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quarta-feira, 13 de março de 2013
Canta Francisco
CANTA FRANCISCO Pe. Antonio Passos
Nos olhos dos pobres, no rosto do mundo
Eu vejo Francisco perdido de amor
É índio, operário, é negro, é latino
Jovem, mulher, lavrador e menor
Há um tempo só de paixão, grito e ternura
Clamando as mudanças que o povo espera
Justiça aos pequenos, ordem do evangelho
Reconstrói a igreja na paixão do pobre.
Há crianças nuas nesta paz armada
Há Francisco povo sendo perseguido
Há jovens marcados sem teto nem sonhos
Há um continente sendo oprimido
Com as mãos vazias solidariedade
Com os que não temem perder nada mais
Defendem com a morte a dignidade
Com a teimosia que constrói a paz.
Refrão: Canta Francisco, com a voz dos pobres
Tudo que atreveste a mudar
Canta novo sonho, sonho de esperança
Que a liberdade vai chegar
Canta Francisco, com a voz dos pobres
Tudo o que atreveste a mudar
Canta novo sonho, sonho de menino
Novo céu e terra vai chegar.
Há Claras, Franciscos marginalizados
Cantando da América a libertação
Meninos sem lares são irmãos do mundo
Pela paz na terra sofrem parto e cruz.
Francisco imagem de um Deus feito pobre
Denúncia esperança profecia e canta
Vence com coragem o império da morte
De braços com a vida em missão na história
Francisco menino e homem das dores
Reconstrói a igreja pelo mundo afora
Na fraternidade que traz a justiça
Na revolução que anuncia a aurora
Refrão: Canta Francisco, com a voz dos pobres
Tudo que atreveste a mudar
Canta novo sonho, sonho de esperança
Que a liberdade vai chegar
Canta Francisco, com a voz dos pobres
Tudo o que atreveste a mudar
Canta novo sonho, sonho de menino
Novo céu e terra vai chegar.
Há uma sequência
formidável de sinais na Igreja Católica nos últimos dias. A renúncia de
Bento XVI, agora a eleição do primeiro Papa latino-americano, argentino,
jesuíta. Para reforçar o emblema, escolhe o nome de Francisco.
O cardeal Bergoglio celebrou uma missa em um encontro promovido pelo Conselho Episcopal latino-americano sobre
a temática “Espiritualidades dos povos latino-americanos”, há uns dois
ou três anos atrás., em Buenos Aires. Éramos umas 60 pessoas, de todo o
continente.
A sua celebração
chamava a atenção, sobretudo, pela situação frágil que demonstrava. Ao
final perguntei a um amigo da Argentina, que é padre e climatologista,
professor da Universidade Católica de Buenos Aires: ele parece falar com
dificuldade?
O padre respondeu: ele só tem um pulmão.
A homilia que ele nos
fez não tinha referência alguma com a temática do encontro, tanto é que
não me recordo de nenhuma palavra que tenha dito.
Diz a mídia que ele
vive simples, cozinha sua comida, anda em transporte público, lavou os
pés dos aidéticos. Outros enfatizam sua posição conservadora em termos
de sexualidade. Mas, aí, nenhuma surpresa.
Incômodas são as
acusações de comunhão com a ditadura militar na Argentina. Nos encontros
do CELAM é possível perceber, com exceções raras, um episcopado
realmente distante do povo. E os próprios argentinos
confirmam que, exceto uma meia dúzia de bispos, essa é a realidade. Mas,
o bispo que presidia nossa Comissão era um argentino, Monsenhor Lozano,
de uma diocese argentina que está frente àquela papeleira que os
uruguaios queriam construir e poluir o Rio da Prata. Lozano estava à
frente da resistência. Portanto, em qualquer igreja pode haver pessoas sensíveis à realidade do povo.
Em todo caso, a escolha
do nome Francisco tem um sinal. É provável que busque um papado simples
e simplificado. Entretanto, as boas intenções não resolvem sozinhas os
problemas do Vaticano. Como será um homem simples em meio a uma máquina
milenar, capaz de moer até um Bento XVI?
Vamos ficar com o que
há de melhor nesse momento: vem de fora da Europa, faz sua comida, anda
de ônibus e agora se chama Francisco. E Francisco quer dizer
simplicidade, ternura, fraternidade, solidariedade com os pobres,
irmanação com a natureza.
Para nós, aqui do Velho Chico, tudo que vem de Francisco inspira esse espírito.
Então, para começarmos, está de bom tamanho “Papa Chico”.
O Papa Francisco, chamado a restaurar a Igreja
14/03/2013
Nas redes sociais havia anunciado que o futuro Papa
iria se chamar Francisco. E não me enganei. Por que Francisco? Porque
São Francisco começou sua conversão ao ouvir o Crucifixo da capelinha de
São Damião lhe dizer:”Francisco, vai e restaura a minha casa; olhe que
ela está em ruinas”(S.Boaventura, Legenda Maior II,1).
Francisco tomou ao pé da letra estas palavras e reconstruíu a
igrejinha da Porciúncula que existe ainda em Assis dentro de uma imensa
catedral. Depois entendeu que se tratava de algo espiritual: restaurar a
“Igreja que Cristo resgatara com seu sangue”(op.cit). Foi então que
começou seu movimento de renovação da Igreja que era presidida pelo Papa
mais poderoso da história, Inocêncio III. Começou morando com os
hansenianos e de braço com um deles ia pelos caminhos pregando o
evangelho em língua popular e não em latim.
É bom que se saiba que Francisco nunca foi padre mas apenas leigo. Só
no final da vida, quando os Papas proibiram que os leigos pregassem,
aceitou ser diácono à condição de não receber nenhuma remuneração pelo
cargo.
Por que o Card. Jorge Mario Bergoglio escolheu o nome de Francisco? A
meu ver foi exatamente porque se deu conta de que a Igreja, está em
ruinas pela desmoralização dos vários escândalos que atingiram o que
ela tinha de mais precioso: a moralidade e a credibilidade.
Francisco não é um nome. É um projeto de Igreja, pobre, simples,
evangélica e destituída de todo o poder. É uma Igreja que anda pelos
caminhos, junto com os últimos; que cria as primeiras comunidades de
irmãos que rezam o breviário debaixo de árvores junto com os
passarinhos. É uma Igreja ecológica que chama a todos os seres com a
doce palavra de “irmãos e irmãs”. Francisco se mostrou obediente à
Igreja dos Papas e, ao mesmo tempo, seguiu seu próprio caminho com o
evangelho da pobreza na mão. Escreveu o então teólogo Joseph Ratzinger:
”O não de Francisco àquele tipo de Igreja não poderia ser mais radical, é
o que chamaríamos de protesto profético”(em Zeit Jesu, Herder 1970, 269). Ele não fala, simplesmente inaugura o novo.
Creio que o Papa Francisco tem em mente uma Igreja assim, fora dos
palácios e dos símbolos do poder. Mostrou-o ao aparecer em público.
Normalmente os Papas e Ratizinger principalmente punham sobre os ombros a
mozeta aquela capinha, cheia de brocados e ouro que só os
imperadores podiam usar. O Papa Francisco veio simplesmente vestido de
branco e com a cruz de bispo. Três pontos são de ressaltar em sua fala e
são de grande significação simbólica.
O primeiro: disse que quer “presidir na caridade”. Isso desde a
Reforma e nos melhores teólogos do ecumenismo era cobrado. O Papa não
deve presidir com como um monarca absoluto, revestido de poder sagrado
como o prevê o direito canônico. Segundo Jesus, deve presidir no amor e
fortalecer a fé dos irmãos e irmãs.
O segundo: deu centralidade ao Povo de Deus, tão realçada pelo
Vaticano II e posta de lado pelos dois Papas anteriores em favor da
Hierarquia. O Papa Francisco, humildemente, pede que o Povo de Deus reze
por ele e o abençoe. Somente depois, ele abençoará o Povo de Deus. Isto
significa: ele está ai para servir e não par ser servido. Pede que o
ajudem a construir um caminho juntos. E clama por fraternidade para toda
a humanidade onde os seres humanos não se reconhecem como irmãos e
irmãs mas reféns dos mecanismos da economia.
Por fim, evitou toda a espetacularização da figura do Papa. Não
estendeu os braços para saudar o povo. Ficou parado, imóvel, sério e
sóbrio, diria, quase assustado. Apenas se via a figura branca que olhava
com carinho para a multidão. Mas irradiava paz e confiança. Usou de
humor falando sem uma retórica oficialista. Como um pastor fala aos seus
fiéis.
Cabe por último ressaltar que é um Papa que vem do Grande Sul, onde
estão os pobres da Terra e onde vivem 60% dos católicos. Com sua
experiência de pastor, com uma nova visão das coisas, a partir de baixo,
poderá reformar a Cúria, descentralizar a administração e conferir um
rosto novo e crível à Igreja.
Leonardo Boff é autor de São Francisco de Assis: ternura e vigor, Vozes 1999.
Francisco: um Papa que presidirá na caridade
16/03/2013
A grave crise moral que atravessa todo o corpo institucional da
Igreja fez com que o Conclave elegesse alguém que tenha autoridade e
coragem para fazer profundas reformas na Cúria romana e presidir a
Igreja na caridade e menos na autoridade jurídica, enfraquecendo as
igrejas locais. Foi o que acenou o novo Papa Francisco em sua primeira
fala. Se isso ocorrer ele será o Papa do terceiro milênio e abrirá uma
nova “dinastia” de Papas vindos das periferias da cristandade.
A figura do Papa é talvez o maior símbolo do Sagrado no mundo
Ocidental. As sociedades que pela secularização exilaram o Sagrado, a
falta de líderes referenciais e a nostalgia da figura do pai como
aquele que orienta, cria confiança e mostra caminhos, concentraram na
figura do Papa estes ancestrais anseios que podiam ser lidos nos rostos
dos fiéis na praça de São Pedro. Nesse espírito quebrou os protocolos,
se sentiu gente do povo, pagando sua conta no lugar onde se hospedou,
indo de simples carro para a Basílica Santa Maria Maior e conservando
sua cruz de ferro.
Para os cristãos é irrenunciável o ministério de Pedro como aquele
deve “confirmar os irmãos e as irmãs na fé” segundo o mandato do Mestre.
Roma onde estão sepultado Pedro e Paulo, foi desde os primórdios,
referência de unidade, de ortodoxia e de zelo pelas demais as igrejas.
Esta perspectiva é acolhida também pelas demais igrejas não-católicas. A
questão toda é a forma como se exerce tal função. O Papa Leão Magno
(440-461), no vazio do poder imperial, teve que assumir a governança de
Roma para enfrentar os hunos de Átila. Tomou o título de Papa e de Sumo
Pontífice que eram do Imperador, incorporou o estilo imperial de poder,
monárquico e centralizado com seus símbolos, as vestimentas e o estilo
palaciano. Os textos atinentes a Pedro que em Jesus tinham um sentido de
serviço e de amor, foram interpretados, no estilo romano, como estrito
poder jurídico. Tudo culminou com Gregório VII que com o seu “Dictatus
Papae”(a Ditadura do Papa) arrogou para si os dois poderes, o religioso e
o secular. Surgiu a grande Instituição Total, obstáculo à liberdade dos
cristãos e ao diálogo com o mundo moderno globalizado.
