quinta-feira, 14 de junho de 2018

Bolsonaro para os pobres, Paulo Freire para os ricos

 

Faltou convidar Paulo Freire para nossos encontros de formação e nossas aulas. Mesmo lembrado, efetivamente foi pouco convidado. Me refiro a formação sindical e as aulas da universidade,principalmente. Frei Betto afirmou recentemente, em conferência no Fórum Social Mundial em Salvador, que faz-se necessário fazer uma espécie de "auditoria pedagógica" nos roteiros dos cursos de formação sindical e de algumas organizações e movimentos sociais, muito esquemáticos e "bancários", na acepção freiriana."

Zezito de Oliveira - Educador e agente/produtor cultural.

EDUCAÇÃO PARA MANTER A DESIGUALDADE



por José Ruy Lozano

dezembro 7, 2017

A elite brasileira, que adora odiar Freire, compra a peso de ouro para seus filhos o ingresso em colégios influenciados por ele. Aos filhos dos pobres, resta a disciplina escolar do século XIX

Pipas de várias cores enfeitam o céu. Alunos observam algumas subirem e outras caírem, enquanto tentam compreender como a direção do vento influencia o movimento, além de verificarem na prática conceitos científicos como aerodinâmica, resistência do ar e força da gravidade. Tudo na base da experiência concreta, envolvendo tentativas e erros.

Voltando à sala de aula, professor e alunos discutem, organizados em círculo, o que se aprendeu com aquela vivência. A diferença hierárquica entre mestre e estudantes se dilui, e o professor mostra-se mais como um mediador ou um facilitador do processo de aprendizagem.

Pano rápido. Vamos nos deslocar para outra realidade.
Alunos uniformizados prestam continência e dirigem-se aos policiais, que também são professores, utilizando os termos “senhor” e “senhora”. Nos corredores da escola, com paredes cinzentas, não se veem bedéis, mas guardas, alguns armados. Todos os meninos usam o mesmo corte de cabelo, todas as meninas têm o cabelo preso.

Na sala de aula, o professor fala e os alunos ouvem. Todos os estudantes sentam-se enfileirados e qualquer contato entre eles durante a explanação gera uma advertência. Contabilizadas, as advertências podem provocar a expulsão do aluno.

As primeiras cenas são parte do cotidiano de um grande colégio de elite, recém-chegado à cidade de São Paulo. As seguintes são exemplares da realidade vivida em colégios estaduais administrados pelas polícias militares de cada estado.

As descrições revelam duas tendências – contraditórias – cada vez mais presentes no panorama escolar brasileiro. As escolas particulares mais caras investem em metodologias ativas, considerando os interesses e as individualidades dos alunos, partindo do pressuposto de que eles, alunos, são os protagonistas da aprendizagem. Já escolas públicas de muitos estados brasileiros estão terceirizando sua administração às polícias militares e apostam na disciplina mais rígida e no ensino mais tradicional.

Grandes empresários e grupos de investimento estrangeiros compram ou erguem escolas com tecnologia moderna e formação de ponta, onde os alunos aprendem a explorar o mundo por uma interação lúdica. Enquanto isso, o deputado Jair Bolsonaro espalha nas redes sociais vídeos propagandeando as virtudes das escolas administradas pela PM, cujo mantra é lei e ordem.

Uma agridoce ironia: o ponto cego dos discursos das escolas de elite é admitir que as metodologias que propõem são em grande medida inspiradas em teorias da educação que tiveram Paulo Freire como um de seus expoentes.

Geralmente, esses colégios mencionam programas de formação de universidades norte-americanas, como Harvard e Stanford. O que não dizem é que obras como Pedagogia da Autonomia, um clássico do pensador pernambucano, estão na bibliografia básica das faculdades de educação inspiradoras de seus projetos pedagógicos.

A elite brasileira, que adora odiar Freire, compra a peso de ouro para seus filhos o ingresso em escolas em muito influenciadas por ele, bem como por outros pensadores considerados progressistas no campo da educação, como Jean Piaget ou Maria Montessori.

A ironia continua. Aos filhos dos pobres, resta a disciplina escolar do século XIX. Ainda que justamente pensando neles Paulo Freire tenha elaborado suas teses, a eles são negadas sua influência e seu prestígio.

Mas a diferença talvez não seja tão despropositada ou surpreendente como se pode pensar à primeira vista. Afinal, nas escolas públicas estudam os pobres, que serão no futuro funcionários dos alunos ricos.

E o que se espera do trabalhador pobre, a não ser obediência?

Aos ricos, proporciona-se liberdade. Dos ricos, esperam-se criatividade, “empreendedorismo”, autonomia. Ao pobre, destinamos o adestramento, a normalização foucaultiana de condutas, a padronização de comportamentos.

Acima de tudo, não se deve incentivar o questionamento, tampouco uma perspectiva crítica dos filhos das classes menos favorecidas. Isso deve ser reservado àqueles capazes de pagar mensalidades astronômicas, que compram um desenvolvimento cognitivo “diferenciado” para seus filhos.

