Começo essa notinha pelo final do título. Definindo o termo “estupidez”. No dicionário, significa a falta de inteligência, de discernimento, de razão ou de compreensão… E mais: a estúpida não foi a fala do presidente Lula. Foi tentativa de respostas nas redes digitais. Alguns bispos católicos foram para o ataque num tom de desqualificar a opinião do presidente. Em média, a fala nas redes digitais alimentaram a estupidez e a ignorância de sempre nos últimos anos.
Aos fatos. O presidente Lula emitiu opinião sobre dois temas dentro da Igreja Católica: Celibato (obrigatório, acredito que faltou esse adendo à fala) e a participação das mulheres enquanto ordenadas (padre, bispo, etc…). E ainda comparou ao crescimento dos evangélicos (uma opinião pessoal e que pode carecer de base empírica. Mas não considero erro). Para o presidente, a Igreja Católica ganharia mais fiéis se não houvesse o celibato obrigatório e fosse possível a ordenação de mulheres aos postos de poder no catolicismo. Notoriamente, a opinião do presidente tem uma dimensão pragmática: mais mulheres na Igreja e mais religiosos casados seriam mais pessoas efetivamente no trabalho de evangelização. O presidente como católico que é, não pode declarar o que pensa sobre temas (ditos!) delicados? Isto seria querer um mal para sua Igreja? A reação de certos bispos e uma avalanche de fiéis católicos só demonstrou mais desinformação e agressividade do que argumento. Beiraram à estupidez (para variar um pouco). Vamos ser bem sinceros entre nós: o bispo queria uma razão para votar em Flávio Bolsonaro e entrou um álibi. E assim segue para os fiéis desse tipo de bispo. Talvez fosse mais interessante que o presidente tivesse lido uma tese sobre a história do celibato obrigatório dentro da Igreja católica e sobre as razões de o porque as mulheres ficarem de fora do ministério ordenado dentro desse mesmo catolicismo (já que isto não é mais problema para a maioria das Igrejas evangélicas).
Na verdade, a fala superficial do presidente colocou uma questão profunda do clássico “inconsciente católico”, a saber, o poder e a questão econômica dentro do catolicismo. Não se fala abertamente dessas questões no catolicismo. Falar de celibato na Igreja Católica não é só falar em não praticar sexo… Os temas vinculados a sexualidade humana é uma trava a Igreja Católica (ainda hoje! por incrível que pareça). Falar de celibato obrigatório é falar em abusos (sexuais, inclusives), em família (até onde ter uma família atrapalha o apostolado?) e é falar de temas de economia (herança, etc.). Qualquer pessoa informada em História da Igreja, sabe que existem pessoas que se fizeram/fazem celibatárias (como dizia o apóstolo Paulo) por alguma razão teológica profunda e de fórum íntimo, mas que isto nunca foi condição necessária para se exercer qualquer função no Cristianismo. Ser celibatório não é uma desonra, mas ser casado jamais o foi também. Recomendo o extraordinário livro de Eduardo Hoornaert: “A memória do povo cristão” (Vozes). A obra trata da Igreja Cristã nos primeiros quatro séculos de nossa era e com farta documentação. Ou ainda podemos lembrar aqui do livro da teóloga Uta Ranke-Heinemann: “Eunucos pelo Reino de Deus: Igreja Católica e sexualidade - de Jesus a Bento XVI” (editora Rosa dos Tempos) ou ainda a singular coletânea: “Fora do Jardim: mulheres escrevem sobre a Bíblia”, organizada por Christina Buchmann e Celina Spiegel (editora Imago).
A fala do presidente foi num ambiente religioso e o tema que ele levantou foi do âmbito religioso. Talvez (como queriam alguns/algumas) ele não devesse ter falado o que falou por razões de campanha. Estamos perto de uma difícil e decisiva eleição para os destinos do Brasil. Aqui é uma leitura estratégica. Agora, quanto ao conteúdo do que disse o presidente, em nada ele errou ou ofendeu a Igreja. A estupidez ficou por conta das tentativas de respostas que mais tentaram desqualificar do que responder efetivamente onde havia erro na opinião pública do presidente. Paciência.
Romero Venâncio (UFS)

Nenhum comentário:
Postar um comentário