Quando o espetáculo devora a democracia
O que os festivais de música da televisão brasileira dos anos 1960 têm a ver com a política-espetáculo que domina a televisão e as redes sociais de hoje? Em ambos os casos, a exploração da rivalidade, da provocação e das torcidas transformou a disputa em entretenimento — uma fórmula capaz de gerar audiência, mas que também levanta uma questão incômoda: até que ponto a busca pelo espetáculo pode corroer a própria democracia?
Há uma linha de continuidade, ainda que não linear, entre os grandes festivais de música da televisão brasileira dos anos 1960 e a política-espetáculo dos nossos dias.
Nos festivais, a televisão descobriu que a competição podia ser transformada em espetáculo. A disputa entre compositores e intérpretes ganhou torcidas, rivalidades, vaias, aplausos e personagens. A música continuava sendo o objeto formal da competição, mas o conflito entre os concorrentes passou a ser, ele próprio, parte do produto televisivo.
A fórmula era poderosa: quanto maior a rivalidade, maior a emoção; quanto maior a emoção, maior a audiência.
Décadas depois, a televisão aplicaria lógica semelhante à política. Os candidatos deixaram de ser apresentados apenas como representantes de programas, partidos e projetos de governo. Progressivamente, passaram também a funcionar como personagens de uma narrativa. O moderado, o agressivo, o outsider, o provocador, o moralista, o “politicamente incorreto”. O debate eleitoral passou a ser, muitas vezes, menos uma comparação entre propostas e mais uma disputa entre personalidades.
As redes sociais levaram esse processo a uma dimensão ainda maior.
Na televisão, a moeda era a audiência. Nas redes, é o engajamento. E nada produz engajamento com tanta facilidade quanto a indignação, a provocação e o conflito.
Uma frase agressiva pode gerar um vídeo. O vídeo gera uma reação. A reação produz outro vídeo. Jornalistas comentam. Adversários respondem. Militantes compartilham. Memes são produzidos. O algoritmo distribui tudo novamente.
O conflito passa, assim, a alimentar a si próprio.
Quando a briga vira o produto
O problema começa quando a disputa deixa de ser um meio e passa a ser o próprio conteúdo.
Uma democracia precisa de conflito. É natural e saudável que partidos, candidatos e cidadãos discordem profundamente. O problema não está na existência do antagonismo, mas na transformação do adversário em inimigo e da divergência em espetáculo permanente.
Nesse ambiente, o candidato que apresenta uma proposta complexa pode ter menos visibilidade do que aquele que produz uma frase explosiva.
Uma explicação econômica de dez minutos pode ser derrotada, em audiência, por quinze segundos de provocação.
Uma discussão sobre política pública pode desaparecer diante de um insulto.
E uma eleição pode começar a ser acompanhada como se fosse um campeonato: cada eleitor torce para que seu lado “vença” o outro, independentemente da qualidade dos argumentos.
É aqui que a comparação com os festivais dos anos 1960 se torna especialmente interessante.
Os festivais ajudaram a televisão brasileira a descobrir que a competição podia ser um espetáculo. Mas, quando a competição passou a depender cada vez mais do espetáculo, o próprio formato começou a se desgastar.
Há uma lição possível nessa história.
Um espetáculo pode acabar quando aquilo que deveria servir ao conteúdo passa a dominar o conteúdo.
A política pode seguir o mesmo caminho?
É uma pergunta incômoda.
Pode a política-espetáculo contribuir para destruir uma democracia?
Não seria correto atribuir às emissoras ou às redes sociais, isoladamente, o poder de destruir uma democracia. Democracias possuem instituições, Constituições, eleições, Parlamentos, Judiciário, imprensa, partidos e organizações da sociedade civil.
Mas instituições não vivem apenas de regras formais. Elas também dependem de uma cultura política.
Uma democracia precisa que os adversários reconheçam mutuamente sua legitimidade. Precisa que uma derrota eleitoral seja aceita como parte do jogo. Precisa que o vencedor não trate o derrotado como inimigo a ser eliminado. Precisa, sobretudo, que os cidadãos consigam distinguir entre uma disputa política legítima e uma guerra permanente de identidades.
A política-espetáculo pode corroer justamente essas condições.
Se o político é recompensado por ser cada vez mais agressivo, ele terá incentivo para aumentar a agressividade.
Se a emissora ganha audiência com o confronto, terá incentivo para explorar o confronto.
Se o influenciador ganha seguidores com a indignação, terá incentivo para produzir mais indignação.
Se o algoritmo distribui aquilo que provoca reações, os conteúdos mais polarizadores terão vantagem sobre aqueles que exigem reflexão.
