adolescente dedicou uma canção a ela.

Em 1960, Jorge Veiga lançou a marchinha de Carnaval, escrita por Miguel Gustavo, que começava assim —"Brigitte Bardot, Bardot/ Brigitte beijou, beijou./ Lá dentro do cinema todo mundo se afobou". E seguia indagando "BB, BB, BB/ Por que é que todo mundo/ Olha tanto pra você?".

Nem sempre foi um mar de alegria. Na comédia "Babette Vai à Guerra", de 1959, obra de Christian Jaque, ela passa de sedutora fatal a garota inocente, o que, francamente, não chega a ser uma grande mudança. Ela era sedutora de um modo ou de outro.

Em "A Verdade", de 1960, ela se embrenha pelo drama penitenciário. Pior —foi dirigida pelo brutal Henri-Georges Clouzot, que por alguma razão obscura o establishment cinematográfico francês da época tinha como o melhor diretor do mundo.

O mais sádico, talvez. Antes de rodar uma cena dramática, BB teve a má ideia de sorrir. Furioso, Clouzot se levantou e pisou no pé da atriz com o salto de seu sapato. Ela chorou de dor, enquanto o diretor berrava "eu não preciso de amadores no meu set". Daí por diante, ele passou a motivar o choro na atriz dizendo a ela, baixinho, as piores coisas a propósito de sua vida pessoal.

O método pode ter sido estúpido, mas, por uma vez, trouxe a crítica para o lado da atriz. O filme foi para o Festival de Veneza, na Itália. As multidões se aglomeravam para ver Bardot. Um avião desenhou no céu as iniciais BB.

Com Louis Malle, faz "Vida Privada", de 1961, com ela como atriz e personagem. Vida privada era o que BB menos tinha a essa altura dos acontecimentos. Quando rodava uma cena na Suíça, com Marcello Mastroianni, foi recebida a ovos, tomatadas e insultos vários, por suíços que ordenavam a ela de fazer suas sujeiras lá onde nasceu.

Malle gostou da ideia e incluiu uma cena em que uma "concierge" —na França, com frequência, um misto de zeladora, delatora e fiscal de costumes— ou faxineira a agride com palavras nada gentis. "Estou cheia de ver sua cara em toda parte. Você não vai deixar em paz esses pobres rapazes? Mas quem é você, afinal? Uma cadela? Ganha milhões para se mostrar pelada." Por aí vai.

Como nem só de ser ofendida BB vivia, em 1960 mesmo ingeriu barbitúricos e cortou os pulsos no dia do seu aniversário. Estava na Côte d’Azur e foi encontrada perto de uma propriedade rural em Menton. A sua fama dificultava até mesmo a chegada aos hospitais, já que a ambulância em que se encontrava era constantemente impedida de prosseguir pelos fotógrafos que a cercavam.

A mesma fama, o mesmo carisma permitiam certas liberdades a ela. À pergunta "o que você usa para dormir?", que Marilyn Monroe respondeu dizendo "Chanel Nº 5", Bardot responderia de modo mais atrevido —"os braços do meu amante". A resposta de Marilyn Monroe de certa forma continha a solidão que a frequentava. Outro era o caminho de BB, o amor a todo preço.

Nessa altura, sua vida pessoal já era uma bagunça. Ainda no set de "E Deus Criou a Mulher", ela se apaixonou por Jean-Louis Trintignant, que por sua vez largou a mulher, Stéphane Audran —que futuramente se casaria com Claude Chabrol.

Tempos depois, quando ela engatou um romance com o cantor Gilbert Bécaud, Trintignant a abandonou. Ela trocaria ainda Bécaud por Sacha Distel, outro cantor da época, antes de casar com o ator Jacques Charrier, em 1959, de quem engravidou. Ela não queria o filho. Disse que os nove meses de espera foram massacrantes.

Para o parto, feito em seu apartamento, foi montado uma espécie de bunker, para que a imprensa não tivesse acesso ao evento. Com tudo isso, Bardot detestou ter o filho, Nicolas-Jacques, que foi criado pela família de Charrier. Discreto, hoje ele vive na Noruega, casado com a modelo Anne-Line Bjerkan, com que teve as filhas Thea Charrier e Anna Charrier. Sobre as bisnetas, Bardot chegou a dizer que o contato era difícil, já que elas não falavam francês.