Assim a educação brasileira cumpre seu papel: o de continuar sendo um dos instrumentos mais terríveis de manutenção da desigualdade social.

*José Ruy Lozano é sociólogo, autor de livros didáticos, conselheiro do Conselho Independente de Proteção à Infância (Cipi) e coordenador pedagógico geral do Colégio Nossa Senhora do Morumbi – Rede Alix.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Três símbolos potentes. Papa Francisco, o Terço e Lula. Juntos, explodem como uma bomba ou fogo de artificio semiótica.


 Por Zezito de Oliveira

"Quem se informou sobre o assunto no inicio da manhã do dia 12/06,  soube  uma noticia, da metade da manhã até o final da tarde já tinha acesso a outra versão. 

No meio da noite já havia o meio desmentido e por volta das 22h a versão final voltava a primeira narrativa. No meio da tarde quem nos fez refletir melhor e aguardar com mais tranquilidade uma conclusão desse  "imbroglio" noticioso , foi o jornalista Mauro Lopes e um programa na TV 247.

Mas quem ficou com a versão oficial repercutida por grandes veículos, referendada por agências "suspeitas" de checagem de fake news, ficou nervoso e preocupado de um lado, e do outro satisfeito e lambendo os beiços com a descoberta de uma "treta" do advogado Grabois, representante do Papa Francisco junto com os blogs progressistas e o PT."


O aviso da visita de  Juan Grabois a Lula no dia 11/06 (terça-feira),  enviado do Papa Francisco, circulou na semana passada.  No dia e horário anunciado,  a frustração da visita não ser liberada, embora com aviso prévio e a consequente reação indignada  em declarações a mídia independente que faz a cobertura da vigília Lula Livre.

 

Durante o dia 11/06 (terça-feira),  a circulação nas redes sociais da bonita foto de um Rosário, presente do Papa à Lula, entrevistas com o representante do Papa, muitos vivas ao gesto do Papa e de Juan Grabois, evidentemente,  por parte de quem está  ao lado da justiça e da democracia no Brasil, consequentemente a favor da libertação de Lula, porque já está provado que o processo que condenou Lula é fraudulento, inclusive deixou  marcas e digitais comprovando isso.

É este,  o segundo gol em sequência,   de quem joga no time da justiça e da democracia. O primeiro na semana passada foi o depoimento do ex-advogado da Odebrecht, Tacla Duran, que comprova quem  e como usou de má fé dentro da operação Lava a Jato.

Mas já no final da noite da terça-feira, algumas vozes mais distantes, sugerindo que o papa não teria feito o gesto de enviar representante e nem presenteado Lula com um  Terço, mas essa versão era muito fraca, de uma certa maneira, quase imperceptível, apenas sussurros de quem espalhava ou levantava suspeitas.

 

Mas, no meio da manhã de quarta-feira(12/06), a versão contrária a primeira narrativa exposta até aqui explode, “O PT teria espalhado uma fake news”, o Papa não enviou representante nenhum e apenas abençoou um Terço, que poderia ser presenteado a qualquer pessoa, sem distinção.

As reações de alguns católicos de esquerda foram de decepção e desalento. E agora? Da minha parte, preferi aguardar mais informações. Quem deu a pista que negar o gesto do Papa, é parte de uma guerra interna dentro do Vaticano foi o jornalista Mauro Lopes, o jornalista brasileiro mais especializado e acreditado em assuntos relacionados a igreja católica.

Em textos e vídeos do portal 247, Mauro lembrava que isso aconteceu anteriormente com o caso do telefone do Papa à familiares de Mariele, quando foram levantadas dúvidas quanto a veracidade do telefonema do Papa, e que só foram retiradas, quando Francisco mesmo confirmou. 

Por outro lado, pensei, quão ousado e leviano poderia ser o advogado Juan Grabois, visitar Lula utilizando o nome do Papa e  sem o seu consentimento? Não me pareceu convincente, sobretudo por ter lido antes do "imbroglio" noticioso um resumo biográfico dele e sobre as suas relações de amizade e de cooperação desde os tempos do  então cardeal Bergoglio. 

Mas no meio da noite do dia 12/06, uma retificação da nota veiculada anteriormente pelo site de noticias do Vaticano, o qual levou a um clima de desconfiança com relação a Juan Grabois,  ao PT e aos blogs progressistas que divulgaram a primeira informação, a qual foi divulgado exaustivamente por veículos apoiadores do golpe e da fraude processual contra Lula, ao contrário da primeira noticia referente a visita do representante do Papa a Lula.

Uma lição que o Papa ensina a esquerda  que governa  cidades, estados e países, não se pode confiar e deixar levar pelos serviços oficiais das estruturas do poder , seja  ele eclesiástico ou estatal. Sem negar a existência desses, faz-se necessário buscar se aliar, fortalecer e criar estruturas mais leves , mais ágeis e mais comprometidas com a emancipação humana. 

