terça-feira, 10 de abril de 2018

Lula, o humano. Artigo fundamental de Eliane Brum no El País.

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/04/09/politica/1523288070_346855.html

Lula, o humano

Compreender as contradições de Lula e do PT no poder é mais importante e urgente para o país do que construir um mito











Lula entre apoiadores após o discurso que fez em São Bernardo do Campo no dia em que se entregou à PF.
“Eu não sou mais um ser humano. Eu sou uma ideia.” A frase do discurso de Luiz Inácio Lula da Silva antes da prisão, no palanque do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, já se tornou célebre, como estava programado. Mas o símbolo deste momento para a história não foi o discurso, e sim a imagem feita de cima, em que aquele que acabara de se lançar não como candidato, mas como lenda, parece se transubstanciar na multidão: “Esse país tem milhões e milhões de Lulas”.

O problema daqueles que querem ser mitos em vida é a própria vida. A vida atrapalha o mito.


A vida lembra o mito, dia após dia, que ele é humano. Demasiado humano. E isso é perigoso para um mito. Consciente desse risco, Getúlio Vargas (1882-1954) se suicidou tendo o cuidado de deixar uma carta-testamento impecável para a história, num último lance de genialidade política. O “Pai dos Pobres” do Brasil do século 20 sabia que a vida atrapalhava a lenda.



Lula acredita que pode ser mito em vida, o corpo preso na cela da Polícia Federal da República de Curitiba, como uma morte simbólica, enquanto o mito atravessa o corpo da multidão. Foi nesse sentido os melhores esforços de Lula desde que a prisão se tornou uma possibilidade cada vez mais certa e mais próxima. As frases foram muitas nas últimas semanas, a mais messiânica esta aqui: “Eles estão lidando com um ser humano diferente, porque eu não sou eu, eu sou a encarnação de um pedacinho de célula de cada um de vocês”.



Que a foto histórica tenha sido feita de cima não é um dado qualquer: de cima, há mito; embaixo, no contato dos corpos, há realidades e sentimentos mais humanos

O fato de que aquela que já se tornou a imagem histórica do momento ter sido a foto feita de cima não é um dado qualquer. De cima há mito. De baixo, nos interiores da multidão, há realidades e sentimentos mais humanos. Mas a foto já marca um ponto, mostrando que de política Lula entende bem mais do que Sérgio Moro, que apostava na foto de Lula preso, vencido pela Operação Lava Jato. E terá que lidar com a foto de um mito nos braços do povo. Não é um peso qualquer para um homem tão vaidoso quanto Moro, que também aspira a um lugar bonito na história. E ninguém quer o lugar de um Carlos Lacerda.


A história, porém, é um ponto de interrogação, porque o passado é construído no futuro. E nada parece mais incerto do que o futuro no Brasil. A memória de Lula ainda está em disputa.


O futuro é imprevisto também na forma como a memória será construída no mundo que virá. Ainda não somos capazes de compreender como a internet repercute e muda o que chamamos de memória. O futuro do Lula histórico não será determinado pelos livros de história escritos por acadêmicos ou biografias feitas por jornalistas – ou pelo menos não só por eles – como aconteceu com Vargas e outros ícones da trajetória do Brasil. E isso já é um dado novo deste momento. Só saberemos mais adiante se um mártir de esquerda na cadeia tem a força que teve no futuro do passado, quando a internet não estava posta na construção das narrativas.

Lula está preso, não morto. Lula ainda está no jogo do presente.


1) O dia mais triste

7 de Abril de 2018 é talvez o dia mais triste da história recente. Para Lula, o humano, e para todos os brasileiros. Qualquer pessoa que não teve seus neurônios infectados pelo ódio – e uma das características do ódio é ser burro – é capaz de perceber a gravidade representada por um político que encarnava o projeto de pelo menos duas gerações de brasileiros, um projeto que de forma nenhuma pertencia apenas a ele, ser acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. E ser preso por isso sem provas convincentes no momento em que está em primeiro lugar nas pesquisas para a eleição de 2018.

Qualquer brasileiro sério é capaz de perceber o abismo que isso representa para o Brasil. A dureza desse momento não para Lula, mas para o que chamamos “nós”, o que de fato não existe, ou só existe em alguns momentos de síntese.



As panelas batendo com fúria nas janelas dos bairros “nobres” é o som da nossa vergonha como país: o ódio mascarado de alegria é obsceno


As panelas batendo com fúria nas janelas dos bairros “nobres” de São Paulo é o som da nossa vergonha como país. A de que as pessoas que tiveram o privilégio de estudar, num Brasil tão desigual, sejam incapazes de compreender a gravidade do momento histórico. Esse ódio mascarado de alegria é o rosto contorcido de uma distorção. Esse ódio mascarado de alegria é obsceno.


Mas estas são as pessoas do alto, as pessoas que podem olhar e interferir no mundo sem sair da janelinha. O fato de que batam panelas nos edifícios, em vez de irem às ruas lutar pelo Estado de Direito, num país tomado pelo Cotidiano de Exceção, é a expressão do fracasso do projeto de conciliação que Lula representou na prática, embora não tenha sido este o projeto que muitos que o elegeram acreditavam.


Perdemos muito no 7 de abril de 2018. Perdemos bem mais do que de 7X1. A forma como correu o processo de Lula, muito mais rápido do que a maioria, instalou dúvidas sobre a justiça. O julgamento do habeas corpus de Lula pelo Supremo Tribunal Federal, votando um caso particular em vez de decidir sobre a prisão após a segunda instância, instalou dúvidas sobre a justiça. A clara cisão do STF durante o julgamento instalou dúvidas sobre a justiça. A rapidez com que Sérgio Moro decretou a prisão instalou dúvidas sobre a justiça.


As instituições fracassaram. Não para os interesses privados de alguns, mas para o que deveriam representar para o conjunto dos brasileiros, o que deveriam ser para além do “sentimento social”. O STF, afogado em vaidades e convertido em palanque, se apequenou (um pouco mais). A maldição do protagonismo sem formação política, uma das mazelas dos dias atuais que atinge também juízes e procuradores, encolheu ainda mais a sensação de justiça. E tudo o que o Brasil não precisava neste momento tão delicado era de mais dúvidas sobre a justiça.



