Gonzaguinha escreveu “Pense N’eu”, música que Luiz Gonzaga gravou em 1984, numa parceria de pai e filho que carrega, por trás de uma aparente simplicidade, uma pergunta que continua atual: onde estamos, onde estaremos, se sorrindo ou se chorando?
A canção pede que alguém seja lembrado “vez em quando”, mas, à medida que avança, o pensamento deixa de caber apenas na relação entre duas pessoas e se abre para uma dimensão coletiva, para a gente, para o povo, para o país, para a esperança de fazer tudo melhor e para a ideia de união. É justamente esse movimento que me interessa recuperar agora, quando mais uma vez somos chamados a tomar decisões políticas que terão consequências para a nossa vida coletiva.
Por isso, talvez seja bom pensar n’eu, pensar em nós e pensar no país, não apenas durante o período eleitoral, mas também depois dele.
Pensar antes de decidir. Pensar enquanto decidimos. E continuar pensando, de vez em quando, naquilo que decidimos e nas consequências dessas decisões.
É com esse espírito que convido você a ler o texto abaixo. Não como uma tentativa de dizer em quem votar, muito menos como uma fórmula pronta para orientar sua escolha, mas como um convite para pensar sobre o que entendemos por política, que lugar atribuímos à cultura na construção da sociedade e que tipo de participação queremos exercer na vida pública.
Talvez uma das tarefas mais importantes de uma cultura democrática seja justamente esta: ajudar-nos a pensar antes de escolher e, sobretudo, não deixar que o pensamento termine no momento em que depositamos o voto na urna.
Porque democracia não começa e termina na eleição.
Ela continua quando acompanhamos o que os eleitos fazem, quando cobramos compromissos, quando participamos das decisões públicas, quando preservamos a memória das experiências vividas e quando procuramos compreender as razões pelas quais nossa sociedade toma determinados caminhos.
É nesse sentido que proponho a leitura deste texto:
Politizar a cultura, culturalizar a política
Há uma frase que, de tão simples, pode parecer apenas um slogan: politizar a cultura, culturalizar a política. No entanto, quando olhamos para a trajetória da Ação Cultural e para aquilo que vem sendo construído, registrado e debatido ao longo dos anos no Blog da Cultura, percebemos que ela pode ser mais do que uma frase de efeito. Pode ser uma chave para compreender uma determinada maneira de pensar e fazer cultura, política e participação social.
Mas é preciso começar por uma distinção. Quando falamos em politizar a cultura e culturalizar a política, não estamos falando de transformar a cultura em instrumento de propaganda partidária, nem de submeter a produção cultural aos interesses de governos, partidos ou candidatos. Estamos falando de política no sentido mais nobre da palavra, como espaço de construção da vida coletiva, de disputa democrática de projetos de sociedade, de participação nas decisões que afetam a comunidade e de reconhecimento de cada pessoa como sujeito de direitos.
É nesse sentido que a trajetória registrada pelo Blog da Cultura ganha importância.
O próprio Blog já fez uma síntese bastante direta dessa perspectiva ao afirmar: “Culturalizar a política. Politizar a cultura.” A formulação aparece associada à necessidade de aproximar processos de formação, pedagogias críticas, criação cultural e capacidade de incidência social e política. Não se trata, portanto, de acrescentar um pouco de política à cultura ou um pouco de cultura à política, mas de compreender que as duas dimensões estão profundamente relacionadas.
A cultura não acontece fora da sociedade. Ela nasce das relações sociais, das experiências, das memórias, dos conflitos, das esperanças e das formas pelas quais homens e mulheres procuram dar sentido à própria existência. Por isso, quando uma comunidade cria um cineclube, organiza uma apresentação teatral, preserva sua memória, realiza uma oficina de audiovisual, constrói um Ponto de Cultura ou participa de uma audiência pública, não está simplesmente fazendo cultura. Está também produzindo conhecimento, vínculos, consciência, pertencimento e capacidade de intervenção.
É aí que começa a politização da cultura.
Politizar a cultura é deixar de enxergá-la apenas como entretenimento, espetáculo, evento ou programação. É perguntar quem produz, quem acessa, quem decide, quem fica de fora, que memórias são preservadas, quais narrativas circulam, quais territórios são reconhecidos e que sujeitos conseguem transformar suas experiências em linguagem pública.
Uma política cultural, nessa perspectiva, não pode ser avaliada apenas pela quantidade de eventos realizados, pelo número de artistas contratados ou pelo volume de recursos movimentados. Essas informações são importantes, mas não esgotam a questão. É preciso perguntar também qual sociedade está sendo produzida por determinada política cultural.
É justamente esse deslocamento que aparece em diferentes momentos da trajetória do Blog da Cultura.
A discussão sobre a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, por exemplo, não se limita (ou deveria se limitar) à existência dos recursos ou à execução financeira. A preocupação recorrente é com a participação social, o controle público, a continuidade das políticas, o fortalecimento dos agentes culturais e a capacidade de transformar recursos temporários em processos permanentes de cidadania cultural.
