domingo, 12 de abril de 2026

Para onde vai a Juventude,? em meio a redes digitais, IA, bets, empregos precarizados e etc..


 De onde vem, onde está, para onde vai: a partir dessas três perguntas, o teólogo jesuíta João Batista Libanio analisou as tendências da juventude hoje. Em palestra realizada na Faculdade Dom Bosco, em Porto Alegre, nesta terça-feira, 3 de maio, Libanio apresentou os resultados do seu mais novo livro, Para onde vai a juventude? (Ed. Paulus, 2011, 256 páginas), que nasceu, segundo ele, de um desafio posto por outro colega jesuíta, Hilário Dick, para pensar a juventude em uma espécie de movimento.

https://www.ihu.unisinos.br/categorias/173-noticias-2011/42929-para-onde-vai-a-juventude-

Marcio Pochmann: o Brasil está criando milhões de trabalhadores sem lugar | Fórum Onze e Meia 12.04

O Brasil está atravessando uma transformação histórica profunda.

A estrutura que organizou o país ao longo do século XX — baseada no emprego formal e na sociedade salarial — está se dissolvendo.

No lugar dela, emerge uma nova realidade:

trabalhadores precários, informais e uma massa crescente de pessoas sem inserção estável no sistema.

Mas isso não começou agora.

Dos despossuídos do pós-escravidão aos “agregados” do mundo agrário, o Brasil sempre produziu populações excedentes.

A diferença é que hoje isso se tornou estrutural.

Neste episódio do Fórum Sindical:

➡️ Quem é o novo sujeito coletivo

➡️ Por que o trabalho assalariado deixou de organizar a sociedade

➡️ O que isso significa para o sindicalismo

Com dois convidados centrais nesse debate:

🎙️ Marcio Pochmann — economista e autor de “Novo sujeito coletivo”

🎙️ Normando Rodrigues — advogado trabalhista e referência na defesa dos direitos do trabalho

Se o trabalho mudou… a forma de organização da sociedade também precisa mudar.



A insegurança estrutural da juventude brasileira

Ela é mais instruída que as gerações anteriores. Mas deprime-se nas telas, num país estagnado há 40 anos e em pouca esperança de vida florescente. Há duas saídas: ou o ultraindividualismo, ou um novo engajamento político, ainda por construir

A crescente incidência de sofrimento psíquico entre jovens brasileiros, registrada pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo IBGE com apoio dos ministérios da Saúde e da Educação, já não pode ser tratada como um problema isolado ou passageiro. Ela expressa uma mudança mais profunda na sociedade brasileira que resulta da perda de dinamismo econômico, enfraquecimento das promessas de mobilidade social e a transformação das formas de poder e de socialização.

Nesse sentido, a ansiedade revelada em setor crescente da parcela juvenil da nova sociedade de serviços, hiperconectada na era digital, deixa de ser vista apenas como um problema individual ou psicológico. Ela passa a ser compreendida como expressão social de um tempo histórico marcado pela incerteza. Desde os anos 1990, com a adoção de políticas neoliberais, o Brasil perdeu dinamismo econômico, sofreu a desindustrialização, aprisionou-se na financeirização e fragilizou os mecanismos de ascensão social. O resultado tem sido a formação de nova geração cuja subjetividade é atravessada pela instabilidade.

Em um país historicamente desigual, esse processo agravou a sensação de bloqueio social. Embora mais escolarizada do que as gerações anteriores, grande parte da juventude passou a encontrar um mundo do trabalho mais precário, instável e fragmentado. A educação continuou sendo apresentada como caminho de ascensão, mas a correspondência entre esforço e recompensa se enfraqueceu.

Durante o período de industrialização de elevada expansão econômica ocorrida entre as décadas de 1930 e 1980, predominou, apesar das desigualdades, a percepção de que o tempo trabalhava a favor da melhora de vida. Escola, emprego e urbanização apontavam, ainda que de modo desigual, para alguma perspectiva de avanço socieconômico. A partir dos anos 1990, contudo, essa narrativa foi sendo corroída. Em seu lugar, consolidou-se uma sociedade de serviços hiperconectada, porém incapaz de garantir inclusão ampla, segurança e horizonte estável.

É nesse contexto que os dados recentes da PeNSE ganham maior significado. O aumento da tristeza, solidão, ansiedade, exposição à violência e experiências de abuso não deve ser lido apenas como questão sanitária ou psicológica. Esses indicadores expressam uma época em que o futuro perdeu força como promessa coletiva. O horizonte de expectativas superiores se estreitou.

O mal-estar que emerge desse processo não aparece, ao menos por enquanto, como revolta organizada. Ele surge de forma mais difusa, íntima e silenciosa. A juventude brasileira não está apenas ansiosa. Ela percebe, muitas vezes de forma sensível e imediata, que o modelo social que antes prometia alguma melhora deixou de funcionar. A insegurança não decorre apenas do excesso de estímulos digitais, mas também da falta de perspectivas concretas.

A hiperconectividade faz parte desse problema, mas não o explica sozinha. Ao sair das telas de celulares e redes sociais, muitos jovens encontram um mundo que pouco os acolhe. A ansiedade não nasce apenas da conexão permanente, mas da experiência cotidiana de escassez de oportunidades, de fragilidade dos vínculos e de bloqueio do futuro.

Nesse quadro, o neoliberalismo produz mais do que políticas econômicas, pois gera uma forma de experiência social. Ele dissemina a sensação de que não há alternativa, de que cada indivíduo deve resolver sozinho problemas que são coletivos. Mesmo informados, conectados e escolarizados, muitos jovens percebem que poucas portas realmente se abrem. O resultado é uma geração marcada pela incerteza estrutural.

Mais do que uma “geração ansiosa”, trata-se de uma geração formada sob o signo da insegurança. A ansiedade, nesse caso, não é uma anomalia isolada, mas um sintoma de um modelo de desenvolvimento que perdeu a sua maior capacidade de inclusão. Ainda assim, esse sofrimento costuma ser interpretado como falha individual. Ao jovem que não consegue “dar certo”, resta a exigência de se reinventar continuamente como empreendedor de si mesmo.

Com isso, a pressão não desaparece. Ela apenas se internaliza. O peso de uma estrutura social instável é carregado no próprio corpo e na própria mente. A frustração deixa de ser episódica e se torna estrutural. Muitos jovens fizeram o que lhes foi pedido, estudaram, buscaram qualificação e adaptaram-se às novas exigências. Ainda assim, encontram-se à margem de um projeto real de futuro.