As instituições fracassaram. E o Supremo, afogado em vaidades e convertido em palanque, se apequenou



2) Um “reply” ao general

A intervenção do general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército Brasileiro, na véspera do julgamento do habeas corpus no Supremo, foi uma afronta à democracia. Mas como o governo que aí está já é uma afronta à democracia em sua própria existência, o general não recebeu nenhuma punição. Como o governo que aí está é resultado de um impeachment sem fundamento legal, da deposição de uma presidente ruim, mas legitimamente eleita, o general continua na ativa, ativíssimo. Como o governo é encabeçado por um presidente, Michel Temer (PMDB), atolado em denúncias de corrupção, rodeado por um ministério que em parte é uma quadrilha, outros militares já proclamaram ameaças à democracia e nada aconteceu com eles. Entre todas as transformações trazidas pelas redes sociais, ninguém imaginou que agora o Brasil seria assombrado também por “generais de Twitter”.


Ao se manifestar pelo Twitter na véspera do julgamento de um ex-presidente pela Suprema Corte, o general afirmou: “Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais”.



Sim, general, nós repudiamos a impunidade dos assassinos, sequestradores e torturadores da ditadura civil-militar: já passou da hora de julgar os criminosos a serviço do Estado

Sim, general, brasileiros como eu reivindicam há décadas que os militares e os agentes civis que assassinaram, sequestraram e torturaram milhares de pessoas no Brasil, inclusive crianças, a serviço do Estado e durante uma ditadura que durou 21 anos sejam investigados, denunciados, julgados e responsabilizados. Eu e muitos repudiamos a impunidade dos assassinos, sequestradores e torturadores do regime de exceção que se instalou quando os militares colocaram seus tanques nas ruas, apoiados por parte da sociedade civil.


Tenho escrito neste espaço que parte da corrosão da atual democracia se deve ao fato de que o Brasil não fez memória sobre a ditadura. E só se faz memória com responsabilização. Com assassinos, sequestradores e torturadores de farda ou à paisana circulando livremente pelas ruas, o país entende que a vida humana vale muito pouco. E este é um dado histórico do Brasil, país fundado sobre os corpos de indígenas e de negros, que a impunidade dos criminosos do regime acentuou, com as consequências que aí estão.


Assim, já passou há muito da hora de acabar com a impunidade dos agentes do Estado que assassinaram, torturaram e sequestraram. Mas, em vez disso, o senhor, general, que acabou de repudiar a impunidade no Twitter, pediu uma espécie de anistia prévia aos militares que hoje participam da intervenção federal no Rio de Janeiro, para que não sejam responsabilizados quando matarem civis: “Os militares precisam ter garantia para não enfrentar daqui a 30 anos uma nova Comissão da Verdade pelo que vamos enfrentar no Rio durante a intervenção”.


Assim, general, nosso conceito de “cidadão de bem” é diferente. Cidadão de bem não mata, não tortura e não sequestra. E cidadão de bem não defende a impunidade de assassinos, torturadores e sequestradores, tenham eles fardas ou não, estejam a serviço do Estado ou não. E cidadãos de bem não botam uma baioneta no pescoço do Supremo Tribunal Federal.


O senhor é um funcionário público, pago pelo povo brasileiro, e a Constituição afirma que sua intervenção foi indevida.


3) O quanto perdemos todos

Se a vida que segue pode atrapalhar Lula no seu propósito de virar lenda, o mito que Lula quer se tornar atrapalha a vida dos brasileiros.



Com o controle da iconografia da sua prisão, as contradições do Lula humano foram apagadas pelo Lula mito

Lula controlou a iconografia da sua prisão. Ao fazê-lo, as contradições do Lula humano foram apagadas pelo Lula mito. Seus oponentes podem ter conseguido impedi-lo de ser candidato nas eleições de 2018, pleito em que ele lidera nas pesquisas de intenção de voto. Mas não conseguiram fazer com que isso soasse como justiça para uma parcela significativa da população, acentuando a crise do país e interditando ainda mais a possibilidade de debater, com a seriedade necessária, o múltiplo e contraditório legado de Lula.

É claro que há uma parcela que bate panelas e veste a camiseta da seleção, mas há muitos que não. E mesmo críticos aos governos de Lula e de Dilma Rousseff sentiram-se enojados pela forma como o processo foi conduzido pelas instituições.

Sem compreender as contradições de Lula no poder (e de Dilma Rousseff, sua escolhida, logo em seguida), torna-se difícil construir um novo projeto de esquerda capaz de aglutinar uma parte do Brasil. E mesmo a direita, pelo menos a séria, deveria desejar que existisse um novo projeto de esquerda, porque para a democracia esse diálogo é essencial.








As principais vozes de resistência das periferias urbanas hoje nasceram da ampliação do acesso a mundos até então barrados, garantido pelos governos do PT

O Brasil governado por Lula teve aumento real de salário mínimo, teve redução significativa da miséria, teve ampliação do acesso à universidade, teve melhorias importantes no Sistema Único de Saúde (SUS), teve cotas raciais (uma ação afirmativa ainda tímida, mas essencial), teve garantia de crédito para os mais pobres. Isso não é pouco. Não é mesmo. E se fará sentir no Brasil por muitas décadas. As principais vozes de resistência das periferias urbanas hoje nasceram dessa experiência e desse acesso a mundos até então barrados.

A realidade de um operário ocupando o poder pelo voto num país como o Brasil teve um impacto na vida dos brasileiros que não há como dimensionar com exatidão, porque em grande parte subjetivo, mas que é uma enormidade. E isso Lula fez – e ninguém pode tirar dele.