Esse exercício absolutista foi sempre questionado, especialmente,
pelos Reformadores. Mas nunca foi amenizado. Como reconhecia João Paulo
II, no seu documento sobre o ecumenismo: este estilo de exercer a função
de Pedro é o maior obstáculo à unidade das Igreja e à aceitação por
parte dos cristãos vindos do mundo democrático. Não basta a
espetacularização da fé com grandes eventos para suprir tal deficiência.
A atual forma monárquica deverá ser repensada à luz daquela intenção
de Jesus. Será um Papado pastoral e não professoral. O Concílio
Vaticano II estabeleceu os instrumentos para esta forma: o sínodo dos bispos,
feito até agora apenas consultivo, quando fora pensado, deliberativo.
Criar-se-ia um órgão executivo que com o Papa governaria a Igreja.
Criou-se pelo Concílio a colegialidade dos bispos, quer dizer, as
conferências continentais e nacionais ganhariam mais autonomia para
permitir um enraizamento da fé nas culturais locais, sempre em comunhão
com Roma. Não é impensável que representantes do Povo de Deus desde
cardeais, até mulheres ajudariam a eleger um Papa para toda a
cristandade. Faz-se urgente uma reforma da Cúria na linha da
descentralização. Certamente o que fará o Papa Francisco. Por que o
Secretariado para as religiões não cristãs não pode funcionar na Ásia? O
Dicastério da unidade dos cristãos em Genebra, perto do Conselho
Mundial de Igrejas? O das missões, em alguma cidade da África? O dos
direitos humanos e justiça, na América Latina?
A Igreja Católica poderia se transformar numa instância não
autoritária de valores universais dos direitos humanos, os da Mãe Terra e
da natureza, contra a cultura do consumo, em favor de uma sobriedade
condividida. A questão central não é mais a Igreja mas a Humanidade e a
civilização que podem desparecer. Como a Igreja ajuda em sua
preservação? Tudo isso é possível e realizável, sem renunciar em nada à
substância da fé cristã. Importa que o Papa Francisco seja um João
XXIII dos novos tempos, um “Papa buono”, como já o mostrou. Só assim
poderá resgatar a credibilidade perdida e ser um luzeiro de
espiritualidade e de esperança para todos.
Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor
Para Frei Betto, papa tem de reformar Igreja e dar atenção aos mais pobres
Reformismos dentro da Igreja e questão social devem ocupar
grande parte da agenda do papa Francisco para que a instituição não siga
isolada, diz Frei
São Paulo – Em comentário no
Jornal Brasil Atual, o assessor de movimentos sociais Frei Betto,
disse esperar do novo pontificado reformas na igreja e maior atenção
aos pobres. “Espero que um latino-americano, que está acostumado a
viver em nosso continente, com as desigualdades sociais próprias
daqui, e com todo o avanço do fundamentalismo religioso na região –
não só evangélico, mas também o católico – traga uma nova
visão do que deve ser o papel da Igreja no mundo de hoje.”
A reforma na Cúria Romana, organismo administrativo da Igreja, é apontada por Frei Betto como primeiro ponto a ser colocado
em pauta pelo papa Francisco. “Se o papa é o chefe de Estado do
Vaticano, os seus ministros são aqueles que
integram a cúria romana, que hoje em dia está sob suspeita de
corrupção, de acobertar estes crimes hediondos de pedofilia,
vazamento de informações. Espero que haja uma profunda reforma
nesta cúria.”
A escolha do nome
Francisco pelo cardeal Jorge
Mario Bergoglio, de acordo com Frei Betto, é representativa. “São
Francisco é o santo da opção pelos pobres. A história dele
[Bergoglio] como padre, bispo e cardeal, mostra que teve muita
sensibilidade para a questão social.”
Como mostrou reportagem
da RBA, Bergoglio é investigado na Argentina pela colaboração na
ditadura. Entre as acusações, estão o sequestro e a tortura de
dois jesuítas e a apropriação de bebês durante a ditadura no país
(1976-83).
“A ditadura militar
atuou barbaramente na Argentina durante longos anos, com o
desaparecimento de cerca de 3 mil crianças. A Igreja Católica foi
conivente com a ditadura a ponto de nomear capelães para os quarteis
onde os presos políticos eram torturados e assassinados”, afirmou
Frei Betto. Ele destacou a importância da apuração dos crimes.
“Tudo isso precisa ser apurado para que tenhamos um perfil exato do
papa Francisco.”
Reformismo
Além das reformas na Cúria Romana, Frei Betto falou sobre outros pontos levados como
verdadeiros tabus pela Igreja, que precisam passar por reformulações.
“A questão da moral sexual precisa ser mexida o quanto antes.
Diria que já seria avanço se o papa autorizasse os padres casados a
voltarem ao ministério sacerdotal.”
O acesso das mulheres
ao sacerdócio também foi lembrado por ele. "É preciso tirar da
teologia católica essa nódoa de que a mulher é um ser
ontologicamente menor ao homem, por isso ela não pode ser sacerdote.
Isso precisa ser erradicado.”
Ele também lembrou do conservadorismo na moral sexual
da Igreja. Isso é um tabu na Igreja Católica, que precisa ser mexido o
quanto antes. Seria um avanço se o papa autorizasse os padres
casados a voltarem ao ministério sacerdotal."
A “dupla moral”,
segundo Frei Betto, precisa acabar. “A moral que consta na doutrina
e a praticada pelos fiéis são diferentes. Tem de tocar nessa questão, porque pelo
que consta na Igreja, ninguém pode usar preservativo, e os casais
não podem ter relações que não sejam para procriar.”
Finalmente, ele chama a
atenção da importância do jovem para o novo pontificado. “Se
estes pontos não forem revistos, a Igreja vai continuar a perder
fieis, e continuar falando uma linguagem que o mundo atual não
entende, principalmente os jovens. O papa precisa estar atento a
isso.”
Em breve, o áudio completo de Frei Betto na Rádio Brasil Atual
É a primeira vez na história que um papa adota o nome
daquele que sonhou que a Igreja desabava e cabia a ele reconstruí-la. O
tempo dirá a que veio
14/03/2013
Frei Betto
O
papa Francisco – nome adotado pelo cardeal argentino Jorge Mario
Bergoglio - ao ser eleito novo chefe da Igreja Católica terá pela frente
difíceis desafios. O maior deles, imprimir colegialidade ao governo da
Igreja e reformar a Cúria Romana.
Para mexer
nesse ninho de cobras, terá de remover presidentes de congregações (que,
no Vaticano, equivalem a ministérios) e nomear para dirigi-las prelados
que, hoje, vivem fora de Roma e são, portanto, virtualmente imunes à
influência da “famiglia curiale”, a que, de fato, exerce o poder na
Igreja.
Para modificar a estrutura monárquica da
Igreja, Francisco terá de repensar o estatuto das nunciaturas, valorizar
as conferências episcopais e o sínodo dos bispos e, quem sabe, criar
novas instituições, como um colégio de leigos capaz de representar a
Igreja como Povo de Deus, e não como sociedade clericalizada
pretensamente perfeita.
Não será surpresa se, em
breve, o novo papa promover o seu primeiro consistório, elevando ao
cardinalato bispos e arcebispos dos cinco continentes (e talvez até
padres e leigos, os chamados “cardeais in pectore”, que não são de
conhecimento público).
Tal iniciativa deverá
incluir o atual arcebispo do Rio de Janeiro, dom Orani Tempesta. Paira
certa incongruência no fato de a arquidiocese carioca não ter, há anos,
cardeal titular, como há em São Paulo. Sobretudo considerando que o Rio
acolherá, em julho próximo, a Jornada Mundial da Juventude, à qual o
novo pontífice estará presente.
A imagem da
Igreja Católica está manchada, hoje, por escândalos sexuais e falcatruas
financeiras. Não se espere do novo papa atitudes ousadas enquanto Bento
XVI lhe fizer sombra na área do Vaticano. Mas seria uma
irresponsabilidade o papa Francisco não abrir, no interior da Igreja, o
debate sobre a moral sexual.
Nesse tema, são
muitas as questões a serem aprofundadas, a começar pela seleção dos
candidatos ao sacerdócio. Já há uma instrução de Roma aos bispos para
que não sejam aceitos jovens notoriamente afeminados – o que me parece
uma discriminação incompatível com os valores evangélicos. Equivale a
impedir o ingresso na carreira sacerdotal de candidatos heterossexuais
dotados de uma masculinidade digna de Don Juan.
O
problema não é questão de aparência, e sim de vocação. Se a Igreja
pretende ampliar o número de padres terá que, necessariamente, retomar o
padrão dos seus primeiros séculos e distinguir vocação ao sacerdócio de
vocação ao celibato.
Aqueles que se sentem em
condições de se abster de vida sexual (já que apenas aos anjos é dado
prescindir da sexualidade) devem abraçar a via monástica, religiosa,
ainda que alguns se tornem sacerdotes para o serviço comunitário. Já ao
clero diocesano seria facultado escolher a vida matrimonial, como ocorre
hoje nas Igrejas ortodoxa e anglicana, e com os pastores de Igrejas
protestantes.
O caminho mais curto e mais sábio
seria o papa admitir a reinserção de padres casados no ministério
sacerdotal. Eles são milhares. No mundo, calcula-se cerca de 100 mil; no
Brasil, 5 mil. Muitos gostariam de voltar ao serviço pastoral com
direito a administrar sacramentos e celebrar missa.
A
medida mais inovadora seria permitir o acesso de mulheres ao
sacerdócio. Não há precedente na história da Igreja, exceto em países
socialistas onde, clandestinos, bispos despreparados ordenaram mulheres
cujo sacerdócio, ao vir à lume, não foi reconhecido por Roma.
Nos
evangelhos há mulheres notoriamente apóstolas, embora não figurem na
lista canônica dos doze apóstolos. Em Lucas 8, 1, constam os nomes de
mulheres pertencentes à comunidade apostólica de Jesus: Maria Madalena,
Joana, Susana “e várias outras”.
A samaritana
(João 4) foi apóstola, no sentido rigoroso do termo – a primeira pessoa a
anunciar Jesus como o Messias. E Maria Madalena, a primeira testemunha
da ressurreição de Jesus.
Facultar às mulheres o
acesso ao sacerdócio implica modificar um dos pontos mais anacrônicos da
ortodoxia católica, que ainda hoje considera a mulher ontologicamente
inferior ao homem. É a famosa pergunta em aula de teologia: pode o
escravo se tornar padre? Sim, desde que liberto, pois como homem goza da
plenitude humana. Já a mulher, ser inferior ao homem, está excluída
desse direito, pois não goza da plenitude humana.