É nesse ponto que a questão ganha dimensão política. O que está em formação não é apenas uma geração frustrada, mas um novo sujeito social, ainda fragmentado, instável e sem linguagem política clara. Trata-se de uma experiência comum de insegurança, bloqueio e perda de sentido, que ainda não se traduziu plenamente em organização coletiva.

Esse sujeito, por enquanto, sente antes de formular. A ansiedade pode ser entendida, nesse sentido, como uma de suas primeiras formas de expressão. Ela ainda não aparece como programa político ou ação organizada, mas revela algo importante como a percepção difusa de que o jogo social mudou profundamente.

O risco é evidente. Esse mal-estar pode ser capturado por soluções individualizantes, por discursos de autoajuda ou por promessas de simples adaptação a uma realidade injusta. Também pode ser absorvido por formas regressivas de pertencimento, que oferecem identidade sem projeto coletivo. Mas existe outra possibilidade, ainda aberta: a de que essa ansiedade contenha o início de uma nova consciência histórica.

Não se trata, necessariamente, de uma consciência de classe nos moldes tradicionais. Trata-se, antes, de uma sensibilidade compartilhada diante de um mundo que deixou de oferecer sentido e direção. Algo que ainda não se organiza claramente em partidos, sindicatos ou movimentos duradouros, mas que circula em afetos, frustrações e percepções comuns de injustiça.

Se for assim, os dados da PeNSE deixam de ser apenas um alerta de saúde pública. Eles passam a registrar estatisticamente uma mutação social em curso. O Brasil pode estar diante de uma geração que já não acredita no futuro como promessa garantida, mas que, justamente por isso, talvez venha a recolocá-lo como problema político. Nesse caso, a ansiedade não seria o fim da história. Poderia ser justamente o começo de outra.

https://outraspalavras.net/crise-brasileira/a-inseguranca-estrutural-da-juventude-brasileira/


O lançamento do ChatGPT marcou, segundo Éric Sadin, o início de uma transformação profunda na sociedade. Da perda de empregos à erosão da criatividade, ele traça um cenário sombrio sobre o futuro. Saiba mais: AQUI

Como a extrema direita já está usando IA para ganhar as eleições.

 (leia a matéria completa no link abaixo).

Enquanto a gente discute se deve ou não usar inteligência artificial, o outro lado já montou uma máquina de guerra.

Existe um perfil no Instagram chamado @dn.marias. A “DN Maria” é uma mulher negra, idosa, de óculos, com cabelo crespo curto e expressão de quem não leva desaforo pra casa. Ela comenta política brasileira com indignação, publica reels e cards com roteiro afiado, e acumula números de engajamento que fariam qualquer social media chorar de inveja: um único post tem mais de 41 mil curtidas e 4.600 comentários. O perfil tem quase 1 milhão de seguidores.

DN Maria não existe. O perfil é inteiramente gerado por inteligência artificial, e declara isso: um dos posts fixados diz “AVISO IMPORTANTE - ESSA PÁGINA USA IA - A VERDADE É PRIORIDADE”. Mas nos reels, na cadência dos vídeos, no tom de voz indignado da persona, você não encontra essa informação. O espectador casual vê uma senhora negra revoltada com o governo, e se identifica.

DN Marias: a “emissáraia” que a extrema direita quer que exista - e, por isso, engaja. Foto: reprodução/redes sociais.

Eu quero que você pare pra pensar nisso por um segundo. Quase um milhão de pessoas seguem, interagem, compartilham e provavelmente confiam no conteúdo de alguém que nunca existiu. E o conteúdo funciona não porque é feito com IA, mas porque é extraordinariamente bem pensado.

A escolha da persona é o primeiro acerto: é uma figura que transmite autoridade pela idade, representatividade pela raça, e confiança por lembrar uma avó, uma tia, uma vizinha. É alguém que o público conservador quer que exista. A IA apenas tornou Kwisso possível sem precisar de uma pessoa real. 

 

Juventude e Esquerda: um adeus?

Após governarem Brasil por quase duas décadas, PT e aliados estão mais afastados dos jovens do que nunca. O que isso revela sobre acomodação a uma ordem injusta e perda de horizontes políticos? Como tramar um reencontro?

Arte: Edvard Munch
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Título original:
Juventude, sofrimento e política: o futuro em disputa no Brasil

O artigo recente de Márcio Pochmann, “A insegurança estrutural da juventude brasileira”, publicado em Outras Palavras, oferece um diagnóstico acurado ao deslocar o sofrimento psíquico juvenil do plano individual para o social. Mas há um ponto em sua análise que precisa ser tensionado: a ideia de que esse sofrimento ainda não se traduziu em organização coletiva.  Talvez o problema não seja a ausência de organização, mas o fato de que ela já está ocorrendo — em direção oposta àquela esperada pela esquerda.

Baseado na pesquisa PeNSE do IBGE, o autor identifica um aumento consistente de sentimentos de ansiedade, tristeza e solidão entre os jovens, associando esse fenômeno às transformações estruturais provocadas pelo neoliberalismo no Brasil: perda de dinamismo econômico, enfraquecimento das promessas de mobilidade social e reconfiguração das formas de poder e socialização.

Com ênfase na relação entre mundo do trabalho e subjetividade, Pochmann observa que, embora componha uma geração mais escolarizada do que as anteriores, “a juventude passou a encontrar um mercado de trabalho mais precário, instável e fragmentado”. Nesse sentido, a “educação continua sendo apresentada como caminho de ascensão, mas a correspondência entre esforço e recompensa se enfraqueceu”.

O aumento desse vão produz, inevitavelmente, um profundo sentimento de insegurança e frustração. No entanto, como o próprio autor destaca, esse quadro não pode ser reduzido a uma leitura superficial sobre os efeitos das redes sociais. A ansiedade juvenil “não nasce apenas da hiperconectividade, mas da experiência concreta de um mundo que pouco acolhe”, marcado pela escassez de oportunidades, pela fragilidade dos vínculos e pelo bloqueio do futuro.

Nesse contexto, o neoliberalismo não opera apenas como política econômica, mas como forma de experiência social. “Ele dissemina a sensação de que não há alternativa, de que cada indivíduo deve resolver sozinho problemas que são coletivos. Mesmo informados, conectados e escolarizados, muitos jovens percebem que poucas portas realmente se abrem”. O resultado, segundo o autor, é uma geração marcada pela “incerteza estrutural”.

No campo da política, porém, Pochmann sustenta que esse mal-estar “ainda não se traduziu em revolta organizada”, manifestando-se de forma “difusa, íntima e silenciosa”. É aqui que o diagnóstico precisa ser tensionado.