Mas o Brasil governado por Lula, principalmente após o segundo mandato, e levado adiante por Dilma Rousseff, sua escolhida, aliou-se ao que havia de pior nas oligarquias brasileiras, de José Sarney aos ruralistas, enfraqueceu os movimentos sociais, capitulou diante de questões como a descriminalização do aborto e a legalização das drogas, avançou pouco (no caso de Dilma quase nada, e às vezes retrocedeu) na regularização fundiária e na demarcação de terras indígenas e unidades de conservação, acentuou o aumento da população carcerária em condições torturantes, ao manter a política falida de “guerra às drogas”, criminalizou manifestantes e manifestações e, por fim, fez as grandes hidrelétricas na Amazônia – Santo Antonio e Jirau, no rio Madeira, e Belo Monte, no Xingu, desencadeando processos de graves violações aos direitos humanos e agravando o desmatamento da floresta e a contaminação dos grandes rios amazônicos.

E, importante: em seu projeto de conciliação, Lula não tocou na renda dos mais ricos.








Lula revelou-se incapaz de compreender outras formas de viver e de se relacionar com a natureza que não fossem as mediadas pela dinâmica capital-trabalho

A visão de Lula para a Amazônia mostrou-se muito semelhante à da ditadura civil-militar (1964-1985). É uma visão colonizadora e exploradora. E provocou uma grande destruição, ainda em curso, dos povos da floresta, os humanos e os não humanos.

Lula é um homem plantado no século 20 e parece só conseguir enxergar o mundo em termos de capital-trabalho. Revelou-se incapaz de compreender outras formas de viver que não fossem as mediadas pelo emprego, nem outro conceito de felicidade que não fosse ter churrasco no fim de semana, cerveja na geladeira e um carro na garagem.

Como homem do ABC Paulista, muito mais do que menino do semiárido nordestino, até nos últimos discursos ele defendia os carros nas ruas em vez de transporte público coletivo e de qualidade. Seu governo e especialmente o de Dilma Rousseff calaram as vozes da floresta e os modos de viver da floresta, silenciando o que havia de mais original nos Brasis. Lula foi avisado disso, mas nunca foi capaz de escutar – ou nunca lhe foi conveniente escutar.

Há vários Lulas. E há inclusive o líder absoluto do partido que se corrompeu no poder como outros partidos que o antecederam. O que não é de forma alguma um dado qualquer, porque o PT foi apoiado por pelo menos duas gerações de brasileiros por ter se comprometido a levar ética à política. Lula elegeu-se dizendo que sabia que não podia errar. E errou. E muito.

Com o Direito sem Justiça que marcou a sua prisão, as contradições são apagadas no esforço do mito. E as contradições não devem e não podem ser apagadas. Não por uma questão de vingança, como tanto querem alguns oportunistas, mas porque é urgente recriar um projeto para o país. E não se cria um projeto sem acolher todas as complexidades de uma experiência tão importante quanto foi a do PT no poder.








Com a sensação de que a prisão foi uma injustiça, a cisão entre os Lulas continua. E as perguntas difíceis são adiadas mais uma vez

No caso de Lula, o Brasil está submetido aos afetos. Quem odeia Lula, como encarnação de todos os males, só enxerga uma parte. E quem ama Lula, também como ato desesperado para não se ver diante das ruínas de um projeto tão caro, se mostra incapaz de ver a outra parte. É chocante ler análises da esquerda que acham possível escrever sobre o momento negando a corrupção evidente do PT no poder. E ignorando o que Belo Monte causou na vida justamente dos mais desamparados. Assim como é chocante ver Lula demonizado por gente que se beneficiou enormemente com o seu governo, um governo que não deixou apenas os pobres menos pobres, mas os ricos mais ricos.

Com a sensação de que a prisão foi uma injustiça, a cisão entre os Lulas continua. E se torna cada vez mais difícil juntar todas as partes do quebra-cabeça dessa experiência de poder, inclusive e especialmente suas contradições. Sem contar que, para parte da esquerda, tanto a que se sentiu muito traída quanto a que começava tardiamente a se sentir constrangida, a criação de um mártir pode ser o melhor acontecimento. Assim, as perguntas difíceis, que são as mais importantes, ficam adiadas para talvez nunca mais. Tanto as que cada um deve fazer a si mesmo, como exercício interno, quanto as que devem ser feitas e debatidas em público, na expressão coletiva.

Esse constante adiamento das perguntas difíceis é mais uma tragédia num país que vive aos espasmos desde 2013. Sem as perguntas difíceis, o Brasil continuará girando em falso. Pode ser bom para o mito Lula, assim como para outros candidatos a mito e seus egos gigantescos, mas é ruim para o Brasil e para os brasileiros. 

4) O que eu desejaria para Lula e o Brasil


Eu acreditaria em justiça no Brasil se, primeiro, os agentes do Estado que assassinaram, sequestraram e torturaram durante a ditadura civil-militar fossem julgados e punidos. Eu acreditaria em justiça no Brasil se todos os aqueles que são responsáveis pelo genocídio cotidiano dos jovens negros nas periferias urbanas, policiais e não policiais, fossem julgados e punidos. Eu acreditaria em justiça no Brasil se os assassinos de Marielle Franco e Anderson Gomes fossem denunciados, julgados e punidos. Eu acreditaria em justiça no Brasil se todos os mandantes e pistoleiros que executaram ambientalistas, defensores de direitos humanos, pequenos agricultores, indígenas, ribeirinhos e quilombolas na Amazônia fossem investigados, denunciados, julgados e punidos.








Eu acreditaria em justiça no Brasil se todos os presos sem condenação no sistema penitenciário fossem libertados

Eu acreditaria em justiça no Brasil se todos os presos sem condenação no sistema penitenciário fossem libertados e o Estado pagasse indenização pelo período que ficaram encarcerados sem julgamento. Eu acreditaria em justiça no Brasil se todos as mulheres presas por aborto fossem libertadas. Eu acreditaria em justiça no Brasil se ninguém mais fosse preso por portar quantidades pequenas de drogas nas favelas e periferias e as ações se concentrassem em quem realmente lucra com o mercado ilegal de drogas e de armas.

Eu acreditaria em justiça no Brasil se todos os corruptos, de todos os partidos, a começar pelos que estão hoje no Executivo e no Congresso, fossem julgados e presos. Eu acreditaria em justiça no Brasil se todos os corruptos da iniciativa privada fossem julgados e presos, assim como aqueles empresários que colaboraram com o assassinato, a tortura e o sequestro de pessoas na ditadura-civil militar.