Outros
desafios se apresentam ao novo papa, como o diálogo inter-religioso.
Nos últimos pontificados Roma deu passos significativos para melhorar as
relações do catolicismo com o judaísmo, levando o papa a visitar o Muro
das Lamentações, em Jerusalém, e isentando os judeus da pecha de
assassinos de Jesus.
No entanto, retrocedeu
quanto à relação com os muçulmanos. Em sua visita à Universidade de
Regensburg, na Alemanha, em 2006, Bento XVI cometeu a infelicidade de
citar uma história do século XIV em que o imperador bizantino pede a um
persa que lhe mostre "o que Maomé trouxe de novo, e você só encontrará
coisas más e desumanas, como sua ordem de espalhar pela espada a fé que
pregava". Embora a intenção do papa fosse condenar o uso da violência
pela religião – no qual a Igreja da Inquisição foi mestra – a comunidade
islâmica, com razão, se sentiu ofendida.
Ao
visitar os EUA, em 2008, Bento XVI esteve numa sinagoga de Nova York,
sem no entanto dirigir-se a uma mesquita, o que teria demonstrado sua
imparcialidade e abertura à diversidade religiosa, além de combater o
preconceito estadunidense de que muçulmano rima com terrorista.
Há
que aprofundar o diálogo com as religiões do Oriente, como o budismo e
as tradições espirituais da Índia. E buscar melhor aproximação com os
cultos animistas da África e os ritos indígenas da América Latina.
É
chegada a hora de a Igreja Católica admitir a pertinência das razões
que provocaram sua ruptura com as Igrejas Ortodoxas e a de Lutero com
Roma. E, num gesto ecumênico, buscar a unidade na diversidade, de modo a
testemunharem uma única Igreja de Cristo.
Convém
reconhecer, como propõe o Concilio Vaticano II, que as sementes do
Evangelho vigoram também em denominações religiosas não cristãs, ou
seja, fora da Igreja Católica há sim salvação.
O
papa Francisco terá que optar entre os três dons do Espírito Santo
oferecidos aos discípulos de Jesus: sacerdote, doutor ou profeta. A ser
um sacerdote como João Paulo II, teremos uma Igreja voltada a seus
próprios interesses como instituição clerical, com leigos tratados como
ovelhas subservientes e desconfiança frente aos desafios da
pós-modernidade.
A ser um doutor como Bento XVI, o
novo pontífice reforçará uma Igreja mais mestra do que mãe, na qual a
preservação da doutrina tradicional importará mais do que encarnar a
Igreja nos novos tempos em que vivemos, incapaz de ser, como São Paulo,
“grego com os gregos e judeu com os judeus”.
Assumindo
seu múnus profético, como João XXIII, o papa Francisco se empenhará
numa profunda reforma da Igreja, para que nela transpareça a palavra e o
testemunho de Jesus, no qual Deus se fez um de nós.
“Habemus
papam!” Já sabemos quem: Francisco. É a primeira vez na história que um
papa adota o nome daquele que sonhou que a Igreja desabava e cabia a
ele reconstruí-la. O tempo dirá a que veio.
Frei Betto é escritor, autor de “A obra do Artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros. http://www.freibetto.org/> twitter:@freibetto.
Teólogo progressista vê identificação do novo papa com os pobres
Fonte: Viomundo
publicado em 14 de março de 2013 às 8:58
Teólogo progressista vê identificação do novo papa com os pobres
Novo papa é aberto para as questões sociais e retrógrado na moral
sexual. O historiador Beozzo observa que ninguém usou o nome Francisco
até hoje “por causa da radicalidade”
por Gilberto Nascimento
A adoção do nome de Francisco pelo novo papa, o cardeal argentino
Jorge Mario Bergoglio, evidencia uma posição em favor dos pobres na
América Latina. Essa é a avaliação do teólogo e historiador José Oscar
Beozzo, coordenador do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e
Educação Popular (Cesep). Beozzo, um dos maiores especialistas em Igreja
na América Latina, é alinhado à Teologia da Libertação e próximo de
religiosos “progressistas”, como o arcebispo emérito de São Paulo Dom
Paulo Evaristo Arns.
O religioso progressista vai na linha contrária daqueles que apontam
Bergoglio como conservador. “Eu gostei. É uma pessoa que vive de maneira
muito simples. É muito pobre, anda de ônibus e metrô. E Francisco é o
santo mais venerado, é o santo radical da pobreza. Nunca ninguém usou
esse nome por causa da radicalidade. Não se pode usar o nome de
Francisco e ter uma prática cotidiana contrária a esses princípios”,
observou Beozzo.
Bergoglio – o segundo nome mais votado no conclave que elegeu Bento
XVI, em 2005 – é tido como um moderado, aberto e sensível aos temas
sociais, mas “fechado” e retrógrado nas questões morais. Travou
polêmicas inclusive com a presidente de seu país, Cristina Kirchner, ao
condenar a adoção de crianças por gays. Tem posições mais à direita
sobre temas como eutanásia, camisinha e casamento entre pessoas do mesmo
sexo.
Membro da ordem dos jesuítas, Bergoglio tem ligações com a Comunhão e
Libertação, movimento que propõe uma nova forma de leitura da realidade
para se contrapor à visão marxista. Defende que seja feita a partir da
cultura e não das contradições socioeconômicas.
O novo papa é uma figura controvertida. Em 2005, pouco antes do
conclave que elegeu Bento XVI -, um advogado da área de direitos
humanos, Marcelo Perrilli, o apontou como cúmplice no sequestro de dois
padres jesuítas. O fato teria ocorrido em 1976, durante o regime
militar na Argentina. Bergoglio era o provincial da ordem dos jesuítas
na Argentina. Os livros “Igreja e Ditadura’, de Emilio Mignone, e “El
Silencio”, de Horacio Verbitsky, fazem acusações na mesma linha.
Beozzo – ainda ao final da tarde, momentos após o anúncio da nomeação
do novo papa -, disse não haver comprovações dessas denúncias. “Ele nem
era bispo nessa época. Alguns de seus superiores realmente colaboraram
com a ditadura argentina”, argumentou.
Para o padre Manoel Godoy, ex-assessor da CNBB (Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil) e diretor do Instituto São Tomás de Aquino, de
Belo Horizonte, a escolha de Bergoglio é positiva por sua dedicação aos
menos favorecidos. “Ele escolheu o nome Francisco pela identificação com
os pobres”, ressalta.
Godoy elogia ainda o fato de o novo papa andar de transporte coletivo
e se recusar a morar em um palácio. “Mas muitos jesuítas tiveram de se
exilar por não sentirem apoio, quando ele era providencial da ordem”,
afirmou. Leia também: Os vínculos do novo papa com a ditadura militar argentina Nos bastidores do Vaticano, o poder da Comunhão e Libertação
14.03.13 - Mundo
[Novo Papa] A geopolítica do segredo
Ivone Gebara
Escritora, filósofa e teóloga
Adital
Passadas as primeiras horas do impacto da eleição do
Cardeal Bergoglio de Buenos Aires, das emoções primeiras de termos um papa
latino-americano, com expressão amável e cordial a vida presente nos convida a
refletir.
Apesar de seu valor, os meios de comunicação têm também
o poder de amortizar as mentes e de impedir que perguntas críticas aflorem ao
pensamento das pessoas. Nesses dois
últimos dias que precederam a eleição papal, muitas pessoas no Brasil e no
mundo foram tomadas pelas transmissões em direto de Roma. Sem dúvida um
acontecimento histórico desses não se repete todos os meses! Mas, que
interesses tiveram as grandes empresas de telecomunicações em transmitir os inúmeros
detalhes da escolha do novo Papa? A quem servem os milhões de dólares gastos
nas transmissões ininterruptas até a chegada da fumaça branca? Do lado de quem
se situam esses interesses? Que interesses tem o Vaticano em abrir as
possibilidades para essas transmissões? Essas perguntas talvez inúteis para
muitos, continuam a ser significativas para alguns grupos preocupados com o crescimento
da consciência humanista de muitos/as de nós.
São em grande parte as empresas de telecomunicações as
responsáveis pela manutenção do segredo nas políticas eleitorais do Vaticano. O
segredo, os juramentos e as penalidades por não respeitá-los são parte
integrante do negócio. Criam impactos e fazem notícia. Não se trata de uma
tradição secular sem conseqüências para a vida do mundo, mas de comportamentos
que acabam viciando a busca de diálogo entre os grupos ou excluindo grupos de
um necessário diálogo. Nenhuma crítica a esse sistema perverso que continua
usando o Espírito Santo para a manutenção de posturas ultraconservadoras
revestidas de ares de religiosidade e bondosa submissão é feito. Nenhum espaço
para que vozes dissonantes possam se manifestar mesmo com o risco de serem
apedrejadas é aberto na oficialidade das transmissões. Uma ou outra vez se
percebe uma pequena ponta crítica se esboçando, mas logo é abafada pelo "status
quo” imposto pela ideologia dominante. Do novo papa Francisco se contou que
usava transportes públicos, estava próximo dos pobres, fazia sua comida e que a
escolha desse nome o assemelhavam ao grande santo de Assis. Foi imediatamente
apresentado como uma figura simples, cordial e simpática. Na imprensa católica
nada se falou das suspeitas de muitos em relação a sua postura nos tempos da
ditadura militar, de suas atuais posturas políticas, de suas posições
contrárias ao matrimonio igualitário, ou mesmo contra o aborto legal. Nada se
falou de suas conhecidas críticas em relação à teologia da libertação e de seu
desinteresse pela teologia feminista. A figura bondosa e sem ostentação eleita
pelos cardeais assistidos pelo Espírito Santo encobriu o homem real com suas
inúmeras contradições. Hoje os jornais (Folha de São Paulo, O Estado de São
Paulo) delinearam perfis diferentes do novo papa e temos uma percepção mais
realista de sua biografia. Além disso, foi possível intuir que sua eleição é
sem dúvida parte de uma geopolítica de interesses divididos e de equilíbrio de
forças no mundo católico. Um artigo de Julio C. Gambina da Argenpress publicado
via internet ontem (13 de março de 2013) assim como outras informações enviadas
por grupos alternativos da Nicarágua, Venezuela, Brasil e, sobretudo da
Argentina confirmaram minhas suspeitas. A cátedra de Pedro e o Estado do
Vaticano devem mover suas pedras no xadrez mundial para favorecer as forças dos
projetos políticos do norte e dos seus aliados do sul. O sul foi de certa
maneira co-optado pelo norte. Um chefe político da Igreja, vindo do sul vai
equilibrar as pedras do xadrez mundial, bastante movimentadas nos últimos anos
pelos governos populares da América latina e pelas lutas de muitos movimentos
entre eles os movimentos feministas do continente com reivindicações que
atormentam o Vaticano. Se, é no sul que alguma coisa nova está acontecendo politicamente
nada melhor do que um papa do sul, um latino-americano para enfrentar esse novo
momento político e conservar as tradições da família e da propriedade intactas.
