sábado, 22 de março de 2008

DANÇAS CIRCULARES - Uma Proposta Cultural de Educação e Saúde Integral



Alvaro Pantoja

Por que o ser humano dança?
(Veja também: http://www.youtube.com/watch?v=n3l5aGVmCzI )
Leia também: http://consorciocultural.blogspot.com/
“Que impulso irresistível leva o homem a dançar? Por que, ainda no estado natural mais primitivo, em lugar de economizar suas energias para encontrá-las mais intactas no momento da ação, necessária a seu sustento ou sua defesa, desperdiça-as em movimentos fisicamente esgotantes?
Sem dúvida, por uma necessidade interior, muito mais próxima do campo espiritual que do físico. Seus movimentos, que progressivamente vão se ordenando em tempo e espaço, são a válvula de liberação de uma tumultuosa vida interior que ainda escapa à análise. Em definitivo, constituem formas de expressar os sentimentos: desejos, alegrias, pesares, gratidão, respeito, temor, poder...
No entanto, esses sentimentos estão intimamente relacionados com a necessidade material do grupo humano primitivo. Necessidade de amparo, abrigo, alimento, defesa e conquista; de preocupação, saúde e comunicação. Tais requisitos levam-no, primeiro, a observar a natureza e a relação que existe entre os fenômenos naturais propícios ou contrários à sua necessidade. A cada uma destas manifestações ele atribui um espírito e uma vontade semelhantes à sua.
Para obrigar essa vontade a curvar-se ante a sua, ele inventa fórmulas mágicas, plasmadas em objetos miméticos que traduzem seus desejos. Assim nascem as formas artísticas de expressão: a dança, a pintura, a música, a palavra, o teatro. No princípio, todas estão unidas num só fato mágico e vão se separando com o desenvolvimento da cultura, até os tempos atuais, em que um refluir na busca faz desandar o caminho para refundi-las numa integração.” (OSSONA 1984)2
O primeiro impulso artístico da humanidade nasceu da observação da natureza. Para sobreviver, transformar-se e evoluir, as sociedades primitivas dançaram o ritmo cíclico do universo. A dança era a imitação das formas e dos movimentos da natureza. Como expressão simbólica, dançar era o reflexo tanto da regularidade terrestre quanto da celeste.3
O homem e a mulher antigos, na medida em que desvendavam as leis e os princípios de organização da realidade circundante, registrava-os no corpo através de movimentos rítmicos e significativos. A história da intimidade entre a dança e a linguagem dos padrões da natureza nasceu antes que os seres humanos pudessem gravar suas descobertas em rochas, tecidos, tatuagens. Pela dança, memorizavam os novos conhecimentos e asseguravam a sua transmissão para as gerações futuras. Dançar era, essencialmente, comunicar-se.
Tudo na vida é movimento: o Universo move seus sistemas, e cada sistema seus sóis, estrelas, planetas e satélites. As estações se sucedem ritmicamente, assim como o dia segue a noite, a Lua ao Sol. A vegetação evolui em ciclos rítmicos, sobem e baixam as marés, o ser nasce, cresce, decresce e morre.
O ser humano é testemunha e partícipe de todo esse movimento que o maravilha, e expressa em danças seu assombro, sua necessidade de compreensão.
A dança é uma das raras atividades humanas em que o ser humano está totalmente engajado: corpo, espírito e coração. Por isso, a arte de imitar a natureza através de movimentos rítmicos e repetitivos é uma virtude que torna o conhecimento definitivo, inesquecível. Além do mais, a dança é para todos. As histórias que ela conta são de domínio público e pertencem ao campo da participação geral, da colaboração instintiva.
“A dança, que nasceu e cresceu nas civilizações comunitárias e que se estilizou nas civilizações individualistas, nos dias de hoje pode contribuir significativamente para realização da síntese pela qual nossa época espera: a de uma sociedade aberta, onde o comunitário não se degradasse em totalitário nem a expressão da pessoa em individualismo, mas ao contrário, onde o ser humano pudesse conjugar sinfonicamente, como numa dança bem dançada, sua dimensão social e sua criatividade, em um sistema consciente de sua relatividade e aberto para o futuro, para suas profecias e suas utopias.
Não existe ato mais revolucionário do que ensinar um ser humano a enfrentar o mundo enquanto criador. Esta forma viva de comunhão e de participação da dança moderna recupera para a dança sua função sagrada, isto é: sua função de criação do homem. Talvez ela seja, no sentido mais completo do termo, a “Missa para o tempo presente”. (GARAUDY 1980)4
O que são as Danças Circulares
São danças de roda, tradicionais e contemporâneas, de diferentes culturas (diferentes povos e diferentes épocas) vivenciadas como canal e instrumento de Educação e Cultura, de comunicação criativa, de auto-conhecimento, de saúde integral, de celebração e integração.
"As Danças Circulares estão presentes em antigas tradições de diversos povos de todo o planeta. Suas origens se perdem no tempo e se confundem com as origens da própria Humanidade. Elas refletem a necessidade de comunhão entre os membros da comunidade e se associam a diferentes momentos de suas vidas: o nascimento, o casamento, o plantio, a chegada das chuvas, a entrada da primavera, a colheita, a morte, etc.
O ser humano tem bailado desde que existe. A dança tem sido parte de sua vida, não só como espetáculo, mas antes de tudo, como uma de suas formas de viver. Tem sido uma das formas de unir-se a outros seres, de participar conjuntamente, celebrar, comunicar-se, dizer com seu corpo o que as palavras não podem dizer da mesma maneira.
As Danças Circulares Sagradas foram introduzidas na Inglaterra há cerca de trinta anos atrás por Bernhard Wosien, um professor de dança, alemão, que dedicou muitos anos de sua vida a coletar danças dos povos de várias regiões da Europa.
Talvez um dos motivos que fazem das danças circulares algo tão envolvente seja o fato das coreografias se constituírem em fenômenos cíclicos. Ou seja, os passos são agrupados em sequências que se repetem no decorrer de toda a música. Dessa maneira são reproduzidos os ritmos da natureza: o começo e o fim, o nascimento e a morte, o dia e a noite, as estações do ano, além dos ciclos que compõem a biografia humana.
Assim nós somos levados a perceber as mudanças que vão acontecendo em nossas vidas, vamos nos percebendo seres mutantes que, a cada repetição ocorrente, já não somos mais os mesmos que da última vez.” (VALLE 1998)5