Eu acreditaria em justiça no Brasil se a ministra Rosa Weber fosse criticada por ter suspendido por liminar, quatro dias antes do Natal, os efeitos expansivos da proibição do amianto no Brasil. A justificativa da ministra era de que seria necessário esperar o prazo para os advogados apresentarem embargos de declaração contra o entendimento do plenário, que estendeu a proibição da fibra cancerígena para todo o Brasil. Ela, que tanto defende a decisão do colegiado, tomou uma decisão monocrática. Enquanto isso, o amianto, que tem matado milhares de brasileiros há décadas e é proibido na Europa e em vários países do mundo, segue sendo produzido e comercializado nos estados em que não é proibido: a maioria.

Eu acreditaria em justiça no Brasil se os brasileiros cobrassem de Lula e de Dilma Rousseff por que razão nunca levaram adiante o banimento do amianto, que matou e adoeceu – e segue matando e adoecendo até hoje – trabalhadores pobres da indústria, trabalhadores cuja vida pelo menos Lula deveria conhecer.








Eu acreditaria em justiça no Brasil se Lula e Dilma fossem responsabilizados por construírem Belo Monte violando direitos humanos e não humanos

Eu acreditaria em justiça no Brasil se Lula e Dilma Rousseff fossem responsabilizados pela violação de direitos humanos e não humanos na floresta amazônica, e especialmente na construção de Belo Monte. E eu acreditaria ainda mais em justiça no Brasil se os brasileiros se importassem com isso.

Eu desejaria que Lula fosse candidato a presidente e que fosse derrotado nas urnas pelo que fez no Xingu e em outros rios amazônicos. Pela Força Nacional enviada pela sua escolhida, Dilma Rousseff, para reprimir operários em greve no canteiro de obras de Belo Monte. Pela Força Nacional impedindo o direito de manifestação de indígenas e ribeirinhos no canteiro de obras de Belo Monte. Pelos ribeirinhos e pequenos agricultores e pobres urbanos que assinaram com o dedo papéis que não eram capazes de ler para que Belo Monte pudesse ser construída sem “entraves” humanos. Pelo etnocídio indígena na região do Xingu causado por Belo Monte. Eu acreditaria em justiça no Brasil se Lula fosse derrotado por ter materializado Belo Monte no Xingu e, com isso, ter produzido pobres na periferia de Altamira.

Se isso acontecesse, uma derrota pelo voto em nome dos direitos humanos e dos direitos dos povos da floresta, o Brasil avançaria. Mas isso não acontece no Brasil atual.

Ainda assim eu desejaria que Lula fosse candidato e disputasse a eleição no processo democrático. E possivelmente ele venceria, pela simples razão, que também é legítima, de que a maioria começa a concluir que a vida estava melhor no seu governo. E os brasileiros são sobreviventes – e muito pragmáticos.

Mas eu desejaria também que Lula fosse candidato e fosse eleito para que as pessoas tivessem que lidar com o fato de que pouco se importam com a corrupção desde que sua vida esteja razoável. Mas principalmente eu desejaria que Lula fosse candidato para que as pessoas sejam obrigadas a lidar com o fato de terem votado e talvez eleito o presidente que tornou Belo Monte possível. E assim tivessem que lidar com a sua hipocrisia cheia de verbos e de boas intenções, protegidas pela distância dos que morrem de várias maneiras no Xingu e nas Amazônias. E tivessem que lidar com o fato de que sua preocupação com os direitos humanos é seletiva.

Mas o Direito sem Justiça interditou o processo dos desejos. 

5) A volta do humano


A mística que antecedeu a prisão – missa + discurso – foi cuidadosamente planejada para que Lula voltasse a ser o Lula que já não é. O Lula que liderou as greves do ABC Paulista, fundou o PT e fez as Caravanas da Cidadania. A linguagem, os gestos, o conteúdo. Mas o que já não é não pode voltar a ser.

Há, entre um Lula e o outro, pelo menos oito anos de poder direto, como presidente, mais os cinco anos e meio de Dilma Rousseff, sem contar a Carta ao Povo Brasileiro, na eleição de 2002. O discurso soava, como tem soado há algum tempo, uma imitação do Lula jovem feita pelo Lula velho.

Mas num mundo já diferente. Como algumas bobagens sobre as mulheres que se tornaram constrangedoras, os habituais jogos para a torcida e uma espécie de conversão em Jesus. Esse Lula era, já não é. O que não impede que esse discurso ainda mova – e comova – muita gente que gostaria que ele ainda fosse o que já não pode ser.

Neste sentido, o de Lula foi um discurso mais de apagamentos, o que é fundamental para quem pretendia sair dali como mito, do que de construções. Por isso também a foto se tornou muito mais importante. O domingo passou com várias mensagens de WhatsApp: “Essa foto é a foto oficial que Lula enviou e pede que seja a mais disseminada por todos. Eles terão a foto que tanto querem, Lula preso terá o povo”. Não há como afirmar se foi “Lula que enviou”, mas é possível afirmar que ele sempre foi um bom biógrafo de si mesmo. Não deixa de ser fascinante essa construção de mitologia em vida.








O ato mais importante do discurso foi Lula ter lançado Guilherme Boulos (PSOL) e Manuela D'Ávila (PCdoB) como seus herdeiros, pregando a união das esquerdas

Para efeitos imediatos, o ato mais importante do discurso foi o gesto de lançar, simbolicamente, Guilherme Boulos (PSOL) e Manuela D'Ávila (PCdoB) como seus herdeiros, pregando a união das esquerdas neste momento limite. Ambos são pré-candidatos à presidência nas eleições de 2018. Boulos representa uma das forças mais potentes deste momento, os movimentos de sem-teto nas cidades, que de certo modo ocupam o lugar que foi do MST na trajetória de Lula. Manuela carrega a potência dos novos feminismos, mostrando na vivência da política também uma experiência diversa de maternidade. São as duas figuras mais interessantes da nova política.

O gesto marca também o abismo do PT. Em grande parte por causa da onipresença de Lula, não há ninguém no próprio partido com força suficiente para representar o futuro e liderar uma aliança de esquerda. Lula não fez seu Lula dentro do PT. Nem permitiu que fizessem.

