terça-feira, 11 de agosto de 2026

Dom Adriano Hypólito: Mais um sergipano que enfrentou a ditadura embora pouco conhecido pelos seus conterrâneos.

 Nascido em Aracaju, criado também em São Cristóvão, o bispo de Nova Iguaçu tornou-se uma das principais referências da Igreja Católica na defesa dos direitos humanos durante a ditadura militar. Por que sua história ainda é tão pouco conhecida em Sergipe?

Há personagens que pertencem simultaneamente a várias histórias.

Dom Adriano Mandarino Hypólito pertence à história da Igreja Católica, à história da resistência à ditadura militar, à história dos movimentos sociais da Baixada Fluminense e à história da defesa dos direitos humanos no Brasil.

Mas há uma outra dimensão dessa trajetória que permanece relativamente escondida: Dom Adriano era sergipano.

E não se trata apenas de uma informação biográfica encontrada em sites ou reproduzida por terceiros. Em uma entrevista concedida em 2 de junho de 1982, o próprio bispo respondeu à pergunta sobre onde havia nascido:

“Eu sou nordestino, nasci em 18 de janeiro de 1918 em Aracaju, Estado de Sergipe.”

Na mesma entrevista, Dom Adriano acrescentou que recebeu sua educação em Aracaju e São Cristóvão, onde foi criado, antes de seguir para os seminários franciscanos de Salvador, João Pessoa e Rio Negro.

Essa declaração é particularmente importante porque ajuda a resolver uma dúvida que aparece em algumas referências disponíveis na internet.

Dom Adriano nasceu em Aracaju. São Cristóvão, entretanto, foi parte importante de sua formação e infância.

A descoberta muda a perspectiva da pesquisa.

Não estamos apenas diante de um bispo que “nasceu em Sergipe”. Estamos diante de um personagem que teve sua formação inicial vinculada diretamente a duas cidades históricas sergipanas.


O menino Fernando

Antes de se tornar conhecido como Dom Adriano Hypólito, o futuro bispo recebeu outro nome.

Segundo a própria Diocese de Nova Iguaçu, seu nome de batismo era Fernando. Nascido em Sergipe, tornou-se franciscano e foi ordenado sacerdote em Salvador, em 1942, adotando posteriormente o nome religioso Adriano.

A mudança de nome acompanha uma transformação profunda de sua vida.

Aos 14 anos, entrou para a formação franciscana.

A partir daí, sua trajetória ultrapassaria rapidamente as fronteiras de Sergipe.

Estudou em instituições franciscanas no Nordeste e no Sul do país, foi ordenado sacerdote em Salvador e posteriormente aprofundou seus estudos na Europa. Em 1962, foi nomeado bispo auxiliar de Salvador.

Pouco depois, participaria de um dos acontecimentos mais importantes da história da Igreja no século XX: o Concílio Vaticano II.


Do Nordeste ao Vaticano II

O Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, abriu novas perspectivas para a atuação da Igreja Católica no mundo contemporâneo.

Dom Adriano participou desse processo.

Sua trajetória religiosa passou a se aproximar de uma concepção de Igreja preocupada não apenas com a vida interna da instituição, mas também com a pobreza, a desigualdade, a dignidade humana e os problemas sociais.

Em 1966, veio a nomeação que mudaria definitivamente sua trajetória:

Dom Adriano tornou-se bispo de Nova Iguaçu.

A cidade estava situada em uma região marcada pela pobreza, pela violência e por graves desigualdades sociais.

Foi ali que o sergipano encontraria o cenário no qual sua atuação pastoral se transformaria em atuação pública.


Nova Iguaçu: Igreja, pobreza e resistência

Dom Adriano permaneceu à frente da Diocese de Nova Iguaçu de 1966 a 1994.

Pesquisas acadêmicas descrevem esse período como fundamental para compreender a formação de um polo de resistência da Igreja Católica na Baixada Fluminense.

Uma pesquisa publicada pela PUC-SP, por exemplo, analisa justamente a atuação de Dom Adriano durante a ditadura e o movimento católico inspirado pela Teologia da Libertação que se desenvolveu em Nova Iguaçu em defesa da população pobre e dos direitos humanos.

