Senhora Aparecida, Mãe negra encontrada nas águas do rio Paraíba, que não pediste concurso público para ser padroeira, nem fizeste campanha eleitoral, nem prometeste emendas parlamentares… olhai por nós, que andamos perdidos entre tantos que querem cassar o que não lhes pertence. Intercedei por este Brasil que te quer Mãe, mas que ainda não aprendeu a honrar os filhos que tu preferes: os pobres, os negros, os excluídos, os que não têm voz. Ensinai-nos, Senhora, que padroeira não é cargo eletivo, não recebe salário e não depende de reeleição. E quando terminarem de discutir o teu título, lembrai-lhes — e a nós — que ainda falta discutir a fome, a pobreza, o feminicídio, o racismo, a desigualdade e o abandono. Que a tua fé nos guie para escolher a Democracia, a Justiça ecossocial e a Paz. Amém.
Da indiferença às pautas populares ao preconceito de classe, as razões pelas quais a devoção a Aparecida permanece inalcançável para os políticos
Frei Betto - Revista Opera - 27 de setembro de 2026 -
O racismo e a intolerância religiosa da família Bolsonaro e de seus aliados voltam a se manifestar na proposta de um deputado do PL, partido de Flávio Bolsonaro, de cassar o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. (Foto: Gustavo de Oliveira / Arquidiciocese do Rio)O racismo e a intolerância religiosa da família Bolsonaro e de seus aliados voltam a se manifestar na proposta de um deputado do PL, partido de Flávio Bolsonaro, de cassar o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. (Foto: Gustavo de Oliveira / Arquidiciocese do Rio)
Em abril de 2017, no Clube Hebraica, no Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro, ao se referir a uma visita a um quilombo, contou: “O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Acho que nem para procriador ele serve mais.” Bolsonaro usou uma unidade de peso associada a animais para se referir a quilombolas. A fala provocou denúncia da então procuradora-geral da República, Raquel Dodge, que considerou desrespeitoso o uso de “arrobas” para pessoas negras por tratá-las de maneira comparável a animais.
Em julho de 2018, já candidato à Presidência, Bolsonaro foi novamente questionado sobre racismo, e ao ser perguntado sobre uma eventual dívida histórica do Brasil com a população negra, respondeu: “Não escravizei ninguém”. Na mesma entrevista, acrescentou: “Foram os próprios negros que entregavam os escravos”.
Também durante a campanha, defendeu o fim das reservas indígenas e quilombolas: “Se eu chegar lá, não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola.”
O racismo e a intolerância religiosa da família Bolsonaro e de seus aliados voltam a se manifestar na proposta de um deputado do PL, partido de Flávio Bolsonaro, de cassar o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida.
Nossa Senhora Aparecida, que andava entretida em explicar a um grupo de devotos que não existe “Aparecida do Norte”, pois o município paulista fica no Sul e desde que se emancipou de Guaratinguetá, em 1928, é denominado apenas Aparecida, ficou preocupada com a notícia da ameaça de cassação. E, convenhamos, até uma santa pode ficar indignada quando descobre que seu cargo está sendo discutido no Congresso.
“Mas desde quando preciso de concurso público para ser padroeira?”, teria perguntado a Virgem ao ajeitar o manto azul. “Não lembro de ter feito campanha eleitoral, distribuído santinhos ou prometido emendas parlamentares.”
A história, aliás, não começou agora. Em 16 de julho de 1930, o papa Pio XI proclamou Nossa Senhora Aparecida padroeira do Brasil, a pedido dos bispos brasileiros. A solenidade pública ocorreu em 1931, no Rio de Janeiro, diante de autoridades e de uma multidão de fiéis. Aparecida, portanto, estranha a notícia de que alguns políticos pretendem retirá-la do posto.
“Que fiz eu de errado?”, pergunta. Talvez seja o imperdoável pecado de ser negra. Afinal, a pequena imagem encontrada em 1717 nas águas do rio Paraíba é negra e há quem ainda se incomode com a presença dos negros ocupando lugares de honra.
Talvez o problema seja ela não pertencer a partido algum. Não é de esquerda nem de direita. Não se filiou ao PT, ao PL, ao PSOL, ao centrão ou a qualquer outra legenda. Nunca pediu fundo partidário. Nunca disputou eleição. E, sobretudo, jamais prometeu aquilo que político adora assegurar se for eleito: o milagre de resolver todos os problemas do Brasil em quatro anos.