Outra lição que esse episódio reforça, é preciso fortalecer cada vez mais opções alternativas de comunicação, corrigindo um erro dos sindicatos e das centrais sindicais, em especial a CUT, que "marcaram bobeira" ou "dormiram de touca"(1), ao não  investir na criação ou fortalecimento de  um ou mais orgãos nacionais de imprensa alternativa e independente, a exceção do sindicato dos metalúrgicos do ABC e alguns sindicatos paulistas que criaram na década de 1990 uma produtora de vídeo a TVT, que atualmente é um um canal de televisão.
 
  Carta de Juan Grabois a Lula que acaba de ser publicada no perfil do consultor do papa Francisco:
Querido Lula:

Ontem eu saí do Brasil muito angustiado. Como sabes, impediram-me de te visitar de forma injustificada, arbitrária e mal-educada. Depois, visitei os meus irmãos e irmãs provadores, carrinheiros, camponeses, favelados, professores, servidores públicos, operários e integrantes de diversas pastorais.

Pude sentir a dor do seu povo, partilhar a sua impotência perante a injustiça, a sua revolta perante a perseguição do seu máximo dirigente. Notei também a enorme deterioração institucional, social e política que o Brasil sofre por causa da ambição de poucos que concentram o poder e impedem que as diferenças se apaziguamento nos quadros da democracia.

O drink mais amargo, porém, me esperava no aeroporto de Curitiba. Foi aí que soube que estavas a ser atacado nos meios de comunicação social e redes sociais. Dizem que mentiu sobre o Rosário enviado pelo Papa Francisco. Acontece sobre tu, preso e incomunicável, também mentem! Com espanto vi que os seus inquisidores indicavam que a fonte da sua calúnia era o próprio Vaticano.

Maior foi a minha surpresa quando confirmei que numa página da internet chamada Vatican News tinham publicado um texto em português agressivo, cheio de imprecisões e erros de redação. A comunicação desta página não pode ser considerada oficial, mas, com efeito, trata-se de um local dependente do secretariado de comunicação do Vaticano.

Enquanto Lia, não podia sair do meu espanto. Evidentemente, um editor desse site, sabe Deus com que intenção ou a pedir de quem, quis causar um tumulto e conseguiu. Quando pude reclamar com os superiores, a nota foi removida do site e substituída por uma adequada

(https://www.vaticannews.va/.../precisacao-sobre-caso...),

mas o dano já estava feito. Infelizmente, os meios que espalharam até o paroxismo a suposta desmentida alegria não visualizaram a nova nota com a informação correta. Vivemos, afinal, na era da pós verdade.

Nunca revelei o conteúdo de um encontro com o Papa Francisco porque sou leal, o respeito e admiro muito. Além disso, sei que o seu apoio aos movimentos sociais e aos pobres lhe traz mais do que uma dor de cabeça. Como sabe, ele também sofre o ataque sistemático dos fariseus e herodianos dos nossos tempos.

No entanto, tendo em conta as circunstâncias, sinto-me na obrigação de te contar como foram as coisas. Em meados de maio estive no Vaticano para visitar o Francisco, que me honra com uma amizade que não mereço, ama a pátria grande e - como ele mesmo indicou - está preocupado com a situação atual.

Como sabe, é muito claro e frontal, não precisa de porta-Vozes e eu nunca quis ser. Sofro muito quando a mídia me coloca nesse lugar. Eu apenas tento ajudar no diálogo com os movimentos sociais, algo que tenho feito desde que nos conhecemos em Buenos Aires, há mais de dez anos, lutando por uma sociedade sem escravos nem excluídos.

Neste momento, colaboro com o dicastério para a promoção do desenvolvimento humano integral que preside o cardeal Peter Turkson com quem organizamos os três encontros mundiais de movimentos populares e outras atividades para promover o acesso à terra, o teto e o trabalho como direitos essenciais.

Por esses dias de maio, meus amigos dos movimentos populares do Brasil me ofereceram a possibilidade de te visitar. Fiquei muito satisfeito porque admiro o que fizeste como presidente pelos mais pobres e tenho a certeza de que és alvo de uma perseguição política, tal como Nelson Mandela e tantos outros dirigentes políticos na história recente.

Aproveitei, então, aquela visita ao Vaticano para conversar com o papa sobre a situação e pedir-lhe um rosário abençoado para te levar a ti. Assim foi. É incrível que um gesto tão simples de solidariedade e proximidade do papa, um objeto que serve para rezar, gere tantos problemas, mas não é a primeira vez e Vatican News é responsável por ter permitido que se publique essa nota tão inapropriada e caracterizada por falta de profissionalismo. 


O seu responsável pediu-me perdão e perdoo-lhe, porque todos podemos cometer erros. Mas também sei que houve danos graves.


Também quero esclarecer que, quando me negaram ver-te, pedi aos teus colaboradores que te levassem o Rosário, exporta expressamente que vinha da parte do papa com a sua bênção. Por esse motivo, o que eles afirmaram na sua conta do facebook - erroneamente denunciada de fakenews e ameaçada com a censura - é simplesmente o que eu lhes disse: A verdade. 


Entrego esta carta aos seus colaboradores com a autorização expressa de que a postem se lhes serve para amenizar o dano causado, embora temendo por aqueles que odeiam esse operário que tirou da fome quarenta milhões de excluídos e colocou de pé a América Latina em frente aos seus colaboradores.