Isso porque a questão central talvez não seja a ausência de organização, mas a sua direção política.

Os dados recentes indicam um deslocamento nessa direção. A pesquisa “Juventudes: Tarefa Pendente” (2025), da Fundação Friedrich-Ebert-Stiftung, mostra que o Brasil apresenta um dos mais altos níveis de identificação da juventude com a direita: 38% dos jovens se posicionam nesse campo, sendo 17% na extrema-direita — o maior percentual em toda a América Latina. Em comparação, apenas 18% se identificam com a esquerda.

Quando observados em perspectiva histórica, esses números revelam uma transformação profunda. No início dos anos 2000, levantamentos como o “Perfil da Juventude Brasileira” (Fundação Perseu Abramo) indicavam maior presença da esquerda e uma extrema-direita ainda marginal. Duas décadas mais tarde, o quadro se inverte: a extrema-direita praticamente triplicou sua presença entre os jovens (de 6% para 17%), enquanto a esquerda perdeu cerca de um terço (de 27% para 18%).

Esse deslocamento também se expressa no plano eleitoral. Dados recentes da Atlas Intel indicam que cerca de 72% dos jovens desaprovam o governo federal. Ao mesmo tempo, candidaturas associadas à direita liberal e à extrema-direita apresentam desempenho desproporcional nesse segmento. Nomes como Renan Santos, candidato do Partido Missão/MBL, alcançam patamares de intenção de voto entre jovens muito superiores à sua média geral, chegando a disputar com Flávio Bolsonaro e Lula entre os eleitores 16 e 24 anos.

O que os dados indicam, portanto, é que a revolta da juventude não está necessariamente difusa. Ela encontrou novas formas de expressão política — ainda que por meio de canais, linguagens e repertórios distintos daqueles das gerações anteriores.

A questão que se impõe, então, é mais incômoda: por que, diante de um cenário de precarização, insegurança e bloqueio de futuro — cujas causas estão estruturalmente associadas ao neoliberalismo — a juventude tem encontrado respostas mais convincentes justamente em plataformas políticas que tendem a aprofundar essas mesmas condições?

Parte da resposta passa por uma autocrítica da esquerda institucional. Ao longo das últimas décadas, a esquerda, incapaz de formular uma alternativa programática ao neoliberalismo, acabou reduzindo-se ao pragmatismo eleitoral, oferecendo melhorias pontuais enquanto mantinha, no essencial, um sistema político submetido ao capital financeiro — com representação popular forte na forma, mas precária no conteúdo.

Ao estreitar o horizonte da imaginação política para o campo do possível, a esquerda assumiu para si a tarefa histórica de se tornar uma espécie de defensora — ainda que crítica — da ordem social existente. Foi nesse movimento que se abriu uma avenida para que grupos da ultradireita atravessassem, sem dificuldade, as massas de pessoas revoltadas e indignadas com o sistema, oferecendo a elas não apenas respostas simples (e, em geral, enganosas) aos seus problemas, mas também novos imaginários coletivos pelos quais pudessem acreditar, sonhar e lutar.

É nesse terreno que se articula uma combinação estranha, mas politicamente eficaz entre fundamentalismos religiosos, reacionarismos conservadores, extremismos antidemocráticos, influenciadores digitais e oportunistas financeiros. Apesar de sua heterogeneidade, todos compartilham uma mesma gramática: a esquerda e a ordem neoliberal passam a ser percebidas como partes de um mesmo sistema — velho, disfuncional, demagogo, injusto e excludente. Incapaz, portanto, de oferecer futuro.

A questão que se coloca, então, é menos sobre o diagnóstico do presente e mais sobre a capacidade de intervenção sobre o futuro. Como reconstruir um projeto de transformação social capaz de articular desenvolvimento material e sentido coletivo? Como disputar o imaginário em um contexto em que o neoliberalismo não apenas organiza a economia, mas coloniza a própria ideia de possibilidade? E como dialogar com uma juventude que já não reconhece a esquerda como força política indutora de futuro? É nesse deslocamento, entre diagnóstico e imaginação, que se encontra um dos principais desafios do nosso tempo.



Atualização da postagem "Para onde vai a Juventude,? em meio a redes digitais, IA, bets, empregos precarizados  e etc.. " Em 02/05/2026

 
Com seu estilo inconfundível, Renato Meirelles transforma o cenário global dos mercados emergentes brasileiros em conceitos simples e de fácil compreensão para qualquer audiência, estimulando o público a uma reflexão mais precisa sobre as oportunidades de mercado.

Seu refinado senso de humor e talento discursivo, aliados à experiência empresarial, lhe permitem extrair, do simples, o extraordinário e transformar cases do Instituto Locomotiva em analogias perfeitas às práticas mercadológicas.

Renato Meirelles é pai da Helena e Presidente do Instituto Locomotiva e membro do conselho de professores do IBMEC, onde é o titular da Cadeira de Ciências do Consumo e opinião Pública.

Comunicólogo e escritor, desde 2001, Renato conduz centenas de estudos sobre comportamento, consumo, cultura e opinião, liderando diagnósticos e estratégias de negócio para as principais empresas que atuam no Brasil. Foi fundador e presidente do Data Favela e, em 2012, fez parte da comissão que estudou a nova Classe Média Brasileira, na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE).

Considerado um dos maiores especialistas em consumo e opinião pública do país, foi colaborador do livro “Varejo para Baixa Renda”, publicado pela Fundação Getúlio Vargas e autor dos livros “Guia para enfrentar situações novas sem medo” e “Um País Chamado Favela”.


Cultura não é privilégio, é direito! E é nas periferias que ela pulsa todos os dias, nas batalhas, nos slams, nos saraus, enfrentando a falta de apoio e ocupando a cidade com arte e resistência. O edital Vozes da Periferia, da Secretaria Nacional de Juventude, é fruto dessa luta: vai premiar 100 coletivos com R$ 30 mil, reconhecendo quem já constrói cultura nos territórios. Agora é hora de acessar esse direito também na prática. As inscrições vão até 18 de maio, pelo Mapa da Cultura. 👉 https://mapa.cultura.gov.br/oportunidade/8010/#info Fortalecer a cultura periférica é fortalecer a democracia. ✊🏾


sábado, 11 de abril de 2026

Participação e controle social nas crônicas reflexivas, irônicas, às vezes ácidas, do Velhinho de Taubaté. por MÁRIO JÉFFERSON LEITE MELO (velhinho de Taubaté em construção)

 

O velhinho de Taubaté – Ou de como se perde o brilho no olhar

Um ativista da Cultura descreve, em poema mordaz, os limites e armadilhas do sistema de participação brasileiro. Há amplo espaço para sonhar e debater, mas esbarra-se com frequência desesperadora nas “harmonizações” e nos cortes de orçamento

Dizem que o Velhinho de Taubaté acredita em tudo.
Acredita em ata.
Acredita em grupo de trabalho.
Acredita em eixo temático.
Acredita em consolidação democrática.
O problema é que o Velhinho já tem 72 anos.
E o brilho do olhar já não é o mesmo.