Outro detalhe desconcertante é Aparecida ter a preferência de pobres. Isso complica sua permanência no cargo. Segundo a própria tradição católica, sua devoção tornou-se um elo de união entre diferentes grupos do povo brasileiro e é associada à solidariedade, à fraternidade e à atenção aos mais pobres.
Ora, convenhamos, uma santa que insiste em defender os excluídos pode causar certo desconforto em ambientes onde a população carente costuma ser levada em conta apenas em época eleitoral. Aparecida talvez também esteja intrigada com a ideia de que políticos possam cassar aquilo que não lhes pertence. “Fui encontrada por pescadores, venerada pelo povo, proclamada Padroeira pela Igreja e reconhecida oficialmente pelo Estado brasileiro. E agora um político imagina que pode me demitir?”
Em 1980, a Lei nº 6.802 decretou o dia 12 de outubro feriado nacional dedicado à devoção a Nossa Senhora Aparecida e reconheceu oficialmente sua condição de padroeira do Brasil. Portanto, se algum parlamentar quiser realmente votar sua cassação, sugiro que providencie antes uma CPI.
Primeiro, ouviriam a acusada: “A senhora confirma que é Padroeira do Brasil?” “Confirmo”. “Tem consciência de que esse título poderá ser retirado?” “Tenho”. “E pretende recorrer?” “Não. Prefiro deixar que o povo decida no coração”. Silêncio no plenário. Então alguém perguntaria: “A senhora tem alguma consideração final?” E Aparecida, talvez sorrindo debaixo do manto azul, responderia: “Tenho. Quando terminarem de discutir meu título, sugiro que comecem a discutir a fome, a pobreza, o feminicídio, o racismo, a desigualdade e o abandono dos que não têm voz.” Silêncio no plenário.
Talvez algum deputado cochichasse: “Essa santa está ficando política demais.” Ao que outro reagiria: “Não. Nós é que esquecemos que política deveria servir ao povo.”
Aparecida, então, voltaria tranquilamente para seu altar. Afinal, padroeira não é cargo eletivo, não recebe salário e não depende de reeleição. E, se algum dia perder o título oficial, continuará sendo aquilo que os pescadores encontraram há mais de trezentos anos no rio Paraíba: uma pequena imagem negra que, desde então, o povo brasileiro insiste em chamar de Mãe.
(*) Frei Betto é escritor, autor da tetratologia sobre Jesus editada pela Vozes (Jesus Militante, Jesus Rebelde, Jesus Revolucionário e Jesus Amoroso), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org
Marcha Final (De Banzo E De Esperanca) / Invocao A Mariama
Aparecida, as eleições e a DemocraciaMarcelo Barros
O candidato do mal e do entreguismo foi acusado de estar planejando, se for eleito, retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de “padroeira do Brasil”. Isso nem poderia ser verdade, já que se trata de uma distinção dada pela hierarquia católica e só essa poderia mexer nisso. A única coisa que um presidente da República pode fazer seria abolir o feriado nacional de 12 de outubro, dia da festa de Nossa Senhora Aparecida. O feriado nacional foi decretado pelo General Figueredo em 1980 e isso é sim da competência do governo federal.
Um Presidente que pretendesse retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil suscitaria a revolta da maior parte da hierarquia católica e de grande parte do povo brasileiro, católico ou não. Do lado evangélico, muitos irmãos e irmãs de Igrejas histórias e pentecostais não entrariam diretamente na polêmica, mas poderiam pronunciar-se pela defesa da cultura popular brasileira, ligada a Aparecida.
Provavelmente, o candidato em questão conseguiria o apoio de numeroso grupo de evangélicos e pentecostais que veem na devoção à Aparecida, um fenômeno de superstição e idolatria, contrária ao Evangelho de Jesus.
No entanto, além dessa questão conjuntural, o tal boato falso revelou algo mais profundo e mais preocupante: muitos católicos reagiram a essa notícia, exatamente, como a massa católica reagiu em 1931, quando, pela influência de Dom Sebastião Leme, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, o Papa Pio XI proclamou Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil e no ano seguinte, 1931, na data de 12 de outubro, no Rio de Janeiro, o cardeal inaugurou a estátua do Cristo Redentor no morro do Corcovado.
Naquela época o que estava em jogo era a influência da hierarquia católica no país. Ao fazer Nossa Senhora Aparecida padroeira do Brasil e inaugurar a estátua do Cristo Redentor no Corcovado, o Cardeal Leme, maior líder católico no Brasil, garantiu o prestígio e a força política necessária para impor ao governo e à sociedade laica os interesses do clero e o poder da Igreja Católica no país, ainda então, considerado católico. O sistema de Cristandade, isso é, de uma Igreja ligada ao Estado como poder e que se expressa como religião civil já não existia desde os tempos do Império, mas a cultura continuava a mesma.