De onde vêm as Danças Circulares

A metodologia de trabalho com as Danças Circulares foi criada por Bernhard Wosien (1908-1986) - alemão, bailarino e pedagogo da dança – a partir de sua pesquisa com as Danças Folclóricas e Étnicas da Europa Central e Oriental, iniciada em 1952.
Contagiado pela alegria e vibração das danças populares, Bernhard idealizou uma proposta de utilização para as áreas de educação e saúde. As danças, muitas das quais no seu formato tradicional não eram em círculo, foram adaptadas, para conectar profundamente as pessoas na roda. Assim nascia esse trabalho com a “Sacred Dance” – Dança Sagrada, na qual o “sagrado” diz respeito ao poder de elevação do espírito humano, associado à prática da dança (e não a uma religião propriamente dita).
Nos últimos 25 anos de sua vida, o agora “dançarino”, dedicou-se integralmente a pesquisar e ensinar as danças de roda como pedagogia e terapia de grupo em instituições educacionais e clínicas, nas áreas de Serviço Social e Terapia Ocupacional.
Em 1976, aos 68 anos, Bernhard foi convidado a mostrar e vivenciar as Danças Sagradas na Fundação Findhorn – Centro Internacional de Educação Transdisciplinar-Holística, fundado em 1961, na Escócia. Este convite foi determinante para a expansão internacional das Danças. No Brasil, as danças chegaram no início da década de 90.
Findhorn promove anualmente, no mês de Julho, desde 1976, o Festival Internacional de Danças Circulares Sagradas, o que tem contribuído para o enriquecimento do repertório, que atualmente incorpora danças tradicionais e contemporâneas das mais diversas culturas, dos quatro cantos do mundo (Ásia, Europa, África, América) - como danças gregas, israelitas, escocesas, russas, sérvias, armênias, ciganas, árabes, brasileiras (indígenas, folclóricas, populares nordestinas e amazônicas).