Outro estudo acadêmico, publicado na Revista Brasileira de História das Religiões, analisa as reflexões de Dom Adriano sobre a ditadura e a Baixada Fluminense a partir de textos publicados no jornal Correio da Lavoura, entre 1982 e 1985. O estudo destaca a importância de compreender a atuação política e social nas periferias urbanas durante o regime militar.

A atuação de Dom Adriano não ficou restrita aos discursos.

A Diocese acolheu perseguidos, apoiou comunidades populares e denunciou a violência.

E isso teve consequências.


O sequestro que pretendia silenciá-lo

Em 22 de setembro de 1976, Dom Adriano foi sequestrado.

Segundo o acervo documental da Diocese de Nova Iguaçu preservado e digitalizado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, ele foi espancado e abandonado despido, com o corpo pintado de vermelho, em um matagal de Jacarepaguá.

Seu automóvel foi levado para as proximidades da sede da CNBB, na Glória, e destruído em uma explosão.

O episódio provocou repercussão nacional e internacional.

Não se tratava de um episódio isolado.

A documentação disponível no Dossiê Dom Adriano Mandarino Hypólito, mantido no Repositório de Múltiplos Acervos da UFRRJ, reúne documentos sobre o sequestro, ameaças à Diocese, atentados e o ataque à Catedral de Nova Iguaçu.

O acervo é particularmente valioso porque permite que a história seja pesquisada não apenas através de relatos posteriores, mas também por meio de documentos produzidos no próprio período.


A bomba na Catedral

Em 1979, outro episódio marcou a história da Diocese.

Uma bomba foi colocada na Catedral de Santo Antônio de Jacutinga, em Nova Iguaçu.

A documentação preservada pela UFRRJ inclui mensagens recebidas por Dom Adriano por ocasião da explosão e registros da repercussão do atentado.

A perseguição não havia conseguido fazê-lo abandonar sua posição.

Pelo contrário.

A memória construída posteriormente pela própria Diocese o apresenta como um bispo que assumiu publicamente a defesa dos direitos humanos, dos perseguidos e da população pobre.

Em 1993, um ano antes de deixar o governo da Diocese, Dom Adriano participou da fundação do Centro dos Direitos Humanos de Nova Iguaçu.


Um arquivo que sobreviveu à ditadura

Existe hoje uma oportunidade extraordinária para quem quiser estudar essa história.

Parte significativa da documentação de Dom Adriano está disponível digitalmente.

A UFRRJ, por meio do Centro de Documentação e Imagem, estabeleceu parceria com a Diocese de Nova Iguaçu para digitalizar e disponibilizar documentos do arquivo da Cúria.

O próprio portal da universidade afirma que o acervo contém registros importantes da resistência à ditadura e da atuação de Dom Adriano na defesa dos direitos humanos.

O Dossiê Dom Adriano Mandarino Hypólito reúne documentos referentes ao período de seu episcopado entre 1966 e 1994.

Há ainda coleções específicas com jornais e revistas publicados em 1976 e 1977 sobre o sequestro.

E o acervo fotográfico inclui imagens de diferentes momentos da vida de Dom Adriano e da Diocese.

Para pesquisadores de Sergipe, esse material representa uma oportunidade rara.

É possível pesquisar o sergipano através de documentos preservados no Rio de Janeiro.


A confirmação que veio do próprio Dom Adriano

A investigação sobre a origem sergipana ganha ainda mais força quando confrontamos diferentes fontes.

A Wikipédia registra Aracaju como seu local de nascimento.

Um trabalho acadêmico da UERJ também registra seu nascimento em Aracaju, Sergipe.

Um artigo acadêmico publicado em 2020 afirma que Dom Adriano nasceu em Sergipe em 1918.

Mas existe uma fonte ainda mais importante:

o próprio Dom Adriano.

Na entrevista de 1982, ele não apenas informa que nasceu em Aracaju. Ele também esclarece:

“Minha educação recebi em Aracaju e em São Cristóvão (onde me criei), em Sergipe.”

Essa frase permite compreender por que São Cristóvão aparece em algumas narrativas sobre sua origem.