Durante vinte anos ele percorreu fóruns, Teias, encontros estaduais, conferências municipais e plenárias vinculadas ao Sistema Nacional de Cultura. Do interior paulista às capitais, atravessando o Estado de São Paulo e o Brasil.

Sentou em cadeiras de plástico.
Falou em microfones falhando.
Redigiu propostas madrugada adentro.
Defendeu moções com voz firme e esperança juvenil.
Juvenil — mesmo depois dos cinquenta.
Juvenil — mesmo depois dos sessenta.
Porque a cultura faz a gente acreditar que ainda dá tempo.
Mas aos 72, o Velhinho percebeu que o tempo passa — e o método permanece.

O ritual é impecável.

O Ministério da Cultura convoca.
Os estados organizam.
Os municípios mobilizam.
Os militantes comparecem.

Divide-se em grupos.
Produzem-se relatórios robustos.
Aprova-se em plenária.
Fotografa-se o momento.
E no final, um pequeno núcleo “harmoniza”.
Harmoniza.
Palavra elegante.
Significa ajustar ao que já era considerado possível antes mesmo da primeira fala da base.

O Velhinho começou a perceber que há uma democracia que escuta — mas não necessariamente decide junto.

Escuta com atenção.
Registra com cuidado.
Mas consolida com filtro.
E quando alguém questiona, surge a frase pronta: “Precisamos ser realistas.”
O Velhinho aprendeu que “realismo” é muitas vezes o nome formal da contenção.

O desencantamento não veio de uma derrota isolada.
Veio da repetição.

Da sensação de que, independentemente do esforço, o desfecho sempre cabe dentro de limites já traçados por poucos.

Veio da percepção de que:

•          A ousadia é bem-vinda — até ameaçar orçamento.

•          A divergência é respeitada — até tensionar o centro.

•          A participação é celebrada — até precisar ser vinculante.

E então o brilho vai se apagando.
Não por falta de amor.
Mas por excesso de déjà vu.

Há muitos velhinhos assim no Estado de São Paulo.
E no Brasil inteiro.
Gente que dedicou a vida à cultura popular, à memória, aos Pontos de Cultura, às redes comunitárias invisíveis que sustentam o país real.
Gente que acreditou que o Sistema Nacional de Cultura seria o grande salto democrático.
Hoje, muitos estão cansados.
Não desistiram da cultura.
Desistiram da forma repetitiva que promete decisão compartilhada — mas entrega decisão concentrada.

E é aqui que alguém precisa colocar o dedo na ferida.
E torcer.
Para que sintam.
Porque essa dor não é apenas administrativa.
É simbólica.
É a dor de envelhecer dentro de um processo que não amadureceu.
É a dor de perceber que, depois de duas décadas, ainda participamos mais da construção do discurso do que da decisão final.

O Velhinho de Taubaté não quer destruir o sistema.
Quer que ele cresça.
Quer transparência radical.
Quer que cada proposta rejeitada venha acompanhada de justificativa pública.
Quer que a deliberação da base tenha peso real.
Quer que democracia cultural não seja apenas rito — mas poder compartilhado.

Aos 72 anos, o Velhinho ainda acredita.
Mas acredita com ironia.
E aprendeu que, às vezes, amar a cultura é dizer o que dói.
Estamos cansados de participar sem decidir.
O brilho no olhar não se perde de uma vez.
Ele se apaga aos poucos.
E quando alguém resolve colocar o dedo na ferida, não é para destruir.
É para ver se ainda há sangue correndo.
Porque enquanto houver sangue — ainda há vida.

MARIO JEFFERSON LEITE MELO
O atual Velhinho de Taubaté — ainda um ATIVISTA CULTURAL.

https://outraspalavras.net/poeticas/velhinho-de-taubate-ou-de-como-se-perde-o-brilho-no-olhar/

O Velhinho de Taubaté e a Comissão que Cabia num Elevador

O Velhinho de Taubaté sempre desconfiou de coisa muito organizada. Não da organização em si — que isso é virtude — mas daquela organização que organiza tanto… que esquece de incluir gente.

Outro dia, ele deu de cara com o nome: Secretaria da Cultura e Indústrias da Economia Criativa do Estado de São Paulo. Leu devagar. Depois mais uma vez. E soltou: — Rapaz… com esse nome todo, tinha que ter pelo menos uma escuta com legenda, tradução simultânea e café. Mas o café até pode ter. O problema é que a escuta… essa parece que ficou na recepção.

Vêm aí os editais da PNAB — Ciclo 2 — e o Velhinho, que não perde uma entrelinha, percebeu que a conversa está sendo conduzida por uma comissão. E aqui ele faz questão de deixar claro, antes que alguém fique nervoso: — A comissão é boa, viu Marcelo das Historias? Gente competente. Não é esse o problema.

Aí ele dá aquela pausa de quem vai apertar o parafuso certo: — O problema é que ela cabe num elevador… e a cultura não. Porque cultura, meu amigo, não é reunião de condomínio. Não se resolve com meia dúzia e uma ata. A própria lei que sustenta essa história toda — a tal da Cultura Viva — fala bonito: protagonismo social, gestão compartilhada, diálogo com a sociedade civil.

Traduzindo para o idioma do Velhinho: — É pra ouvir o povo, ué. Mas parece que alguém confundiu “gestão compartilhada” com “gestão escolhida”. E aí dá esse ruído. Ou melhor… esse silêncio.

O Pontão Bola de Meia  lá das bandas de São José dos Campos, não ficou esperando ser chamado pra festa. Foi lá, fez o que gente séria faz: escreveu ofício, protocolou, recebeu resposta. Resposta bonita. Redondinha. Educada. Mas o Velhinho, que já viu muito papel bonito na vida, coçou o queixo e disse: — Responder é fácil… quero ver escutar sem já ter decidido.