Sem dúvida uma afirmação desse tipo quebra o encanto do momento da eleição e a
emoção de ver a multidão na Praça de São Pedro irrompendo em aplausos e gritos
de alegria diante da figura do papa Francisco. Muitos dirão que essas críticas
tiram a beleza de um acontecimento tão emocionante quanto a eleição de um papa.
Talvez, mas creio que são críticas necessárias.
A tão badalada preservação da evangelização como
prioridade da Igreja parece ser a preservação de uma ordem hierárquica do mundo
onde as elites governam e os povos aplaudem nas grandes praças públicas, se
emocionam, rezam e cantam para que as bênçãos divinas caiam sobre as cabeças
dos novos governantes político-religiosos. O mesmo catecismo com poucas variações
continua a ser reproduzido. Não há reflexão, não se despertam as consciências,
não se convida ao pensamento, mas a conservação de uma doutrina quase mágica. Por
um lado é a sociedade do espetáculo que nos invade para que entremos na
disciplina da ordem/desordem contemporânea com certa dose de romantismo e por
outro a sociedade assistencialista identificada à evangelização. Sair às ruas
para dar de comer aos pobres e rezar com os prisioneiros embora tenha algo de
humanitário não resolve o problema da exclusão social presente nos muitos
países do mundo.
Escrever sobre a "geopolítica do segredo” em tempos de
euforia mediática é como estragar a festa dos vendilhões do Templo felizes com
suas barracas cheias de terços, escapulários, vidros de água benta e imagens
grandes e pequenas de muitos santos. O problema é que se abrimos o segredo
desmancha-se o charme da fumaça branca, se quebra o suspense de um conclave secreto
que fecha ao povo católico o acesso às informações às quais temos direito, se
desnudam os corpos purpurados com suas histórias tortuosas.
Quebrar o segredo é quebrar a falsidade do sistema
político-religioso que governa a Igreja Católica Romana. É tirar as máscaras
que nos sustentam para afinal abrir nossos corações para a real interdependência
e responsabilidade entre todos nós. Os jogos de poder são cheios de astúcias,
ilusões e até de boa fé. Somos capazes de nos impressionar com um gesto público
de carinho ou de simpatia sem nos perguntarmos sobre o que de fato constituiu a
história dessa pessoa. Nem nos perguntamos sobre as ações de seu passado, de
seu presente e suas perspectivas de futuro. É apenas o momento da aparição da
figura simpática vestida de branco que nos impressiona. Somos capazes de nos
emocionarmos frente a um carinhoso "bona cerra” papal (boa noite) e irmos para
cama como crianças bem comportadas abençoadas pelo bondoso papai. Já não somos
mais órfãos visto que a orfandade paterna numa sociedade patriarcal é
insuportável mesmo por poucos dias.
Nós somos cúmplices da manutenção desses poderes
tenebrosos que nos encantam e nos oprimem ao mesmo tempo. Nós, sobretudo os que
têm mais lucidez nos processos políticos e religiosos, somos responsáveis pela
ilusão que esses poderes criam na vida de milhares de pessoas, sobretudo veiculadas
pelos meios de comunicação religiosos. Somos capazes de nos enternecer de tal
forma que nos esquecemos dos jogos do poder, das manipulações invisíveis, da
arte teatral cultivada e tão importante nessas ocasiões.
Não podemos fazer previsões sobre os rumos do futuro
da governança da Igreja Católica Romana. Mas à primeira vista não parece que
podemos esperar grandes mudanças nas estruturas e políticas atuais. As mudanças significativas virão se as
comunidades cristãs católicas assumirem de fato a direção do presente do
cristianismo, ou seja, se elas forem capazes de dizer a partir das necessidades
de suas vidas como o Evangelho de Jesus poderá ser traduzido e vivido em nossas
vidas hoje.
A geopolítica do segredo tem interesses altíssimos a
defender. É parte de um projeto mundial de poder aonde as forças da ordem se vêm
ameaçadas pelas revoluções sociais e culturais em curso em nosso mundo. Manter
o segredo é justificar que há forças superiores às forças históricas da vida e
que estas são mais decisivas que os rumos que podemos dar à nossa luta coletiva
por dignidade, pão, justiça e misericórdia em meio aos muitos reveses e
tristezas que nos acometem em meio do caminho.
Termino essa breve reflexão na esperança de que
possamos não apagar a luz da liberdade que vive em nós e seguirmos bebendo das
fontes de nossos sonhos de dignidade com lucidez sem nos impressionarmos
com as surpresas que podem parecer grandes novidades. Afinal é apenas mais um
papa que inscreve seu nome nessa instituição que apesar de sua história de
altos e baixos mereceria ser transformada e repensada para os dias de hoje.
Mudanças podem sempre acontecer e é preciso estar
abertos aos pequenos sinais de esperança que irrompem por todos os lados mesmo
das instituições as mais anacrônicas de nosso mundo.
14 de Março de 2013.
Leia post co-relacionado O QUE MARTINI QUERIA DIZER AO PAPA. AQUI
É um alívio o papa não ser brasileiro. Essa proximidade
com o despachante número um da divindade nos faria entrar num modo
“arquivo confidencial” por tempo indefinido. Parentes, amigos de
infância, colegas... Todo mundo no Faustão a lembrar o garotinho
travesso de bom coração. Fora isso, alguém imagina o que seria aturar a
família de um papa? Talvez algo tipo Ronaldinho Gaúcho e Assis. Que
inferno.
Ainda assim, foi divertido imaginar o dia seguinte. Principalmente,
pensar no que seria a capa do Zero Hora, já que o gaúcho dom Odilo
Scherer dividia a liderança dos papáveis. Um arrebatamento de
megalomania gaudéria seria o mínimo. Mas aí veio um argentino, e com ele
a melhor manchete, no Olé: “A mão de Deus. Maradona, Messi... e agora
Jorge Mario Bergoglio, eleito novo papa.” Os vizinhos superam qualquer
expectativa em megalomania.
Mas como a capital do Brasil é Buenos Aires, dá quase no mesmo, e o
Vaticano sapecou o papa Francisco com o recado do que parece ser a fase
dois de uma “renovação conservadora” no catolicismo, iniciada por Bento
16, e que agora quer se projetar ao mundo. "Se nós não professarmos
Jesus Cristo, nos converteremos em uma ONG piedosa, não em uma esposa do
Senhor", afirmou o papa em sua primeira homilia.
Acima de tudo, a escolha do primeiro papa latino-americano é o
reconhecimento de enfraquecimento da Igreja Católica e o esforço
derradeiro para conter o avanço dos movimentos evangélicos pentecostais
na região. Talvez seja tarde. O Brasil, com a maior população de
católicos nominais do planeta, passa por uma enorme transformação na
dinâmica das filiações religiosas e, se considerarmos dados do último
Censo, poderá ter evangélicos como maioria em 50 anos.
Seja qual for o rebanho predominante, e justamente em razão dos
planos de expansão de lado a lado, o que importa é a consolidação dos
direitos civis sobre a pauta religiosa. Tarefa nada simples. Afinal, “o Brasil é um país laico-cristão”, na visão do hoje célebre pastor e deputado Marco Feliciano (PSC-SP), figura que afronta o bom senso e os cabelereiros do país.
•• atualizado às 07h22
Fonte: Portal Terra
Manifestações de apoio e repúdio a papa Francisco dividem argentinos
Bergoglio é
considerado exemplo de austeridade, mas recebe críticas por suas visões
sobre o casamento gay, sua relação com o governo Kirchner e sua possível
relação com a ditadura
Ao lado de cardeais, Papa Francisco acena para fotógrafos durante
visita à Basílica de Santa Maria Maggioreno início da manhã desta
quinta-feira
Foto: Reuters
BBCBrasil.com
Buzinaços foram ouvidos nas ruas de Buenos Aires logo
após o anúncio da escolha do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, 76
anos, como novo Papa. Mas as comemorações logo deram lugar às
manifestações de apoio ou repúdio ao novo Pontífice.
Logo após o anúncio, fiéis católicos se reuniram nas
escadarias da Catedral de Buenos Aires, no centro da cidade. Com
bandeiras azuis e brancas, as cores da Argentina, gritavam: "O Papa é
argentino" e "Salve Bergoglio".
A catedral fica a poucos passos da sede da Presidência
da República, a Casa Rosada, e em frente à Praça de Maio, símbolo dos
protestos em defesa dos direitos humanos e contra os crimes da ditadura,
com a qual o agora papa Francisco foi acusado de colaboração por um
jornalista local.
Nas ruas, a euforia durou poucos minutos. O clima ainda
era de surpresa e, ao mesmo tempo, de orgulho com o nome de um Papa
argentino. "Temos rainha (princesa Máxima, mulher do príncipe herdeiro
da Holanda), temos Messi e agora o Papa", disse a comerciante Maribel
Cortinez, 36 anos.
"Ele nos acolheu, nos abraçou e se emocionou com cada um
de nós quando perdemos nossos filhos naquela tragédia de Cromañon",
disse, nesta quarta-feira, o pai de uma das vítimas do incêndio em uma
discoteca que deixou dezenas de mortos em 2004, em Buenos Aires.
O cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio foi
escolhido novo papa da Igreja Católica. Bergoglio nasceu em 1936 em
Buenos Aires. Ele foi nomeado cardeal em 2001 por João Paulo II. O novo
papa não estava entre os principais cotados por especialistas, nem por
casas de apostas. Ele é o primeiro papa sul-americano. O nome Francisco é
uma homenagem a São Francisco de Assis
Foto: Getty Images
Nas principais emissoras de rádio e de televisão do país, como os canais TN e C5N,
comentaristas destacavam a "austeridade" de Bergoglio, que costumava
viajar de metrô e de trem na capital argentina, e suas homilias
criticando a exclusão social e a corrupção nos governos. "Um povo que
não cuida de suas crianças e de seus idosos é um povo em decadência",
disse ele em uma missa.
Casamento gay
Suas declarações
polêmicas incluíram a condenação publica ao então projeto do casamento
entre pessoas do mesmo sexo, aprovado em 2010 no país, transformando a
Argentina no primeiro país da região a adotar a medida. "Não sejamos
ingênuos, não se trata de simples luta política, mas a pretensão
destrutiva ao plano de Deus, o de um homem e uma mulher crescerem e se
multiplicarem", afirmou.
Os sacerdotes que trabalharam com ele, em Buenos Aires,
onde nasceu e foi cardeal, disseram à imprensa local que "ele condenou
as críticas e a falta de respeito aos gays".
Outro tema controverso foi seu papel durante a ditadura
argentina (1976-1983), com acusações de que teria sido "omisso" ou
"cúmplice" naqueles anos de chumbo e, principalmente, suas diferenças
públicas com o governo do ex-presidente Nestor Kirchner (2003-2007),
morto em 2010, e de sua mulher e sucessora, a presidente Cristina
Kirchner.