Os poderes globais não vão dizer a verdade.


Te peço perdão pelo que aconteceu e te deixo um abraço fraterno, Latino-Americano e solidário.


Rezo pela tua liberdade, o teu povo e a nossa pátria grande;

João grabois






Junho de 2013 é parte de um movimento político e mostra disputa de ideias

5 anos das "jornadas"

Pesquisadores se reúnem para entender as chamadas "jornadas de junho". Pautas democráticas de esquerda em convívio com o avanço da extrema-direita em um momento de rupturas de velhas instituições.
por Gabriel Valery, da RBA publicado 12/06/2018 18h45, última modificação 12/06/2018 19h58
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Movimento que balançou a política nacional completa cinco anos de contradições
São Paulo - Junho de 2013 entrou para a história do Brasil como um momento de ebulição da insatisfação popular que eclodiu em uma série de manifestações. Milhões de pessoas tomaram as ruas de todo o país, não apenas nas capitais, em protestos com pautas difusas, sem ordem clara ou comando definido. Os resultados dessas mobilizações são os mais diferentes possíveis. Da ampliação do uso do espaço público e dos pedidos por maior efetividade da democracia, até a ascensão de movimentos fascistas que chegaram a derrubar uma presidente eleita sem o cumprimento dos critérios legais.

As contradições das chamadas "jornadas de junho" foram tema de um debate nesta segunda-feira (11) na livraria Tapera Taperá, região central de São Paulo. A ONG Artigo 19 divulgou estudo sobre um dos resultados mais cruéis das mobilizações: a ampliação da repressão do Estado contra a liberdade de protestos. Também na roda de conversas, o cientista político Rudá Ricci, autor de obras sobre o tema, e Daniela Haj Mussi, doutora em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

"Junho de 2013 fissurou a normalidade institucional, ele sincronizou insatisfações. Isso não significa que o processo confluiu para um programa concreto. Vivemos neste ano um processo similar com a greve dos caminhoneiros. Foram explosões de insatisfações sociais. Não podemos negar as contradições das ruas. Tudo que vem da rua é movimento político e, se é político, é campo de disputa", resumiu Daniela.

Ricci apresentou um panorama histórico que construiu o caldo necessário para a ebulição social de junho de 2013. "Vimos neste século, em todo o mundo, uma cultura anti-sistema. Um ideário que acabou possibilitando a argumentação de que junho pode ter aberto as portas para a extrema-direita que ai está. Mas, mais do que isso, o que junho faz é romper com todas as estruturas modernas dos séculos 19 e 20", disse.

"Tínhamos estruturas verticalizadas, em que todos os membros de organizações tinham seus espaços preenchidos e, de forma unificada, seguiam decisões. O que temos agora, são organizações lacunares, com buracos. As pessoas não se identificam mais com organizações, mas com os impactos delas. s organizações são mais afetivas e as pessoas são movidas por situações espetaculares que atingem não pela organização em si, mas em função do impacto que causou o chamamento. Quase sempre não vão as mobilizações em função a um chamamento. Ao contrário, vou porque alguém que conheço chamou. É mais afetivo, emocional do que racional", completou.

Para o pensador, essas rupturas influenciam negativamente nas antigas organizações de luta de classes. "Partidos, sindicatos. O Brasil tem um dos maiores índices de sindicalização do mundo. Mas agora há uma corrosão da legitimidade. As lideranças, desse sistema, não conseguem sobreviver por mais de dois anos. Talvez a última figura nacional estável com autoridade pública seja o Lula. De alguma maneira, junho inaugura essa fase de corrosão das instituições."

Veja também: Breno Altman analisa o que foram as "jornadas de junho"
 

Em vídeo de sua série 20 Minutos, no YouTube, jornalista, fundador do site Opera Mundi comenta o início da revolta e seus motivos. A reação da esquerda e da direita. A disputa pelo comando das ruas. O predomínio da narrativa antipetista. Conspiração reacionária ou rebelião legítima? Como o conservadorismo saiu-se vitorioso?

Ouça o áudio da entrevista de Bruno Torturra que foi ligado ao Midia Ninja.
Junho de 2013 será tema de debate no Centro Universitário Maria Antonia da USP

Direita e esquerda

Mesmo com o recrudescimento de uma extrema-direita barulhenta em âmbito nacional, seguindo passos de diferentes lugares do mundo, como a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, ou do partido de extrema-direita na Áustria, Ricci considera que a natureza das jornadas de junho no Brasil seja de esquerda. "2013 não foi um movimento de centro nem de direita. Foi uma mobilização social que colocou mais de 4 milhões de pessoas nas ruas. Um fenômeno fantástico que abalou completamente todos partidos e dirigentes. Foi surpreendente. Entrevistei muitas lideranças que organizavam, decidiam. Eram mobilizações bem estruturadas. Havia uma situação de comoção, um substrato emocional grande."