Mas o gesto foi bonito – e se há uma cena com grandeza neste momento, é a de Guilherme Boulos e Manuela D’Ávila juntos. Ainda falta se mostrarem capazes de compor de fato com a floresta e os outros modos de viver dos Brasis.

Compreender o homem que Lula é, assim como a experiência do PT no poder, é mais importante e urgente para o país do que construir um mito. Sem acolher as contradições, o Brasil seguirá com “um enorme passado pela frente”, apesar de tudo o que representou a chegada de um operário ao poder.


Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum




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quinta-feira, 5 de abril de 2018


E agora Brasil? Premissas importantes para o debate politico nos próximos anos, após a decisão do dia 04/04 do STF.

 sábado, 16 de abril de 2016

João Paulo da Silva
Prezados,



Espero de coração que todos aqui que tenham algum apreço por mim e respeitam minimamente meu trabalho enquanto historiador e mestre e doutorando em sociologia reservem cinco minutinhos do seu dia para ler esse texto. Caso contrário, não percam tempo e continuem com as próprias convicções.

Relutei muito em usar esse espaço para me posicionar, justamente por estar cansado de debates e embates com quem simplesmente não busca entender algo além de suas paixões. Mas não posso me furtar em marcar uma posição pública nesse momento histórico tão perigoso.


Votei em Lula em 2006 e em Dilma em 2010 e 2014. Não tanto por afinidade ideológica, afinal sempre estive mais à esquerda do projeto político do PT. Mas por reconhecer que Lula conseguiu avanços jamais vistos na História do Brasil: tirou o país do mapa da fome, ampliou o poder de consumo das classes baixas (consequentemente ampliando a classe média), ampliou consideravelmente o número de universidades públicas e o número de bolsas para pesquisa, desenvolveu regiões do país que jamais tiveram o olhar de outras gestões, entre outras tantas coisas. 


Em resumo: Lula, o “comunista”, buscou implantar algo parecido com o capitalismo no Brasil. Inseriu o maior número de pessoas na lógica do sistema capitalista: trabalho, produção, ascensão social e consumo. Qualquer análise para além disso só pode ser devaneio da turba anticomunista hidrofóbica que existe no país. 


Obviamente que ao optar por esse caminho, Lula buscou um pacto entre as classes. Buscou agradar latifundiários e sem terras, banqueiros e classe média, empresários e trabalhadores. Dois exemplos práticos: 1) O REUNI, que ampliou o número e o investimentos em universidades federais veio acompanhado do PROUNI e do FIES, que transferiu boas parcelas do dinheiro público para os empresários da educação em troca da ampliação do acesso ao ensino superior; 2) O “Minha Casa, Minha Vida” permitiu com que muita gente pudesse comprar um imóvel e ao mesmo tempo que aqueceu o mercado da construção civil (gerando muita renda e empregos diretos e indiretos) e enriqueceu ainda mais várias construtoras no país. Lula buscou conciliar, o que lhe valeu inúmeras críticas e abandono de quem estava mais à esquerda desse projeto. Foi um erro? No meu ponto de vista, não. Mesmo tendo uma posição ideológica, filosófica e utópica muito mais à esquerda do que o Lula, sempre enxerguei nesse tipo de governo algo mais ou menos limítrofe possível de se fazer em uma democracia dentro do sistema capitalista. Daria para ir além? Talvez. Talvez uma reforma tributária que desonerasse os mais pobres (tirando o imposto sobre o consumo) e os pequenos e médios produtores e empresários e cobrasse mais de quem tem mais. Mas pensem? Se Lula e o PT foram simplesmente descartados fazendo uma política de conciliação, imaginem o que aconteceria se ele optasse por uma política de enfrentamento.


Dito isso, lendo e ouvindo inúmeros especialistas nesses últimos tempos, sejam eles juristas, sociólogos do direito e/ou jornalistas, muitos deles antipetistas e antilulistas de carteirinha (Reinaldo Azevedo, por exemplo, foi o jornalista que criou o termo Petralha), tenho absoluta certeza que Lula foi condenado sem provas. O apartamento do Guarujá, causa da condenação, que teria sido adquirido por Lula com fruto de corrupção, está penhorado para pagar dívidas da empreiteira OAS. Oras, mas o apartamento é de Lula ou da OAS? Não há provas apresentadas nesse caso. Se existem, elas não estão arroladas no processo. 


Isso faz de Lula inocente? Não necessariamente. Isso quer dizer que ele foi condenado nesse processo sem provas. Você pode até ter a certeza que ele roubou o país. Mas a nossa convicção deveria valer para justiça tanto quanto a flatulência de um equino. Em qualquer estado democrático de direito cabe ao acusador apresentar as provas para condenar o acusado. Acusar baseado em um desejo coletivo de um grupo social é algo típico de um estado de exceção. A própria contradição da ministra do STF Rosa Weber (no caso do Habeas Corpus) em dizer que vota contra a constituição para fazer valer a vontade da maioria (e, segundo alguns especialistas, se dobrando às ameaças do exército) é sinal cabal desse estado.


Eu acredito que Lula é inocente? Primeiro: aceitar as doações milionárias das empreiteiras para fazer campanha era a regra do jogo eleitoral. Era impossível disputar as eleições com chances de ganhar sem essa verba. TODOS os grandes partidos abocanharam fatias enormes dessa doação: PT, PSDB, PMDB, DEM e cia limitada (Jair Bolsonaro, inclusive). Segundo: convenhamos que um presidente não precisa de dinheiro de corrupção para comprar um apartamento no Guarujá – seria o homem que teria a inteligência para ser o chefe do maior esquema de corrupção da História do país descuidado o suficiente para aceitar um apartamento fruto de corrupção, perfeitamente possível de comprar com o seu próprio salário? Pode ser. Eu não acredito. Mas pode ser. Contas na Suíça, apartamento em Paris, mansão em Miami? Não. Um AP no Guarujá. Então Lula é inocente? Até agora provas não foram apresentadas. Portanto, segundo o estado democrático de direito que defendo, ele ainda é inocente. 