Em um discurso, transmitido ao vivo pelas emissoras de
televisão do país, nesta quarta, Cristina Kirchner disse que espera que
ele "defenda o diálogo" e "os excluídos". Mas quando ela citou o nome do
papa Francisco, setores da platéia vaiaram e outros aplaudiram.
Cristina fez um gesto pedindo silencio, e lembrou que Francisco "é o
primeiro papa latino-americano". "É um dia histórico para a América
Latina. Desejamos ao papa Francisco toda a sorte do mundo nesta missão
pastoral". O público, então, aplaudiu.
Ditadura
O porta-voz da
Presidência, Alfredo Scoccimarro, disse que a presidente comparecerá à
posse do novo papa, no Vaticano. Analistas disseram às rádios locais que
a presidente "não compareceria à posse caso Bergoglio tivesse vínculos
com a ditadura".
A polêmica sobre o posicionamento de Bergoglio durante a
ditadura foi destaque nas redes sociais. "Um cardeal que não excomungou
(o ex-ditador Jorge Rafael) Videla nunca será um Papa para todos e
todas", escreveu em seu mural no Facebook a transexual Melisa Stella
Saagratta.
Fiéis comemoram a escolha do cardeal argentino
Jorge Mario Bergoglio como o novo papa Francisco na Catedral
Metropolitana de Buenos Aires
Foto: AFP
A denúncia sobre os supostos vínculos de Bergoglio com o regime militar foi feita pelo jornalista Horacio Verbitsky, no livro El Silencio.
Segundo ele, testemunhos de vítimas do regime indicavam que, em 1976,
Bergoglio, então chefe da congregação jesuíta na Argentina, teria
retirado a proteção a dois sacerdotes de sua ordem que realizavam
tarefas sociais em bairros pobres de Buenos Aires.
Os dois religiosos - Orlando Yorio e Francisco Jalics -
foram detidos em 1976 e ficaram presos por cinco meses na Escola
Mecânica da Marinha, local conhecido por ter sido um dos principais
centros de tortura durante a ditadura argentina.
Bergoglio posteriormente rechaçou as acusações. "Fiz o
que podia, com a idade que tinha e os poucos relacionamentos com que
contava, para advogar por pessoas sequestradas", disse. Ele afirmou que
não havia respondido às acusações imediatamente para "não fazer o jogo
de ninguém, não porque tivesse algo a ocultar".
Segundo a fonte que se consulte, Bergoglio pode ser
definido como o homem mais generoso e inteligente que já existiu ou um
maquiavélico que traiu seus irmãos e os entregou ao desaparecimento e à
tortura aos militares
Horacio Verbitsky
Escritor
O cardeal também foi chamado como testemunha em
processos relacionados à ditadura, como o caso do desaparecimento de uma
mulher grávida, filha de uma das cofundadoras da organização Avós da
Praça de Maio, ou o sequestro e assassinato de um padre francês na
província de La Rioja, em 1976.
"Segundo a fonte que se consulte, Bergoglio pode ser
definido como o homem mais generoso e inteligente que já existiu ou um
maquiavélico que traiu seus irmãos e os entregou ao desaparecimento e à
tortura aos militares", escreveu Verbitsky.
O Nobel da Paz Adolfo Perez Esquivel, que recebeu o prêmio por seu ativismo durante o último regime militar, disse à BBC Mundo que "o papa (Francisco) não tinha vínculos com a ditadura".
O escritor Ceferino Reato, autor do livro Disposición final, no qual Videla reconhece o desaparecimento de vítimas da ditadura, disse à BBC Brasil:
"Bergoglio é austero, atento com o cotidiano dos pobres, apóia
fortemente o trabalho dos sacerdotes nas favelas. É um homem inteligente
e a favor do diálogo com o judaísmo e o islamismo. Sobre as acusações
sobre seus vínculos com a ditadura, Bergoglio disse que, ao contrário,
que ele se preocupou com estes sacerdotes (dois jesuítas) e conseguiu
que a Marinha os liberasse", disse.
O papa (Francisco) não tinha vínculos com a ditadura
Adolfo Perez Esquivel
Vencedor do Nobel da Paz
Reato afirmou que "uma das criticas de Bergoglio ao
casal Kirchner (Nestor e Cristina Kirchner) é que defendem os direitos
humanos agora, na democracia, mas não o fizeram durante a ditadura",
afirmou o escritor.
"Caráter forte"
Especialista em
questões sobre a Igreja Católica, José Ignácio López disse à imprensa
argentina que Bergoglio "sempre denunciou a corrupção" no país. "De
(ex-presidente Carlos) Menem até hoje, ele sempre denunciou a corrupção,
condenou a inflação e esteve ao lado dos familiares das vítimas da
tragédia da (discoteca Republica) Cromañon e da tragédia do trem na
estação Once (na capital argentina, em 2012, que matou 51 pessoas)",
afirmou López.
Setores da oposição ao governo central afirmam que "ninguém do governo compareceu nestas tragédias, mas ele sim".
O anúncio do argentino Jorge Mario Bergoglio como
novo papa da Igreja Católica, nesta quarta-feira, foi seguido de
euforia em Buenos Aires
Foto: Luciana Rosa / Especial para Terra
O padre Alejandro Bunge, professor da UCA (Universidade
Católica Argentina), disse que Bergoglio tem "gênio forte, ouve muito,
mas não deixa de dizer o que pensa de forma direta".
O rabino Abraham Skorka, reitor do Seminário Rabínico
Latino-americano, em Buenos Aires, contou à imprensa local que costuma
conversar com Bergoglio e que ele "ouve os diferentes credos". "E que
Deus o abençoe, porque merece estar ali", disse.
A série de comentários sobre o novo Papa incluiu
declarações de apoio de políticos da oposição ao governo da presidente
Cristina Kirchner, com quem Bergoglio mantinha diferenças públicas.
"Quando saiu o anúncio do nome de Bergoglio como Papa, a
bancada do governo na Câmara dos Deputados parecia que estava num
velório. Por favor, é o primeiro papa latino-americano e deveríamos
estar comemorando", disse a deputada Elisa Carrió, da opositora
Coalición Cívica.
O deputado e cineasta Fernando "Pino" Solanas, do
Projeto Sur, afirmou "lamentar" que o governo atual "não tenha dialogado
com Bergoglio, homem preparado, defensor dos excluídos e do diálogo com
os diferentes setores e credos".
Antes de ser Papa, Bergoglio foi definido como "muito argentino" e "muito portenho" na biografia El Jesuíta ("O
Jesuíta") assinada pelos jornalistas Sergio Rubin e Francesca
Ambrogetti, de Buenos Aires. "Torcedor do time de futebol San Lorenzo,
apaixonado por tango e leitor do escritor Jorge Luis Borges",
descreveram.
Jorge Mario Bergoglio, um conservador argentino, é o novo Papa
Cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio é escolhido Papa e
terá o nome de Francisco. Anúncio foi feito nesta quarta-feira (13) na
Cidade do Vaticano. Ele não era considerado um dos favoritos. É o
primeiro papa latino-americano e o primeiro jesuíta. De posições
conservadores, contra o aborto e o casamento igualitário, é acusado em
processos judiciais por compactuar com violações aos direitos humanos na
ditadura argentina (1976-1983).
Da Redação
O cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio
foi escolhido Papa e terá o nome de Francisco. O anúncio foi feito nesta
quarta-feira (13) na Cidade do Vaticano. Arcebispo de Buenos Aires, ele
não era considerado um dos favoritos. É o primeiro papa
latino-americano e o primeiro jesuíta da história a assumir o posto.
Segundo reportagem publicada por Martín Granovsky na Carta Maior,
Bergoglio é um homem de posições conservadoras. Na argentina, é
'inimigo' do outro cardeal argentino presente no conclave, Leonardo
Sandri.
Justo Laguna, bispo de Morón falecido em 2011, contava
que depois da morte de João Paulo II, quando seu sucessor estava sendo
eleito, Sandri lhe disse: “É melhor rezar para São José para que este
não seja papa”. Ele se referia a Bergoglio.
Conforme relato de
Granovsky, jornalista do diário argentino 'Página 12', Bergoglio vive em
conflito há anos com o governo Kirchner, desde que o então presidente
Néstor não o escolheu como interlocutor privilegiado para as decisões de
Estado. De posições conservadoras, Bergoglio é contrário à legalização
do abordo e ao matrimônio igualitário.
Outra reportagem publicada por Carta Maior,
de Oscar Guisoni, informa que Bergoglio é um homem citado em vários
processos judiciais por sua cumplicidade com a ditadura militar
argentina (1976-1983) e que conseguiu evitar seu próprio julgamento por
conta de influências e argúcias de advogados.
Revista de História da Biblioteca Nacional Censura e fé
Jorge Bergoglio é acusado de envolvimento com o regime autoritário argentino da década de 1970. Entenda a polêmica
14/3/2013
Nesta quinta (14), o jornalista argentino Horacio Verbitsky, diretor do Centro de Estudos Legais e Sociais (Cels), escreveu um artigo inflamado no jornal Página 12 em que acusa novamente o atual papa Francisco
de envolvimento com a ditadura civil-militar argentina. Para o
jornalista, o jesuíta Jorge Bergoglio é um ‘populista conservador’ que
vai introduzir apenas mudanças ‘cosméticas’ em seu pontificado. No
artigo intitulado ‘Un ersatz’ ele afirma que o sucessor do
trono de Pedro é uma opção da “pior qualidade”, e o compara com “a água
com farinha que as mães indigentes usam para enganar a fome de seus
filhos” [tradução livre]. A escolha do título dá o tom do texto: a
palavra alemã ersat – que não possui tradução para línguas
latinas – dá ideia de substituição de mesmo nível, ou seja, para o
autor, Francisco teria uma veia ultraconservadora tal como acusam os
opositores de Bento XVI – que, quando jovem, foi membro da Juventude
Hitlerista (segundo Joseph Ratzinger, isso aconteceu apenas quando ele
foi obrigado).
A alfinetada não é nova, acontece há décadas. Em 1986, o advogado Emilio Mignone publicou o controverso livro Igreja e ditadura (1986),
na qual levantava suspeitas sobre a participação de Bergoglio no
sequestro de dois sacerdotes, em 1976. Nesta época, a ditadura
civil-militar argentina estava no ápice e Bergoglio era presidente da
Ordem Jesuíta. Segundo Mignone e também Verbitsky – na obra O silêncio (2005)– o
sacerdote teria retirado a proteção da Igreja dos padres Francisco
Jalics e Orlando Yorio, envolvidos com grupos da esquerda
revolucionária.
O jornalista argentino acusa o atual papa Francisco, na obra e no
presente artigo, de ter, inclusive, delatado os colegas ao regime
ditatorial, fato que teria causado o sequestro e desaparecimento deles. A
acusação poderia ser reforçada pelo testemunho recente de cinco
pessoas: um sacerdote, um ex-sacerdote, uma teóloga, um integrante de
uma fraternidade leiga que denunciou no Vaticano o que acontecia na
Argentina em 1976 e um cidadão que também foi sequestrado à época.