"O ethos era de esquerda. Em São Paulo, temos uma zona sul e uma zona leste que não é de extrema-direita. Pode ter traços conservadores em sua base, mas não. Mas, no centro da cidade e em regiões mais ricas, houve uma disputa com a extrema-direita. Mas isso foi concentrado em Brasília e São Paulo", acrescentou. "No restante, tivemos uma ideia de fortalecimento da democracia direta e da ocupação do espaço público. Ocupar o espaço para realizar o projeto de nação atomizado. São discursos importantes da esquerda no século 20. Havia uma pauta de democratização de políticas públicas, de atendimento mais universal. Lembremos que a direita defende que o Estado tem que diminuir sua ação na área social para que o mercado fique responsável. Mas os manifestantes sempre falavam de políticas públicas. Queriam saúde e educação."

Uma das questões, entretanto, foi a forte presença jovem como característica, que buscava uma luta contra o establishment político do país. E, na época, o Brasil estava há mais de uma década sob comando de um governo progressista, com maior pegada social, com o PT, o que acabou por dar força às correntes ultraconservadoras. "O PT era o governo da ordem. Quem tem 23, 25 anos, na sua adolescência, só foi governado pelo PT. Evidentemente que a juventude, na medida que tenta construir uma abertura na sociedade dos adultos, tendo um governo de mais de uma década, ele era o responsável pela minha não realização. Ainda mais um partido que fez alianças com todos os lados, com o interesse dado de manutenção do poder. 2013 foi a provisoriedade e a utopia no presente", concluiu.

Repressão 

A advogada Camila Marques, da Artigo 19, fez uma breve exposição sobre um estudo da ONG lançado ontem, que contempla a escalada da repressão estatal no Brasil depois daquele momento histórico. "Lançamos este infográfico que trás um pouco da nossa análise do que foi junho de 2013. Tivemos a missão de monitorar quais foram as respostas do Estado a junho de 2013. Temos em mente que a violência do Estado é elemento histórico do Brasil. Mas tivemos, de lá para cá, a consolidação de um aparato repressivo no sentido de sofisticar e aprimorar a criminalização", disse.

Para a especialista, houve "uma estratégia coordenada das três esferas de poder para criar um ambiente de criminalização" dos movimentos sociais. "Quando olhamos para o Legislativo, vemos cerca de 70 projetos de lei que visam restringir o direito e protesto. Além disso, vimos a Lei Antiterrorismo ser aprovada em apenas oito meses. Vimos as leis da Copa e das Olimpíadas. No Executivo, vimos um investimento muito maior no aparato repressivo. Passaram a introduzir outro tipos de armamentos como blindados israelenses, canhões sônicos. Vimos uma polícia cada vez mais aprimorada em seus instrumentos de vigilância. Dizemos que é impossível se manifestar sem ter um registro feito pela polícia, registro esse que não sabemos o que eles fazem depois", disse.

"Temos também uma Justiça que consolida todo esse processo. Tivemos o caso, por exemplo, do Rafael Braga, condenado sem sequer ser manifestante. Condenado por portar um pinho sol. Vimos a Roberta Pereira, manifestante com os seios à mostra condenada por ato obsceno que aguarda julgamento no STF. Igor Mendes, no Rio, ficou 26 meses detido. Vimos proibições de ocupações, interditos proibitórios. Vimos o Sérgio Silva, que teve uma decisão em que disse que o culpado por ter levado um tiro no olho foi culpa dele."

Veja íntegra estudo que organiza os métodos adotados pelo Estado para aprimorar a repressão contra o direito de manifestação no Brasil

terça-feira, 12 de junho de 2018

Brasil para onde vai? Caminhos possiveis.


 Cinco cenários eleitorais para 2018
Roberto Malvezzi (Gogó)
Como serão essas eleições? Ouço essa pergunta todos os dias nos trabalhos de base, nas entrevistas nas rádios, nas mídias alternativas e eu mesmo me faço essa pergunta sempre.

Numa reunião de um grupo de reflexão que se chama Novos Paradigmas, do qual participo, a pergunta era exatamente a mesma. E olha que ali tem professores universitários, intelectuais orgânicos aos movimentos populares, gente militante de partidos, assim por diante.

A conclusão do grupo é que nada está seguro, tudo está incerto. Somente podemos projetar alguns cenários. Eu coloco aqui, então, cinco cenários que parecem os mais prováveis.

Primeiro, haverá eleições gerais com Lula candidato “sub judice”, isto é, podendo ser impedido de assumir após as eleições. Como o processo não está concluído, o tal "trânsito em julgado" então a lei não pode proibi-lo de se candidatar. Mas, depois da eleição, pode ser impedido se for condenado. Claro, o judiciário teria que enfrentar mais uma vez a vontade popular, retirando o poder de um candidato eleito pelo povo, assim como fez no golpe contra Dilma Rousseff, processo iniciado no Congresso, legitimado pelo Judiciário. 

Nesse caso, o caos político se aprofunda. Se puder exercer o mandato, será a suprema humilhação da burguesia nacional em 500 anos.

Segundo, ao arrepio da lei Lula é impedido de concorrer. Esse fato pode gerar revolta popular e grande parte da população vai votar branco ou nulo como indicam as pesquisas. Quem assumir estará sempre com a pecha de ilegítimo, de sub candidato, que só ganha porque Lula foi proibido.

