domingo, 23 de agosto de 2026

Democracia Cultural em Ação: Poesia, Música e Afeto na 4ª Mostra Arte e Cidadania

 Por Zezito de Oliveira e Iasmin Feitosa


Foto da exposição comemorativa dos 22 anos da Ação Cultural - Iasmin Feitosa

Na tarde do último sábado, 22 de agosto de 2026, a Paróquia São Pedro Pescador, no Bairro Industrial, foi palco de um encontro que transcendeu a ideia de mero evento cultural. A 4ª edição da Mostra Arte e Cidadania , realizada pela Ação Cultural Juventude e Cidadania, materializou na prática um conceito caro aos que militam pela democratização efetiva da arte: a democracia cultural.

Como bem pontuou Zezito de Oliveira, um dos idealizadores do projeto, a diferença é sutil, mas profunda. Não se tratou de levar cultura às pessoas, como no modelo de democratização cultural, mas sim de fazer cultura com as pessoas. A tarde de atividades foi o exercício vivo de um aprendizado gestado n0 curso agentes culturais democráticos realizado conjuntamente pela UFBA e UFRB com apoio do MINC, onde o protagonismo comunitário é a chave.

E foi exatamente isso que vimos. A programação, pensada e executada por agentes culturais comunitários com apoio da Política Nacional de Cultura Viva, celebrou a diversidade e a potência das periferias. Do território simbólico do bairro, a mostra trouxe à tona talentos muitas vezes invisibilizados, até mesmo dentro da própria comunidade, ofuscados pelos holofotes dos grandes meios de comunicação que, movidos pelo lucro fácil, insistem em dar palco à produção cultural mais rasa e descartável.

A Poesia como Ato de Resistência

O encontro foi um antídoto contra o "estado de expectadoras e consumidoras" que a indústria do entretenimento nos impõe. Em vez disso, respirou-se o "estado de poesia", como bem definiu o genial Chico César. Esse espírito esteve presente desde o início, com a palavra forte e reflexiva de Zezito, que abriu os trabalhos, e a acolhida sensível do Padre Soares, que uniu fé, arte e cidadania em um mesmo abraço comunitário.

A poesia popular de matriz tradicional, representada pela força do cordel do professor e pesquisador João Emanuel, emocionou ao declamar versos que ecoam a missão de quem acredita na força da cultura popular. Em contraponto, a poesia contemporânea e de denúncia tomou conta do espaço com a jovem Yala Souza. Nascida e criada na Matinha, região discriminada do bairro, Yala traduziu em suas rimas a insatisfação com as injustiças, o preconceito e a força da mulher periférica, representando com maestria a arte que resiste e transforma.

Música, Memória e o Encontro de Gerações

Uma das felizes descobertas do percurso formativo que resultou na mostra foi o músico Rafael Durval. Indicado por adolescentes da oficina de audiovisual com celular para um curta de conclusão da primeira oficina, Rafael levou ao palco a diversidade musical que transita entre a MPB, o pop rock e o forró de matriz tradicional, acompanhado por Ana Maia e Alex Santos. Sua apresentação foi antecedida pela  exibição do minidocumentário "A Música da Fé", produzido pelos jovens, que emocionou ao contar sua trajetória como música na igreja.

O evento também se notabilizou pelo cuidado com seus participantes. Em um gesto de afeto por parte de Rafael, Rose, integrante da "Sopa Solidária", foi homenageada com um "parabéns" coletivo, demonstrando que o tecido cultural do bairro é feito de afeto e pertencimento.

A Força da Tradição e o Futuro

Para fechar com chave de ouro, a tradição afro-indígena tomou conta do espaço com a apresentação vibrante do grupo Maculelê Mirim, do Instituto Piadinhas. A performance contagiou crianças e adultos, que foram convidados a sair da passividade e vivenciar o ritmo, formando uma roda de aprendizado de alguns movimentos básicos do Maculelê. 

Conclusão: A Cultura como Tecido Social

A 4ª Mostra Artística e Cultural não foi apenas um evento; foi um manifesto pela vida. Mesmo diante dos desafios da descontinuidade de políticas públicas como o Cultura Viva ocorrido entre 2016 e 2022, a juventude e os agentes culturais do Bairro Industrial demonstraram que é possível resistir e criar.

Ao final, a diretora-presidente da Ação Cultural, Maíra Ramos, reforçou o compromisso da entidade com a comunidade. A mostra cumpriu seu papel de valorizar o artista local, promover o diálogo entre cultura, fé e cidadania, e devolver ao bairro a dignidade de ser produtor e não apenas consumidor de cultura.

Porque, como nos lembrou Zezito, a cultura é simbólica, cidadã e econômica — e, acima de tudo, é o fio que une a comunidade. Que a Cultura Viva continue a pulsar forte nas periferias, alimentando o estado de poesia que nos faz humanos.




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