Por: Zezito de Oliveira -Editor do blog da cultura
Opinião
Em artigo para o Blog da Cultura, Zezito de Oliveira denuncia o "isentivismo" da ACI/EWTN na cobertura da crítica de Dom Vicente à Quaresma de São Miguel — uma falsa neutralidade que, segundo o autor , achaca a hierarquia ao colocar a palavra de um bispo no mesmo nível de críticos anônimos, repetindo o padrão já usado no cancelamento do padre Zezinho. Em um box explicativo, o autor contextualiza a origem da EWTN (apelidada de "Fox News católica") e suas polêmicas históricas — de ataques velados ao Papa Francisco ao alinhamento republicano —, concluindo que o gigante conservador sacrifica a reverência à hierarquia por medo de perder engajamento e contrariar seu próprio nicho de audiência. A leitura é um convite à reflexão sobre os rumos do jornalismo católico e a urgência de cobrar posições editoriais coerentes.
Nos últimos dias, testemunhamos mais um capítulo preocupante do jornalismo católico brasileiro. Não me refiro propriamente à polêmica envolvendo a crítica de Dom Vicente Ferreira à "Quaresma de São Miguel", mas à forma absolutamente deliberada como a ACI Digital e a EWTN conduziram a cobertura do caso. O que está em jogo aqui não é uma simples disputa de opiniões, mas a erosão silenciosa do respeito à hierarquia eclesial, praticada justamente por quem, em tese, deveria defendê-la.
O "estranho", como bem observou uma leitora atenta, é a aplicação de um padrão jornalístico raso de "isentivismo" a um pronunciamento episcopal. A reportagem publicou a fala do bispo, deu voz a críticos anônimos das redes sociais e, para arrematar, inseriu um "card" sobre Teologia da Libertação, insinuando — sem nunca afirmar abertamente — a filiação teológica do prelado. No final, a clássica muleta jornalística: "procuramos o bispo, mas ainda não tivemos retorno".
Até aí, poderíamos chamar de "técnica jornalística" se estivéssemos falando de política partidária. Mas estamos falando da Igreja Católica. Um bispo não é um "formador de opinião" qualquer; ele é o sucessor dos Apóstolos, com autoridade magisterial sobre sua diocese. Tratar sua fala como se fosse mais um post de um influenciador digital é um ato de achamento hierárquico profundo.
Para confirmar que esse padrão não é um erro isolado, basta compararmos com a cobertura do "cancelamento" do padre Zezinho. Na ocasião, a ACI agiu da mesma forma: noticiou a crítica do sacerdote a frei Gilson, deu palco à reação furiosa dos defensores do movimento, e transformou o embate teológico em um ringue de opiniões. O resultado foi um padre de trajetória sólida sendo pressionado a se retirar das redes, enquanto o "megafone" conservador se esquivava de qualquer responsabilidade pastoral.
Ora, se no caso do padre Zezinho o "equilíbrio" já foi danoso, no caso de Dom Vicente ele se torna teologicamente insustentável. A hierarquia não é uma opção entre "dois lados". Se a linha editorial da EWTN se orgulha de ser "conservadora", deveria lembrar que o conservadorismo autêntico implica, acima de tudo, obediência e reverência ao magistério episcopal — ainda que este vá contra o engajamento das redes.
Aqui reside a grande ironia e a hipocrisia metodológica da qual fomos testemunhas. Antigamente, os setores conservadores acusavam os progressistas de desrespeitar a hierarquia e de relativizar a autoridade dos bispos. Hoje, a grande mídia católica conservadora adota o mesmo relativismo pragmático, mas com uma motivação ainda mais mesquinha: o medo de perder audiência. Ao colocar a palavra de Dom Vicente no mesmo patamar de críticas de leigos e influenciadores, a ACI/EWTN não está sendo "imparcial"; está, na prática, desautorizando o bispo para não contrariar o nicho que consome frei Gilson e a Quaresma de São Miguel.
O que esperamos de um veículo católico sério não é que ele faça "a defesa cega" de todos os bispos, mas que tenha a lucidez de interpretar os fatos à luz da eclesiologia. Uma reportagem que apenas "joga informações contra e a favor", sem uma palavra lúcida sobre a questão, não informa; confunde. E, num momento em que a fé é reduzida a trending topics, esse tipo de cobertura não é apenas "estranho" — é uma irresponsabilidade pastoral.
Se a ACI Digital e a EWTN desejam, de fato, um trabalho coerente e sério, precisam urgentemente revisitar seus critérios editoriais. Não se pode servir a dois senhores: o algoritmo do engajamento e a Verdade que liberta. Até quando a hierarquia será defendida apenas quando fala a favor do próprio nicho, e jogada no ringe do "isentivismo" quando confronta os ídolos populares do conservadorismo?
A Igreja não pode, nem deve, delegar a formação de seus fiéis a esse modelo de jornalismo líquido. É hora de cobrar posição. O silêncio cúmplice ou a falsa neutralidade já não cabem mais.