Como as Danças Circulares educam

Nas Danças Circulares a pessoa é despertada para estabelecer conexões, lançar pontes entre a mente, o coração e as mãos/os pés (o pensar, o sentir e o agir) de uma maneira eminentemente vivencial, dinâmica e participativa: as danças de roda, a música, o canto, a história e os mitos universais das diferentes tradições culturais; exercícios corporais, momentos de silêncio, reflexão e expansão do potencial interior – visualização criativa e meditação; dinâmicas de grupo e de relações interpessoais.
Assim, “as danças se constituem também num importante recurso a ser utilizado em processos educativos sociais. No círculo se trabalha o equilíbrio entre o indivíduo e o coletivo. Na roda, somos convidados a estar presentes, a participar de maneira plena dos processos de transformação social.
Colocados em círculo, percebemos a nossa identidade com o outro pois, ao mesmo tempo em que reconhecemos a nossa igualdade - a unidade que habita no centro - também acolhemos a presença única e insubstituível de cada um que está colocado em pé na linha da circunferência.
Desse modo, desenvolvemos suave e gradativamente o respeito e a valorização das diferenças, além de podermos vivenciar a realidade da interdependência que permeia as relações humanas". (VALLE 1998)4
Como retrato dinâmico da história humana, as danças sagradas oferecem a toda pessoa a oportunidade de tornar-se um dançarino, de abrir-se a um meio de conhecimento a um só tempo introspectivo e do mundo exterior. Além disso, através delas, irmanamo-nos com povos distantes no tempo e no espaço e com os significados e símbolos de seus rituais e celebrações. Nas palavras do filósofo francês Roger Garaudy, “a dança torna o deus presente e o homem potente”. Por isso é considerada sagrada.

O que a vivência das Danças Circulares proporciona 6
1. Harmonia entre corpo-mente-espírito;
2. Elevação da auto-estima;
3. Consciência corporal – coordenação motora, ritmo, sintonia, flexibilidade;
4. Aprendizagem criativa - o desenvolvimento da inteligência integral e a expansão de habilidades, incluindo-se a intuição, o imaginário, a sensibilidade e o corpo no processo de receber e transmitir conhecimentos;
5. Ampliação do potencial humano - com a vivência da arte, do lúdico, do belo, do prazer, da alegria e da conexão com o sagrado;
6. Reconhecer, valorizar e fortalecer as Identidades Culturais Brasileiras (locais/regionais/nacionais), para o encontro criativo e harmônico com os outros povos – enraizar para uma globalização consciente;
7. Sensibilização para a vivência de Valores Humanos e Princípios Éticos universais – respeito e inclusão do diferente, através do contato humano, ético e estético, com pessoas diferentes de nós e culturas diversas da nossa;
8. Aprender a Conhecer – competência cognitiva; Aprender a Fazer – competência técnica; Aprender a Conviver – competência social; Aprender a Ser – competência humana: os quatro pilares básicos da educação sustentável, recomendados pela UNESCO para a Educação no século XXI.
Animando Comunidades de Aprendizagem

· O tempo presente implica e pede um permanente exercício humano de mudança, na convivência ; isto requer, de todos(as) e de cada um(a), fluência e flexibilidade nas relações consigo mesmo(a) e com os semelhantes . As danças oportunizam e favorecem essa vivência/aprendizagem, com simplicidade e profundidade .

· Nesse sentido, é interessante pensar e abordar a proposta das Danças Circulares referida aos paradigmas Ecológico (as três ecologias: pessoal, social, planetária), Holístico (dimensões física, psíquica, mental, espiritual) e Biocêntrico (princípio ‘ biocêntrico’ , idéias de ‘ vivência’ e ‘ vínculo’).

· Centração – as danças circulares impulsionam um movimento vital, que acontece através : da conexão no eixo vertical (com o que está abaixo, a Terra: chão, raízes, memória, passado; e com o que está acima, o Ar: céu, projeto, futuro); e da conexão no eixo horizontal (com quem está à minha direita/esquerda, com as pessoas na roda, a tribo, a comunidade, a humanidade; a dimensão do corpo (bio-física) e da personalidade (bio-psíquica), o cotidiano); da conexão com seu próprio/pessoal centro de vitalidade (no cruzamento do eixo vertical com o eixo horizontal) e com o centro da roda (simbolicamente o Sol, fonte de luz, de energia, de sabedoria, de bênçãos: a dimensão espiritual da vida).

· Buscando o equilíbrio, em busca de integr(ali)idade, da inteireza (na contra-mão da tendência à fragmentação). Equilíbrio em movimento - equilibração , é uma idéia-chave para a compreensão das Danças Circulares . Na dança ... ... ... "o movimento é que gera o conteúdo". Movimento que é fluxo, pulsação . Em ciclos, na música e na dança, como na vida ...

· A experiência de sinergia e de harmonia que as Danças Circulares proporcionam, resulta de um movimento pessoal e coletivo em busca do equilíbrio, que é um exercício de equilibração (a "homeostase" dos gregos) .
Equilíbrio entre : conexão com o próprio centro (de cada um/a) e conexão com
o centro (comum) do círculo .
Equilíbrio entre : coragem (auto-afirmação, ousadia) e consideração (com a
Fonte, com os semelhantes, com o grupo).
Equilíbrio entre : individualidade/diversidade e coletivo/comum-unidade .
Equilíbrio entre : contração/concentração/interiorização e
expansão/propagação/exteriorização .

