domingo, 24 de março de 2024

NOTA SOBRE AS ATUAIS NOMEAÇÕES EPISCOPAIS NO BRASI - Romero Venâncio

Não tenho ilusão alguma que o que aqui escrevo em forma de reflexão seja lido pela CNBB ou pelo Papa Francisco. Escrevo apenas porque preciso escrever e dizer o que penso e vejo cotidianamente a alguns amigos e amigas católicos e que têm as mesmas preocupações que eu. Acredito ser importante darmos "as razões de nossa fé". E tais razões, passam pela maneira como vemos e vivemos a dimensão comunitária desta fé. Acrescento ainda ser o papel de teólogos/teólogas fazerem suas reflexões a partir de uma práxis pastoral concreta. As relações de poder no catolicismo fazem parte destas reflexões.

A nossa breve reflexão foi motivada por três leituras nos últimos meses. Trata-se de "Onde dormirão os pobres?" de Gustavo Gutiérrez; "Pastoral urbana. O dinamismo na evangelização" de José Comblin e "O novo rosto do clero. Perfil dos padres novos no Brasil" de Agenor Brighenti. Estes três livros nos dão uma pista sobre pastoral urbana, seus agentes e suas condições num mundo urbano em constantes transformações e de contradições profundas. O maior volume de pobre hoje estão nas grandes cidades. Se faz urgente na Igreja católica no Brasil pensar uma estratégia séria e impactante em termos de pastoral urbana. O pe. José Comblin falava isto ainda nos inicio dos anos 90 em João Pessoa. E a nomeação de bispos em grandes cidades (dioceses ou arquidioceses) passa (ou deveria passar) por um planejamento pastoral estratégico e rigoroso.

Fiz um pequeno e não exaustivo levantamento das nomeações de bispos para grandes cidades no Brasil já na gestão do Papa Francisco. Destaquei a formação do bispo novo, suas últimas atividades pastorais, seus posicionamentos políticos (sem ser partidário), seus escritos (quanto acontece de ter escrito algo. Texto, artigo, livro...), sua leitura do Concílio Vaticano II  e sua concepção de pastoral urbana. Foram estes os critérios para entender as nomeaçõs episcopais nos últimos anos e compreender de maneira mais detida os rumos da Igreja na atualidade. Todos sabemos que na Igreja Católica, os bispos têm papel de liderança importante (na maioria dos casos, determinante) nos rumos pastorais de uma Diocese/Arquidiocese

Não precisa de muito esforço sociológico para se perceber uma obviedade ululante: temos nomeações (em sua maioria) muito destoante da própria linha do Papa Francisco, para dizer o mínimo. São bispos de formação "devocionalistas", conservadores, sem pegada de pastoral urbana, voltados muito para dentro da Igreja e metidos a comentar temas morais em detrimento de temas sociais urgentes. Parecem que têm pouca leitura da dinâmica social, mal assessorados teologicamente e com raro planejamento pastoral com um mínimo de respeito à sinodalidade. A cidade contemporânea exige uma pastoral urbana impactante, dinâmica e missionária num sentido não-colonizador. O último capítulo do livro do Pe. José Comblin aponta para isto e cita diretamente o episcopado. O que ele chama de "ministério episcopal". 

Sobre as nomeações de bispos. Tomando apenas um exemplo: as nomeações para as grandes cidades (capitais e cidades de porte médio com potencial urbano em destaque). Aqui, mora um problema e sério. Exceções existem e das boas. Mas confirma a regra do que vemos em termos de nomeação de bispos e atuação pastoral. Em média, conservadores e completamente despreparados para uma pastoral urbana numa grande cidade. Inclusive, desatualizados em questões urbanas. Um bispo não precisa ser um urbanista ou cientista político, mas precisa saber desses temas para uma pastoral urbana efetiva e que não seja apenas devocionalismo alheio ao mundo real. 