Terceiro, alguém do PT assume a candidatura no lugar de Lula e, apoiado por ele, concorre às eleições. Últimas pesquisas dizem que ele pode transferir de 30 a 47% do eleitorado para quem ele apoiar. Lula pode também apoiar um candidato de outro partido, mas esse caso é menos provável, dada a força do PT.

Quarto, é não ter eleição, seja pela deposição de Temer e sua substituição por Maia prorrogando o mandato de todos, ou então, uma eleição indireta no Congresso. Essa possibilidade ficou mais fraca depois que a Ministra Cármem Lúcia fez um ensaio de parlamentarismo e foi rechaçada até pela Folha de São Paulo. Porém, o desprestígio de Temer é tamanho que ainda pode abrir brecha para essa possibilidade.

Quinta possibilidade, cada vez mais remota, seria a intervenção militar. Ela já foi mais plausível, mas perdeu força depois da greve dos caminhoneiros. Não houve unanimidade dentro do Exército para a intervenção e eles mesmos não saberiam o que fazer com um país caótico. Preferem tirar a castanha do fogo pela mão do gato, isto é, o serviço sujo fica com o judiciário e os generais monitoram.
Enfim, a única certeza é que se deve investir seriamente na eleição de um novo Congresso – deputados e senadores – para equilibrar as forças no país. É preciso também pensar nos governadores e deputados estaduais. Nesse sentido, já tomei minha decisão, não voto em absolutamente nenhum golpista.

Por fim, eleição não é o único mecanismo democrático de uma nação. A democracia direta, as ruas, as pressões populares sempre serão indispensáveis, inclusive hoje nas redes sociais.
De resto, só incerteza.

 http://robertomalvezzi.com.br/2018/06/11/cinco-cenarios-eleitorais-para-2018/

Eleições: Três tendências e um grande erro

on 12/06/2018https://outraspalavras.net/brasil/eleicoes-tres-tendencias-e-um-grande-erro/ 

Projeto do golpe está derrotado junto à sociedade. Chances de reverter os retrocessos crescem. Porém, esquerdas fazem cálculos eleitorais pequenos, desperdiçam possibiliade real de mobilização e abrem espaço para Bolsonaro.

Ciclo progressista chegou ao fim e está em crescimento uma nova direita. Entrevista especial com Raúl Zibechi

 

 O ciclo progressista na América do Sul chegou ao fim e está em crescimento uma nova direita, “mais ofensiva e militante que as anteriores”, entende o uruguaio Raúl Zibechi. Ele elenca três fatores para se chegar a esta conjuntura: citando Noam Chomsky, afirma que “os Estados Unidos já não possuem a força para impulsionar golpes e acabam por apoiar as direitas de cada país”; sob governos progressistas, as direitas se tornaram mais fortes; por fim, a incompreensão da esquerda após a crise de 2008 e a reativação dos movimentos populares, e, conforme Zibechi, “quando a esquerda não compreende, põe a culpa na direita, no império e nos meios de comunicação”.

 

Crime de lesa cultura: atentado contra a pintura mural da Igreja Matriz de Porto da Folha.




No contexto do bicentenário da Paróquia Nossa Senhora da Conceição (1821-2021), na cidade de Porto da Folha, no sertão de Sergipe, a campanha pela reforma da Igreja Matriz, proposta pelo pároco Melchizedeck de Oliveira Neto, em 2016, desencadeou na comunidade católica uma campanha para a preservação da pintura mural do altar mor, com a criação de um abaixo assinado em 16 de maio de 2018, reivindicando o tombamento da pintura realizada por Frei Juvenal Vieira Bomfim, em 1970.

A argumentação de um dos líderes dessa campanha pela arrecadação de fundos para a reforma é que “não podemos deixar que uma história se perca em meio a debates claramente político-ideológicos”. Segundo Glauber Resende, “a pintura, devido a dificuldade de remoção, será reproduzida em outro local da igreja, sem prejuízo para sua parte em nossa história”. Outro defensor da retirada do mural, Luiz Fontenelli argumenta que “nada mais justo que o altar seja reposto da forma em que foi construída [sic], pois é de suma importância resguardar a nossa verdadeira história” (CINFORM, 4/6/2018: p. 97 e 98).

Esse não é o entendimento de instituições culturais do Estado de Sergipe, como o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, que defendem a permanência do afresco, opinião compartilhada pelo professor emérito da Universidade Federal de Sergipe, José Paulino da Silva. Setores da Igreja Católica, como a Comissão Diocesana de CEBs da Diocese de Garanhuns, também apoiam a manutenção do mural na Igreja Matriz.

Essas manifestações ecoaram no Conselho Estadual de Cultura, que, em reunião do dia 15 de maio de 2018, deliberou pelo início do processo de tombamento, nomeando o conselheiro Fernando Aguiar como relator. Como medida preventiva, o presidente do Conselho, Antônio Alves do Amaral, oficiou o bispo da Diocese de Propriá, Dom Vítor Agnaldo de Menezes, e o pároco de Porto da Folha, Melchizedeck de Oliveira Neto, sobre o andamento do processo (Ofícios n. 19/2018 e n. 20/2018, respectivamente).