· As Danças Circulares podem (têm o poder de) atuar como canal para uma transformação, em diversos planos e níveis da existência de indivíduos e grupos humanos. Isto se dá através de uma vivência, que só se viabiliza pela
co-opera-ação dos participantes e por sua sin-toniza-ação em
frequências vibratórias que são canalizadas pelas danças.

· O convite à dança contém a proposta de um exercício de aprendizagem coletiva . O que é ‘aprender a dançar’? O que acontece quando a gente se põe a dançar juntos, na roda ? Refletindo a partir dessas perguntas, podemos aprofundar o sentido da educação como aprendência, como movimento vital de estar aprendendo : a fazer, a conhecer, a conviver, a ser. Estar aprendendo a aprender, como forma de viver.


NOTAS

[1] Educador e sociólogo, de 1990 a 2005 foi membro do Coletivo de Educadores/as do CENAP (Centro Nordestino de Animação Popular, Recife-PE); há 20 anos atua em programas de formação de educadores(as) sociais no Nordeste brasileiro; como assessor/consultor de organizações sociais, tem atuado nas áreas de metodologia do trabalho social e educativo e de gestão de programas e projetos sócio-educativos. Faz formação em Danças Circulares com William Valle (Belo Horizonte – MG), desde 1999, tendo participado do I, II e IV Encontros Brasileiros de Danças Circulares Sagradas (São Paulo, 2002, 2003 e 2005) e da coordenação do I Encontro Nordestino de Danças Circulares (Camaragibe-PE, 2005). Desde 2000 tem focalizado encontros e oficinas de Danças Circulares em Recife-PE, Aracaju-SE, João Pessoa-PB, Maceió-AL, Teresina-PI, Fortaleza e Sobral-CE. Contato: alvarpan@elogica.com.br
2 OSSONA, Paulina. A Educação pela Dança. São Paulo: Summus, 1984
3 Fonte: Grupo RODAS DA LUA (Brasília-DF). Danças Circulares Sagradas. www.rodasdalua.org.br
4 GARAUDY, Roger. Dançar a Vida. São Paulo: Nova Fronteira, 1980
5 VALLE, William. Meu Caminho no Círculo da Dança. Texto original publicado na Revista Tecendo Idéias n.4, do Centro Nordestino de Animação Popular. Recife: CENAP, 2000
6 Fonte: MANA MANI-Recriando a Dança da Vida (Belém-PA). www.manamani.org,br


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
GARAUDY, Roger. Dançar a Vida. São Paulo: Nova Fronteira, 1980.
OSSONA, Paulina. A Educação pela Dança. São Paulo: Summus, 1984.
LELOUP, Jean-Yves. O Corpo e seus Símbolos: Uma Antropologia Essencial. Petrópolis: Vozes, 1995
RAMOS, Renata Carvalho (org.). Danças Circulares Sagradas: Uma Proposta de Educação e Cura. S.Paulo: TRIOM, 1996
VALLE, William. Meu Caminho no Círculo da Dança. Revista Tecendo Idéias n.4 (p.44-51). Recife: CENAP, 2000
WOSIEN, Bernhard. Dança: Um Caminho para a Totalidade. S.Paulo: TRIOM, 2000


SÍTIOS NA INTERNET

Roda dos Povos – Encontro Brasileiro de Danças Circulares... Sagradas www.rodadospovos.com.br
Encontro Nordestino de Danças Circulares (Recife-PE) www.encontro.nordestinodc.nom.br
Mana-maní (Belém-PA) www.manamani.org.br
Rodas da Lua – Grupo Rodas da Lua (Brasília-DF) www.rodasdalua.org.br
UniLuz (Nazaré Paulista-SP) www.nazarevivencias.com.br
Giraflor (Curitiba-PR) www.dancascirculares.org
Roda de Luz (Rio de Janeiro-RJ) www.dancascircularesrj.com.br
Triom – Centro de Estudos, Livraria e Editora (S.Paulo-SP)
www.triom.com.br/paginas/p04-4fr.htm l

Imagens do 3º Fórum Popular de Cultura. (2007)

Abertura - Painel: Cultura e Inclusão. 23/11/07

Abertura - Vista Parcial do Público. 23/11/07

Palestra:Dança e Cidadania,Paula Gonçalves da Ong Em Cena Arte e Cidadania(PE).24/11

Palestra:Escola e Ação Cultural, Marcial Lima(AL).24/11/07

3ºMostra Arte e Cidadania.24/11,Apresentação de Fernanda(Aprendiz do Circo Arcoiris)

3ºMostra Arte e Cidadania.24/11,Apresentação da Cia de Dança Rick di Karllo.