Em Taubaté, o Pontão da Rede — onde o Velhinho insiste em dizer que é só voluntário (e todo mundo finge que acredita) — resolveu entrar na conversa. Porque tem hora que ficar quieto é colaborar com o erro. E erro, quando é de processo, é mais perigoso que erro de pessoa. Pessoa erra e corrige. Processo errado vira regra.

Aí o Velhinho puxou da memória uma dessas frases antigas, que ele gosta de usar como quem não quer nada: “Na multidão de conselheiros há sabedoria.” (Provérbios 11:14) E completou, com aquele sorriso de canto: — Mas se a multidão não for convidada… fica só o conselho mesmo. E conselho sozinho, convenhamos, é quase um monólogo educado.

O que os Pontões estão pedindo não é palco. Nem protagonismo vazio. É algo bem mais simples — e, por isso mesmo, mais difícil: — Ser ouvido. Porque, veja bem, se os Pontões são ponte entre o Estado e a sociedade… ignorar os Pontões é tipo inaugurar ponte que não leva a lugar nenhum. Bonita. Mas inútil.

O Velhinho então se levanta, dá aquela ajeitada clássica no chapéu e solta, como quem entrega uma receita simples que ninguém quis seguir: — Ainda dá tempo de arrumar isso aí. Chama mais gente. Abre a roda. Escuta de verdade. Não pra cumprir tabela. Mas pra cumprir a lei… e, mais importante, o espírito dela. Porque política pública sem escuta é igual reunião longa: Todo mundo sai achando que resolveu… menos quem precisava ser ouvido.

E o Velhinho, que pode até ser velho, mas não é bobo, já avisou: — Cultura viva que não escuta… vira cultura decorativa. E disso, Taubaté já viu demais.

ABAIXO, EXPLICAÇÕES SOBRE SIGNIFICADOS, SIMBOLOS E SIGLAS, PARA QUEM NÃO TEM CONTATO MAIS PRÓXIMA COM O SEGMENTO CULTURAL. 

O Velhinho de Taubaté  menciona "Marcelo das Historias",  um membro real da comissão, deixando claro que sua crítica não é pessoal – ele não está atacando ninguém especificamente, e sim o processo.

Dois grupos culturais são citados: o "Pontão Bola de Meia", de São José dos Campos, e o "Pontão da Rede", de Taubaté. Esses são coletivos que fazem trabalho cultural de base, ligados diretamente às comunidades. Eles representam a sociedade civil organizada, ou seja, as pessoas que realmente vivem a cultura no dia a dia e que deveriam ser ouvidas nas decisões.

Conceitos e siglas explicados

O texto menciona a "PNAB – Ciclo 2". PNAB é a sigla anterior do ciclo 1 para Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, uma lei federal que destina dinheiro público para fomentar a cultura. O "Ciclo 2" é simplesmente a segunda fase de distribuição desse dinheiro. Os "editais" são os documentos que abrem as inscrições para os projetos culturais concorrerem a esse dinheiro – é como um "concurso de ideias culturais".

A "comissão" é o grupo de pessoas escolhidas para analisar esses projetos e decidir quem recebe os recursos. O problema apontado é que essa comissão é muito pequena e não conversa com quem está na ponta.

O texto também cita a lei "Cultura Viva", que defende o "protagonismo social" (o povo assumindo o protagonismo das decisões) e a "gestão compartilhada" (decidir em conjunto estado e sociedade). O Velhinho traduz tudo isso de forma simples: "é pra ouvir o povo, ué". Mas o que ele observa é que, na prática, alguém confundiu "gestão compartilhada" com "gestão escolhida" – ou seja, decidiram sozinhos quem participa e quem não participa.

Os Pontos e Pontões de Cultura  são justamente esses grupos de base que fazem a ponte entre o Estado e a sociedade. O Velhinho argumenta que ignorar os Pontos e Pontões é como construir uma ponte que não leva a lugar nenhum: bonita, mas inútil.

O que são Pontos e Pontões de Cultura

Os Pontos e Pontões de Cultura fazem parte de uma política pública federal chamada Cultura Viva, criada para descentralizar o financiamento da cultura e valorizar os grupos que já atuam nas comunidades.

De forma simples, o Ponto de Cultura é o grupo que está na ponta, dentro da comunidade. Pode ser uma associação de moradores, um grupo de capoeira, uma biblioteca comunitária ou qualquer coletivo cultural sem fins lucrativos. Ele recebe recursos do governo – geralmente entre R$ 90 mil e R$ 150 mil (ano)   – e é quem realmente coloca a cultura em prática no dia a dia, atendendo crianças, jovens e adultos do bairro.

O Pontão de Cultura, por sua vez, tem um papel diferente. Ele não faz tanto o trabalho direto com a comunidade, mas sim articula e fortalece vários Pontos de Cultura de uma região ou de um mesmo tema. Funciona como uma ponte entre os grupos de base e o governo, oferecendo capacitação, troca de experiências e organização de eventos coletivos. Por ter essa função mais ampla, pode receber valores maiores, chegando até R$ 2,4 milhões por projeto.

A principal diferença entre os dois é o alcance: enquanto o Ponto de Cultura atua localmente, como um "time da base", o Pontão de Cultura tem uma atuação regional ou temática, funcionando como um "coordenador" ou "escritório central" que ajuda vários Pontos a funcionarem melhor em rede.

Em resumo: o Ponto de Cultura faz a cultura na ponta; o Pontão de Cultura articula e fortalece essa rede. Um complementa o outro, e juntos formam uma estrutura mais democrática e participativa para a cultura no Brasil.



O velhinho de Taubaté acordou com uma inquietação daquelas que não vêm do corpo, mas da consciência. Não era dor nas juntas. Era dor na cidade. Olhou a folhinha — 08 de abril. Dia comum pra muita gente. Dia qualquer, desses que passam sem deixar rastro. Mas não para ele.

— Hoje tem eleição… — resmungou, meio desconfiado. Mas não era eleição de grito, de bandeira, de promessa em carro de som. Era dessas silenciosas, quase invisíveis, que decidem muito mais do que parecem. Era dia de CMDCA.

O velhinho ajeitou o chapéu com aquele gesto antigo de quem respeita o que vai fazer — e saiu.

Chegando lá, viu pouca gente. Pouquíssima, aliás. Nada de multidão, nada de disputa inflamável. Só algumas entidades, alguns representantes… e uma responsabilidade do tamanho do futuro.

— Ué… — cochichou — cadê o povo que vive dizendo que “ninguém faz nada”? Ninguém respondeu. E o velhinho entendeu. Porque ele já viu esse filme antes.