Nenhum desses atores precisa necessariamente conspirar com os demais.
Basta que todos sigam seus próprios incentivos.
O resultado coletivo pode ser muito diferente da intenção individual de cada participante.
O adversário como inimigo
Talvez esteja aí o maior perigo.
A democracia transforma adversários em competidores. A política-espetáculo corre o risco de transformá-los em inimigos.
Quando isso acontece, a vitória deixa de significar simplesmente conquistar o governo. Passa a significar impedir que o outro exista politicamente.
A eleição deixa de ser:
“Qual projeto deve governar?”
e passa a ser:
“Como impedir que eles governem?”
Essa mudança é profunda.
Porque, quando o adversário é visto como uma ameaça existencial, qualquer instrumento parece justificável para derrotá-lo. A mentira pode ser tolerada. A desumanização pode ser aceita. A violência verbal pode ser celebrada. As instituições podem ser atacadas quando produzem uma decisão desfavorável.
E, pouco a pouco, a própria democracia passa a ser tratada como legítima apenas quando produz o resultado desejado.
O paradoxo do espetáculo
Há, então, um paradoxo.
A televisão e as redes sociais podem ampliar enormemente a participação política. Podem dar voz a grupos que antes não tinham espaço. Podem aproximar candidatos dos eleitores. Podem democratizar a circulação de informações.
Mas exatamente as mesmas ferramentas podem incentivar a radicalização.
A questão não é voltar a uma suposta época de ouro em que a política era racional e civilizada. Essa época nunca existiu plenamente.
A questão é reconhecer que a forma pela qual discutimos política também influencia a política que conseguimos fazer.
Uma sociedade que recompensa permanentemente o grito terá dificuldade para ouvir.
Uma sociedade que recompensa o insulto terá dificuldade para argumentar.
Uma sociedade que transforma todo adversário em inimigo terá dificuldade para conviver com a diferença.
E uma sociedade que transforma cada eleição em uma batalha pela sobrevivência talvez tenha dificuldade para aceitar a alternância de poder.
O alerta dos festivais
Os festivais da década de 1960 não desapareceram simplesmente porque as pessoas deixaram de gostar de música.
Eles foram vítimas de transformações muito mais amplas da televisão, da indústria cultural, da censura, do mercado e do próprio ambiente político brasileiro. Mas existe uma ironia histórica importante: a mesma lógica de espetáculo que ajudou os festivais a alcançar um sucesso extraordinário também contribuiu para desgastar o formato.
A competição havia se tornado tão importante quanto a música.
Talvez seja essa a advertência que podemos transportar para o presente.
A política precisa de competição. Precisa de oposição. Precisa de conflito.
Mas, se o espetáculo se tornar mais importante que as propostas, se a provocação se tornar mais importante que os argumentos e se a destruição do adversário se tornar mais importante que a disputa democrática, poderemos descobrir tarde demais que aquilo que produzia audiência também estava destruindo o ambiente que tornava a competição possível.
Os festivais acabaram.
A democracia não precisa acabar para ser profundamente transformada.
Ela pode continuar existindo formalmente, com eleições, partidos e instituições, enquanto perde gradualmente aquilo que lhe dá substância: tolerância, pluralismo, confiança, respeito às regras e disposição para aceitar que o adversário também tem direito de participar do jogo.
Talvez essa seja a pergunta que deveríamos fazer diante da política-espetáculo de nossos dias:
estamos usando a televisão e as redes para tornar a democracia mais participativa — ou estamos transformando a democracia em um espetáculo no qual a audiência depende cada vez mais da briga?
Os festivais nos deixaram uma pequena lição sobre os limites do espetáculo.
Um espetáculo pode morrer quando aquilo que deveria servir ao conteúdo passa a dominar o conteúdo.
E talvez nossa democracia esteja diante do mesmo desafio.
Os festivais foram vítimas da transformação da competição em espetáculo. Nossa democracia poderá ser vítima da transformação do espetáculo em competição política permanente.
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A imagem de espontaneidade que marcou os grandes festivais de música da TV Record nos anos 1960 precisa ser relativizada. Depoimentos de protagonistas e estudos sobre o período mostram que a emissora não se limitava a registrar as rivalidades que surgiam entre os artistas: a própria estrutura dos festivais era concebida para produzir antagonismos e mobilizar as torcidas.
Paulo Machado de Carvalho Filho, responsável pela área artística da Record e pelos festivais, comparou a concepção daqueles programas à de “espetáculos de luta livre”, nos quais era necessário estabelecer antagonistas e mobilizar a opinião do público em torno da disputa. Estudos acadêmicos que analisaram os festivais também apontam que a Record e seus parceiros utilizaram o programa para promover artistas, discos e músicas, enquanto a imprensa ajudava a alimentar os antagonismos.