Não necessariamente porque tenha nascido ali, mas porque São Cristóvão fez parte de sua infância e formação.


São Cristóvão entra definitivamente nessa história

Uma pesquisa histórica divulgada pela Academia Sancristovense de Letras e Artes registra que Dom Adriano nasceu em Aracaju, fez seus primeiros estudos na capital e em São Cristóvão e passou parte da infância na antiga capital sergipana, onde teria conhecido os franciscanos. O texto informa ainda que o pesquisador Adailton Andrade entrevistou familiares e confrontou documentos para reconstruir essa trajetória.

Esse dado é particularmente significativo.

São Cristóvão não aparece apenas como uma referência geográfica.

A cidade pode ter sido um dos lugares onde começou a se formar a experiência religiosa que posteriormente levaria Fernando Mandarino a ingressar na Ordem Franciscana.

E isso abre uma nova possibilidade de pesquisa:

qual foi exatamente o papel de São Cristóvão na formação de Dom Adriano?


O “sergipano anônimo”

Em 2018, o pesquisador Adailton Andrade publicou no blog Fontes da História de Sergipe um texto com um título provocador:

“Dom Adriano Hypólito, o sergipano anônimo na história sergipana”.

O texto recupera sua trajetória desde Aracaju, passando por São Cristóvão e pela formação franciscana. Também informa que o trabalho teve como referência estudo do historiador Antônio Lacerda de Meneses, ligado ao Arquivo da Cúria Diocesana de Nova Iguaçu.

A expressão “sergipano anônimo” merece atenção.

Porque existe uma contradição.

Na Baixada Fluminense, Dom Adriano é memória viva.

Seu nome está associado a direitos humanos, resistência, pastoral popular e defesa dos pobres.

A Diocese mantém sua memória.

O Centro dos Direitos Humanos leva sua marca.

Existe uma medalha com seu nome.

Há livros, teses, dissertações, artigos e um grande acervo documental dedicado à sua atuação.

A Diocese de Nova Iguaçu inclusive mantém uma rua chamada Rua Dom Adriano Hypólito, em sua sede.

Em Sergipe, porém, essa memória é muito menos visível.


Quando a memória muda de território

Esse caso permite uma reflexão importante sobre patrimônio cultural.

Personagens históricos não pertencem necessariamente apenas ao lugar onde construíram sua fama.

Eles também pertencem aos lugares onde nasceram, viveram, aprenderam, estabeleceram relações e formaram sua identidade.

No caso de Dom Adriano, a trajetória pode ser representada por uma espécie de mapa:

Aracaju → São Cristóvão → formação franciscana no Nordeste → Salvador → Europa → Concílio Vaticano II → Nova Iguaçu → resistência à ditadura → direitos humanos.

Cada território acrescentou alguma coisa à sua formação.

Por isso, contar a história de Dom Adriano a partir de Sergipe não significa retirar dele sua identidade construída na Baixada Fluminense.

Significa completar a história.


Uma história que ainda precisa ser investigada

A pesquisa realizada até aqui permite afirmar com segurança que Dom Adriano era sergipano e que nasceu em Aracaju.

Mas ainda existem lacunas.

Não encontramos, nas fontes digitais consultadas, a reprodução do registro civil de nascimento ou do registro de batismo que permita reconstruir documentalmente todos os detalhes de sua origem familiar.

Também ainda é necessário aprofundar a pesquisa sobre:

  • seus pais;
  • a família Mandarino;
  • a residência na Rua Itabaianinha;
  • sua infância em São Cristóvão;
  • as instituições de ensino que frequentou;
  • a paróquia ou igreja onde foi batizado;
  • as circunstâncias de sua aproximação com os franciscanos;
  • familiares que permaneceram em Sergipe;
  • fotografias e documentos de sua infância;
  • eventuais registros em jornais sergipanos das décadas de 1920 e 1930.

É aí que uma investigação sergipana pode avançar.


BOX | O QUE SERGIPE AINDA PRECISA DESCOBRIR SOBRE DOM ADRIANO HYPÓLITO

1. Onde exatamente ficava a casa onde nasceu?
A entrevista de 1982 confirma Aracaju como cidade natal. Há referência à Rua Itabaianinha, mas é necessário localizar e documentar o endereço.