Chamado a depor pela Justiça argentina, o então cardeal negou
participação no caso. Em 2010, uma biografia autorizada sobre a vida do
atual pontífice foi publicada. Na obra, o hoje papa Francisco nega as
acusações e ainda afirma que tentou resgatar seus colegas do local onde
eles estavam presos. Em apoio ao papa, o ativista argentino de direitos
humanos Adolfo Pérez Esquivel - ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1980 -
disse em entrevista à BBC nesta quinta (14) que Bergoglio não teve
vínculos, quando bispo, com a ditadura. "Questionam Bergoglio porque
dizem que ele não fez o necessário para tirar dois sacerdotes da prisão,
sendo ele o superior da congregação de jesuítas. Mas eu sei
pessoalmente que muitos bispos pediam à junta militar a liberação dos
presos e sacerdotes e não eram atendidos", afirmou.
Francisco
I é o nome escolhido pelo novo papa, Jorge Mario Bergoglio. O bispo de
Roma é argentino e pertence à ordem dos Jesuítas. É o primeiro membro da
Companhia de Jesus a assumir o papado. Relembre o nosso dossiê dos
Jesuítas, publicado na edição 81: http://www.revistadehistoria.com.br/revista/edicao/81
A igreja 'não funciona mais', afirma dom Claudio Hummes
Na sua apresentação ao mundo, Francisco
convidou dom Cláudio, arcebispo emérito de São Paulo, a ficar do seu
lado no balcão da basílica de São Pedro
16/03/13, 09:55
A
pontado
como o cardeal brasileiro mais próximo do novo papa, dom Claudio
Hummes, 78, diz que a igreja "não funciona" do jeito que está e pede
mudanças em toda sua estrutura.
Na sua apresentação ao mundo, Francisco
convidou dom Cláudio, arcebispo emérito de São Paulo, a ficar do seu
lado no balcão da basílica de São Pedro.
Emocionado com o convite e com a homenagem ao
fundador de sua ordem, o franciscano d. Cláudio disse à Folha que a
escolha do nome é por si só uma encíclica.
O
ex-bispo de Santo André disse ainda que as acusações de que o novo papa
colaborou com a ditadura militar argentina são "grande equívoco, senão
uma falsificação".
*
Folha - O sr. foi convidado pelo papa Francisco a estar ao seu lado na primeira aparição. Como é a relação entre vocês?
D.Claudio
Hummes - Nós nos conhecemos de tantas oportunidades, porque fui
arcebispo de São Paulo, e ele, arcebispo de Buenos Aires. Mas sobretudo
foi em Aparecida (SP) onde estivemos mais tempo trabalhando juntos, na
5ª Conferência Latino-americana, em 2007. Existia ali a comissão da
redação, a mais importante porque ali que se formulava o documento para
depois ser votado. Ele era o presidente, e eu, um dos membros. Admirei
muito a sua sabedoria, serenidade, santidade divina, espiritualidade.
Muito lúcido e muito pastoral, grande zelo missionário, de querer que a
igreja seja mais evangelizadora, mais aberta.
Como foi o convite para o balcão?
Quando se
começou a organizar a procissão da Capela Sistina para o balcão na
praça, ele chamou o cardeal Vallini, que faz as vezes do bispo de Roma, o
vigário da cidade, e me chamou também. Disse: "D.Cláudio, vem você
também, fica comigo neste momento". Disse até: "Busca o teu barrete
[chapéu eclesiástico]", bem informalmente. Fui lá buscar o meu barrete e
estava todo feliz....
Porque não é o
costume, quem vai junto são os cerimonários, nunca tem cardeais com o
papa, eles estão nos outros balcões. E o fato de que ele nos convidou
acabou rompendo um monte de rituais. Mas foi realmente, para mim, muito
gratificante. E também pelo fato de ele ter recém-escolhido o nome de
Francisco. Eu sou franciscano, então isso me envolvia muito
pessoalmente.
Como o sr. interpreta esse gesto?
Como um gesto
pessoal dele, muito espontâneo, muito simples. Não sei quais os
significados que ele queria dar. Eu digo que fiquei muito feliz, estava
ali com o primeiro papa chamado Francisco.
O papa recusou a limusine, foi pagar a conta do hotel....
São gestos
simples, mas que mostram quem ele é e como ele vê as coisas. A minha
maravilha foi que esses gestos foram compreendidos pelo povo simples e
pela mídia. A mídia também interpretou esplendidamente, entendeu as
mensagens que o papa queria dizer.
Qual é o significado de ter um papa de fora da Europa depois de mais mil anos e além disso latino-americano?
Os outros
papas que não foram exatamente europeus vinham da região do
Mediterrâneo. Nesse sentido, era a Europa da época, era uma grande
realidade geopolítica.
Mas o fato de
que hoje venha um papa de fora da Europa tem um significado muito
grande porque mostra o que a igreja sempre tem dito: a igreja é
universal, para a humanidade. Não é para a Europa.
Ter um papa é o sinal maior. É o gesto de dizer: o papa pode vir de qualquer parte do mundo.
Também acho
importante que tenha vindo da periferia ainda pobre, emergente. Isso é
uma confirmação para todos os católicos de lá: "Nós temos um papa que
vem daqui".
E não só para os católicos, até os países se sentem muito mais em pé de igualdade com os outros.
São Francisco também é lembrado pela missão de reformar a igreja como um todo. A escolha do nome também tem essa abrangência?
Certamente,
para o papa, o nome é todo esse programa. Hoje, a igreja precisa, de
fato, de uma reforma em todas as suas estruturas. Organizar a vida da
igreja, a Cúria Romana, que tanto se falou e que precisa urgente e
estruturalmente ser reformada, isso é pacífico entre nós. Porém uma
coisa é entender que precisa ser feito e outra coisa é fazê-lo.
Será uma obra
gigantesca. Não porque seja uma estrutura gigantesca, mas por um mundo
de dificuldades que há dentro de uma estrutura como essa, que foi
crescendo nos últimos séculos.
Alguém disse
já que a escolha do nome Francisco já é uma encíclica [mensagens do papa
à igreja], não precisa nem escrever. Isso é muito bonito, é muito
promissor.
Em que sentido a reforma é necessária?
Não é só da
Cúria, são muitas outras coisas: o nosso jeito de fazer missa, de fazer
evangelização, essa nova evangelização precisa de novos métodos. O papa
falou no encontro com os cardeais sobre novos métodos, nós precisamos
encontrar novos métodos.
Mas se falou
sobretudo da Cúria Romana, que precisa ser reformada estruturalmente. É
muito grande, mas tudo isso precisa de um estudo, a gente não tem muitas
coordenadas.
Muitos dizem
que é grande demais, que foi feito um puxadinho aqui, um puxadinho lá,
mais uma sala aqui, mais uma comissão lá, mas essa aqui não tem
suficiente prestígio.... Essas coisas todas que acontecem numa estrutura
dessas.
A igreja não
funciona mais. Toda essa questão que aconteceu ultimamente mostra como
ela não funciona. E depois, uma vez feito esse novo desenho, você tem de
procurar as pessoas adaptadas para ocuparem esses cargos, esses
serviços.
Reza
a lenda de que o papa Francisco não gosta de vir a Roma, que sua
formação foi longe daqui. Isso contribuiu para a sua escolha?
Não sei se
contribui para a sua escolha, mas contribui agora, que ele é papa, a ser
mais independente, a ser uma visão mais objetiva. É muito diferente ver
um jogo da arquibancada e ver um jogo jogando futebol. Ele não jogou
futebol. Vai ajudar, certamente.
Mas ele
também vai ouvir pessoas que jogaram, porque é importante ouvir do
jogador como ele viu o jogo e quais são as necessidades dentro da forma
como se joga.
Continuando
a metáfora, o sr. jogou aqui por quatro anos e já foi convocado por
ele. O que o sr. pode dizer a ele sobre o que precisa ser feito?
Se um dia me
perguntarem sobre isso... Claro, todos nós já falamos sobre isso nas
congregações gerais [reuniões pré-conclave], em que ele estava presente.
E estamos disponíveis sempre pra ajudar e precisamos ajudar. Os
cardeais são o conselho que deve ajudar o papa.
Há
relatos na imprensa argentina sobre o envolvimento --por omissão ou
colaboração-- do papa Francisco com a ditadura militar. O que tem sr.
pode falar sobre isso?
Certamente,
isso não é real. Pode ser que alguém tenha se equivocado em certos
discernimentos, mas conhecendo toda a pessoa dele.... Não conheço os
detalhes, mas, conhecendo a pessoa, nem é possível imaginar isso. Ele é
um homem extremamente dos pobres, dos direitos da gente, dos mais
simples, dos mais oprimidos, dos mais humilhados, ele é um exemplo de
defesa, de estar junto dos pobres.... É inimaginável. Tenho certeza de
que tudo isso de fato é um grande equívoco, senão uma falsificação.
A
igreja no Brasil, incluindo o sr., teve um papel muito importante na
defesa dos direitos humanos durante a ditadura. Como isso se deu na
Argentina, sem levar em conta o papa Francisco?
As igrejas
pelo mundo afora tiveram as suas próprias avaliações e seu próprio modo
de ser. Não me sinto autorizado para fazer um juízo sobre a igreja nesse
ou naquele país.
Fala-se
muito que a herança da Teologia da Libertação para a igreja na América
Latina é o discurso em favor dos pobres. No caso do papa Francisco, qual
é a relação dele com esse movimento?
Basta olhar
como ele foi arcebispo em Buenos Aires e o documento de Aparecida, que
diz tudo isso. Ele está nessa linha, certamente. Se a gente quer
descobrir qual é a linha dele de pastoral social, de relação com os
pobres, nós vamos encontrá-lo lá, sim.
A Teologia da
Libertação foi uma fase histórica que, obviamente, tem essa questão da
consciência que temos dos pobres e da necessidade de sermos solidários
em termos construtivos da justiça social. Tudo isso a Teologia da
Libertação também reforçou.
Eu acho que
hoje, se a gente quer ver como as pessoas se relacionam com esse
passado, é preciso olhar os documentos de hoje. Senão, você começa a
transportar o passado, que não é mais uma resposta para hoje. O mundo já
mudou, e as respostas são diferenciadas.
A
primeira viagem do papa deve ser ao Brasil, onde a igreja enfrenta
desafios muito grandes, como a evasão de jovens e o avanço das igrejas
neopentecostais. O sr. tem uma ideia do que o papa pretende orientar
sobre o futuro da igreja no país?
Ainda não
transpirou nada sobre as mensagens que ele vai levar, mas a gente sabe,
tem certeza de que ele vai falar, em primeiro lugar, da importância dos
jovens, de que devemos estar do lado dele, devemos ser compreensíveis.