Em 1962, ela se separou do depressivo Charrier e se ligou a outro ator, Samy Frey. Em 1964, veio passar o verão no Brasil, já em companhia do namorado Bob Zagury, basicamente um playboy, que a levou até Búzios, no Rio de Janeiro, onde ela ganharia uma estátua em tamanho natural.

Já havia aí confusão para mais de uma vida, mas ela logo se casou com outro ricaço, Gunther Sachs, também fotógrafo, em 1966, o que não a impediu de ter um tórrido caso com Serge Gainsbourg, que compôs para ela a célebre canção "Je T’Aime Moi non Plus". Eles a gravam em conjunto, mas, por respeito a Sachs, BB pediu a Gainsbourg que não divulgue a gravação. A música só vai aparecer em 1969, com Jane Birkin como parceira de Gainsbourg —no mesmo ano, aliás, em que o casamento de BB com Sachs chegou ao fim.

Louis Malle, que com "Vida Privada" desvendaria uma existência devassada por todos os lados, parecia se dar bem com ela, tanto que a chamou para o faroeste-paródia "Viva Maria!", em companhia de Jeanne Moreau —encontro do mito "sex symbol" com o mito Moreau, então a principal atriz francesa. Depois veio o belo "William Wilson", episódio das "Histórias Extraordinárias", baseadas em contos de Edgar Allan Poe.

Se algo ficará para sempre, no entanto, é a parceria com Jean-Luc Godard. Ela não era a preferência de Godard para "O Desprezo". Foi imposta pelo produtor americano do filme, Joseph Levine. Também não a queria filmar nua. Foi imposição de outro produtor, Carlo Ponti, para quem, se estava pagando para ter BB, ela devia aparecer nua em algum momento.

Sabemos como Godard resolveu o problema —pondo Bardot nua na cama junto de Michel Piccoli, de bruços, em plano médio, enquanto pergunta ao parceiro sobre as partes do seu corpo de que ele gosta —de todas.

O que há de mais célebre no filme não é nenhuma cena. É a aposta que fez com Godard. Ele não suportava a altura do penteado da atriz. Ela adorava. Ele então propôs que andaria de ponta-cabeça, com as mãos no chão. E a cada passo que avançasse sem parar ela abaixaria um centímetro da célebre cabeleira. Ele conseguiu dar 11 passos. Ela pagou a aposta.

O resultado é magnifico, mas BB percebeu todo o tempo que seu papel não era outro senão o de Anna Karina, e que Godard estava, a rigor, filmando o fim de seu casamento com sua então mulher. Não reclamou, ao contrário. Tentou fazer como Karina faria, não se queixou nem mesmo da peruca de cabelos escuros que Godard destinou a ela.

Não foi nem o início nem o final de sua carreira. Mas é preciso reconhecer que daí por diante ela foi quase sempre mais célebre pelos filmes que rejeitou do que pelos que fez. Recusou, por exemplo, estar em "007 - A Serviço Secreto de Sua Majestade", de 1969, dizendo "adoro os filmes de James Bond, desde que sem mim".

Recusou também "O Estrangeiro", de 1967, dizendo que Luchino Visconti mais Albert Camus era "intelectual demais" para ela. Mas também preferiu ficar fora dos dois musicais de Jacques Demy para os quais foi convidada, "Os Guarda-Chuvas do Amor", de 1964, e "Duas Garotas Românticas", de 1967. Não era por nada que se dizia que BB sabotava a própria carreira. Também não quis fazer "Crown, O Magnífico", de 1968, grande sucesso de Norman Jewison com Steve McQueen e Faye Dunnaway, que ficou com o seu papel.

Com efeito, fez o frouxo "As Petroleiras", de 1971, de Christian-Jaque, apenas pelo prazer de fazer dupla com Claudia Cardinale; topou o faroeste "Shalako", de 1968, filme de Edward Dmytryk, nulidade em que trabalhava com Sean Connery.