2. Quem eram seus pais e familiares?
A genealogia da família Mandarino pode revelar novas conexões com a sociedade sergipana do início do século XX.

3. Onde foi batizado?
O registro de batismo pode esclarecer informações sobre seus pais, padrinhos, residência e vínculos religiosos.

4. Qual foi o papel de São Cristóvão em sua infância?
O próprio Dom Adriano afirmou que recebeu educação em Aracaju e São Cristóvão, “onde me criei”.

5. Quando e como conheceu os franciscanos?
Essa passagem pode ajudar a compreender a formação religiosa que marcou toda sua vida.

6. Existem documentos sobre sua infância nos arquivos sergipanos?
Paróquias, escolas, jornais, arquivos municipais e coleções particulares podem guardar pistas.

7. Existem familiares ou descendentes da família Mandarino em Sergipe?
Entrevistas de história oral podem complementar a documentação escrita.

8. Como os jornais sergipanos registraram sua trajetória?
Uma pesquisa sistemática na imprensa poderia revelar notícias sobre suas ordenações, nomeação episcopal, participação no Vaticano II, sequestro e morte.

9. Por que sua memória é tão forte no Rio e tão discreta em Sergipe?
Essa talvez seja a questão cultural e politica mais importante.

10. Sergipe deveria reconhecer oficialmente Dom Adriano?
Uma rua, escola, biblioteca, centro cultural, memorial, exposição ou programa educativo poderia contribuir para recuperar essa história.


LINHA DO TEMPO | DOM ADRIANO HYPÓLITO

1918 — Nasce em Aracaju, Sergipe, em 18 de janeiro. Segundo seu próprio depoimento, é criado e educado entre Aracaju e São Cristóvão.

c. 1932 — Aos 14 anos, ingressa na formação franciscana.

1937 — Torna-se franciscano, segundo registros biográficos reproduzidos em estudos sobre sua trajetória.

1942 — É ordenado sacerdote em Salvador, em 18 de outubro.

1948 — Segue para a Europa para estudos e pesquisas relacionadas à história dos franciscanos no Brasil.

1951 — Retorna ao Brasil e retoma atividades no Seminário Franciscano de Ipuarana.

1962 — É nomeado bispo auxiliar de Salvador.

1963–1965 — Participa do Concílio Vaticano II.

1966 — Assume a Diocese de Nova Iguaçu, iniciando quase três décadas de atuação pastoral na Baixada Fluminense.

1976 — É sequestrado e espancado. O episódio provoca repercussão nacional e internacional.

1977 — A pastoral da Diocese continua sofrendo ameaças e ataques. O acervo da UFRRJ preserva documentação sobre esses episódios.

1979 — Uma bomba explode na Catedral de Santo Antônio de Jacutinga, em Nova Iguaçu.

1982 — Em entrevista, Dom Adriano registra sua própria origem: “nasci [...] em Aracaju, Estado de Sergipe”, e afirma ter sido criado em São Cristóvão.

1993 — É fundado o Centro dos Direitos Humanos da Diocese de Nova Iguaçu, ligado ao legado de Dom Adriano.

1994 — Deixa o governo da Diocese de Nova Iguaçu e torna-se bispo emérito.

1996 — Morre em 10 de agosto, aos 78 anos.

2016 em diante — Documentos do arquivo da Cúria Diocesana de Nova Iguaçu passam a ser disponibilizados digitalmente pela UFRRJ, ampliando as possibilidades de pesquisa sobre sua trajetória.

2018 — Em Sergipe, a Academia Sancristovense de Letras e Artes promove palestra sobre Dom Adriano, destacando sua condição de filho de Sergipe e sua ligação com São Cristóvão.

2022 — A Diocese de Nova Iguaçu e o Centro dos Direitos Humanos entregam a Medalha Dom Adriano Hypólito de Direitos Humanos, reafirmando sua memória como referência na defesa de direitos.

2024 — Estudos acadêmicos continuam utilizando seus documentos e sua atuação para compreender a relação entre Igreja, ditadura, movimentos sociais e direitos humanos na Baixada Fluminense.


Por que Sergipe deveria contar essa história?