3ºMostra Arte e Cidadania.24/11,Apresentação do Grupo de Dança Popular Asa Branca.

3ºMostra Arte e Cidadania.24/11,Apresentação dos aprendizes da oficina de dança arcoiris.

3ºMostra Arte e Cidadania.24/11,Apresentação dos aprendizes da oficina de dança arcoiris.

3ºMostra Arte e Cidadania.24/11,Apresentação dos aprendizes da oficina de dança arcoiris.

Como foi o 3º Fórum Popular de Cultura. (2007)

“ Um evento cuja temática e palestrantes me surpreenderam pela qualidade das suas experiências e da sistematização elaboradas por eles em cima das práticas artísticas e pedagógicas e pela forma como passaram para nós, de forma clara, sem cansar e com emoção”
Essas palavras proferidas por um participante do 3º Fórum Popular de Cultura que aconteceu nos dias 23, 24 e 25 de Novembro sintetizam muito bem a impressão da maioria que estiveram presentes no Gonzagão, local que sediou a edição 2007 do Fórum.

Organizado pela Ong Ação Cultural e contando com o patrocínio do Programa BNB de Cultura o evento contou também com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura e reuniu no horário de maior concentração de público 80 pessoas, que assistiram a mesa redonda “Cultura & Inclusão” e 400 pessoas na mostra “Arte & Cidadania”.

Para os organizadores o mérito principal do evento foi fomentar o inicio da discussão a respeito da elaboração de estratégias para trabalhar com arte e cultura junto a crianças e adolescentes da periferia, cujas “mentes e corações” estão ocupadas com os ritmos e sons que estão na moda, em geral esta necessidade é citada por intelectuais, educadores e artistas, mas pouco é realizado neste sentido.

Conforme discutido durante o fórum não se trata de forçar os adolescentes a abandonar os gostos próprios ou “impostos” pelos meios de comunicação de massa mas, de conhecer e valorizar outros tipos de música, de movimentos, de sensibilidades.

Em termos práticos isso foi apresentando na mostra artística a partir da apresentação do resultado da oficina de dança desenvolvida pela Caravana Arcoiris, desde o inicio do mês de outubro, no Gonzagão, e que preparou um trabalho coreográfico em forma de colagem, onde os adolescentes envolvidos mostraram o que aprenderam de diferente: afro peruano, dança do ventre, contemporâneo e aquilo que eles conheciam: forró e dança de rua.

Essa mesma abordagem também foi destacado na oficina apresentada por Paula Gonçalves e Ketully Costa Leal, da Em Cena Arte e Cidadania, a qual mobilizou os participantes em torno da necessidade de construir coreografias partindo dos referenciais estéticos e históricos de cada um, sem perder de vista, evidentemente, a necessidade de agregar novos conhecimentos aos que eles possuem, reforçando as palavras de Clébio Correia de Araujo que mostrou a necessidade de darmos especial atenção ao processo de trabalho, pois se queremos preparar pessoas com autonomia, não obteremos esse resultado fazendo-os tão somente repetir os movimentos do coreógrafo ou os modelos de arte teatral concebidos pelo professor e/ou diretor.

Outras questões também foram apresentadas como a necessidade de organizarmos um programa de formação de agentes culturais para darmos continuidade e aprofundarmos algumas questões levantadas na discussão sobre as identidades, memória histórica e ação cultural nas escolas que foram apresentadas na discussão coordenada por Marcial Araujo Lima e Clébio Correia de Araujo, a propósito da experiência do projeto “ A escola como pólo cultural da comunidade ”, realizado com estudantes de escolas públicas de Maceió.

A propósito da apresentação desse tema o professor João Brasileiro, afirmou a coincidência sobre alguns questionamentos que estavam sendo feitas por ele e por alguns colegas da Escola Albano Franco, no bairro Santa Maria e a abordagem realizada por Marcial que muito o ajudará na condução dos trabalhos junto aos colegas e alunos da escola onde trabalha.

Outra proposta que teve boa aceitação foi à formação de mini-caravanas formada por agentes culturais para visitar-se mutuamente e desta forma poderem trocar experiências e fortalecer os laços de amizade e de cooperação.