Em contrapartida, quis ardorosamente filmar "A Sereia do Mississipi", desde que François Truffaut anunciou o projeto. Mas Truffaut a preteriu em favor de Catherine Deneuve. Bardot ficou furiosa e festejou quando soube que o filme era um fracasso.

Estrela maior não só cinema francês como da França propriamente dita, em 1970 ela se tornou a primeira atriz a servir de modelo para um busto de Marianne, a figura feminina símbolo da Revolução Francesa.

Em 1973, decidiu encerrar sua carreira no cinema, com 45 filmes rodados. Prosseguiu com a música até os anos 1980, tendo gravado cerca de 70 canções, inclusive o "Je T’Aime Moi non Plus", que autorizou o autor a divulgar também nos anos 1980, quando já era sucesso na parceria dele com Jane Birkin.

Bardot então já se dedicava havia muito tempo à proteção da vida animal e se dispôs a escrever à Organização das Nações Unidos em defesa do vegetarianismo. Ela depois intensificaria seus esforços nessa direção. Mais de uma vez disse que prezava os animais muito mais do que os homens.

Só em 1992, já bem longe do cinema e até da musica, ela se casou novamente, agora com o industrial Bernard d’Ormale, conselheiro político de Jean-Marie Le Pen. A adesão à extrema direita que se seguiu detonou outra e não menos escandalosa existência para BB. Conservadora, ela sempre foi e disse que era. Agora, no entanto, dizia se opor ao islamismo devido à maneira como sacrificavam animais.

Mais polêmica —seu voto em Marine Le Pen para a presidência da França. E mais um pouco —cinco condenações por ódio racial. Ela nunca as aceitou, disse que jamais incitou alguém a odiar em especial muçulmanos. No entanto, estão longe de ser gentis certas declarações contra a população muçulmana, como as de que "nos destrói, destrói nosso país, impondo seus hábitos a nós".

Também não foi propriamente gentil com os imigrantes ilegais na Europa —"clandestinos ou mendigos profanam e tomam de assalto nossas igrejas para as transformar em chiqueiros humanos".

Em setembro deste ano, ela lançou o livro "Mon BBcédaire", no qual ela dá sua opinião, muitas vezes incisiva, sobre o mundo. "A liberdade é ser você mesmo, mesmo quando incomoda", escreveu já no prólogo.

Da "A" de abandono ao "Z" de zoológico, a atriz declara seu amor por Jean-Paul Belmondo, um "cara formidável, ator genial, engraçado e corajoso", mas opina que Alain Delon "carrega em si o melhor e o pior". Também menciona a famosa cidade de Saint-Tropez, onde comprou uma casa, "La Madrague", e lamenta que este "lindo pequeno vilarejo de pescadores" tenha se tornado "uma cidade de milionários onde já não se reconhece nem um pouco seu charme".

O distanciamento também dos franceses não foi tão menos radical. Não por acaso escreveu em seu livro "Larmes de Combat", de 2018, que não fazia parte da espécie humana. "Não quero fazer parte. Eu me sinto diferente, quase anormal." E talvez por se sentir diferente, achou, quando tratou um câncer no seio, que o melhor seria não dar importância à doença. Ideia que Jane Birkin conseguiu tirar a tempo de sua cabeça.

Nesse seu livro-testamento, ela credita à luta pelos direitos dos animais a força para ter se livrado das luzes da ribalta. Verdade seja dita, de um modo ou de outro, essas luzes nunca a abandonaram —BB pode ter tido seus defeitos, mas foi uma estrela do começo ao fim.

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2025/12/morre-brigitte-bardot-lenda-do-cinema-frances-e-sex-symbol-absoluto-de-uma-era.shtml

Adeus à musa Brigitte Bardot, que o Recife vaiou

Uma das mais maiores divas da cultura pop francesa, a atriz,cantora e ativista morreu aos 91 anos, neste domingo, em Saint-Tropez, na Riviera Francesa

TEXTO José Teles


https://revistacontinente.com.br/secoes/obituario/adeus-a-brigitte-bardot-que-o-recife-vaiou

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