Da mesma forma, a experiência dos Pontos de Cultura aparece não apenas como uma política de financiamento de iniciativas culturais, mas como possibilidade de organização social, formação, articulação em rede e participação. Em 2025, por exemplo, o Blog registrava a necessidade de discutir coletivamente a Lei Cultura Viva, a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, os mecanismos de participação e controle social e a própria organização da Rede Sergipe de Pontos de Cultura.
Isso é politizar a cultura.
Mas existe o movimento inverso: culturalizar a política.
Culturalizar a política significa compreender que a disputa política não acontece somente nos parlamentos, nos governos, nas eleições ou nos partidos. Ela acontece também no terreno dos símbolos, das narrativas, da memória, dos afetos, da identidade, da linguagem e do imaginário.
Uma sociedade não se transforma somente porque uma lei foi aprovada. Ela se transforma também quando as pessoas passam a enxergar sua própria história de outra maneira, quando uma comunidade reconhece seu patrimônio, quando jovens aprendem a produzir imagens sobre seu território, quando moradores conseguem narrar seus problemas, quando grupos historicamente silenciados conquistam espaço para dizer quem são e como querem ser vistos.
O audiovisual realizado com celular por jovens da periferia pode ser uma prática cultural, mas pode também se transformar em instrumento de leitura crítica do território. O próprio projeto da Ação Cultural registra explicitamente essa possibilidade ao definir o audiovisual como ferramenta para evidenciar problemas da comunidade e mobilizar discussões sobre direitos e políticas públicas.
É aí que cultura e política deixam de ser dois departamentos separados da vida social.
O cineclube pode ser espaço de fruição estética, mas também de conversa sobre a realidade. O teatro pode ser expressão artística, mas também exercício de leitura do mundo. A memória pode ser preservação do passado, mas também instrumento para compreender o presente. Uma mostra cultural pode apresentar obras, mas também criar encontro entre pessoas que dificilmente se encontrariam em outros espaços.
O Cineclube Realidade é um exemplo bastante concreto dessa concepção. O projeto articula sessões de cinema com rodas de conversa, oficinas de audiovisual, teatro popular, formação em educação popular, ação cultural e participação social.
Não é por acaso que a expressão educação popular, ação cultural e participação social tenha aparecido reunida no próprio projeto. Há aí uma compreensão de que essas três dimensões podem constituir partes de um mesmo processo.
A educação popular ajuda a compreender a realidade, a ação cultural cria possibilidades de expressão e criação, e a participação social permite que os sujeitos intervenham na realidade que ajudaram a compreender.
Essa relação aparece de forma ainda mais explícita no texto do Seminário de Educação Popular, Ação Cultural e Participação Social publicado pelo Blog em setembro de 2026. Ali se afirma que uma oficina, um cineclube, uma apresentação artística, uma mostra cultural ou uma reunião comunitária podem constituir espaços de exercício da cidadania quando articulados a processos de formação e participação.
Essa talvez seja uma das formulações mais importantes para compreender o sentido de culturalizar a política.
Porque significa reconhecer que a política também pode aprender com os processos culturais, com a escuta, a criação coletiva, a diversidade, a memória, a capacidade de conviver com diferentes linguagens, a construção horizontal de conhecimentos e a valorização dos saberes produzidos nos territórios.
E, sobretudo, pode aprender que participação não é apenas estar presente em uma reunião ou votar em uma eleição. Participar é também produzir conhecimento, formular perguntas, criar propostas, disputar prioridades, acompanhar decisões, exercer controle social e construir coletivamente os sentidos daquilo que é público.
Nesse ponto, a trajetória da Rede Sergipe de Pontos de Cultura oferece outro exemplo. As reuniões registradas no Blog mostram uma preocupação que vai muito além da organização de eventos: discutir governança, formação, participação, comunicação, democracia cultural, controle social e capacidade de incidência.
O evento é importante, mas o que acontece antes e depois dele pode ser ainda mais importante. Quem participa da construção? Quem decide? Como as decisões são registradas? Como os resultados retornam para a comunidade? O que permanece? Que rede foi fortalecida? Que novos sujeitos apareceram?
Essas perguntas ajudam a distinguir uma política cultural baseada apenas na programação de uma política cultural baseada em processos de cidadania.
Talvez por isso a memória ocupe lugar tão importante nessa trajetória.
O próprio Blog reconhece sua função como guardião de parte da memória das políticas culturais, da gestão, da produção e da ação cultural em Sergipe. Em publicação de 2026, ao fazer um balanço de sua trajetória, identifica uma passagem da divulgação cultural para a reflexão crítica sobre a cidade, chegando à participação cidadã e à memória coletiva.
Essa passagem é reveladora.
Guardar memória também é fazer política, não a política partidária, mas a política como disputa sobre aquilo que uma sociedade considera digno de lembrar, preservar e transmitir às novas gerações.
Quando uma experiência desaparece porque ninguém a registrou, uma parte da história social desaparece com ela. Quando uma experiência é documentada, organizada e disponibilizada, ela pode voltar a ser interrogada, reinterpretada e utilizada por outras gerações.