Da parte da Ação Cultural a expectativa principal é que encontros com a metodologia do fórum, cuja característica principal é aproximar quem faz e que elaborou/ elabora reflexão sobre a prática, de quem já faz isso ou que quer ampliar os seus horizontes nesse sentido, sejam organizados por parte do gestores das Secretaria de Educação, Inclusão Social e Cultura, neste último caso os Encontros Culturais que é realizado em várias cidades do estado, em especial o de Laranjeiras pode ser um espaço onde os temas e a metodologia dos fóruns populares de cultura podem ser incorporados.

Ao término do fórum a partir da avaliação com os participantes a opinião predominante é que as pessoas sentem necessidade de mostrar e conhecer experiências exitosas e cujos aprendizados possam ser incorporados por todos , afinal, virar esse mundo em “festa, trabalho e pão” exige muita vontade, estudo e habilidade, pois como afirmou Marcial “é simples, mas não é fácil”.

Leia também: http://www.overmundo.com.br/overblog/o-central-da-periferia-na-escola

Eis aí o II Forum Popular de Cultura. ( 2006)

Na abertura dissemos que a tarde de sábado, 05 de agosto, marcaria a vida de todos os participantes e isso realmente se confirmou no dia 06, também.
Agradecemos a presença de todos que estiveram lá (algo em torno de 80 pessoas, no horário de pico) e desejamos que cada fórum realizado seja, para nós artistas e produtores culturais da periferia, um farol, iluminando o caminho da noite escura que atravessamos. Que a arte produzida pelos nossos artistas brilhe como a luz das estrelas que nos encantam e nos deleitam de prazer, apesar de tanto decepção, solidão, tristeza e sofrimento. Como diz o poeta Thiago de Melo: "Faz escuro, mas eu canto, porque sei que a manhã vai chegar". E podemos também dançar, tocar, pintar, costurar, fotografar e escrever.
Eventos como o fórum fortalecem aqueles que sonham e que buscam melhorar as pessoas através da arte, possibilitando a recriação do mundo como um jardim de mil delícias.

Até breve!

Zezito de Oliveira - Coordenador Geral do II Fórum Popular de Cultura.
Entrada do Auditório do Sebrae.(local de realização do II Fórum).

Vista parcial dos participantes.

Zezito de Oliveira - Coordenador Geral do II Fórum.


Iniciado a partir de um processo desencadeado no final do ano de 2005, coordenado por uma equipe de dirigentes da Ação Cultural e apoiado por alguns sócios e amigos da entidade, o evento contou com o imprescindível patrocínio da Coordenadoria Ecumenica de Serviço, com o importante apoio do SEBRAE e a especial colaboração do SESC, da Fundação Augusto Franco e do Banco do Nordeste.

A PARTICIPAÇÃO DO PÚBLICO
Nos momentos de maior presença de público o fórum chegou a contar com a presença de 80 pessoas, com uma expressiva presença de adolescentes e jovens envolvidos em atividades com grupos culturais na periferia (70%) e destacada presença de meninas e mulheres. (60% do total do público presente).
O público avaliou o fórum como muito útil e necessário o fórum e destacaram muitos aspectos positivos como a escolha dos temas e dos palestrantes Virginia Lúcia e Marcelo Rangel (de Aracaju) e Simão Neto e José Cleto (de Recife) que comunicaram com inteligência e paixão, conquistando assim a aprovação de todos. Da mesma forma, foram elogiadas as apresentações artísticas nas áreas de teatro, com o Grupo Pro Cena de Espetáculos, de dança, com a Companhia Rick di Karllo, Grupo Rei Davi e Pop Dance e a performance com o poeta e ator Jobys.
Palestra: A educação como experiência estética. Virginia Lúcia(palestrante)e platéia.

Lucy Paixão(secretária da Ação Cultural) e Simão Neto(palestrante) .

Luci Paixao(secretária da Ação Cultural) e José Cleto (palestrante).

No que diz respeito à produção do II Fórum em geral, foram observados alguns aspectos negativos que, embora não tenham ofuscado o brilho e a aprovação do evento, deverão ser analisados e discutidos a fim de se maximizar os resultados positivos dos próximos encontros.