E agora, o que está em jogo? É triste perceber que, em pleno século 21, nesse contexto de mundo em que vivemos, essa cultura de dominação católica e de religião de massa continua, não apenas nos círculos católicos mais tradicionais, mas mesmo nos meios eclesiais mais abertos e comprometidos com a renovação eclesial e do mundo. Não percebem que continuar na cultura de Cristandade não só não é justo com o pluralismo cultural e religioso do povo brasileiro, como não faz bem nem à própria Igreja. Além de que isso nada tem a ver com o projeto de Jesus, não rompemos com o colonialismo ainda impregnado na cultura de Cristandade.
Atualmente, todas as pessoas conscientes concordam que o Brasil é um Estado laico e deve continuar laico. Portanto, o povo brasileiro tem todo o direito de ter a religião que quiser seguir, ou nenhuma. A liberdade religiosa está assegurada pela atual Constituição Federal de 1988. Essa parte mais lúcida da sociedade reage quando escuta pastores pentecostais sugerirem que tal cidade pertence ao Cristo e expressarem que sonham com um Brasil pentecostal.
No entanto, grande parte dessa lucidez não aparece, quando se trata de defender um Brasil católico, com feriados católicos e privilégios para a Igreja Católica, assegurados pela Concordata com o Vaticano.
Pessoalmente, imagino que Maria de Nazaré, discípula do filho Jesus e esse mesmo, no seu intento de testemunhar ao mundo o projeto divino, estejam pouco preocupados com títulos como esse de padroeira do Brasil e prefiram ver o nosso povo empobrecido mais consciente dos seus direitos e mais capaz de votar para continuar a luta por uma mais profunda e verdadeira democracia, laica e pluricultural.
Comparando os dois candidatos a presidente com real chance de serem eleitos, é óbvio que com Lula estará assegurado o caminho para garantirmos o regime democrático, a luta por direitos do Povo e da Natureza e a luta para que, de fato, o Brasil continue a ser um Estado laico. O outro candidato tem evidentes relações com milicianos, com a corrupção em muitos casos e, inúmeras vezes, já declarou que pretende colocar o Brasil de joelhos, diante dos Estados Unidos.
Em muitos países, a tentação de um governo ditatorial e de tendência fascista tem sido característica da extrema-direita. O Brasil não pode cair nesta vala, que trará a amputação da democracia e cortes brutais em direitos trabalhistas, previdenciários, humanos e ambientais, conquistados nas últimas décadas, com muita luta, suor e sangue. Que, nessa hora grave das eleições presidenciais, estaduais e de grande parte do legislativo nacional, a fé e a espiritualidade de todas as religiões e caminhos humanos nos guiem para escolher a Democracia, a Justiça ecossocial e a Paz.
O Irmão Marcelo Barros (nascido em Camaragibe, PE, em 27 de novembro de 1944) é um monge beneditino, teólogo da libertação, biblista e escritor brasileiro, amplamente reconhecido por sua dedicação às causas sociais e ao diálogo inter-religioso.
Play List Salve Maria! Com a MPB secular e com a MPB católica. Por Zezito de Oliveira
Uma seleção que atravessa o sagrado e o cotidiano, a fé e a vida social, o terreiro e o asfalto, o sertão e o morro. De Luiz Gonzaga a Renato Teixeira, de Herivelto Martins a Roberto e Erasmo, de Cacaso e Wisnik a Padre Zezinho,Zé Vicente e Padre Marcelo Rossi.
Maria de Nazaré. Nossa Senhora Aparecida. Maria Marlene, minha mãe. Todas as Marias. 🙏
Porque Deus é amor, no sentido jesuânico — o amor que gera vida.
domingo, 27 de setembro de 2026
Nossa Senhora Aparecida: patrimônio cultural do povo brasileiro. Célio Turino (*)
Nossa Senhora Aparecida é patrimônio cultural do povo brasileiro. Mais que uma imagem, é a forma popular de dizer que ninguém se salva sozinho.
A rede trouxe a imagem.
A imagem trouxe a comunidade.
A comunidade trouxe a festa.
A festa trouxe a memória.
E a memória, quando permanece viva, torna-se patrimônio. 💙
Mãe negra encontrada por pescadores. Mãe que acolhe todos os filhos. Mãe que não divide seus filhos: chama para a mesa, e em mesa de Mãe sempre cabe mais um. Até o Brasil inteiro. 🇧🇷


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