Uma afirmação de José Comblin: "De alguma maneira podemos afirmar que todos os elementos de uma pastoral urbana já foram descobertos, já existem, já estão agindo com eficácia em diversas cidades do mundo... Por isso, o importante é adquirir o conhecimento da cidade, aprender a conviver com a cidade e entrar num processo de conversão." Duas pistas podemos aprender com as afirmações do Pe. Comblin: primeiro, temos um conjunto de estudos e experiências sobre pastoral urbana que em muito pode ajudar numa reflexão e numa estratégia pastoral que qualquer bispo antenado com o que acontece no mundo urbano pode adotar. Segundo, é preciso conhecer o mundo em que se está pisando. Parece óbvio, mas não é. A capacidade de aprendizado do episcopado brasileiro atual (em média) é muito limitada. O pragmatismo com que se exerce o poder eclesial é desastroso na prática pastoral e na gestão das dioceses. Uma pena, mas real.

O "feijão com arroz" do dia a dia das dioceses e paróquias continuam como se tivesse ligado a um botão automático. Não se percebe grandes mudanças ou, pior ainda, nem preocupação com estágio atual da Igreja no Brasil. E segue o barco. O problema torna-se visível e inquietante quando buscamos uma reflexão sobre uma efetiva pastoral urbana em grandes cidades tomadas por uma urbanização acelerada, uma secularização galopante e imensas contradições sociais. Tudo isto impacta uma pastoral urbana que não queira se limitar apenas ao devocionalismo encalacrado que grupos religiosos fechados e de cunho fundamentalistas vivem defendendo nas redes digitais. Nesse campo, o papel do bispo é crucial diante do modelo de Igreja que temos. Alguns "pastoralistas" têm alertado e faz tempo para tal situação.

Na avaliação que fazemos e mesmo com todo esforço do papado de Francisco, as nomeações episcopais das grandes cidades brasileiras deixam muito a desejar e demonstram um episcopado fraco, com frágil estratégia pastoral e sempre mais conservador em relação aos desafios do mundo urbano. Limitam-se a um "moralismo" inócuo e pouco evangelizador. Os bispos de nomeação recente nas grandes cidades propõe muito pouco e reagem bem mais. A prova disto tudo está na diminuição sempre crescente de católicos nas grandes cidades. O censo religioso de 2010 (publicado pela PUC/Rio e Loyola) já apontava isto de maneira incontestável. E se nota a olhos vistos toda esta realidade de um catolicismo quase impotente nas grandes cidades e sempre procurando estratégias anacrônicas e reforçadas dentro de um espiritualismo de rebanho.

Em síntese e para não ir mais longe do que deveríamos: as nomeações dos bispos mais dinâmicos e preparados intelectualmente são para dioceses do interior do Brasil e a nomeação de bispos fracos, despreparados intelectualmente e com liderança ineficaz para as grandes cidades. Isto é um equívoco pastoral e missionário tremendo e, em alguns casos, tornando-se irreversível em termos de estratégia pastoral dentro do dinamismo urbano. Há um setor considerável do episcopado brasileiro que passa a largo dos grandes problemas das suas próprias arquidioceses ou dioceses. 

Romero Venâncio (UFS)

RAMOS & POMPAS. NOTINHA

Recebi aqui e vi algumas fotos de algumas "missas de ramos" no dia hoje em alguns lugares do Brasil. Estudo a extrema direita católica nas redes digitais. Uma coisa me chamou a atenção: sem ser desrespeitoso com a celebração eucarística deste domingo de Ramos, mas algumas fotos me causaram repulsa. Não se tratava em nada de uma celebração em sintonia com o texto evangélico e o papado de Francisco. Se pareciam muito mais com essas "missas de coach" em que o padre vira uma celebridade fantasiada e a celebração vira "culto ostentação". A sobriedade e simplicidade da celebração de Ramos virou em algumas paróquias uma pompa tola e desfigurada espiritualmente dentro de uma opulência ritualística que em nada combina com uma Igreja que se fez povo, pobre e humana. Vivemos num dos momentos mais terríveis do mundo neste século XXI e um setor amplo da Igreja Católica vivendo de rituais ostentatórios e tridentinos. Será que a isto ainda chamam de "semana santa"?




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