A cidade que grita quando falta política pública…, mas silencia quando é chamada pra construí-la. Ali, naquele espaço simples, estavam sendo preenchidas vagas que muita gente nem sabe que existem: uma cadeira de titular… outras oito de suplência…, mas o velhinho sabia — aquilo ali não era sobre cadeira. Era sobre presença. Era sobre decidir quem ajuda a pensar, fiscalizar e garantir direitos de quem ainda não tem voz forte: as crianças e os adolescentes.

— Isso aqui, meu filho… — disse ele, olhando pro vazio como quem conversa com a própria cidade — é onde se decide se o futuro vai ter cuidado… ou só discurso. Ele andou devagar pelo espaço. Observou os rostos. Gente de verdade. Gente que carrega projeto nas costas, que conhece nome, endereço, história. Gente que não aparece na foto…, mas sustenta o que a foto tenta mostrar. 

E então o velhinho sentiu um aperto. Não de tristeza. De lucidez. — O problema não é quem tá aqui… — murmurou — é quem não veio. Porque o CMDCA não é favor. Não é palco. Não é cargo pra vaidade. É instrumento. Instrumento de participação. De controle. De construção coletiva. Mas instrumento parado… enferruja.

E o velhinho, que já viu muita coisa virar sucata por abandono, resolveu falar mais alto — não pra quem estava ali, mas pra quem nunca aparece: — Depois não adianta reclamar que o recurso não chega… que o projeto não sai… que a política não funciona. Fez uma pausa. E completou: — Quem não ocupa… perde.

Ficou um silêncio daqueles que não constrangem — ensinam. Porque no fundo, bem no fundo, o velhinho sabia que a cidade não falta de gente. Falta de presença. Antes de ir embora, ele olhou mais uma vez para o espaço da eleição. Pequeno no tamanho… gigantesco no significado.

E deixou escapar, quase como um conselho antigo: — Democracia não é evento… é hábito. Bateu a bengala no chão. E saiu. Devagar, como sempre. Mas deixando pra trás uma pergunta que insiste em não calar:  Se o futuro das crianças passa por aqui… por que tanta gente ainda escolhe ficar de fora?

Perguntas e Respostas: O Velhinho de Taubaté e o CMDCA

P: O que significa a sigla CMDCA?

R: CMDCA significa Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente. É um órgão formado por pessoas do governo e da sociedade civil que decide como aplicar os recursos públicos destinados a crianças e adolescentes. Também fiscaliza e propõe políticas para essa área.

P: O que acontece no dia da eleição do CMDCA?

R: Nesse dia, são escolhidos os representantes da sociedade civil que vão ocupar as cadeiras do conselho. Metade dos membros vem do poder público e metade vem da sociedade (ONGs, associações, grupos comunitários). O texto menciona que estavam sendo preenchidas "uma cadeira de titular e oito de suplência".

P: O que significa "titular" e "suplência"?

* Titular é o membro efetivo do conselho, que tem direito a voto e participa de todas as reuniões.

  • Suplente é o membro reserva, que entra no lugar do titular quando ele falta ou é afastado.

P: O que é "controle social" citado indiretamente no texto?

R: Controle social é a participação da sociedade na fiscalização e na construção das políticas públicas. O CMDCA é um instrumento de controle social: a população pode acompanhar, cobrar e decidir como o dinheiro público é gasto na área da infância e adolescência. O Velhinho critica justamente o fato de as pessoas não usarem esse instrumento

O Velhinho de Taubaté! 😄

Segundo o criador, Mario Jefferson Leite Melo, o Velhinho de Taubaté nasceu como uma resposta à Velhinha de Taubaté, personagem clássico do humor brasileiro. Enquanto a Velhinha de Taubaté era conhecida por sua ingenuidade e fé cega nos governantes, o Velhinho de Taubaté foi criado como um contraponto, com um humor sarcástico e crítico.

Mario Jefferson Leite Melo queria criar um personagem que refletisse a realidade brasileira, com todas as suas ironias e contradições. O Velhinho de Taubaté é um homem comum, que vive em Taubaté, uma cidade do interior de São Paulo, e que não tem medo de falar o que pensa. Ele é um crítico social, que usa o humor para criticar os problemas da sociedade e fazer as pessoas refletirem.

O Velhinho de Taubaté foi criado em 2005, e desde então se tornou um ícone do humor brasileiro, com suas frases sarcásticas e críticas afiadas. Ele é um personagem que fala o que muitos pensam, mas não têm coragem de dizer. 😂


ANTES TARDE DO QUE SEM. NOTA SOBRE UMA DERROTA. Para onde caminha a humanidade que se diz cristã, ou uma boa parte... Por Romero Venãncio (UFS)

Não se trata de pessimismo ou niilismo, mas de olhar para dentro do problema com sinceridade de quem vive um momento histórico percebendo uma onda avassaladora que arrasta quase tudo que tem pela frente. Saindo da aparente abstração inicial, falamos de como um movimento criado de carismáticos a tradicionalistas calibrados por uma leitura neoliberal de mundo, dentro e fora da Igreja, ganhou as bases da Igreja Católica e solapou todo um projeto que nasceu do impulso do Concílio Vaticanos II, das conferências episcopais dos anos 60 e 70 e que gestou um caldo cultural progressista que atingiu o tecido social católico latino-americano. Como explicar o que estamos vendo diariamente nas redes digitais e na realidade eclesial?


Não acredito que exista explicação única para fenômenos sociais e religiosos. Mas acredito naquilo que prepondera em determinado momento histórico e vai se tornando hegemônico na estrutura social da organização. Nenhum fenômeno social é natural, nome já diz. Foi construído numa determinada conjuntura oportunizada por uma série de fatores. Por exemplo, do movimento carismático (com seu louvor exacerbado, a ênfase no indivíduo e seus problemas, o culto da família ideal católica e toda uma série de espiritualismos que supostamente combatia os pentecostais protestantes) aos vários tradicionalismos dentro desse catolicismo atual (que jogaram e jogam todo peso no liturgismo e no culto a tradição), chegamos em 2026 num momento oportuno para compreendermos onde estamos. 