Assim, Lula até o momento está sendo vítima de clara perseguição política. A justiça o julgou em uma velocidade inédita. Condenou sem provas. Não permitiu que ele recorresse em liberdade até o último recurso baseado em votos que manifestadamente contrariou a constituição. Teve seu mandato de prisão expedido em tempo recorde. Mas isso tudo importa menos do que a segunda informação: ele foi condenado sem provas. Veja bem. Não estou dizendo que só ele foi preso enquanto todos os outros (Aécio, Temer, Alckmin...) estão soltos. Estou dizendo que ele foi condenado SEM PROVAS. Não estou dizendo que ele é inocente. Não estou dizendo que é culpado. 



Se você concorda com a prisão do Lula e chegou ao final desse texto, espero que você reflita minimamente sobre ele. Estou à disposição para dialogar, mandar textos, dados estatísticos e fontes. É só me escrever. Faço questão de respondê-los pessoalmente, na medida do possível. Caso você continue concordando com a prisão do Lula, ao menos admita que você abre mão do estado democrático de direito para encarcerar aqueles que você não gosta (ou considera culpado de alguma coisa). Só não esqueça: hoje é o Lula. Amanhã pode ser você.


EDIT-PS: Pessoas, escrevi esse texto para "consumo interno" entre as pessoas que tenho amizade e que não compactuam da mesma visão. A postagem, entretanto, ganhou dimensões inimagináveis para mim. Peço desculpas não conseguir responder todos que me enviaram comentários e/ou mensagens inbox. Não sou blogueiro, nem trabalho com internet. Jamais conseguiria dar conta de responder um terço das mensagens que recebi. Quanto aos dados que prometi, cheguei a enviar para algumas pessoas. Mas pesquisem! Recorram a trabalhos científicos sobre os temas. Cruzem dados. Usem fontes nacionais e internacionais. Jamais aceitem nenhuma visão como a única do processo (nem a minha). Tentem entender o outro ponto de vista. É um exercício interessante de empatia. Abraços e paz!
SOBRE O 'MITO' LULA...Imagina um Raul Seixas, um Gandhi, Luther King, Mandela (só homem, mulher tá cuidando das crianças na História da humanidade, são mortas cedo ou têm suas histórias abafadas)...
Mas, imaginem esses caras SEM EGO! Um ego fraco faz o que mesmo? Muda alguma coisa?
Gandhi mudaria a vida do povo indiano pedindo desculpa por ter ego? Por ser quem era?
A diferença está entre um ego forte num ser humanizado ou num nazista, fascista, desumano
Um dos pontos da luta de Gandhi era a igualda para as mulheres indianas. Lula foi capaz de levar uma mulher à presidência dessa republiqueta onde todo mundo dá pitaco apaixonado em tudo... Até eu
Desculpe, Eliane Brum... Quem sou eu pra falar, né mana?











Do que mais sofrem adolescentes e jovens e do que mais morrem? Para colaborar com escolas, equipes de saúde, de assistência social e iniciativas culturais.

O que mais mata os jovens no Brasil e no mundo, segundo a OMS

  • 16 maio 2017

A violência interpessoal é a principal razão pela qual jovens de 10 a 19 anos perdem a vida precocemente no Brasil, revelou a Organização Mundial da Saúde (OMS) à BBC Brasil. A informação vem de um estudo global sobre óbito de adolescentes, publicado nesta terça-feira. A OMS estima que 1,2 milhão de adolescentes morrem por ano no mundo - três mil por dia.
De acordo com a entidade, as principais causas de mortes entre adolescentes brasileiros de 10 a 15 anos são, nesta ordem: violência interpessoal, acidentes de trânsito, afogamento, leucemia e infecções respiratórias.
Já jovens na faixa de 15 a 19 anos morrem em decorrência de violência interpessoal, acidentes de trânsito, suicídio, afogamento e infecções respiratórias.
A OMS repassou esse ranking estimado com exclusividade à BBC Brasil, mas não ofereceu números absolutos para ilustrar a lista, pois o estudo foi organizado por regiões.

Mortalidade de jovens no mundo

O que mostra o levantamento da OMS

1,2 milhão
de óbitos precoces por ano
  • 3 mil mortes por dia no ano de 2015
  • 43% de mortes em países de baixa-média renda nas Américas (incluindo Brasil) são atribuídas à violência
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O Global Acceleration Action for the Health of Adolescents (Ação Global Acelerada para a Saúde de Adolescentes, em tradução livre) não avalia países individualmente, mas áreas econômicas do planeta. O Brasil está inserido na categoria "países de renda baixa-média das Américas".
A tendência observada dentro desse grupo também aponta a violência interpessoal como principal causa da morte, representando 43% dos óbitos.
"O Brasil se insere exatamente no perfil da região", disse à BBC Brasil, por email, Kate Strong, especialista da OMS para o monitoramento de crianças e jovens.

Violência interpessoal

O conceito de violência interpessoal explorado no documento é bastante amplo, pois engloba desde a preponderante agressão relacionada às gangues e ao narcotráfico até o feminicídio.
"Inclui assassinatos, agressão, brigas, bullying, violência entre parceiros sexuais e abuso emocional", descreve o documento.

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Image caption Violência doméstica também tem papel preponderante entre as causas de óbitos
De acordo com números da edição de 2016 do relatório, publicado pela iniciativa Mapadaviolência.org.br, a situação é preocupante. "A principal vítima da violência homicida no Brasil é a juventude", afirma o documento nacional.
Nesse levantamento, que compilou dados de 2014, foi observado que jovens de 15 a 29 anos de idade representavam aproximadamente 26% da população do país, mas a participação deles no total de homicídios por armas de fogo era desproporcionalmente superior. O peso demográfico dos jovens nos casos de mortes com armas correspondem a quase 60% dos crimes.
No resto do mundo, as cinco principais causas de morte entre jovens de ambos os sexos, de 10 e 19 anos são: acidentes de trânsito, infecções respiratórias (pneumonia), suicídio, infecções intestinais (diarreia) e afogamentos.
Mais de dois terços dessas mortes ocorrem em países em desenvolvimento, revelam os dados de 2015 da OMS.
Dividindo por sexo, a estimativa aponta que, no mundo todo, meninos de 10 a 19 anos morrem principalmente por acidentes de trânsito, violência interpessoal, afogamento, infecção do sistema respiratório e suicídio.
As meninas da mesma faixa-etária têm mortes atribuídas a infecções do sistema respiratório, suicídio, infecções intestinais, problemas relacionados à maternidade e acidentes de trânsito