O caso de 1967 é especialmente revelador. A rivalidade entre diferentes concepções de música brasileira — incluindo a oposição entre a MPB tradicional e a incorporação da guitarra elétrica — foi incorporada ao próprio espetáculo. Caetano Veloso percebeu rapidamente essa lógica e, em entrevista de 1968, afirmou que o festival era, antes de tudo, um meio lucrativo descoberto pelas televisões.
O episódio de “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil, também revela a enorme pressão criada pelo ambiente. Gil chegou a ficar apavorado antes de sua apresentação, em meio à tensão provocada pela escolha de apresentar a música acompanhado pelos Mutantes e pelas guitarras elétricas, justamente quando a questão da guitarra havia se transformado em um dos grandes conflitos simbólicos da música brasileira.
Há ainda relatos segundo os quais a própria emissora organizou a famosa passeata contra as guitarras como estratégia de promoção do festival, transformando uma controvérsia musical em acontecimento de grande repercussão.
Pablo Marçal e a escalada dos conflitos nos debates de 2024
A participação de Pablo Marçal nos debates da eleição para a Prefeitura de São Paulo, em 2024, produziu uma sequência incomum de conflitos que alterou inclusive as regras e a organização dos programas. Em 15 de setembro, no debate da TV Cultura, o candidato José Luiz Datena agrediu Marçal com uma cadeira após uma troca de provocações. O programa foi interrompido, Datena foi expulso e Marçal foi levado ao Hospital Sírio-Libanês, onde permaneceu em observação e recebeu alta na manhã seguinte. O boletim médico registrou traumatismo no tórax e no punho direito, sem complicações associadas.
Uma semana depois, em 23 de setembro, Marçal foi expulso do debate promovido pelo Grupo Flow por descumprir as regras do encontro, depois de advertências relacionadas a ataques e à insistência em acusações contra adversários. O episódio foi seguido por uma agressão envolvendo um assessor de Marçal e o marqueteiro de Ricardo Nunes nos bastidores.
A sequência de episódios levou organizadores de debates posteriores a reforçar medidas de segurança e alterar o cenário. A RedeTV!, por exemplo, fixou as cadeiras no chão; a Record também adotou cadeiras fixadas e substituiu copos de vidro por copos de plástico. Outros debates estabeleceram regras mais rígidas contra palavrões, apelidos ofensivos e comportamentos que pudessem interromper o programa.
O caso tornou-se particularmente significativo para a discussão sobre política-espetáculo porque os conflitos produziram enorme repercussão fora dos próprios debates. A agressão de Datena a Marçal transformou-se em um dos episódios mais emblemáticos da campanha e passou a circular amplamente nas redes sociais e na imprensa. A cobertura internacional chegou a descrever a eleição paulistana daquele ano como marcada por confrontos e violência incomuns.
Leonardo Sakamoto
Sempre defendi, feito maritaca com cãibra, que candidato ao Executivo deve ir a debate. Mas não me furto à análise: Lula e Flávio Bolsonaro venceram o da Band neste domingo (23) justamente porque faltaram. Que debate ruim, meu Deus do céu.
A culpa não foi dos jornalistas nem dos veículos, que tentaram tirar propostas e contradições de quem apareceu. O problema foram os presentes. Renan Santos xingou adversários de “cadelas” e produziu cortes que animam red pills e a extrema direita; Augusto Cury distribuiu autoajuda; Ronaldo Caiado administrou mal o tempo e parecia mais interessado em atacar Lula do que em se apresentar ao país. Entre propostas frágeis, bravatas e ideias que atropelavam a Constituição, sobrou pouco debate de verdade.
O resultado foi perverso: Lula e Flávio, com 39% e 33% no Datafolha, pareceram jogar a série A sem entrar em campo, enquanto os demais protagonizavam uma pelada de chutões e caneladas. Renan deve ter ganhado votos, mas boa parte tende a voltar para Flávio. A desidratação dos candidatos menores pode até ajudar a empurrar a eleição para uma decisão no primeiro turno, para qualquer um dos lados.
Lula ainda deu entrevista à Record no mesmo horário e teve mais audiência que as críticas feitas a ele no palco.
No fim, quem saiu ganhando foi quem dormiu. Como Gilberto Kassab, vice de Caiado e presidente do PSD, flagrado cochilando na plateia. Quem nunca?
O argumento lógico do texto acima é meu. A IA fez a pesquisa e ajudou a organizar melhor o argumento.
Zezito de Oliveira

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