Ele quer que a igreja seja compreensiva, misericordiosa, saiba caminhar
juntos e que isso é um percurso que tem de fazer, não se pode exigir que
amanhã alguém já seja um cristão perfeito. É um caminho, um processo.
É dar a
certeza aos jovens de que a igreja os entende e quer acompanhá-los e
também quer mostrar a luz. Quer dizer: "Prestem atenção, existe, sim, um
sentido para a vida, existe alguém pelo qual vale a pena viver e dar a
vida. Há alguém, que é Jesus Cristo, ele é uma luz que vocês deveriam
seguir." Isto é, não deixar de mostrar o caminho, mas, ao mesmo tempo,
ser compreensivo de onde o jovem ainda está nesse caminho.
E depois a nova evangelização certamente será um outro tema forte dele.
Desde
o Concílio Vaticano 2º, há um grande esforço para o diálogo
interreligioso, principalmente com as religiões mais antigas. No caso da
América Latina, como é o diálogo neste momento entre a igreja e o
neopentecostalismo, que não para de crescer?
O diálogo
ecumênico com as outras igrejas cristãs não católicas existe de forma
muito forte, sobretudo a partir do Concílio Vaticano 2º. Com as grandes
igrejas: ortodoxa, oriental, as igrejas protestantes de origem luterana,
calvinistas, que são igrejas históricas. Mesmo com o judaísmo, há um
grande diálogo. E também com o islamismo, mas isso é outro setor porque,
para eles, Jesus Cristo não é como para nós cristãos. Esse diálogo é
lento, mas vai caminhando.
Com as
igrejas neopentecostais, onde existe muito uma teologia da prosperidade,
se dá muito acento ao exorcismo, ao dízimo e coisas assim, elas se
diferenciam das igrejas pentecostais. Mas tanto uma com a outra são
muito semelhantes. Com elas, é mais difícil, porque muitas delas
simplesmente não aceitam o diálogo, mesmo se nós quiséssemos dialogar.
Porque não aceitam pensar numa unidade um dia. E muitas vezes são
agressivamente anticatólicas, então é muito complicado.
O sr. já é emérito, mas vai ficar no Vaticano em alguma função?
Não, não, eu
vou ficar aqui até o dia 22, vou participar da cerimônia pública
religiosa e vou participar de uma reunião no dia 21. E aí volto para os
meus trabalhos.
Há relatos na imprensa italiana de que o sr. contribuiu durante o conclave para eleger o papa Francisco. O sr. confirma?
Tudo o que aconteceu dentro do conclave, eu não posso falar.
Voltando
ao seu trabalho na cúria, de 2006 a 2010, na Congregação para o Clero,
houve uma entrevista em que o sr. falava que o celibato era uma questão
disciplinar e que, por isso, estava aberto à discussão. O sr. teria
sofrido uma reprimenda quando chegou ao Vaticano. Está na hora de
questões como celibato e a ordenação de mulheres serem menos ortodoxas?
Isso de
reprimenda, você é quem está dizendo. Eu apenas digo que todas essas
questões, todos esses desafios hoje, grandes questões que estão aí em
aberto, a igreja não se fecha a discutir aquilo que é necessário ser
discutido, ser aprofundado. E isso significa uma igreja capaz de
dialogar, capaz de ouvir, capaz de aprofundar, discutir e procurar
caminhos. É o que ela vai fazer, certamente.
E esse papa é muito aberto a ouvir. Ele mesmo disse que quer ouvir o mundo, e não só os cardeais e os bispos.
Fonte: JL/Folha
Entrevista del Correo
del Orinoco a Marcelo Barros
16.03.2012
(Está aqui em
Caracas para participar das celebrações em memória do nosso comandante supremo
da revolução bolivariana, Hugo Chávez Fria, o monge beneditino brasileiro
Marcelo Barros. No dia anterior ao transporte do corpo para o quartel da
montanha, diante da capela ardente onde estava o corpo do presidente, Marcelo
pronunciou uma oração emocionada e vibrante. Aproveitamos sua presença aqui
entre nós para algumas entrevistas em televisão. Marcelo é o atual coordenador
latino-americano da Asociación Ecuménica de Teólogos/as del Tercer Mundo –
ASETT. Foi dos teólogos da libertação mais próximos do nosso comandante
presidente Hugo Chávez Frias e tem 44 livros publicados em várias línguas.
Recentemente escreveu “Para onde vai Nuestra América – para uma Espiritualidade
socialista para o século XXI. Marcelo é nosso colaborador semanal no Correo del
Orinoco).
- Marcelo, como
você se aproximou da revolução bolivariana aqui na Venezuela?
- Toda pessoa latino-americana que tem
fome e sede de justiça social e deseja a libertação do nosso povo tem interesse
pela revolução bolivariana porque ela busca e realiza isso. Eu vim ao Fórum
Social Mundial de 2006 aqui em Caracas. Fui encarregado pelos movimentos
sociais, especialmente pela Via Campesina para apresentar o presidente Chávez
no encontro que os movimentos sociais teriam com ele no Poliedro. Eram umas 25
mil pessoas e eu tinha três a cinco minutos para falar da espiritualidade
bolivariana e no final apresentar o presidente Chávez. Quando eu estava para
subir no palco, um jovem soldado venezuelano veio em minha direção e perguntou:
-
Usted es el cura que va bendecir nuestra revolución?
Eu
lhe respondi:
-Hermano, si nuestra revolución es verdadera, ella no
necesita de bendición, porque ella es sagrada en si misma y ella es que nos
bendice…
Comecei minha fala àquela multidão
contando esse fato ocorrido alguns minutos antes e explicando porque uma
revolução verdadeira é espiritual – porque corresponde ao sonho divino,
expresso praticamente nas revelações, de um modo ou de outro, feitas por Deus
às mais diversas tradições espirituais. Para nós, cristãos, como para os
judeus, a Bíblia nos ajuda a compreender que a revolução que parte dos mais
pobres, busca fazer a justiça e toma como objetivo o bem viver para todos é
santa e é sacramento do reino de Deus nesse mundo.
- Marcelo, que papel o presidente Hugo Chávez
representou na sua vida pessoal e para os brasileiros ligados à teologia da
libertação?
Ele ficou muito grato pelo modo como
eu falei da revolução bolivariana e dele como instrumento divino para estender
essa revolução para todo o continente. Penso que, além de ter mostrado que se
pode ser socialista hoje em dia e para mim, melhor ainda, socialista e cristão
verdadeiro, profundo – ele era. Ele realmente nos fez acreditar de novo na
integração continental e na solidariedade entre nossos povos.
- Mas, por aqui em alguns círculos do governo, dizem que ele tinha um
apreço especial por você. Como você explica isso?
- O presidente Chávez tinha uma grande
admiração pelo general Abreu e Lima, companheiro de Simon Bolívar e que era
pernambucano como eu sou. Quando Chávez descobriu que eu sou pernambucano,
sempre que me encontrava dizia: “Mi padre pernambucano, de la tierra de Abreu e
Lima. Debemos mucho a ustedes”. E eu
ficava com vergonha porque não conhecia quase nada da história de Abreu e Lima.
Ele me fez estudar e descobrir o pouco que sei sobre esse pernambucano que
lutou com o pai (padre casado) na insurreição pernambucana (Confederação do
Equador) e depois no exército bolivariano libertador da Venezuela.
Dizem que Chávez pediu a você para escrever
o livro sobre espiritualidade bolivariana?
- Em
Assunção, no dia seguinte à posse do presidente Lugo, fui convidado para um
café da manhã no qual estava o presidente Chávez e ele me reconheceu, me fez
sentar ao seu lado e me perguntou se eu já tinha pensado em escrever sobre a
espiritualidade bolivariana. Animou-me a fazer isso e me disse que se eu quisesse,
ele me daria uma entrevista para o livro. Fiquei animado e voltando para casa,
escrevi o livro.
- Qual o legado que o presidente Chávez nos deixa?
- A responsabilidade de devolver ao
exercício da política uma dignidade de testemunho espiritual, o trabalho de
manter as conquistas da revolução aqui e na integração latino-americana e de
restituir de fato o poder às comunas e às bases. Dentro de poucos dias, nós
cristãos de Igrejas históricas, vamos celebrar a Páscoa. Na Bíblia judaica,
essa festa recorda uma libertação social e política do povo de Deus e para os
cristãos a ressurreição de Jesus tem de ter essa implicação – de ressurreição
social e política dos nossos povos. Não pode ser apenas uma questão de alma ou
de vida depois da morte.
- Por falar nisso, e a Igreja nesse momento?
- As Igrejas estão bem se se veem como
congregações locais e a partir do povo pobre. Ainda na semana passada estive em
um encontro de Cebs no interior do nordeste, em meio a uma seca terrível, uma
pobreza enorme, mas um povo unido e solidário. Dá esperança...
- Sim, mas e o papa Francisco, o que você
acha dele?
- Não acho que seja tão importante
falar do papa. Temos de acentuar o Cristianismo das bases. Não gosto dessa
mistificação que agora os meios de comunicação, sedentos de espetáculos
hollywoodianos se prestam a fazer sobre o conclave e a eleição do novo papa.
Ele é o bispo de Roma, a diocese de Roma tem uma função importante de unidade
das Igrejas e pronto... Vamos falar das nossas Igrejas aqui nesse continente.
- Sim, mas se temos um papa como eram os
dois últimos, interferiram muito na nomeação dos bispos e no caminho das nossas
Igrejas...
- Concordo, mas isso revela que temos
de mudar esse modelo centralizador de Igreja e não legitimá-lo ao ficar
mistificando a figura do papa.
- Então, definitivamente, você não vê nada
de positivo na eleição de um papa latino-americano e ligado aos mais pobres?
- Sem
dúvida, agradeço a ele ter livrado a Igreja Universal de outros candidatos
piores.
- Quem?
- Por
exemplo, ele nos livrou de ter como papa algum dos cardeais que eram mais
cotados e eram os candidatos do cardeal Bertoni ou do grupo de Sodano, homens
da cúria romana e responsáveis pelo que está acontecendo por lá e que todo
mundo quer mudar.
- Então, ele é o menos pior, mesmo com seu
estilo simples e ligado aos pobres.
- Não sei se ele é ligado aos pobres,
mas para mim isso não interessa tanto. O importante é que os empobrecidos
possam se organizar e eles serem instrumentos de sua libertação e não objetos
da piedade ou do amor condescendente de poderosos que se curvam para eles.
- Puxa, você é radical...
- Se
radical quer dizer exigir de mim sempre ir às raízes da questão e não ficar na
superfície sim. Se significa ser rígido e duro, tento não ser. É claro que os
pobres precisam de aliados em todos os setores. O que estou dizendo é que uma
Igreja que continue acreditando no poder e na estrutura sacral do papado como
está atualmente não pode ser uma Igreja que opta pelos pobres e parte dos mais
pobres. Será sempre ambígua e provocará permanentemente essa discussão se
colabora ou não com as ditaduras. Como poder, está ligada a todo poder e onde
puder garantir o seu poder, ela atuará... As exceções existem, mas como são
exceções só confirmam essa realidade. Temos de todos nós voltarmos à
simplicidade das bases e a crer na força dos pequenos. Isso é Páscoa.
