Ao assistir "Anistia 79", da diretora Anita Leandro, que grande alegria rever nomes conhecidos da luta pela anistia e pelas liberdades democráticas, tanto nas bases da sociedade como nas instâncias do poder.
Na cobertura dos jornais, dos que aparecem no filme me lembro de Modesto da Silveira e de Edson Khair, e do meu engajamento, mesmo limitado, na campanha deles. Isso a distância, porque o acompanhamento e a torcida que tinha por eles era pelos jornais e pelos grandes cartazes de campanha espalhados, em especial no centro e na zona sul, isso antes de poder votar, o que só veio a acontecer quando retornei a Sergipe com a família, em 1982. Neste ano, votei em Milton Coelho, à época integrante do PT, tendo sido militante e dirigente do velho partidão, como o PCB ficou conhecido.
Daqui de Sergipe, a surpresa em encontrar Jackson Barreto na saída do cinema. Muito feliz e bem de saúde, saudei-o como velho camarada, e ele lembrou dos nomes que citei acima e de outros que aparecem no filme, incluindo os velhos companheiros com mandatos parlamentares como os dois que citei, assim como ele também, deputado naqueles anos em que parlamentares podiam ser cassados por suas opiniões políticas progressistas mais à esquerda.
Dentre aqueles lutadores que não exerceram mandatos, gostei de ver e ouvir Apolônio de Carvalho, veterano da Guerra Civil Espanhola e da Resistência Francesa ; Gregório Bezerra, quadro fiel do Partido Comunista; e Manoel da Conceição, líder camponês do Maranhão . O filme, um achado sensacional de imagens gravadas em 16mm em Roma, em junho de 1979 , foi montado de forma cativante, intercalando as filmagens da Conferência Internacional pela Anistia no Brasil — o maior encontro da esquerda brasileira no exílio — com entrevistas atuais desses lutadores que ainda estão entre nós, emocionando-se ao reverem o próprio passado .
Através do filme, podemos conhecer mulheres incríveis, incluindo pela inteligência e combatividade, estas que não receberam destaque no noticiário e na historiografia como protagonistas da história. Das mulheres que aparecem no filme, lembrei de Terezinha Zerbini, uma das fundadoras e principais líderes do Comitê Brasileiro da Anistia, e da impactante trajetória de Denise Crispim, cujo depoimento no Tribunal Russell II, em 1974, abre o documentário . Grávida, ela foi torturada, e seu companheiro, Eduardo Leite (Bacuri), foi assassinado após 109 dias de tortura . Sua história é um fio condutor emocionante no filme.
Ao mesmo tempo em que me encontrava com Jackson, isso aconteceu junto com a professora Silvana Bretas. Ela citou estar lendo O Passo de Estefânia, da professora e assistente social Núbia Marques. O livro aborda as agressões, a violência e a repressão impostas à figura feminina em uma sociedade desigual. A protagonista Estefânia atua como assistente social e vivencia o dilema ético diante da burocracia do sistema e da humilhação imposta aos cidadãos marginalizados na busca por direitos básicos. O ex-governador lembrou de Núbia Marques com muita gratidão por sua humanidade, inteligência e compromisso com a transformação social. Ele recordou que Núbia Marques foi fundadora do Comitê Sergipano de Anistia.
Sobre o filme, é muito bom poder ter um aulão sobre o Brasil contemporâneo, um Brasil cujas elites buscam retardar ou abortar a construção do país plenamente democrático, justo e soberano. O filme faz uma necessária correção histórica, esclarecendo que a anistia não pode ser vista como um simples acordo ou conciliação. Fica claro que seus defensores tinham um projeto mais condizente com as expectativas e anseios por justiça e reparação, mas perderam, por conta do estado autoritário que vigorava. O documentário de Anita Leandro, vencedor dos prêmios de melhor filme pelo júri oficial e popular na Mostra de Tiradentes , evidencia como essa transição "feita por cima" deixou intacto o aparato repressivo e garantiu a impunidade dos torturadores .
Um estado autoritário que nunca deixou de manter seus tentáculos por dentro, visando, como citamos acima, dificultar ou abortar as movimentações em favor de mais democracia, mais participação, mais direitos, mais felicidade geral.
Por último, como seria bom se um filme como esse pudesse estar acessível para outros públicos e outros espaços, bem além do público de classe média que mora em Aracaju, em especial àqueles que vivem no centro ou nos bairros que formam a Aracaju antiga, para que a memória e a reflexão crítica cheguem a todos.
Como um dos filmes de uma mostra temática especial — com duração de, quem sabe, uns dois anos — da programação do Tela Brasil e de uma mostra Cinema e Direitos Humanos. Esses filmes seriam disponibilizados para acesso de Pontos de Exibição de diversos tipos existentes país afora, acompanhados de um guia de exibição.
Até porque, se os saudosos da ditadura não vencerem as eleições em 2026 — o mais provável —, eles prosseguirão com o trabalho de sabotagem ao avanço das "liberdades democráticas" em nosso país, expressão que retiro do filme, em especial nos momentos da discussão coordenada por Manoel da Conceição. Um trabalho de sabotagem que opera com respaldo dos grandes veículos de comunicação, que atuam nesse sentido de forma ambígua ou velada, fortalecendo as máquinas de desinformação e o negacionismo histórico da extrema direita. O que pode levar à retomada do governo em 2030, com a aliança devastadora entre a direita neoliberal, a direita fisiológica e a direita neofascista.
Por último, os familiares dos lutadores do povo sofrem "o pão que o diabo amassou", como é mostrado no filme, o que lembra o que se sucede com os familiares de Lula nestes tempos: dona Marisa, o neto Arthur Lula da Silva , que faleceu em 2019, quando o ex-presidente se encontrava preso em Curitiba, e o filho Fábio Luís Lula da Silva , que atualmente é alvo de vazamentos ilegais e intrigas alimentadas pela grande mídia.
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