sexta-feira, 14 de agosto de 2026

A Música e a IA - Roberto Malvezzi (Gogó)

"Em depoimento, o músico Roberto Malvezzi (Gogó) denuncia a inteligência artificial como a "mais poderosa pirataria de saberes e talentos" já criada, ecoando fala do neurocientista Miguel Nicolelis. Ele alerta que, enquanto 90 mil canções geradas por algoritmos inundam o streaming diariamente, a arte humana corre o risco de ser engolida por máquinas que recriam talentos existentes sem criar nada original."

 A primeira vez que gravei um disco (Cristificação do Universo – Hosana Hey) era um estúdio analógico. Entrava uma banda no estúdio e fazia a base. Depois alguns instrumentos. Depois os vocais. Finalmente a voz principal. Tudo era gravado num gravador de rolo, canal por canal. O produto era um LP e o som era muito bom.


Anos mais tarde, ao procurar um estúdio para gravar outro trabalho já aqui no Nordeste, fui apresentado aos estúdios digitais. Já era uma técnica muito avançada e muitos instrumentos eram extraídos de um sintetizador, o instrumento que se quisesse. Então, o disco era uma mescla de sons de instrumentos reais e outros de instrumentos sintetizados.
Nesse tempo passamos do LP para o CD, ou para a fita cassete. Também surgiram os DVDs. Tínhamos aparelhos de som em casa e podíamos ouvir uma obra completa com um som muito qualificado.
Agora surgiu o streaming e ele acabou com aparelhos específicos para se ouvir música. A maioria ouve música em smartphone, com um fone de ouvido, ou numa caixa de som. Não vejo mais ninguém parando para ouvir uma canção preferida, sentado numa sala confortável, assim como fazíamos par ouvir uma obra de Chico Buarque, Clube da Esquina ou Sagração da Primavera de Stravinsky.
Agora chegou a Inteligência Artificial na música. Um amigo colocou uma letra numa IA, pediu bossa-nova. Ela criou o ritmo, a melodia, os arranjos e uma intérprete. Sinceramente, ficou lindo! E aí entra o problema.
Fui interlocutor do neurocientista Miguel Nicolelis numa live sobre IA no espaço digital organizado pelo Instituto Humanitas da Unisinos (IHU). Entre muitas questões levantadas, eu fiz duas perguntas: a IA é a mais poderosa pirataria de saberes e talentos já inventada pela humanidade? Ele disse que sim.
Voltei a perguntar: há lugar ainda no cérebro humano para a arte, para a música, para a poesia? Ele respondeu que no cérebro humano tudo cabe. Sim, ainda há lugar para a arte no cérebro humano. E ela ajuda modelar o cérebro.
Uma informação de internet diz que a IA está colocando 90 mil canções por dia no streaming. Acionada por robôs e algoritmos, simulam ser mais ouvidas que as músicas criadas por seres humanos. Resultado, levam grande parte dos direitos autorais. E qual é o pulo do gato? A IA é “educada” a incorporar ritmos, arranjos, melodias, interpretações já existentes no mundo da arte e recriá-los como se fossem uma nova criação. Confirma a pirataria de saberes e talentos.
Agora se quer criar regras para ao menos diminuir essa pirataria. Vamos conseguir? Ou será como me disse outro amigo da música: não sabemos mais onde isso vai dar.

Leia mais/ouça/assista: https://robertomalvezzi.com.br/



BOX | ROBERTO MALVEZZI: QUEM É GOGÓ?

Roberto Malvezzi, conhecido como Gogó, é uma das vozes que ajudaram a aproximar a defesa do meio ambiente, a realidade do semiárido, a espiritualidade e a cultura popular no Brasil.

Nascido em Machado, Minas Gerais, em 1953, Malvezzi construiu grande parte de sua trajetória no sertão nordestino, onde passou a atuar junto às comunidades populares e aos movimentos sociais. Sua experiência está particularmente relacionada à Convivência com o Semiárido, à defesa do direito à água e às lutas das populações do campo.

Durante muitos anos, esteve ligado à Comissão Pastoral da Terra (CPT), desenvolvendo trabalhos de educação popular, formação e mobilização social. Sua atuação também esteve relacionada às discussões sobre a questão hídrica, os impactos dos grandes projetos de desenvolvimento e a defesa dos direitos das comunidades atingidas por conflitos socioambientais.

Mas Gogó não se tornou conhecido apenas pelo trabalho pastoral e político.

Músico, compositor, poeta e escritor, utiliza a arte como uma das formas de interpretar e comunicar a realidade brasileira. Suas canções dialogam com a cultura sertaneja, a religiosidade popular, a defesa da natureza e as lutas sociais.

Essa combinação entre militância social, espiritualidade, educação popular e expressão artística ajuda a compreender por que sua participação nas Jornadas Ecologia e Espiritualidade encontrou tanta sintonia com a proposta da Ação Cultural.

Para Malvezzi, falar de ecologia significa falar também de justiça, território, água, alimentação, dignidade e direitos humanos. A defesa da natureza não pode ser dissociada da defesa das pessoas que vivem nos territórios ameaçados.

É essa visão de ecologia integral, construída a partir da experiência concreta das comunidades, que marcou sua contribuição às Jornadas realizadas pela Ação Cultural.

Gogó e a Ação Cultural

A aproximação entre Roberto Malvezzi e a Ação Cultural ganhou expressão pública especialmente em 2011, quando ele participou como assessor da I Jornada Ecologia e Espiritualidade, em Aracaju.

Anos depois, em 2017, voltou a Sergipe para atuar como assessor e animador da III Jornada Ecologia e Espiritualidade.

Sua contribuição permanece, entretanto, como parte importante da memória das Jornadas e da trajetória da Ação Cultural na construção de ações que aproximam cultura, espiritualidade, educação popular, meio ambiente e transformação social.

Saiba mais sobre a Jornada Ecologia e Espiritualidade. AQUI 



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