Essas tragédias poderiam ser evitadas se os países investissem mais em educação, serviços de saúde e apoio social, diz a OMS.
"O período da adolescência é um momento particularmente importante para a saúde, porque definirá hábitos que terão impacto na qualidade de vida pelas próximas décadas. É nessa época que a inatividade física, a má dieta e o comportamento sexual de risco têm início", disse a OMS.
A organização critica a falta de atenção dada a essa faixa-etária da população nas políticas públicas. "Adolescentes estiveram completamente ausentes dos planejamentos de saúde nacional por décadas", lamentou Flávia Bustreo, Diretora-Geral assistente da OMS.

Soluções

O documento aponta ainda soluções que podem ajudar a evitar essas mortes precoces. São sugestões de políticas públicas que podem ter grande impacto nas estatísticas. Um exemplo é a recomendações da implementação de leis e campanhas de conscientização pelo uso do cinto de segurança. Em 2015, acidentes de trânsito mataram 115 mil jovens de 10 a 19 anos no mundo todo.
O Brasil é citado no documento como caso bem sucedido no combate a mortes no trânsito. "Entre 1991 e 1997 o Ministério da Saúde do Brasil registrou aumento dramático na mortalidade de jovens em acidentes de trânsito", afirma o documento.
"Em resposta, legisladores introduziram um novo código de trânsito em 1998 que tornava mais severa as punições aos infratores". O novo código de trânsito teria ajudado a salvar 5 mil vidas no período entre 1998 e 2001 segundo a OMS.

Apesar de o trânsito ser um problema universal, há marcantes diferenças entre as regiões quanto às causas de óbito. Nos países de renda baixa-média da África, doenças transmissíveis como HIV-AIDS, infecções do sistema respiratório, meningite e diarréia são os principais vilões. A anemia, doença causada pela deficiência de ferro no sangue, também é um mal muito comum, que atinge milhares de jovens no mundo todo em países pobres e ricos.
O suicídio, ou a morte acidental causada por atitudes auto-destrutivas, foi a terceira causa de mortalidade de adolescentes em 2015, totalizando 67 mil mortes. Em sua maioria, as vítimas são adolescentes mais velhos.
Em regiões com boas condições econômicas como a Europa, o suicídio também aparece entre as principais causas. Cortar a si mesmo é o tipo de auto-violência mais comum observado no continente.
A estimativa global da OMS é de que até 10% da população adolescente mundial cometa algum ato de violência contra si.

O documento recomenda fazer mais investimentos e dar atenção especial às pessoas nessa fase da vida, onde grandes frustrações e incertezas despontam: "jovens normalmente tomam responsabilidades de adultos como cuidar de irmãos menores, trabalhar, ter de abandonar os estudos, casar cedo, praticar sexo por dinheiro, simplesmente porque precisam dar conta das necessidades básicas de sobrevivência. Como resultado, eles sofrem de desnutrição, acidentes, gravidez indesejada, violência sexual, doenças sexualmente transmissíveis e transtornos mentais", resume o documento.
"Melhorar a forma como o sistema de saúde atende aos adolescentes é apenas uma parte da melhora da saúde deles", diz Anthony Costello, médico da OMS.
"Uma família e uma comunidade que apoia os seus jovens são extremamente importantes", completa.
Entre as políticas básicas que os países devem tentar implementar para diminuir o risco de mortes precoces estão: programas de orientação sexual na escola, aumento da idade mínima para consumo de álcool, obrigatoriedade do uso do cinto de segurança nos automóveis e de capacetes para ciclistas e motociclistas; redução do acesso a armas de fogo, aumento da qualidade da água e melhoria da infra-estrutura sanitária.

 A VIOLÊNCIA QUE ATINGE ADOLESCENTES E JOVENS DE UMA REGIÃO DO ESPÍRITO SANTO
Edinete Maria Rosa, Erly Euzébio dos Anjos, Gutemberg Hespanha Brasil, Karina de Andrade Fonseca, Julia Alves Brasil

Resumo

Objetivo: Investigar como a violência tem afetado a vida de adolescentes e jovens de uma região composta por sete bairros considerada altamente violenta do estado do Espírito Santo. Método: A metodologia consistiu na realização de dois grupos focais com 13 participantes com idades entre 12 e 26 anos. Resultados e discussões: Os resultados indicam que há diferenças na percepção da violência. Entre os jovens esta se mostrou mais institucional, vinda principalmente da polícia, de forma discriminatória contra seu estilo de se vestir e seu local de moradia. Entre os adolescentes, a violência foi mais perceptível nas relações interpessoais entre os próprios moradores, nos espaços locais como a escola e/ou nos seus arredores e como fruto do envolvimento com drogas. Considerações finais: As soluções para a violência, segundo ambos os grupos, consistem em uma ação mais efetiva e preventiva da polícia, que até o momento tem se comportado de modo descomprometido com a comunidade local.
Leia mais:

 https://periodicos.pucpr.br/index.php/psicologiaargumento/article/view/19721

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Estudo revela como a violência atinge jovens de áreas carentes

Pesquisa com estudantes da periferia da Grande Curitiba mostra que eles não confiam na polícia e quase todos tiveram parentes ou conhecidos assassinados

 http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/estudo-revela-como-a-violencia-atinge-jovens-de-areas-carentes-eflimls8gbsdkj4yv3h2po2fi

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Adolescência e violência:
mais uma forma de exclusão
Feizi M. Milani 

  RESUMO
  O presente ensaio se propõe a discutir algumas das interfaces entre a questão da violência e a fase da adolescência na
sociedade brasileira contemporânea. O texto traz em destaque a complexidade das causas e manifestações da violência,com ênfase nos contextos da família e da escola. A partir de uma revisão de dados epidemiológicos, o autor pontua diferentes manifestações do fenômeno da exclusão e sinaliza possíveis estratégias de prevenção à violência cometida por, contra e entre adolescentes.
  Palavras-chave
: adolescência, violência, prevenção.
 Quem quiser ou puder, pode enviar mais links através dos comentários.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

E agora Brasil? Premissas importantes para o debate politico nos próximos anos, após a decisão do dia 04/04 do STF.