A pergunta não é apenas religiosa.

É cultural.

É histórica.

É também política.

Dom Adriano viveu uma das páginas mais difíceis da história brasileira e tomou posição em favor daqueles que sofriam com a pobreza, a violência e a repressão.

Seu percurso demonstra que a história da democracia brasileira também foi construída por pessoas que saíram dos lugares mais diversos do país.

Entre elas estava um menino nascido em Aracaju.

Recuperar essa memória significa também reconhecer que Sergipe participou da história da resistência democrática brasileira através de seus filhos.

Não se trata de transformar Dom Adriano em um herói oficial.

Trata-se de permitir que sua história seja conhecida, pesquisada, discutida e confrontada com os documentos.

A própria existência de um acervo tão amplo torna essa tarefa possível.

A questão agora é outra:

quem, em Sergipe, vai abrir essa investigação?


Fontes para continuar a pesquisa

Arquivo documental — UFRRJ/CEDIM
O Repositório de Múltiplos Acervos da UFRRJ reúne o Dossiê Dom Adriano Mandarino Hypólito, com documentos da Diocese de Nova Iguaçu sobre seu episcopado, o sequestro de 1976, ameaças e atentados.

Dossiê Dom Adriano Mandarino Hypólito — UFRRJ

Entrevista de 1982
Documento particularmente importante porque contém o depoimento do próprio Dom Adriano sobre nascimento, infância e formação.

Entrevista de Dom Adriano — acervo UFRRJ

Diocese de Nova Iguaçu
Informações institucionais sobre sua trajetória e a Medalha Dom Adriano Hypólito de Direitos Humanos.

Diocese de Nova Iguaçu — Medalha Dom Adriano Hypólito

Pesquisa acadêmica
A dissertação de Adriana Bastos Kronemberger analisa Dom Adriano, a violência na Baixada Fluminense e a atuação da Igreja durante a ditadura.

Dom Adriano Hypólito no rastro da violência em Nova Iguaçu — PUC-SP

História de Sergipe
O texto do pesquisador Adailton Andrade recupera especificamente a origem sergipana de Dom Adriano e sua relação com São Cristóvão.