"Fiquei triste de não poder ajudar mais. Percebo que nós "povo" somos muito exigentes de organização, programação, cronograma e outras coisinhas e esquecemos que tudo faz parte de uma corrente formada por inúmeros detalhes e cuja força de eficiência depende mesmo do esforço de cada um. Bem, mas mesmo sem ajudar à equipe como gostaria, enquanto expectadora fiquei maravilhada com a tarde de sábado. Nossa, a palestra da Virgínia Lúcia, então, que coisa, hein? Como é bom poder aprender e se divertir ao mesmo tempo. A dinâmica utilizada além de demonstrar na prática a experiência estética enquanto facilitadora da educação idealógica, tornou a tarde mais alegre e nos deixou empolgados e, no mínimo curiosos quanto ao teatro do oprimido e suas infinitas possibilidades na área da educação.
Definitivamente, quem não foi, perdeu. Acredito que esse clima de informalidade do II Fórum Popular de Cultura ajuda e muito a aproximação do eu-agentecultural com a realidade apresentada e discutida e a realidade de cada um. Olha, voltei triste por sair mais cedo em virtude de minha doença, mas muito feliz com o ganho de tempo e cultura da tarde de hoje. Parabéns a todos que fortalecem os elos da corrente de produção e organização do Fórum e da Ação Cultural. E parabéns também à palestrante Virgínia Lúcia (que transformou radicalmente, na tarde de hoje a associação comum que se faz ao termo palestra de "escuta de saberes dito por uma pessoa" em construção saborosa, participativa e dialogada de novos conhecimentos).
Um abraço a todos.
"
Denise Dória


REPERCUSSÃO NA IMPRENSA
Com a ampla divulgação na imprensa local e também no âmbito nacional (inclusive pela internet) o II Fórum Popular de Cultura conquistou grande repercussão. No âmbito local, faz-se necessário destacar a colaboração da Rádio Cultura de Sergipe, que oportunizou um considerável espaço para a divulgação do evento, bem como a ONG Missão Criança, que representa a Agência de Noticias dos Direitos da Infância em Sergipe e que destacou o II fórum como sugestão de tema de pauta para todos os órgãos da imprensa local. O projeto Inclusão Social, iniciativa meritória de comunicadores que se propõe a abrir portas nos meios de comunicação para iniciativas sociais e culturais da periferia e que publicou informações sobre o fórum e sobre a Ação Cultural no Jornal da Cidade também nos auxiliou.
. Nesse mesmo jornal a noticia foi publicada na prestigiada coluna do jornalista Osmário. O jornal “Hora do Povo” e a TV Sergipe, através da agenda cultural, também divulgaram o evento. Mais uma vez contamos com a divulgação através do jornal Cinform que juntamente com a Rádio Cultura sempre nos deram a maior força.
Na imprensa nacional contamos com a colaboração do jornalista Marcelo Rangel do site Overmundo, que inclusive proferiu palestra no fórum sobre a brilhante idéia de conectar aqueles que criam e/ou apóiam a arte independente, alternativa, marginal, da periferia etc.. como queiram chamar, em todo o país.
O serviço de mala direta da representação regional do Ministério da Cultura e da Cese, patrocinadora do evento, também deram uma colaboração importante divulgando o evento para todo o nordeste.

ECOS DO ENCONTRO
Foram convidados para apresentar seus trabalhos teatrais e coreográficos em outros locais, o Grupo Pro Cena de Espetáculos, o Grupo Teatral Voz da Vida e Companhia de Dança Rick di Karllo.
O videasta/documentarista Nixon ficou de manter contato com o poeta/ator do Grupo Teatral Voz da Vida, Jobys, para produzir um documentário sobre o seu trabalho, bastante elogiado pelo público, que busca inspiração na memória do sofrimento e das lutas pela libertação dos afro-descendentes.
A jovem Rafaela, representante do município de Poço Redondo, animou a todos os presentes com o seu depoimento, um misto de fé, resistência e criatividade para fazer do teatro e da criação de cabras uma forma de alimento para o corpo e para o espírito. Tudo interligado e interpendente como deve sempre ser. Várias pessoas, inclusive José Cleto do Recife, sugeriram a presença de Rafaela no fórum 2007 como palestrante e foram iniciadas conversações para descentralizar o fórum e uma das possibilidades é a inserção do município de Poço Redondo.
Depois de algumas tentativas conseguimos contar com a presença do grupo de dança Rei Davi que desenvolve um importante trabalho religioso, artístico e de educação cidadã com crianças, adolescentes e jovens do bairro Piabeta, localizado na periferia de Nossa Senhora do Socorro.
O Centro de Estudos em Políticas Públicas, uma Ong do Rio de Janeiro, entrou em contato conosco para solicitar nossa colaboração na divulgação de um mapeamentos das experiências que em Sergipe envolve adolescentes e jovens no trabalho com arte.

AS OPÍNIÕES DO PÚBLICO
SUGESTÕES E CRÍTICAS
Vista parcial dos participantes.