1 - Ainda vai levar um tempo,  para termos o mesmo ciclo virtuoso que fez com que Lula fosse eleito e governasse com a habilidade e sensibilidade como fez, sob o ponto de vista dos interesses da maioria pobre, preta e mestiça, e em favor da soberania nacional. Isso porque Lula além das qualidades que tem, e além da base social que construiu e catapultou a sua liderança até a presidência da república, ainda pode contar com uma cultura politica propensa a processos de negociação e concessões, mesmo que limitadas e submetidas a processos não muito éticos algumas vezes, e que continua  com mais intensidade depois do golpe. Mas para Moro e outros amigos do Aécio, não vem ao caso.

2 – A esquerda precisa rever uma série de conceitos, sem precisar abrir mão dos postulados fundamentais do pensamento critico, incluindo questões ligadas ao mundo do trabalho e das novas tecnologias. Assim também como precisa rever algumas práticas ou modelos de organização, de formação e de mobilização.

O modelo de organização inspirado no modelo hierárquico, centralizado, vertical, excessivamente burocrático e representativo está sendo posto em cheque. As novas tecnologias, para o bem e para o mal impactam nisso.

A fadiga desse modus operandi de organização também é gritante. Isso é perceptível com a diminuição de quantidade e da intensidade de participação nas organizações civis , do absenteísmo nas eleições e pela forma como amplos setores da juventude se organizam. As ocupações nas escolas e os saraus, nos fornecem boas pistas acerca disso.

Um exemplo da falência de um certo modelo de participação social, são as conferências de politicas públicas, repetindo um padrão semelhante ao modelo da representação parlamentar, as quais passarem a repetir alguns vícios, como a presença de “eternos” representantes setoriais e/ou comunitários, os quais em muitos casos, perderam conexões sinceras e verdadeiras com suas bases, inclusive porque muitas vezes passaram a ocupar o papel de assessores parlamentares ou cargos comissionados no executivo. 

Quem não se tornou funcionário público, em alguns casos, buscou frequentemente ser eleito como delegado nas conferências por causa das viagens frequentes para outras cidades, estadia em hotéis e deslocamento frequentes por meio de aviões.

Nada contra isso, se fosse acompanhado de um compromisso fiel e verdadeiro com as causas e pessoas representadas, e se houvesse retorno de conhecimentos para a base e se esta fosse mais consultada para o encaminhamento das demandas , além de um rodizio na escolha de delegados. Se estes vícios foram bem menores no inicio, com o tempo foi se acentuando.

3 – Há que se considerar a força de expressão que passaram ter as outras culturas e as outras formas de conhecimento, fazendo necessário ir além do eurocentrismo e do conhecimento cientifico ocidental, tradicionalmente aceito e transmitido pelas universidades. Me refiro aqui, as culturas do povos originários, as culturas identitárias, as culturas periféricas, as culturas juvenis e etc..

4 – Os parlamentares e executivos progressistas precisam empoderar os coletivos e organizações que atuam na periferia e nos grotões, isso tanto no campo do conhecimento da politica e da gestão pública, como no plano da sustentabilidade econômica. Da mesma forma, como fazem os “liberais” e ou conservadores com a empresa privada e com as organizações civis tradicionalmente ligadas a estes. Em especial, por meios de ações no campo da legislação, do crédito e da assistência técnica.

Neste caso, o problema da esquerda não é tão somente perder eleições, o problema é ganhar eleições e não colaborar suficientemente para a organização e empoderamento das populações mais pobres.

Ao não fazer isso, deixou/deixa de fortalecer pessoas ou organizações, que poderiam estar colaborando bem mais para a resistência e enfrentamento do retrocesso politico e social, o qual está vindo com tudo contra a população pobre, preta e mestiça, desde o afastamento da presidente Dilma no ano de 2016.

E lembrando, muitos destes erros ou vícios, continuam a se repetir país afora, em muitas administrações públicas, com parlamentares e em organizações civis que se dizem de “esquerda”.

5 – E para concluir, mesmo que necessário, doravante o caminho eleitoral e a governabilidade, serão pavimentados com muito mais armadilhas . O que fica claro é que o ciclo da governabilidade sem tensionamento se encerrou , tensionamento com povo nas ruas, para quem quiser fazer um minimo de inclusão social e de democratização do estado e da economia. Para quem quiser ser uma espécie de Macron (atual presidente francês) ou como o Partido Verde ou Rede Sustentabilidade é tranquilo. Mas assim, o projeto de avanços terá que ficar sempre limitado, apequenado.

E como o “tensionamento” com população organizada, consciente e mobilizada não se faz com dois cliques, recomendamos recomeçar a leitura e acrescentar mais elementos que possam ajudar a mais gente a não parar, a seguir a esquerda e em frente."
Zezito de Oliveira


P.S.: - Atendendo a solicitações. Um site onde as questões abordadas acima podem ser mais aprofundadas.
http://outraspalavras.net/


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O dia seguinte. Algumas questões:
1. O julgamento foi político, com evidente conotação de classe. Insere-se no contexto do processo aberto quando as elites decidiram dar o golpe de Estado. Portanto, Lula será um preso político e assim deve ser tratado pelos democratas.
2. Do ponto de vista da batalha político-eleitoral, as forças democráticas não deveriam se reunir ao redor da candidatura que tem maiores condições de derrotar os golpistas?
3. Do ponto de vista da luta de classes no médio-longo prazo, quais as lições da derrota (das derrotas sucessivas desde 2015)? Como reorganizar a esquerda, como reconectar com os anseios do povo, como incentivar e participar de novas dinâmicas de organização?
4. Do ponto de vista da utopia, como repor o tema de uma sociedade justa e baseada na partilha que supere a experiência do socialismo de Estado? O ecossocialismo pode re-abrir um novo horizonte de apontar um norte realista à utopia?
Questões.
Mauro Lopes