Mais objetivamente, em apenas um exemplo: vi e revi o encontro do Pe. Paulo Ricardo com algumas irmãs do Instituto Hesed criado pelas freiras Maria Kelly Patrícia e Maria Jane Madeleine. Estavam numa mesa de cozinha tomando um café descontraídos e conversando de maneira simples sobre coisas graves na Igreja atual, mas mediado por câmeras de última geração, com imagem cinematográfica e som perfeito. Nas imagens, um palavreado relambido, tolo, espiritualista e completamente alheio ao mundo real de pessoas reais. Falas que definimos como conservadoras, mas mediadas por câmeras de última geração, lembremos. Falando para o mundo que as redes digitais podem atingir. As irmãs com aquela vozes suaves, passivo-agressivas, pieguistas e subservientes. O padre falando como uma espécie de “vigário de um Brasil da cabeça dele” pontificando sobre rosário, sobre uma ideia de Deus e a unidade da Igreja Católica no Mundo. “Somos um batalhão”, dizia o pe. Paulo Ricardo com ar triunfalista e sorumbático. Se juntarmos Frei Gilson, Canção nova, padres cantores, celebridades religiosas de plantão e uma legião de “youtubers” diariamente bombardeando “identidade católica”, rosário dia e noite, comunhão na boca, missa tradicional e ataques às conquistas do Concílio Vaticano II, temos um grande caldo cultural do que é o catolicismo hoje, independemente do que pensa ou faz a CNBB (sabendo que boa parte da CNBB faz parte de tudo isto!).

Para não dizer que não falei de flores, uma confissão pessoal: nunca acreditei em morte da Teologia da Libertação. O que ocorreu de fato foi um sufocamento, uma criminalização e total emparedamento de teólogos, freiras, leigos/leigas e parte considerável episcopado latino-americano e tudo tramado dentro própria Igreja Católica. E sabemos os nomes de quem tramou: a Cúria romana nas gestões de João paulo II e Bento XVI, Núncios apostólicos espalhados pelo mundo católico e toda uma mentalidade de classe média que odeia o mundo dos pobres. Essa gente turbinada com os mais avançados meios de comunicação  e um discurso conservador, tratoraram todos os espaços progressistas na Igreja. E o trator aqui não é apenas metáfora. Não sobrou nada? É evidente que não. Temos ainda uma “minoria abraâmica” lutando desesperadamente nas comunidades e timidamente nas redes digitais. Nessas redes está uma derrota real da Teologia da Libertação. O conservadorismo tecnológico da esquerda católica é de uma cegueira olímpica. O que restou foram raros bispos, poucos “padres da caminhada”, um laicato desorientado e sem capacidade crítica diante de “messianismos políticos” sem futuro. Desde o Concílio Vaticano II e o que veio dele, uma coisa é certa para o laicato; sem formação bíblico-teológica, não sobrevive nesse catolicismo rolo-compressor de massas e de cunho autoritário e ostentatório.

Uma coisa parece ser o horizonte de toda essa “euforia católica” triunfalista e vencedora advinda desses eventos massivos e pirotécnicos. Não vence a Igreja de Cristo, mas a Igreja do ego deles/delas. A realidade é implacável. Todo esse triunfalismo e moralismo com uma Igreja abarrotada de escândalos morais e sacrifícios inúteis. De número alarmante de suicídios de padres aos inúmeros abusos sexuais que solapam a teologia moral propalada pela Igreja. Uma Igreja modernosa tecnologicamente, mas homofóbica cheia de homossexuais reprimidos em seu seio, misógina e desamparada diante dos sofrimentos psíquicos promovidos pelo neoliberalismo avassalador. Figura deprimentes como pe. Fábio de Melo agoniza em praça pública chafurdando em sua formação tola de padre vítima desses seminários que perderam o rumo teológico e de “culto a panos” e tradicionalismo autoritário e vazio. Uma pena, mas é real.



sexta-feira, 10 de abril de 2026

Compromisso social. Gildo Alves Bezerra *


    Neste texto sobre a valorização profissional do magistério qualquer administrador deve saber que existe uma "obrigação mais ou menos solene" "da sociedade" em valorizar a educação. Visto que, este é um dos "princípios da educação pública  brasileira". 

     Faz necessário  saber que princípio se  refere  a "preceito, regra". "Art. 3º Inciso VII Valorização do profissional da educação escolar" (LDB) e a lei 11.738/ 2008 que instituiu o Piso Salarial Profissional  Nacional do Magistério Público  da Educação Básica.

   Então, aqueles que se propõem a ser administrador e fiscalizador da "coisa pública" não podem perder de vista os princípios e finalidades da educação nacional.  Afinal de contas vivemos em uma República?

    Outrossim, faz mister  lembrar que o STF decidiu que o piso incide sobre o vencimento básico, não sobre a remuneração total.

     Como também faz necessário lembrar aos executivos, fiscalizadores da aplicação da lei que "o reajuste é anual, geralmente em janeiro, baseado no crescimento do valor aluno do FUNDEB".

     Como não agir "movido pela utopia de pensar e reinventar" Sergipe? Visto que,  nossa elite age e pensa nosso Estado de forma patriarcal,  falocêntrica, misogina, eurocêntrica. 

    Em suma, a elite sergipana e brasileira agi e pensa como manter os privilégios da população masculina e branca, demonstra um racismo silencioso, onde a igualdade só existe perante a lei.

      "A literatura sempre foi um reflexo, mas também um elemento produtor de nossa identidade, (...)".

      Faz mister pensar, qual reflexo e qual identidade está sendo produzida em Sergipe. E também refletir e agir sobre o que nos diz Djamila Ribeiro  "a ausência ou a baixa incidência de pessoas  negras em espaços de poder não  costuma causar incômodo ou surpresa em pessoas brancas (...). E, para além  disso, é preciso  pensar em ações que mudem essa realidade".

       "Nas últimas décadas, pesquisadores de várias áreas têm voltado sua atenção para a discussão do papel crucial das práticas  de leitura e escrita na inserção dos alunos". (Abaurre, 2012: 07)

      Mas, como mudar a realidade da educação em Sergipe se nos falta a valorização profissional, políticas de formação continuada e as condições de trabalho, principalmente, para o desenvolvimento da prática de leitura e escrita dos(as) educandos(as).

      Mas, num Estado em que apenas 29,9% das escolas estaduais tem "bibliotecas escolares". Será que a renovação do acervo bibliográficos que retratam sobre as populações indígenas e negras já chegaram as salas de leitura? 

      Visto que, em apenas 17,6% das escolas municipais tem bibliotecas escolares. 

    O déficit de bibliotecas escolares é muito alto nas redes estaduais e mais gritante ainda nas redes municipais!!!!!! 

    Se este cenário já é gravíssimo. Visto que, dito de outra forma 70,1% das escolas estaduais não tem bibliotecas escolares e nos municípios 82,4% das escolas não tem bibliotecas. 