Vista panorâmica da oficina sobre metodologia.(Facilitador:Simão Neto)

Vista panorâmica da oficina sobre metodologia.(Facilitador:Simão Neto)



“Amei! È preciso mais momentos como este.”
“Uma experiência divertida e inesquecível.”
“Gostaria de parabenizar ao Professor Zezito, coordenador geral do fórum. Foi belíssimo e muito informativo, gostei muito!”
“Continuem com esses projetos, ajudando no crescimento da cultura brasileira.”
“Que tragam mais jovens e que dêem oportunidades para eles falarem sobre a cultura, o que pensam, o que acham e suas intenções para o futuro.”
“Que no próximo fórum o operador dos equipamentos de áudio e vídeo tenha
prática com os mesmos.”
“O espaço para apresentações culturais é pequeno.”
“O próximo fórum poderia ser feito em um ambiente mais aberto para que os jovens pudessem se manifestar, participar e não só ouvir.”


FRASES (Segundo depoimento escrito de alguns participantes)

“Por eu não ser rico, a minha cultura é da periferia?”
“Inclusão pela arte.”
“A arte dá sentido e transforma as nossas vidas.”
“Retomar através da arte o nosso ser desejante, criativo, poético...”(Virginia Lucia)
“O jovem é o hoje e não só o futuro” 2
“Precisamos qualificar e potencializar as nossas ações para garantir nossos direitos” (João Simão)
“Viva e deixe viver.” Frase de um slide exibido por Simão Neto 5
“A arte faz parte da natureza humana!”
“É preciso cuidar do broto para que a vida nos dê flor e fruto.”
“Nunca é tarde para começar a produzir cultura.”
“É preciso tornar o Brasil a verdadeira pátria mãe gentil.”
“Força, querer e fazer.”
“O mundo deveria ser como a gente gostaria que fosse” 3
“Não fazer teatro somente para ficar famosa e sim para ensinar o que o teatro tem de bom.”
“Cuidar da vida.”
“Devemos correr atrás dos nossos objetivos.”
“Um passo a frente e você não está mais no mesmo lugar.” Chico Science
“A arte é a criação de uns para deleite de todos.”
“A gente quer que aconteça, aconteça algo que a gente goste.”
“Eu quero fazer. Eu quero ser, porque eu posso.”
“Eu tenho direito de ver e fazer arte, de ir ao teatro mais vezes, de envolver a cultura na minha vida.”
“A arte sempre segue a gente.”
“Ter coragem para fazer as coisas que a gente tem medo de realizar.”
“Eu quero, eu vou, ser ator...” (Virginia Lúcia)
“Direito a ter direitos”. (Simão Neto)
“A arte nasce da realidade, passa pela fantasia e retorna para a realidade outra vez.”

MOMENTOS MARCANTES (Segundo depoimento escrito de alguns participantes)

O poeta/ator Jobys arpresentando uma perfomance poética/teatral sobre a memória da escravidão no Brasil.
O Jornalista do site Overmundo, Marcelo Rangel, explicando porque do ponto de vista da identidade cultural sergipana e da ética publica, o nome do nadador Zé Peixe é o mais legitimo para denominar a ponte Aracaju-Barra.
Os meninos cantando e tocando o nosso coração através da música “Tocar”.
(música gravada pelos canarinhos de Petrópolis com o grupo musical a Cor do Som e apresentada em telão na abertura do fórum).
Apresentação do Grupo de Dança Rei Davi do bairro Piabeta.

Apresentação da Cia de Dança Rick di Karllo do Conjunto Eduardo Gomes.


Leia também: http://www.overmundo.com.br/overblog/com-arte-e-com-afeto-1
http://www.overmundo.com.br/overblog/ii-mostra-arte-e-cidadania-em-sergipe

Poesia: Ação Cultural

(Renilson Lima)


Minha terra tem coqueiros
cajueiros,mangabeiras, manguezais.
Tem aratú arando lama
tem caranguejo,sururu e siri.



Minha terra tem rio salgado
fruta doce, caju vermelho.


Tem Batucada, tem Reisado
tem Maculelê, tem Cacumbi
Taieria, São Gonçalo, Parafusos
e todos os sons
e todos os timbres.
Minha terra tem gente bonita
de pele negra
de pele branca
amarela, verde, azul.
Gente de todas as cores
de todos os credos.
Minha terra tão pequena
é vasta de riquezas culturais.
Minha terra tem esperança
nessa gente que dança
que canta, que batuca
que pinta e borda
e nessa gente que acredita
na arte do seio do povo
como cio da terra
onde a semente germina
e a árvore da identidade do povo cresce
e frutifica
e se perpetua
pelas mãos de quem planta
pela vontade de quem cultiva
pela força de quem valoriza.
Minha terra é pura riqueza
a ser perpetuada
pela consciente e nativista


Ação Cultural.