Dom Adriano Hypólito — Fontes da História de Sergipe


Bispo é raptado e solto nu
Após sequestrado, bispo de Nova Iguaçu é solto totalmente nu.
Bomba na casa de Roberto Marinho.
RIO — (AE / O ESTADO) — Os sequestradores do bispo d. Adriano Hipólito, de Nova Iguaçu, e de seu sobrinho, Fernando Webering, deixaram pichado o carro de Fernando, que haviam explodido em seguida, na porta da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), um panfleto assinado pela "Aliança Anticomunista Brasileira — AAB", anunciando que outras autoridades eclesiásticas, consideradas comunistas, serão alvo de atentados semelhantes.
A mensagem não foi liberada para a imprensa, mas um policial forneceu a informação, sem contudo, lembrar os nomes das próximas vítimas. O panfleto foi encontrado por policiais que seguiram a indicação de um garoto. Ele viu quando o carro estacionou na porta da CNBB e dele desceram dois homens. Eles colocaram um envelope sobre um monte de terra, afastado do carro, e deixaram o local a pé. Pouco depois o carro explodiu.
Quando os policiais abriram o envelope e notaram o panfleto da mensagem, constataram que continha graves ameaças à imprensa. Os fotógrafos foram proibidos de continuar a tirar fotos do carro e alguns policiais, em carros particulares da Delegacia de Polícia Política e Social (DPPS) do Departamento Geral de Investigações Especiais centralizou todas as investigações em torno dos dois episódios: o do bispo d. Adriano Hipólito e seu sobrinho, e contra a casa de Roberto Marinho, dono das empresas da organização "O Globo", onde foi jogada uma bomba.
EM NOVA IGUAÇU
A Delegacia de Polícia do município de Nova Iguaçu, em cuja jurisdição ocorreu o sequestro, não fez o registro porque não havia elementos suficientes, segundo o delegado Assis Nei Renhafil. A 26ª DP, em Madureira, área onde dom Adriano reapareceu, também não registrou o fato, por determinação do DPPS.
A explosão da bomba do carro de Fernando Webering, sobrinho de d. Adriano, que se seguiu ao sequestro de ambos, na porta da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e o atentado também a bomba contra a casa de Roberto Marinho, não foram registrados pela 5ª DP, na Glória, em cuja jurisdição ocorreram os fatos. Os policiais ali de plantão informaram que todas as informações levantadas nos dois locais foram levadas pelos agentes da DPPS, que liberaram a 5ª DP de qualquer responsabilidade.
Com a cobertura de duas guarnições de rádio patrulha da PM, peritos do Instituto de Criminalística permaneceram junto aos escombros do carro, em frente à CNBB, até as duas horas da manhã de ontem, onde fizeram um exame superficial do que restou do veículo (apenas o chassi, a parte traseira da carroceria e uma roda traseira) e em seguida foram à 5ª DP. Sem conseguir que os policiais dessa delegacia tomassem as providências que se faziam necessárias, já que eles estavam desobrigados por ordem superior, os peritos tiveram que pedir assessoria ao DPPS para que o carro fosse rebocado, pois temiam que algum local ainda pudesse explodir.
Os técnicos queixaram-se de que os bombeiros usaram tanta água para apagar o incêndio do automóvel, ao invés de espuma. Por causa disso, os destroços do carro, sob o "chassi", terão que ser submetidos a um aspirador, antes de serem levados a exame. Os bombeiros usaram a terra que encontram na praça em frente à CNBB, jogando-a no carro, para combater o incêndio que se seguiu à explosão do veículo, porque na lona — Largo da Glória — não havia água e eles não dispunham de espuma em seus carros.
CONTRA O "ESQUADRÃO"
D. Adriano Hipólito ganhou notoriedade pelas suas críticas sistemáticas ao "esquadrão da morte", a cada série de assassinatos políticos ocorridos na Baixada. Quando o "esquadrão da morte" voltou a atuar, a partir de maio deste ano — cinco homens foram encontrados no Jardim Metrópole —, d. Adriano Hipólito procurou o governador Faria Lima, no palácio Guanabara, e dele exigiu providências contra a matança na Baixada Fluminense. [1]
Às 15:30 de anteontem, o bispo deixou a catedral de Nova Iguaçu em companhia de seu sobrinho, Fernando Webering, e da secretária deste, Maria da Fé Pílar D’Ávila. Eles embarcaram no "Fusca" vermelho de Fernando, placas EB-7591 e seguiram para o bairro da Posse, onde deixaram Maria em casa. Daí seguiram para o Parque Flora, a cinco quilômetros de Nova Iguaçu, onde o bispo mora com o irmão e a cunhada.
Assim que o carro parou e Maria desembarcou, em Posse, o "Fusca" de Fernando foi fechado por dois automóveis, dos quais saltaram vários homens empunhando revólveres. Eles obrigaram o bispo a passar para outro carro, onde também embarcaram um branco de óculos e outro moreno. O bispo ouviu os gritos de Fernando que ficou dominado pelos outros sequestradores em seu próprio carro. D. Adriano foi algemado, amarrado com cordas e encapuzado. Em seguida, passaram-no do banco para o chão. A partir daí o bispo recebeu uma série de pontapés. Durante a viagem, em que o carro, segundo d. Adriano percorreu caminhos de terra batida e estradas de terra, os sequestradores lhe disseram que muitos comunistas iam morrer, mas que sua vez não havia chegado, por determinação do chefe do grupo.