Antes e depois do mural da Igreja Matriz de Porto da Folha (Fotos: José Millano Costa Freire)
Antes e depois do mural da Igreja Matriz de Porto da Folha (Fotos: José Millano Costa Freire)
A pintura mural da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Porto da Folha, realizada por Frei Juvenal Bomfim, no ano de 1970, é um exemplo da representação artística das ideias do Concílio Vaticano II nos sertões nordestinos. Como outros artistas, como o espanhol Mino Cerezo Barredo, o frade realizou a representação de Cristo rodeado por camponeses e operários como forma de “exprimir o conceito da libertação dentro do campo católico cristão” (FRADE, 2012: p. 57). Nas suas próprias palavras, o mural representou o “Cristo sertanejo, moreno, repartindo o pão, aves e flores, que lembram a confiança no Pai. Mais ainda: toda a vida do lugar: feira, vaqueiros, agricultores, bordadeiras, professora, e o rio São Francisco” (Citado na Carta da Comissão Diocesana das CEBs da Diocese de Garanhuns, 25/5/2018).

Desse modo, seguindo as diretrizes do Concílio Vaticano II, a pintura dá a predominância e ênfase à figura de Cristo, mas um Cristo sertanejo e moreno, repartindo o pão. Acima dele temos a imagem do Espírito Santo, que pode ser associada ao próprio Deus, parte da Santíssima Trindade, juntamente com Deus Pai e Deus Filho. A simbologia da pomba branca remete a paz e raios de fogo, irradiando sua força sobre todos que habitam as margens do rio São Francisco.

A preocupação social da arte brasileira, desde o modernismo, foi marcada tanto pela denúncia social, quanto por temas populares, com tendências figurativas evidentes sob a influência do muralismo mexicano. Para Ana Paula Baptista (2002), a “arte moderna e a arte sacra têm no mural seu ponto de inflexão”, na medida em que, no período de 1943-1955, se privilegiou pinturas murais em templos católicos com encomendas para artistas modernos, como Candido Portinari e Alfredo Volpi. Portanto, a pintura mural de Frei Juvenal Bomfim não destoava de iniciativas similares patrocinadas pela Igreja Católica, mesmo antes do Concílio Vaticano II.

Por outro lado, podemos situá-la no contexto da resistência artística ao autoritarismo vigente e tributário do ar irrespirável do seu tempo (1970), compartilhando, com artistas como Glauber Rocha, de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e de Antonio Callado, com Quarup (1967), a busca pela recuperação da cultura popular autêntica, sob a influência do romantismo revolucionário (RIDENTI, 2006).

Em um momento de aprofundamento da discussão do tombamento da pintura mural da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição no Conselho Estadual da Cultura, fui surpreendido pela ação inescrupulosa de criminosos que destruíram parte da pintura mural, na madrugada do dia 5 de junho de 2018. A esse crime de lesa cultura temos que responder com o tombamento e restauração deste patrimônio histórico da cidade de Porto da Folha por parte do Estado de Sergipe.

Essa experiência, por certo traumática para a comunidade local, pode servir como uma importante prerrogativa para que se consolide entre nós a ideia de que o direito ao passado é uma das dimensões fundamentais da plena cidadania. Toda essa mobilização comunitária reitera que o registro da memória social deve ser definido a partir da sociedade e que cabe ao Estado garantir, conjuntamente, a preservação do bem cultural. Afinal, a arte tem que estar em toda parte.

Bibliografia
BAPTISTA, Anna Paola P. O Eterno ao moderno: arte sacra no Brasil, anos 1940-50. UFRJ/IFCS, 2002 (Tese de Doutorado).
CINFORM. Ideologia X religiosidade (Caderno Municípios). Aracaju, ano 35, ed. 1834, p. 94-98.
DIOCESE DE GARANHUNS. Carta aberta da Comissão Diocesana de CEBs. Sítio da Cruz, 25 de maio de 2018.
FRADE, Gabriel. A arte sacra e a liturgia. Revista de Cultura Teológica. V. 20 - n. 80 - OUT/DEZ 2012, p. 53-60.
RIDENTI, Marcelo. Cultura e política: os anos 1960-1970 e sua herança. In: FERREIRA, Jorge & DELGADO, Lucília de Almeida Neves. O Brasil Republicano: O Tempo da Ditadura. V. 4. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

*Antônio Fernando de Araújo Sá é professor do Departamento de História da UFS. E-mail: afsa@ufs.br

Leia também:

sexta-feira, 1 de junho de 2018

A disputa de narrativa por meio de um painel artistico-religioso em uma igreja do sertão sergipano.

domingo, 10 de junho de 2018

As magias e os segredos da ação cultural de base comunitária.

"A cultura popular ou de base comunitária tem mais mistérios, segredos e magias do que  supõe a nossa vã pedagogia. É preciso mais investigação cientifica para acessar isso e ajudar na superação do fracasso da escola, cujas causas e soluções não podem ser explicadas somente com base nos conhecimentos da teoria pedagógica, politica, econômica, sociológica e da administração."