ACI Digital e EWTN: o que são e por que geram controvérsia
O que é a ACI Digital
A ACI Digital é o serviço de notícias em língua portuguesa da EWTN News e integra o Grupo ACI, que reúne diferentes agências católicas de notícias ao redor do mundo. O grupo teve origem em 1980, com a fundação da ACI Prensa em Lima, Peru, pelo missionário comboniano alemão Adalberto María Mohn. O projeto ACI Digital foi lançado em 1997, oferecendo aos leitores de língua portuguesa notícias traduzidas do site da ACI Prensa. Atualmente, o Grupo ACI integra também a Catholic News Agency (inglês), ACI Prensa (espanhol), ACI Stampa (italiano), CNA Deutsch (alemão), ACI Africa, ACI Afrique, ACI MENA (árabe), além de escritórios no Brasil, Itália, Estados Unidos, Espanha, Quênia, Iraque e Peru. Sua missão declarada é fornecer informações que fortaleçam o conhecimento dos católicos, difundir o Evangelho e o magistério da Igreja, e responder aos desafios do mundo contemporâneo.
O que é a EWTN
A EWTN (Eternal Word Television Network) é a maior rede católica de mídia do mundo. Fundada em 1981 no Alabama, nos Estados Unidos, pela madre Angélica (1923-2016), uma freira clarissa, a rede cresceu de forma expressiva e hoje está presente em cerca de 350 milhões de lares. Em 2014, a EWTN adquiriu o Grupo ACI, expandindo seu alcance como líder internacional em notícias católicas. A EWTN opera em sete idiomas e possui televisão, rádio, plataformas digitais e publicações impressas. É administrada majoritariamente por leigos e tem à sua frente, desde 2000, Michael Warsaw como presidente e CEO.
Linha editorial e posicionamento conservador
A EWTN é amplamente reconhecida como um conglomerado de mídia de linha conservadora. Frequentemente é comparada, no ambiente católico, a uma "Fox News católica", em razão de sua forte defesa de posições doutrinárias tradicionais e de seu alinhamento com setores politicamente conservadores. A rede mantém vínculos próximos com doadores católicos conservadores e com figuras do Partido Republicano nos Estados Unidos.
Principais controvérsias
A atuação da EWTN e, por extensão, da ACI Digital, tem gerado críticas significativas, especialmente durante o pontificado do Papa Francisco:
Críticas ao Papa Francisco: A EWTN foi frequentemente acusada de abrigar e dar espaço a críticos ferrenhos do Papa Francisco. Em 2021, o próprio Papa Francisco criticou "um grande canal de televisão católico" — amplamente interpretado como referência à EWTN — por "falar continuamente mal do Papa" e atacar a Igreja, chegando a classificar tais críticas como "obra do diabo".
Críticas de cardeais e bispos: O cardeal Robert McElroy, em entrevista, criticou duramente a EWTN, afirmando que seus principais apresentadores "minimizam as capacidades teológicas de Francisco", citam calúnias contra o Papa e desacreditam as reformas eclesiais que ele está promovendo. McElroy declarou que não contaria com a EWTN entre os meios de comunicação de sua diocese. Em dezembro de 2022, o bispo de San Sebastián, na Espanha, proibiu a exibição de qualquer conteúdo da EWTN em sua TV diocesana, alegando a necessidade de "preservar a unidade" com Roma.
Partidarismo político: A EWTN também foi criticada por sua proximidade com políticos republicanos, incluindo entrevistas com o ex-vice-presidente Mike Pence e com a ex-secretária de imprensa da Casa Branca Sarah Sanders, em um tom que muitos consideraram promocional e partidário.
Falsa isenção e desrespeito à hierarquia: Críticos apontam que a EWTN e a ACI Digital, ao adotarem um "isentivismo" raso em coberturas de declarações de bispos — como ocorreu recentemente no caso de Dom Vicente Ferreira — tratam pronunciamentos episcopais como se fossem meras opiniões de debatedores, achacando a hierarquia e desautorizando indiretamente a autoridade dos bispos, ainda que isso contrarie seu próprio discurso conservador de defesa da hierarquia.
Fusão e reestruturação recente
Em janeiro de 2026, a EWTN anunciou uma grande reestruturação, unificando suas marcas internacionais sob uma única organização global de notícias. A ACI Prensa e a Catholic News Agency deixaram de existir como marcas independentes, sendo integradas à nova EWTN News. Em junho de 2026, o Papa Leão XIV nomeou Maria Montserrat Alvarado, presidente e CEO da EWTN News, como prefeita do Dicastério para a Comunicação do Vaticano, um movimento que gerou reações diversas, dado o histórico de tensionamento entre a EWTN e o Vaticano.
Os dois textos acima foram produzidos tendo como parâmetros informações publicadas por Inês Ferreira em texto no facebook e pesquisa com a IA deepseek, além de informações da memória pessoal do autor.
Fake news e escândalos: a mídia católica de direita ataca Francisco
Tradicionalistas, especialmente do clero dos EUA, utilizam os mesmos métodos da direita alt-right para atacar as reformas do papa jesuíta e latino-americano
https://apublica.org/2020/01/fake-news-e-escandalos-a-midia-catolica-de-direita-ataca-francisco/
Leia texto analítico do professor Romero Venâncio sobre a influência deletério do pensamento conservador anti Vaticano II, impulsionado por meio de redes de comunicação digital. AQUI

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