    Esta tragédia priva a maioria absoluta dos nossos educandos (as) do acesso à leitura. 

    Imaginem quando as bibliotecas escolares ou salas de leitura não fazem parte do projeto didático-pedagógico das unidades de ensino. 

    E mais dramático quando não há uma política de renovação do acervo, para que as crianças e adolescentes, tenham contato com as referências bibliográficas 

      Já pensou na Importância do Ato de Ler) de Paulo Freire, o patrono da educação brasileira e sergipana? "A leitura e a escrita são assuntos de interesse social". E também de Gilberto Dimenstein em "O cidadão de papel" quando vai tratar sobre a educação nos fala do "círculo tenebroso". E diz "um jeito de quebrar esse círculo tenebroso é investir em educação".

     Mesmo sabendo que o contexto educacional é diferente de quando  Dimenstein escreveu o livro ainda cabe a seguinte  citação "Tirando uma ou outra exceção (as escolas técnicas, por exemplo), a escola pública não tem boas bibliotecas, nem laboratórios de informática e de ciências, as classes são lotadas, os professores ganham baixos salários e dão aulas em diferentes locais ".

     Vejam governantes, principalmente, municipais e estaduais  que Gilberto Dimenstein ver a educação como investimento. Bem diferente de governos reacionários que ver na educação com gasto!!!! 

       Será que os órgãos públicos que deveriam fiscalizar o cumprimento das leis e a aplicação dos recursos públicos  e não fazem. 

    Mas, criminalizam a luta do magistério público sergipano podem se eximirem do epíteto de "algozes" da educação pública sergipana? 


*Trabalhador, professor de história, ativista politico-social, sertanejo de Nossa Senhora da Glória-SE e pai de educandos da "escola pública sergipana" e da Universidade Federal de Sergipe.


É tão bom realizar iniciação a produção audiovisual com a oficina “Cinema na Palma da Mão” do Ponto Ação Cultural Juventude e Cidadania. Relato da segunda semana.

A canção “É tão bom” , criada e lançada por Luiz Caldas no ano de 1987, veio a mente quando cheguei  em casa na terça feira, 07 de abril de 2026, pós finalização do primeiro dia de retomada da oficina, depos do recesso  decorrente da semana santa

"É táo bom

Quando a gente se entrega a beleza

Se sente em total realeza

Com a natureza e o amor,

É tão bom,

Quando cicatriza uma ferida

Abrindo as portas da vida

Prum beija-flor te beijar

É tão bom,

Quando a gente tem fé e acredita,

Que existe uma vida bonita,

Com quem cultiva uma flor

É tão bom,

Não se desesperar com besteiras,

Nem levar a sério as asneiras

Que algum ser humano tramou

É tão bom,

Ir colando os pedaços da vida,

E sentir toda ira incontida

Que teima em queimar todo ser

E esquecer toda a mágoa que molhou teus olhos

Saber que no fundo unicórnios, pavões e mistérios no ser, há !"

AQUI -  A interpretação da canção por Zeca Baleiro no programa Altas Horas.

E para mostrar a ligação da oficina  com a letra da canção, acima deixemos os aprendizes/participantes e as fotos falarem por si.. 

Sobre o conteúdo da da 3ª aula da Oficina de Audiovisual na terça-feira, 07 de abril.  

Foto: Zezito de Oliveira

"1 - O professor Marcel nos orientou sobre a elaboração de perguntas e importância do comportamento do entrevistador, para tornar a entrevista um momento descontraído e agradável,  evitando assim um clima de tensão por parte do entrevistado.

Tudo foi apresentado com citação de exemplos para melhor compreensão.

2 - O professor iniciou um trabalho de orientação individual a cada grupo, tratando diretamente de suas respectivas temáticas. [ Cada um dos três grupos de aprendizes apresentarão um minidoc de até 5’ de duração

3 - O grupo que estava com todos os participantes,foi orientado pelo professor a procurar cenário ideal para realizar a entrevista. Encontrado o cenário, o professor fez avaliação do local e aprovou.

4 - Para o nosso grupo, que vai entrevistar artista Antônio Vieira (o Brasinha), atualmente residindo no SAME – Lar de Idoso, ficou combinado que nesta quinta,  09/04, definiremos as perguntas a serem feitas, treinaremos uso de equipamentos, treinaremos técnicas da entrevista e tópicos do trabalho que deve ser discutido e aplicado por todo o grupo." Jaci Farias

"Paz e bem. Foi ótimo a aula dessa terça. Como eu tinha perdido na quinta feira. Então pra mim foi muito produtivo. E a parte da formação das perguntas foi perfeito 👏👏😍.. eu amei." Patricia

Esta aula foi ótima porque reorganizei as ideias e com isso firmei o conhecimento.” Grazy

Sobre a aula do dia 9 de abril, as impressões foram as seguintes: 

Foto: Marcel Magalhães - Entrevistado - Rafael (músico e integrante da Renovação Carismática Católica)
"Essa foi a primeira aula em que dois dos três grupos colocaram literalmente a mão na massa,  e com acompanhamento do professor Marcel Magalhães puderam colocar em prática o que aprenderam nas primeiras três aulas, assim como incorporar mais conhecimentos e habilidade, no modo "aprender fazendo", conforme formulado pelo pensador norte-americano John Dewey e que no Brasil foi difundido por Anisio Teixeira, em especial através do conceito de Escolas Parque  e por Ana Mae Barbosa com a metodologia do ensino triangular da arte.    Zezito de Oliveira – assessor pedagógico e de produção

Foto:  Iasmin Feitosa - Entrevistado - Padre José Soares (Pároco). 
"Nada se compara ao natural, ao orgânico! Não tem IA que consiga reproduzir o brilho, a luz o viço de uma cena feita naturalmente! Louvado seja Deus por toda a sua criação!

Lembrar sempre de preferência usar luz natural, quando possível.

Mas confesso que só pensava no trabalho que vai ser essa edição com três câmeras e ainda ter que coincidir o áudio." Grazy

"O dia de ontem foi fantástico, aprendi como fazer uma boa foto para filmar.  Foi muito produtivo, eu amei.. 😃😃. Obrigada Marcel" -Patricia

Foto:  Marcel Magalhães

Projeto contemplado no Edital de Chamamento Público nº 11/2024 – Rede Municipal de Pontos de Cultura de Aracaju, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura e da Política Nacional Cultura Viva. Ministério da Cultura e Governo Federal, com participação da Funcaju, Prefeitura de Aracaju.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

segunda-feira, 23 de março de 2026