Uma das intervenções que fiz na mesa Cultura, Comunicação e Educação que aconteceu no dia 01 de março de 2018 na UFS, como parte da programação da 2ª plenária da caravana sergipana rumo ao FSM 2018.

Tem tudo a ver com o livro mais recente do Célio Turino. com esta fala bem recente do Leonardo Boff, com o livro dos abraços do Eduardo Galeano e com um texto que escrevi há algum tempo atrás.

Zezito de Oliveira - ZdO

Livro aponta para valorização das raízes culturais como caminho para a descolonização da América Latina

 
Para complementar:
Não deixem de assistir a memorável palestra do escritor Leonardo Boff na aula inaugural da rede municipal de ensino de Rio Grande. O professor alerta há dois projetos em disputa no Brasil e que temos que ter lado! 

Recolonização X Refundação do Brasil
Gravação cedida pela FURG TV

O livro dos abraços - Eduardo Galeano

É possível baixar da internet o belo Livro dos abraços, do escritor uruguaio Eduardo Galeano. É uma coletânea de pequenas histórias que ele ouviu, leu ou então viveu. Com uma linguagem curta, breve e poética, ele apresenta temas relacionados à política e à complexidade da natureza humana, com seus medos e coragens. Aqui também é possível encontrar dramas do nosso povo, principalmente as ditaduras militares da América Latina. Tudo isso abordado com uma infinita delicadeza. “Assim mostram, em figuras de barro, os índios do Novo México: o narrador, o que conta a memória, coletiva, está todo brotado de pessoinhas”. É essa voz narrativa, “brotada” de sensibilidades, que encontramos neste Livro dos Abraços.

O Chão e a Gira
 "O processo educativo precisa aterrar, descer abaixo do chão e subir possibilitando a gira girar de forma bem tranquila.A “crise” da escola advém daí. Quando falamos em aterramento estamos tratando dos saberes de nossos ancestrais, estamos querendo dizer que precisamos buscar referenciais na memória das nossas comunidades , das nossas tribos, dos nossos terreiros, dos povos originários.Deixar a gira girar é garantir um ambiente favorável dentro da escola para liberar corpos e mentes para poderem se relacionar de forma mais sincera e criativa, inclusive com o conhecimento. Leia mais, clicando no titulo acima."



sábado, 9 de junho de 2018

O cinema da sua cidade vai fechar

Aqui no Rio de Janeiro, encontrar um cinema exibindo filmes brasileiros fora do circuito comercial no subúrbio sempre foi uma missão difícil, porém, agora ela se tornou impossível. O Ponto Cine, localizado em uma galeria em Guadalupe, na Zona Norte, com ônibus direto para a Baixada Fluminense na porta, encerrou suas atividades. Foram 12 anos dedicados ao cinema nacional, com ingressos e pipoca custando valores quase simbólicos. Na minha última visita à sala, paguei R$ 8 na entrada inteira e R$ 3 no saco de pipoca – na Zona Sul da cidade isso não sairia por menos de R$30, sem contar a passagem.

O Ponto Cine também oferecia oficinas de cinema, mantinha uma biblioteca, recebia palestras e era o local de exibição suburbano do Festival de Cinema do Rio de Janeiro. O administrador da sala, Adailton Medeiros, explicou em seu comunicado oficial que a falta de patrocínio por causa da crise financeira, a falta de apoio do poder público e a violência na região – agravada depois das UPPs – mataram o lugar.

A ANCINE aponta um crescimento do número de salas de exibição no país. São 3,7 mil salas hoje, há dez anos eram 2,2 mil. Mas esses números se referem a grandes redes que ocupam os shoppings exibindo blockbuster americanos. Já os cinemas de rua entraram em extinção faz tempo. Madureira chegou a ter 11 cinemas nos anos 1980, a maior parte desses espaços são ocupados por igrejas atualmente. Agora, quem quiser ir ao cinema, pode ir ao shopping. Porém só vai encontrar filmes americanos do grandes circuito e dublados, pois na ZN do Rio dificilmente se encontram filmes legendados e ninguém nunca soube explicar o porquê.

Esse fenômeno não aconteceu só no subúrbio e em 2014, os cinema de rua do Grupo Estação em Botafogo e na Gávea quase fecharam. De última hora, um acordo com credores garantiu a continuidade das salas que exibem os filmes que não passam no shoppings. Os cinemas da Zona Sul foram salvos. O dos suburbanos não teve a mesma sorte. Quem quiser que pegue um ônibus e mais um metrô e faça uma viagem de duas horas para assistir um filme nacional.

O mesmo acontece na sua cidade? Os cinemas por aí estão fechando? Responda a este e-mail ou crie uma discussão nas redes sociais copiando o @theinterceptbr.
Repórter/Social Media
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segunda-feira, 4 de junho de 2018


O BRASIL QUE TEM AS RESPOSTAS QUE PRECISAMOS

  domingo, 20 de maio de 2018

E o Brasil tem jeito afinal? Como a arte pode ajudar?