Por isso, cultura digital também pode ser política de memória.
O Blog da Cultura é, nesse sentido, mais do que um arquivo de notícias. Ele funciona, ainda que de maneira incompleta e em permanente construção, como uma espécie de arquivo vivo de experiências culturais e políticas de Sergipe.
E talvez seja justamente aí que a ideia de politizar a cultura e culturalizar a política encontre sua expressão mais profunda.
Não se trata de escolher entre cultura e política, mas de superar essa falsa separação.
Porque uma política sem cultura pode até administrar recursos, organizar instituições e executar programas, mas corre o risco de perder a capacidade de compreender os significados, os afetos, as memórias e os imaginários que movem uma sociedade.
E uma cultura que se recusa a reconhecer sua dimensão política pode produzir obras, eventos e experiências importantes, mas corre o risco de não perceber as condições sociais que determinam quem pode criar, quem pode acessar, quem pode circular e quem permanece excluído.
Politizar a cultura é perguntar pelo poder que atravessa a cultura. Culturalizar a política é perguntar pela cultura que atravessa o poder.
Entre essas duas perguntas existe um vasto território de possibilidades.
É nele que podemos situar a Ação Cultural.
Uma organização que nasceu do encontro entre artistas, produtores culturais e educadores, que passou por dança, teatro, audiovisual, cineclube e hip-hop, que trabalhou com crianças, adolescentes e jovens das periferias, que participou da construção de redes e Pontos de Cultura e que mantém no Blog uma parte significativa dessa memória, não precisa inventar artificialmente uma teoria para justificar sua trajetória.
A teoria pode ser encontrada, em grande medida, nas próprias práticas.
Ela está na oficina que vira espaço de formação, no cineclube que vira roda de conversa, no audiovisual que vira ferramenta de leitura do território, na memória que vira instrumento de compreensão do presente, no Ponto de Cultura que vira espaço de organização comunitária, na audiência pública que deixa de ser mera formalidade e passa a ser espaço de disputa democrática, na rede cultural que procura não apenas existir, mas construir capacidade de incidência.
E está também no próprio Blog da Cultura, quando ele transforma acontecimentos culturais em perguntas sobre a cidade, a democracia, a memória e as políticas públicas.
Talvez seja por isso que politizar a cultura e culturalizar a política possa ser entendido não como uma palavra de ordem, mas como uma perspectiva de trabalho.
Uma perspectiva que recupera a política em seu sentido mais nobre: a construção coletiva da vida comum.
Uma política que não reduz o cidadão ao eleitor, uma cultura que não reduz o cidadão ao público e uma ação cultural que não reduz as pessoas ao papel de beneficiárias.
Porque, no final das contas, democratizar a cultura não é somente fazer com que mais pessoas tenham acesso aos bens culturais. É criar condições para que mais pessoas possam criar, interpretar, participar, decidir e transformar.
E talvez seja justamente isso que significa, no sentido mais profundo, politizar a cultura e culturalizar a política.
E depois da leitura, fica o convite que a própria canção nos inspira a fazer: não deixe esse pensamento terminar aqui. Leve-o para a conversa com os amigos, para a família, para os espaços de participação, para a decisão que cada um tomará nas eleições e, principalmente, para depois delas. Porque talvez a democracia precise menos de certezas definitivas e mais de cidadãos dispostos a pensar, repensar e continuar pensando, de vez em quando, sobre aquilo que fizeram, sobre aquilo que escolheram e sobre o país que estão ajudando a construir.
Pense n'eu
Pense n'eu
Pense n'eu quando em vez coração
Pense n'eu vez em quando
Onde estou, como estarei
Se sorrindo ou se chorando
Se sorrindo ou se chorando
Pense n'eu vez em quando
Pense n'eu vez em quando
Pense n'eu quando em vez coração
Pense n'eu vez em quando
Onde estou, como estarei
Se sorrindo ou se chorando
Se sorrindo ou se chorando
Pense n'eu vez em quando
Pense n'eu vez em quando
'To na estrada, 'to sorrindo apaixonado
Pela gente e pelo povo do meu país (olêlê)
'To feliz pois apesar do sofrimento
Vejo um mundo de alegria bem na raiz (vamos lá)
Alegria muita fé e esperança
Na aliança pra fazer tudo melhor (e será)
Felicidade o teu nome é união
E povo unido é beleza mais maior
Pense n'eu quando em vez coração
Pense n'eu vez em quando
Onde estou, como estarei
Se sorrindo ou se chorando
Se sorrindo ou se chorando
Pense n'eu vez em quando
Pense n'eu vez em quando
'To na estrada, 'to sorrindo apaixonado
Pela gente e pelo povo do meu país (olêlê)
'To feliz pois apesar do sofrimento
Vejo um mundo de alegria bem na raiz (vamos lá)
Alegria muita fé e esperança
Na aliança pra fazer tudo melhor (e será)
Felicidade o teu nome é união
E povo unido é beleza mais maior
Pense n'eu pense n'eu
Pense n'eu pense n'eu
Pense n'eu pense n'eu
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