Em um lugar que o bispo não sabe precisar, os terroristas rasgaram sua batina e o deixaram totalmente despido. Em seguida, pintaram seu corpo de vermelho e o deixaram. D. Adriano foi abandonado por volta das 21 e 30 — no Bairro Jabour, em Jacarepaguá, por Evandro e Maria da Glória, que foi de ônibus para a rodoviária. Ele passou com sua Rural Willys placa KS 7242, ornamentado com propaganda eleitoral. Evandro conduziu o bispo à casa da mãe de Adir Mary, que lhe deu roupas e sapatos. Nova Iguaçu, onde o bispo foi encaminhado à delegacia mais próxima, a 28ª DP, em Madureira, em cuja jurisdição foi encontrado.
EXPLOSÃO
Às 23 e 30, o "Fusca" vermelho de Fernando foi estacionado diante da sede da CNBB, em frente ao número 292 do garoto. Viu os dois homens descerem e colocarem um envelope com o panfleto da mensagem em cima de um monte de terra. Logo depois o carro explodiu. Após o sequestro, Maria, noiva de Fernando, que é também secretária de d. Adriano foi à sede da Nova Iguaçu. O delegado de plantão de Adir Mary, que foi ao local. Logo após, a polícia chegou, com d. Ivo Lorscheiter, presidente da CNBB, procurou os policiais para saber se o carro que explodira era o do bispo que ficou sequestrado. Os policiais julgaram, naquele momento, que o carro explodira com as duas vítimas no interior e que a pessoa estava carbonizada e que havia uma camiseta branca e uma calça preta entre as ferragens retorcidas pelo fogo, além de fragmentos de cerca de 500 cruzeiros em notas chamuscadas pelo fogo. Os agentes recolheram os documentos, conferiram o nome constante na identidade com o que foi fornecido por d. Ivo e constataram que o carro era o sobrinho de d. Adriano e que não havia vítima no interior do veículo.
Ao tempo em que d. Adriano contava como ocorrera o sequestro e queixava-se de que os bandidos roubaram seus documentos e outros pertences e que ele teria de pagar diárias da catedral de Nova Iguaçu, um sobrinho era encontrado na estrada do Catonho, próximo ao hotel Taba. Fernando estava despido, amordaçado, encapuzado e apresentava-se bastante ferido. Ele foi levado para uma clínica em Nova Iguaçu para ser medicado. Logo depois d. Adriano foi conduzido ao DPPS para prestar depoimento sigiloso.
ROBERTO MARINHO
O automóvel Volkswagen azul, placa LI-4200, está sendo procurado pela polícia do Rio de Janeiro. Seus ocupantes são os principais suspeitos do atentado à bomba contra a casa de Roberto Marinho, dono das empresas da organização "O Globo", à rua do Cosme Velho, nº 1.105. O carro foi visto rondando a casa pouco antes do atentado às 23 e 30.
A polícia constatou que a bomba foi jogada pelos ocupantes de um carro que passou à frente da residência, e que passou aos fundos da propriedade. A bomba caiu sobre o telhado, destruiu as telhas e a explosão quebrou a parede da casa. O estrondo destruiu todas as vidraças do quarto de Roberto Marinho, que dormia com sua mulher. Uma policial informou que o casal só não foi atingido porque as estilhaças de vidro caíram de encontro a cortina, que estava fechada.
O atentado feriu dois empregados de Roberto Marinho, os garçons Darcy Alves Faria e Augusto Queiroz. Ambos foram levados para o hospital Miguel Couto, com ferimentos mais graves. Ele foi liberado após ser medicado, mas retornou ao hospital ontem para um exame dos olhos que foram atingidos pelos estilhaços.
Logo depois do atentado a casa de Roberto Marinho, quatro soldados da PM foram mandados para garantir a sede do jornal "O Globo". O porteiro da sede e o guarda de segurança particular da empresa receberam instruções para não deixar ninguém subir. O acesso ao prédio só era permitido às pessoas autorizadas após consulta da portaria a funcionários superiores, na redação.
NÃO FALA
A exemplo do que aconteceu por ocasião dos atentados à OAB e à ABI, o general Reynaldo Mello de Almeida, comandante do I Exército, negou-se a receber a imprensa para falar sobre os últimos atentados ocorridos no Rio. Através de um assessor mandou dizer que não pretende se pronunciar sobre esse tipo de acontecimento, cuja investigação está a cargo exclusivamente da secretaria de Segurança Pública.
Segundo o assessor o I Exército não está envolvido diretamente nas investigações sobre este terrorismo. Limita-se a acompanhar a ação da secretaria de Segurança. Ao ser perguntado sobre até onde ia o conhecimento do Exército com respeito à existência da AAAB (Aliança Anticomunista Brasileira), o assessor disse que até o momento o I Exército tem conhecimento apenas do que está sendo publicado nos jornais.


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