- Você acha que o presidente Chávez fez isso?
- Começou a fazer. Nós temos de
continuar.
Os Segredos do Santo Padre
Foto mostra jesuíta argentino em presença do ex-ditador Jorge Rafael Videla.Foto: Reprodução do blog Janela do Abelha.
Não é um segredo para ninguém o
fato de que a totalidade das hierarquias católicas são inimigas da
homossexualidade (alheia), condenam o aborto até de fetos anencefálicos (o
aborto voluntário é admitido por todos os países Europeus, salvo Espanha),
advogam pelo celibato sacerdotal, proíbem o sexo por prazer, consideram a
mulher um ser inferior, etc.
Inclusive o aborto e o
homoerotismo são criticados pela assim chamada “Teologia da Libertação”, tida
como minoria progressista da Igreja.
Tampouco é novidade a histórica
aliança de 1700 anos entre a Igreja e as grandes ordens de Cavalheiros e,
depois, dos exércitos regulares, o que culminou no século XX com o apoio ao
fascismo e a sua versão mais truculenta, o sangrento franquismo espanhol.
Dizer que o novo papa,
Francisco, compartilha esses valores seria uma redundância.
Mas há alguns “segredos” na
vida do pontífice que nem todos conhecem fora de seu país de origem. De fato,
quando ele foi proclamado Papa, milhões de pessoas no mundo devem ter comprado
um mapa para saber onde tinha nascido aquele homem de aspecto simpático e
humilde, e biótipo de italiano do Norte. É natural que alguns desses detalhes
não se conheçam.
Para os que desejem
informar-se, há numerosos artigos na Internet, e até alguns livros, cujo
conteúdo o próprio Francisco tentou rebater num contra-livro, só em 2010,
quando sua condição de um dos grandes favoritos (já insinuada em 2005, quando
ganhou o segundo lugar após Ratzinger) se tornou mais concreta.
O leitor encontrará também outros textos,
alguns escritos por organizações que assinam como católicas. Eventualmente,
como em todos os casos, alguns textos podem não ser 100% verídicos, mas eu não
estou fazendo uma acusação. Estou apenas informando de acusações feitas por
outros, e cabe ao leitor se perguntar: “Qual seria o interesse dessas pessoas
em criticar um humilde servidor de Deus?”
A Argentina voltou à
normalidade democrática em 1983 quando o então padre Bergoglio estava com 47
anos. Nessa época, o atual papa era reitor do Colégio Máximo San José (da
cidade de San Miguel), o maior seminário de formação de sacerdotes da Argentina
(1980-1986) após ter sido, entre 1973 e 1979, o principal chefe (dito, na gíria
eclesial, provincial) da poderosa e influente ordem dos jesuítas.
Sendo Argentina um país
absolutamente católico, sem qualquer miscigenação com religiões nativas como no
resto das Américas, e tendo como exceção apenas uma comunidade judia que sempre
padeceu perseguição (e alguns evangélicos e islâmicos), tudo o que faz a Igreja
foi sempre claramente percebido pelo resto da sociedade. Aliás, ainda hoje,
Argentina talvez seja o único país (não sei o que acontece atualmente na
Polônia, mas eventualmente poderia ser um de dois casos), em que a Igreja não
está separada do Estado. Por exemplo, o Estado paga um salário aos bispos (não
sei se Bergoglio o aceita ou o doa), mas já houve um conflito com o Vaticano
quando Nestor Kirchner quis tirar a mensalidade de uns 3.000 dólares a um bispo
que propôs que o ministro Gines, defensor da camisinha, devia ser linchado.
Em 1983, Jorge Bergoglio, uma
figura austera, silenciosa, alheia a chamar a atenção, não tinha nenhuma
influência política evidente, mas acumulava muita influência invisível. Ele
utilizou essa influência para tentar mostrar um rosto “moderno” da Igreja,
modificando a imagem desta como cúmplice qualificado e ativo dos genocídios e torturas
generalizadas, que foram comuns na Argentina muitas vezes.
Por que fez isto? Muito
simples. Apesar de ter mais de 90% de católicos e da mística medieval que
impregna quase todas as instituições da Argentina (pelo menos, até a última vez
que eu estive em meu país de origem), a Igreja ganhou um enorme número de
inimigos combatentes, muitos dos quais, de maneira paradoxal, continuavam se
considerando católicos.
Esses inimigos formavam um
grande grupo de pessoas que eram parentes, amigos ou conhecidos qualificados
dos desaparecidos pela ditadura de 1976. O número de mortos em tortura e depois
desaparecidos foi tradicionalmente fixado em 30.000 no ano de 1978, mas eu
acredito que o número total deve ser muito maior, provavelmente entre 35.000 e
42.000, tendo em conta que a ditadura continuou até 1983.
(Não é este o lugar para
justificar esta afirmação que surge de documentação dispersa, e de documentos
internacionais parcialmente desclassificados.)
Unidos aos parentes dos
1.200.000 exilados, refugiados e asilados pelo mundo (ou seja, 3% dos
habitantes do país nesse momento), os familiares e amigos dos desaparecidos
deviam somar algo como 6 milhões, o que significa 20% da população. Calculo
que, embora muitas pessoas não tivessem parentes nem amigos, é razoável
considerar que a média de afetos por cada exilado ou desaparecido seja de 5
pessoas.
Como é bem conhecido, a Igreja
Católica apoiou intensa e devotadamente os crimes da ditadura, não apenas
encobrindo ou justificando-os, mas também dando apoio psicológico e
propagandístico, colocando a seu serviço seu aparato internacional (incluída a
máfia italiana e o grupo P2), abençoando as máquinas de choque e os
instrumentos usados para mutilação, e até, em vários casos, aplicando tortura
com suas próprias mãos.
Há pelo menos 40 livros em
espanhol e pelo menos 15 em inglês, dedicados de maneira total ou parcial à
cumplicidade da Igreja Católica com os crimes de Estado na Argentina nos anos
1976-1983, e milhares de páginas de Internet.
De todos os casos de católicos
aliados da ditadura, o mais espantoso é o do padre Christian Wernich, condenado
em 2007 a prisão perpétua. Os que sobreviveram a seu sacerdócio afirmam que, de
todos os torturadores civis e militares, ninguém era tão temido como o santo
confessor. Ele chamava “fazer a barba” a passar a máquina elétrica, mas esta
não era a máquina de barbear, mas de aplicar choque.
Com seu estilo discreto,
Bergoglio tentou jogar um manto de esquecimento nos fatos protagonizados por
uma das mais poderosas e compactas igrejas do planeta, num dos países mais
católicos do mundo, junto com a Polônia e a Irlanda. Não sabemos se ele
conseguiu refrear a saída de fieis da Igreja, já que no ano 2000, menos de 10%
do país assistia regularmente a missa. Mas, ele fez grandes esforços e até
permitiu a jornalistas estrangeiros que redigissem biografias sobre ele, e
escreveu sua própria versão de sua vida, tentando refutar algumas dúzias de
testemunhos que o acusavam de ter participado ativamente na ditadura. Ele fez
um trabalho similar ao de Pio XII, quando, depois da guerra, tentou disfarçar,
sem nenhum sucesso, a estreita colaboração do Vaticano com o nazismo.
Mas, antes de 1983, como era a
relação de Francisco com a ditadura?
Jesuítas e Crianças
Como em muitos outros países,
uma minoria de padres apoiou a causa dos direitos humanos e teve certa
militância no que foi chamado “Teologia da Libertação”.
Dois deles foram os jesuítas
Orlando Dorio and Francisco Jalic que propagavam uma visão social do
cristianismo em favelas e bairros populares. Estes padres foram capturados
pelos esquadrões da morte dos militares e submetidos a tortura, mas conseguiram
sobreviver. Enquanto Jalic se fechou num mosteiro alemão e nunca mais falou de
seu passado (e possivelmente, nunca voltou a Argentina), Dorio acusou
explicitamente a Bergoglio, que era a máxima autoridade de jesuítas, de ter
negado proteção, e ter permitido que ele fosse capturado.
Em vários dos links citados,
especialmente no editado pela UNISINOS, há numerosos detalhes que descrevem, em
total, uma quantidade apreciável de testemunhas. Embora a mídia brasileira
tenha ignorado estas afirmações e diga que são simples conjecturas, um número
tal de testemunhas seria possivelmente aceito por um tribunal penal.
Bergoglio usou por duas vezes
os privilégios de não acatar as decisões da justiça, privilégio que a Argentina
concede aos bispos, que têm um fórum privilegiado equivalente ao dos deputados,
senadores e presidentes. Em função disso, recusou dar depoimento aos tribunais
que julgaram os crimes contra a humanidade na época da ditadura.
Bergoglio aceitou, porém,
comparecer a uma terceira intimação, quando a pressão dos milhares de vítimas
se tornou muito intensa.
Segundo a advogada Myriam
Bregman que trabalha em direitos humanos, as afirmações de Bergoglio, quando
aceitou ir aos tribunais, mostram que ele e outros padres eram coniventes com
os atos praticados pela ditadura. Ele, porém, não foi indiciado, também com
base na “falta” de provas.
Em 1977, a família De la Cuadra
- formada por ativos defensores do direitos humanos (cuja matriarca Licha,
1915-2008, foi condecorada pelos governos democráticos posteriores à ditadura)
- teve sequestrados cinco de seus membros, dos quais apenas um reapareceu muito
depois.
O padre Bergoglio se recusou a
indagar onde eles estavam e até a ajudar a procurar uma criança recém nascida,
filha de uma das mulheres desaparecidas.
Em algumas ocasiões, o Santo
Padre não pode refutar que a ditadura argentina tinha feito numerosas
atrocidades, mas argumentou que isso foi uma resposta provocada pela esquerda,
que, segundo ele, também teria usado o terror. Este infame argumento, como
todos sabem, foi fortemente repudiado em todos os países que tiveram ditaduras
recentemente.
Durante o governo de Néstor
Kirchner e, após, o de sua esposa, Cristina Fernández, o atual papa, mantendo
seu estilo “sutil” aproveitou para criticar muitas vezes ao governo (que, como
o governo brasileiro, subiu ao poder pelo voto popular), o acusando de
ditatorial, de gerar o caos, de defender pessoas de vida sexual “abominável”,
etc.
Com seu estilo aparentemente
moderado, Bergoglio teve certo sucesso onde outros padres, que pregaram abertamente
a tortura e o genocídio dos ateus e marxistas, fracassaram. Com efeito, apesar
de ser unanimemente repudiado pelos defensores de direitos humanos, inclusive
os católicos, ele nunca foi processado, como aconteceu com o padre Wernich, e
até conseguiu forjar uma máscara de tolerância.
Os interessados podem ver, entre outros muitos, os seguintes links:
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